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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O adultério de Petraeus e a gestão de crises



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   A queda em desgraça do mais celebrado general das últimas guerras americanas tem um contraponto na falência das estratégias militares no Afeganistão e no Iraque, na conivência dos media com campanhas de propaganda e na degradação dos padrões éticos nas forças armadas.

   David Petraeus está no centro de um escândalo amoroso com avassaladoras ramificações políticas envolvendo o chefe do contingente norte-americano e multinacional no Afeganistão e indigitado comandante das forças da NATO na Europa, general John Allen.

   Paula Broadwell -- ex-oficial dos serviços militares de informações, investigadora de assuntos de Defesa, biógrafa e amante de Petraeus -- surge em destaque numa teia de amores e ciúmes cuja investigação degenerou numa guerra de competências e suspeitas entre o FBI, a CIA, o Pentágono, o Departamento de Justiça, a Casa Branca e o Congresso.

   O escândalo tem também como protagonista Jill Keely, voluntária dos serviços sociais na base da Flórida onde está instalado o quartel-general do Comando Central que supervisiona operações militares na Ásia Central e Médio Oriente, com ligações por esclarecer a um agente não-identificado do FBI e ao general Allen.

   As fugas de informação sobre adultério e posse não-autorizada de informação confidencial evidenciam comportamentos menos próprios numa altura em que inquéritos sobre abusos em todos os ramos das forças armadas traçam, por seu turno, um quadro inquietante das consequências da profissionalização do serviço militar e do uso crescente de empresas privadas em cenários de guerra.

   O choque entre a promoção ideológica das forças armadas como um corpo excepcional e derradeiro bastião do americanismo e liberdade e a realidade de sucessivas missões rotineiras ou brutais tem tirado lustre aos galões e às fardas.

   Petraeus tipifica as ilusões do pós-11 de Setembro e da busca de um herói redentor em guerras sem norte.

   A um dos mais brilhantes graduados de West Point, posteriormente licenciado pela Universidade de Princeton com um estudo sobre influência militar e uso da força na era pós-Vietname, coube assumir em Fevereiro de 2007 o comando das forças norte-americanos no Iraque quando a guerra civil estava ao rubro .

  Um reforço de 30 mil homens serviu para o general testar as suas teses sobre estratégia de contra-insurreição que apontavam, sobretudo, para a garantia de segurança e subsistência económica a núcleos populacionais cada vez mais amplos graças à presença constante de forças militares no terreno.

   A expulsão de sunitas na maior parte dos bairros de Bagdade, a cedência de Bassorá a milícias xiitas por parte das forças britânicas, a trégua negociada com o Exército do Mahdi do xiita Moqtad Al Sadr, a mobilização de tribos sunitas na província de Anbar contra a Al Qaeda, a não-interferência do governo central no Curdistão, vieram a conjugar-se no sentido de uma redução da violência para níveis que o Pentágono considerou “toleráveis”.

   Nenhum dos problemas criados pela intervenção ficou resolvido, mas Petraeus, aureolado “Pacificador do Iraque” graças a uma incessante campanha de autopromoção nos media, criou condições para George W. Bush puder anunciar o início da retirada norte-americana em Fevereiro de 2009 e a completar em 2011.

   Petraeus, após uma comissão como chefe do Comando Central a partir do final Outubro de 2008, foi nomeado por Barack Obama em Junho de 2010 comandante das forças no Afeganistão.

   A retórica sobre protecção de civis, cooperação acrescida com forças militares e policiais afegãs, combate à corrupção e apoio ao desenvolvimento económico, revelou-se um fracasso, mas serviu o objectivo do presidente.

  O general abandonou o Afeganistão em Julho de 2011 e deixou as forças armadas em Agosto, tendo cumprido a sua missão: dar cobertura para mais uma retirada ainda que nenhuma questão estratégica tenha sido resolvida a contento de Washington.

  Após assumir a direcção da CIA, em Setembro de 2011, Petraeus viu a sua exposição mediática reduzida ao mínimo, só voltando à ribalta devido à polémica em torno das versões oficiais contraditórias sobre o ataque terrorista ao consulado de Benghazi em Setembro deste ano.

   O teórico da contra-insurreição pela conquista da confiança de populações civis tinha-se, entretanto, transformado no patrono da militarização da CIA, do recurso ao assassínio sistemático de suspeitos estrangeiros de terrorismo através, sempre que possível, de veículos aéreos não-tripulados.

   O general que sempre apostou na promoção da imagem de estratego ímpar da sua geração, ainda que apenas tenha servido para dar cobertura a retiradas em guerras falhadas, terá agora de pagar por não passar de mais um mito de cuecas na mão.

Jornal de Negócios
14 Novembro 2012


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A ONU antes da Grande Guerra do Golfo





   O incontornável rosário de crises do Levante ao Hindu Kush assombra a Assembleia Geral da ONU que bem poderá revelar-se o último grande conclave internacional em Nova Iorque antes da Grande Guerra rebentar no Cáspio e no Golfo Pérsico.

   O desenvolvimento sustentado -- em vertentes como gestão ambiental ante mudanças climáticas e combate à pobreza, discutidas este Verão na Conferência Rio+20 – ou a reforma do Conselho de Segurança serão alguns dos temas sacrificados pela premente ameaça de guerra.

   A impossibilidade de instituições estatais multilaterais como a Liga Árabe, a Organização da Conferência Islâmica e a ONU mediarem pela via diplomática tréguas na guerra civil da Síria põe em relevo o confronto de políticas externas antagónicas que exacerbam um conflito com contornos étnicos e religiosos que extravassam além-fronteiras.

   A redes de alianças e interesses envolvendo e opondo estados como a Turquia, Arábia Saudita, Iraque e Irão, condenam a Síria a uma sangria sem fim à vista, mas que, inelutavelmente, levará à perdição a minoria alauíta no poder.

                                 Os meios necessários

    O impasse no Conselho de Segurança era previsível por Pequim e Moscovo considerarem que a NATO e seus aliados ultrapassaram os termos da resolução 1973 de Março de 2011 que autorizou o uso na Líbia de «todos os meios necessários», excepto «uma força de ocupação estrangeira», para proteger civis e áreas de povoamento civil.

   A intervenção militar da NATO, subsidiariamente apoiada pelo Qatar e Jordânia, foi vista na Rússia e na China como um acto abusivo e, consequentemente, inviabiliza a adopção de qualquer resolução do Conselho de Segurança que admita o recurso à força ao abrigo do Capítulo VII da Carta da ONU.

   Excepto na eventualidade de uso de armas químicas ou biológicas ou sua transferência para organizações terroristas é dificilmente concebível uma intervenção militar directa estrangeira na guerra civil síria, com ou sem sanção da ONU, que, em qualquer caso, tenderá a evitar na medida do possível a eventualidade de ocupação territorial.

   As últimas manifestações violentas de repúdio por ofensas perpretadas no Ocidente contra o Islão serviram, por seu turno, para relembrar o óbvio: é fruste a base social e limitadíssima a legitimação ideológica para uma ordem política incorporando princípios liberais e secularistas em países tão distintos quanto o Egipto ou o Paquistão.

   Na ressaca do fracasso estratégico e ideológico das intervenções no Iraque e no Afeganistão os protestos de militantes islamitas em manifestações do Sudão à Nigéria terão afastado para os tempos mais próximos quaisquer ilusões sobre o apoio com que possam contar acções militares dos Estados Unidos e seus aliados ocidentais em países de maioria islâmica ou com significativas minorias de crentes na mensagem do Profeta.

   Para o resto do mundo a falta de discernimento e capacidade de intervenção estratégicas do bloco ocidental ficam ainda patentes no fracasso da tentativa de mediação da administração Obama no conflito israelo-palestiniano, independentemente do que vier a ocorrer se a Autoridade Palestiniana conseguir um voto por maioria na Assembleia Geral para obter o estatuto de “estado observador” na ONU.

                              O mau tempo e a política

     A meteorologia, entretanto, condiciona no curto prazo a próxima guerra.

   A chegada do Outono torna muito mais difícil para Israel missões ofensivas e de reconhecimento áereo, sobretudo nas regiões montanhosas e no noroeste do Irão e, independentemente das cumplicidades com que possa contar no Arzebeijão e Curdistão iraquiano, limita a capacidade operacional unilateral de Telavive.

   Adiar para a Primavera um ataque que obrigue, por via de retaliação iraniana, a envolvimento directo dos Estados Unidos, deixa o governo de Benjamin Netanyahu à mercê da Casa Branca e descredibiliza as ameaças de Israel, jogo por demais perigoso no Médio Oriente onde prevalece a lei da força.

   No caso de Obama ser reeleito a Casa Branca não admitirá ser constrangida por Telavive, apesar do evidente fracasso das tentativas de levar o Irão a suspender ou renunciar a um programa nuclear militar.

   Na menos provável hipótese de vitória republicana Mitt Romney ainda mal terá rodado a sua equipa e o fervor ideológico já terá sido submetido ao confronto com realidades comezinhas como, por exemplo, a vulnerabilidade do Japão e da Coreia do Sul a cortes nos fornecimentos de petróleo.

   As probabilidades de erro de cálculo por parte de tão grande número de intervenientes são tamanhas que a eclosão da guerra é o mais provável.

   A ONU não voltará a ser a mesma entidade multilateral caso se mostre incapaz de impedir mais uma guerra com risco de escalada dificilmente controlável.

Jornal de Negócios
26 Setembro 2012

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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O Artigo V e o imperativo da força

 
   Uma aliança militar vale pela eficácia que os seus membros, aliados, parceiros, adversários e inimigos atribuam ao princípio de segurança colectiva.

   O Tratado do Atlântico Norte, de 1949, estipula no Artigo V que uma agressão militar contra um estado signatário será considerada um ataque a todos os membros da Aliança e implica a prestação de assistência pelos demais aliados, implicando, designadamente, o emprego de força armada.

    A Operação Eagle Assist para prestar assistência de vigilância área nos Estados Unidos entre 9 de Outubro de 1991 e 16 de Maio de 2002, na sequência dos ataques terroristas da Al Qaeda, foi até hoje a única acção militar da Aliança em apoio directo a um estado membro alvo de agressão.

   O princípio da dissuasão pela ameaça da força vingou durante a Guerra Fria, mas a dissolução do Pacto de Varsóvia, em Julho de 1991, e o desmembramento da União Soviética, no final desse ano, levou a uma redefinição de objectivos estratégicos da NATO.

                         Um alargamento à custa da Rússia


   As intervenções nos Balcãs, iniciadas no Verão de 1993, e a liderança da Força Internacional de Assistência à Segurança no Afeganistão, em 2003, foram acompanhadas pelo alargamento rápido da NATO, aproveitando o enfraquecimento estratégico da Rússia.

   Logo em 1999 a Polónia, a Hungria e a República Checa ingressavam na NATO, apesar dos protestos de Moscovo.

   A absorção pela República Federal da Alemanha, em Outubro de 1990, dos cinco länder que formavam a antiga República Democrática Alemã assentava num alegado entendimento entre George H. Bush e Mikhail Gorbatchov que excluía a integração na NATO de ex-repúblicas soviéticas e estados do Pacto de Varsóvia.

    Ignorados as objecções da Rússia, o avanço da NATO prosseguiu com o convite oficial, em 2002, para início das negociações de adesão da Estónia, Letónia, Lituânia, Eslováquia, Roménia, Bulgária e Eslovénia e a integração das ex-repúblicas soviéticas e estados do antigo Pacto de Varsóvia concluiu-se em apenas dois anos.

   O Plano de Acção para a Adesão, lançado em Abril de 1999, sustentou o alargamento no período que se seguiu à Guerra Fria, mas só a fragilidade da Rússia permitiu, por exemplo, que a Estónia - cuja anexação pela URSS nunca fora reconhecida pelos estados da NATO - pudesse aderir à Aliança, sem discussões de maior, apesar dos graves problemas de integração da minoria russa (25% dos 1,3 milhões de habitantes do país) e de um diferendo fronteiriço com Moscovo.

    A relação de forças alterou-se substancialmente, entretanto, e os esforços de Moscovo para inviabilizar a integração de estados da sua área de influência tradicional na NATO são o actual equivalente russo da estratégia de containment advogada em 1946 pelo diplomata George Kennan e assumida no ano seguinte pelo presidente Harry Truman com uma declaração de apoio à Grécia e à Turquia contra a ameaça soviética.

                                 Compromissos e consequências

   Um eventual compromisso da NATO na cimeira de Dezembro para um Plano de Acção para a Adesão da Geórgia e da Ucrânia implica riscos de monta para a própria coesão e eficácia da aliança.

   No caso da Ucrânia a actual política de aproximação à NATO do presidente Viktor Iushenko e da primeira-ministra Iulia Timoshenko é altamente controversa.

   A forte oposição dos partidos políticos representativos da minoria russófona (17% da população com forte concentração nas regiões do leste, do sul e na República Autónoma da Crimeia) inviabiliza qualquer consenso sobre a adesão à NATO.

    Moscovo está em condições de instrumentalizar as dissensões políticas internas da Ucrânia como, ainda, de promover movimentos separatistas na Crimeia (maioritariamente russa, mas integrada por Nikita Kruschov na Ucrânia em 1954), reavivar diferendos fronteiriços no estreito de Kertch (entre o Mar Negro e o Mar de Azov) e contestar o acordo de arrendamento da base naval de Sevastopol que expira em 2017.

    Avançar para a integração de um estado em que a integração na NATO, ao contrário de uma eventual adesão da Ucrânia à União Europeia, é um dos principais focos de conflito político é altamente indesejável sob qualquer ponto de vista. Na Geórgia a situação é ainda mais ingrata, apesar do generalizado apoio político à adesão à NATO.

   O nacionalismo georgiano (que além de se radicalizar em conflitos com abkazes e ossetas também foi responsável pela recusa em aceitar o retorno no início dos anos 1990 dos descendentes de 120 mil turcos georgianos da região da Meskhetia deportados por Stalin para a Ásia Central em 1944) levará décadas a aceitar uma eventual independência da Abkázia e a provável integração da Ossétia do Sul na Federação Russa.

   A Geórgia é um estado cuja redefinição de fronteiras demorará anos a concretizar-se.A sua integração na NATO seria um acto de irresponsabilidade política ao arrepio do princípio de que qualquer estado que pretenda integrar a aliança terá de resolver previamente de forma pacífica disputas étnicas ou territoriais.

                                          O último recurso

   É esse princípio que, ao abrigo da regra da unanimidade nas adesões à NATO, justifica o veto da Grécia à Macedónia, inviabiliza a integração de Chipre, e levanta dúvidas sobre a eventual entrada da Bósnia-Herzegovina, apesar do consenso dos 26 quanto ao interesse em estabilizar o flanco balcânico.

   A Rússia, particularmente instável ante os sinais de decadência anunciada pela hemorragia demográfica e dependência das receitas de exportações de hidrocarbonetos, é, presentemente, uma potência cujos interesses têm de ser considerados e a cooperação negociada em questões de vantagem mútua.

   Negociar e concertar interesses possíveis obriga, no entanto, a assumir uma posição firme sempre que as circunstâncias e relações de forças o justifiquem e uma aliança militar minimamente coerente é um imperativo para fazer valer os interesses essenciais.
   Para a NATO a pior via possível seria comprometer-se numa aliança formal com a Ucrânia ou a Geórgia e pôr em causa o essencial de uma união militar que é, precisamente, o princípio da segurança colectiva com o inevitável corolário do recurso à força em última instância.

   Assumir compromissos com estados sujeitos a grande instabilidade política e institucional (caso da Ucrânia) ou em desagregação territorial (como acontece na Geórgia) seria um acto de irresponsabilidade e diminuiria consideravelmente a capacidade de intervenção política.

Jornal de Negócios
20 Agosto 2008

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Tiros nos pés da diplomacia espanhola

M
 
Carme Chacón na base militar de Djakoviva, Kosovo
 
 
   Madrid conseguiu em poucos dias indispor os seus aliados da NATO e, em particular os Estados Unidos, com o anúncio intempestivo da retirada do contingente espanhol do Kosovo num caso exemplar de incompetência diplomática.

   A ministra da Defesa Carme Chacón anunciou na passada quinta-feira, durante uma visita às tropas espanholas no Kosovo, que os militares estariam de regresso a casa antes de acabar o próximo Verão.

   No dia seguinte, o Departamento de Estado norte-americano declarou-se "profundamente desapontado" e em Bruxelas o secretário-geral da NATO, Jaap de Hoop Scheffer, lamentou que a Espanha não tivesse procedido a consultas com os demais 25 aliados.

                           Retirar sem olhar a consequências
   O anúncio de retirada unilateral foi confirmado segunda-feira com a precisão de que "o grosso do contingente" de 632 militares abandonaria o Kosovo até final de Setembro e que a saída das tropas seria coordenada com os outros Estados da NATO presentes no território no âmbito da missão da KFOR (apenas a Islândia não se encontra representada).

   O governo de Madrid justificou a retirada por não se considerar vinculado a tarefas de criação e consolidação de instituições de defesa de um Estado cuja declaração de independência unilateral de Fevereiro de 2008 não reconhece.

   O chefe da diplomacia espanhola Miguel Moratinos tinha, contudo, reiterado a 5 deste mês que a Espanha manteria a sua presença no Kosovo e que participaria nas discussões sobre uma eventual redução da missão da KFOR (que conta com cerca de 15.450 militares) de forma a contribuir para um consenso sobre a matéria na próxima cimeira da NATO agendada para 3 e 4 de Abril.

   A reviravolta espanhola colocou numa situação delicada a Roménia, a Grécia e a Eslováquia que, apesar de também não reconhecerem a independência do Kosovo participam na KFOR, e rompeu com o consenso de que uma redução da missão da NATO só seria considerada caso as condições políticas e de segurança no território fossem tidas por satisfatórias.

   À KFOR, presente no Kosovo desde Junho de 1999 ao abrigo da Resolução 1244 do Conselho de Segurança, veio juntar-se em Dezembro último, também com aval da ONU, a missão da União Europeia, a EULEX (sem participação da Espanha), essencialmente administrativa, policial e judiciária, que conta já com 1.687 membros e emprega 806 funcionários locais.

                                     Um impasse para durar
   Independentemente de outras mudanças de posição, caso de Portugal que em Outubro do ano passado decidiu reconhecer a independência do Kosovo, a antiga província controlada por Belgrado ainda só estabeleceu relações diplomáticas com 56 países.

   Treze meses passados sobre a declaração de independência mantém-se a oposição de Estados como a Rússia, a China, o Brasil, a África do Sul e a maioria dos países islâmicos ao reconhecimento do Kosovo.

   A esperada decisão não-vinculativa do Tribunal Internacional de Justiça sobre a legalidade da declaração, votada por iniciativa da Sérvia pela assembleia-geral da ONU em Outubro de 2008 (a Espanha foi um dos 77 Estados a votar a favor e Portugal um dos 74 que se abstiveram), não deverá trazer alterações de maior à actual relação de forças, tanto mais que a tensão entre a minoria sérvia e a maioria albanesa no Kosovo não dá sinais de diminuir.

   A iniciativa espanhola foi criticada internamente pelos principais partidos da oposição devido à forma inesperada, descoordenada (sem informação prévia sequer à embaixada em Washington) e ao arrepio de compromissos anteriores que caracterizou a actuação dos ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros.

   O governo de Madrid acabou por tornar inopinadamente um assunto menor e relativamente consensual - o Partido Popular deplorou a independência unilateral que só contou com o apoio de nacionalistas bascos e catalães - num caso de discórdia partidária.

   Para piorar as coisas e à procura de alguma forma de compensação o governo de José Luis Zapatero veio, entretanto, afirmar a disponibilidade para reforçar a sua presença no Afeganistão, onde tem 800 militares, se os Estados Unidos lhe endereçarem um pedido nesse sentido, apesar de ter repetidamente afirmado em ocasiões anteriores que estava fora de questão reforçar o contingente na Ásia Central.

   O anúncio da retirada do Kosovo, apesar de ter um significado diferente da saída das tropas espanholas do Iraque em 2004 depois da vitória eleitoral socialista, veio pôr em causa a credibilidade da diplomacia espanhola que não mediu as consequências da sua decisão, desprezou os interesses de diversos estados aliados e ignorou os procedimentos de consultas no seio da NATO. Um verdadeiro tiro no pé que Madrid irá pagar caro.
 
Jornal de Negócios
25 Março 2009
 
 
 

domingo, 2 de setembro de 2012

Um imbróglio separatista no Cáucaso

 
 
  Uma aparente excentricidade de vasto alcance político é definição que melhor abarca o referendo em que a pequeníssima república da Ossétia do Sul confirmou a sua reivindicação de independência face à Geórgia.

  A maioria dos 55 mil residentes ossetas pronunciou-se pela independência, tal como em 1992, enquanto os cerca de 15 mil georgianos que habitam a região ignoraram a consulta e organizaram uma votação paralela em defesa da sua autonomia e, por extensão, da preservação dos vínculos administrativos com Tbilissi.

   O objectivo do exercício, condenado pela Geórgia, a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, o Conselho da Europa e os Estados Unidos, é, como confessa o presidente Edvard Kokoity a quem se desloca a Tskhinvali, a delapidada capital da região, criar condições para que pelo menos Moscovo venha a reconhecer a independência do território ou a incorporá-lo, eventualmente, na república russa da Ossétia do Norte.

   O bizarro referendo osseta segue-se a idêntica iniciativa da Abkházia (250 mil habitantes) que a 18 de Outubro aprovou um pedido para que o parlamento de Moscovo "legitime a independência", aprovada num referendo ignorado pela comunidade internacional em 1999.

   A reintegração da Ossétia do Sul, separada de facto de Tbilissi desde 1992, e da Abkházia, que em 1993 seguiu idêntico destino também sob a protecção de Moscovo, é um dos objectivos prosseguidos por Mikhail Saakashvili desde a sua eleição em 2004 e motivo de confronto com a Rússia.

   Enquanto não for decidido o destino das duas repúblicas e dos 250 mil georgianos desalojados após os confrontos militares de 1992-1993 na Abkházia está fora de questão que a NATO possa vir a aprovar um pedido de adesão da Geórgia o que explica o apoio de Moscovo aos separatistas de Tskhinvali e Sukhumi.

Braço-de-ferro entre russos e georgianos

   O risco de novos confrontos militares à semelhança dos ocorridos no início dos anos 90 durante a conturbada implosão da União Soviética aumenta à medida que se agrava o conflito entre a Rússia e a Geórgia, apesar dos recentes sinais de apaziguamento por parte de Tbilissi entre os quais se contam o afastamento do irredutível anti-russo Irakli Okruashvili da pasta da Defesa e o abandono das ameaças de veto à adesão da Rússia à Organização Mundial de Comércio.

   Moscovo tem vindo a impor embargos sucessivos às exportações georgianos – vinhos, águas minerais, frutas –, suspendeu as ligações postais, marítimas, aéreas e terrestres, além de desencadear uma campanha sistemática de hostilização dos cerca de 500 mil georgianos residentes na Federação Russa.

   A ameaça mais recente cifra-se no anunciado aumento do preço do gás natural fornecido pela Gazprom. O monopólio russo pretende aumentar no próximo ano a factura do gás natural comprado por Tbilissi de 110 dólares para 230 dólares por mil metros cúbicos.

   Tal como sucedeu no Inverno passado com a Ucrânia, a Gazprom propõe soluções de compromisso na condição da Geórgia ceder o controlo de parte da sua infra-estrutura de gasodutos à imagem do acordo que a empresa russa acaba de celebrar com a Arménia.

   A demonstrar os contornos políticos da revisão de preços a Gazprom iniciou no final de Outubro a construção de um gasoduto de apenas 163 quilómetros de extensão para a partir da Ossétia do Norte fornecer combustível a preços subsidiados ao território da Ossétia do Sul, tal como sucede na república da Transdniestria onde os abastecimentos de gás russo ajudam a sustentar as aspirações separatistas frente à Moldova.

  A reiterada chantagem energética sustenta, por sinal, as objecções dos governos, com Varsóvia à cabeça, que pretendem, contra a opinião da maioria dos parceiros comunitários, subordinar a revisão da "Parceira Estratégica entre a Rússia e a União Europeia" ao prévio respeito pelo "Acordo sobre a Carta de Energia", assinado em Lisboa em 1994, que contempla a abertura da infra-estrutura russa de gasodutos e oleodutos russa a empresas estrangeiras e o fim da posição monopolista da Gazprom.

O fim dos conflitos congelados

   A estratégia russa de apoio às reivindicações separatistas na Moldova e na Geórgia, bem como o apoio à Arménia no conflito com o Arzebaijão sobre o enclave de Nagorno-Karbakh (situado em território azeri e dominado pelos arménios desde 1994) cumpre, assim, os objectivos tradicionais de controlo das redes de oleodutos e gasodutos e de oposição a eventuais fugas da órbita de influência política de Moscovo. No mínimo deve considerar-se até agora como uma estratégia muito bem sucedida.

   A própria expressão consagrada pela linguagem diplomática que qualifica como "conflitos congelados" confrontos de teor distinto (população russófona versus estado moldovo na Transniestria, maiorias regionais étnicas contra estado georgiano na Abkházia e na Ossétia do Sul e guerras para imposição de territórios nacionais contínuos e etnicamente homogéneos entre os estados arménio e azeri) é sinal do êxito da estratégia de Moscovo.

   Vladimir Putin criou no entanto uma situação paradoxal ao considerar que as negociações em curso em Viena sobre o estatuto do Kosovo deverão conduzir a um compromisso que implique o respeito por "princípios únicos e universais" na resolução de conflitos étnico-nacionais.

   O fito de Putin ao fazer estas declarações em Fevereiro era, aparentemente, continuar a garantir a conivência ocidental face ao apoio de Moscovo aos separatistas na Moldova e na Geórgia e, subsidiariamente, pressionar os governos da Estónia, Letónia e Lituânia quanto ao estatuto das minorias russas, enquanto excluía a Tchetchénia, alegando tratar-se de um caso de combate ao banditismo e ao terrorismo islamita.

   O plano proposto pelas potências ocidentais e a Rússia para a província albanesa obrigará a criar instituições de segurança e judiciais sob supervisão externa, interdita a possibilidade de eventual confederação, federação ou integração com a Albânia e prevê a manutenção da integridade territorial do Kosovo de forma a obstar a um efeito dominó de partilha étnica na Macedónia e na Bósnia-Herzegovina.

  No entanto, após um período de "soberania limitada" que dê provas de respeito pelos direitos da minoria sérvia, o Kosovo poderá aceder à independência e, em última análise, é este o argumento que alguns sectores radicais entre os separatistas abkházes e ossetas começam a brandir e a ameaça que uma larga facção dos nacionalistas georgianos mais teme.

  O equívoco apoio de Moscovo a movimentos separatistas na Moldova e na Geórgia que reivindicam a independência em associação com a Rússia de territórios e populações cujo controlo é irrelevante de um ponto de vista económico e militar arrisca-se a agudizar os conflitos locais e inquina as relações com os estados ocidentais e os países vizinhos.

  A fase bem sucedida da estratégia de "congelamento dos conflitos" na Moldova e na Geórgia pode assim estar perto de chegar ao fim sem que a Rússia tenha conseguido definir uma política de boa vizinhança com as ex-repúblicas soviéticas que, significativamente, Moscovo denomina como "estrangeiro próximo".



Jornal de Negócios
15 Novembro 2006

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Um encontro em Munique



   Davos nada tinha para oferecer, mas a conferência de segurança de Munique deste fim-de-semana é o primeiro grande evento internacional em que a administração Obama vai poder apresentar as suas linhas estratégicas de actuação.

   Obama atribui a esta oportunidade para contactos ao mais alto nível uma importância evidente e a delegação norte-americana é liderada pelo próprio vice-presidente, Joe Biden.

   O conselheiro de segurança nacional dos EUA, general James Jones, o comandante do comando central que tutela as forças norte-americanas no Golfo Pérsico e na Ásia Central, general David Petraeus, além do enviado especial para o Afeganistão e Paquistão, Richard Holbrooke, integram também a comitiva dos Estados Unidos.

   Os tópicos em debate na 45ª edição da conferência apresentam o roteiro perfeito para contactos exploratórios e três painéis são propícios a declarações de princípio substanciais.


O eixo russo
   O que for dito e omitido nas discussões sobre "a NATO, a Rússia e o Médio Oriente: o futuro da segurança europeia", no debate em torno da "não-proliferação, controlo de armamentos e o futuro das armas nucleares" e na análise de "O futuro da Aliança e a missão no Afeganistão" permitirá apurar o potencial alcance das iniciativas que prepara a Casa Branca.

   Para a Rússia, que se faz representar pelo vice-primeiro ministro Sergei Ivanov, a conferência de Munique servirá para avaliar a disponibilidade de Washington para rever o programa de instalação de radares e sistemas anti-mísseis na Polónia e na República Checa, e retomar as negociações abandonadas por George Bush sobre o Tratado de Redução de Armas Estratégicas que expira em Dezembro.

   O anúncio da suspensão dos planos de instalação de mísseis de curto alcance no enclave de Kaliningrado indicia da parte de Moscovo o interesse em retomar um diálogo estratégico com Washington, que terá, por sua vez, de oferecer garantias aos seus parceiros da NATO, em particular à Polónia e aos estados bálticos.

   O contencioso no Cáucaso e o adiamento da adesão da Geórgia e da Ucrânia à NATO são, ainda, duas questões em que as declarações de norte-americanos, russos e europeus permitirão esclarecer as reais possibilidades de negociação.

Outra estratégia para o Irão
   Já o presidente do parlamento iraniano Ali Larijani e o ministro dos Negócios Estrangeiros Manouchehr Mottaki anunciaram que não terão conversações com representantes norte-americanos em Munique.

   A confirmação recente de que no último ano da administração Bush especialistas norte-americanos - incluindo Gary Samore, vindo da era Clinton e próximo coordenador do programa de combate ao risco terrorista de proliferação de armas de destruição maciça -, tiveram quatro encontros informais com representantes iranianos é, no entanto, um sinal de que os contactos de 2008 poderão vir a assumir um carácter oficial.

  As reuniões em Haia e Viena em que também esteve outro veterano dos anos Clinton, o antigo secretário da defesa William Perry, foram patrocinadas pelas Conferências Pugwash e contaram com a participação do representante do Irão na Agência Internacional para a Energia Atómica, Ali Soltanieh, e de Samareh-Hashemi, um assessor do presidente Ahmadinejad.

   Eventuais indícios de que Washington possa vir a abandonar a exigência de congelamento prévio do enriquecimento de urânio por parte de Teerão para abrir negociações formais directas serão, assim, um dos pontos mais escrutinados nas declarações públicas que sejam feitas em Munique.

   Se Obama enviar para ratificação no Senado o acordo celebrado em Dezembro no ano passado por Condoleezza Rice com os Emirados Árabes Unidos, ficará claro, por seu turno, se a Casa Branca considera viável um esquema internacional de comercialização de combustível nuclear.

  Os Emirados comprometeram-se a adquirir combustível nuclear no estrangeiro, designadamente aos Estados Unidos, e renunciaram ao direito estabelecido pelo Tratado de Não-Proliferação Nuclear de enriquecer urânio e reprocessar plutónio que pode ser utilizado como material físsil para fins militares.

   O acordo, que abrirá eventualmente a possibilidade a firmas norte-americanas de venderem tecnologia nuclear à monarquia do Golfo Pérsico, poderá servir de modelo para outros estados do Médio Oriente e obviar a riscos de proliferação nuclear militar em resposta ao programa do Irão.

   O interesse potencial deste acordo passa, também, por abrir uma porta aos Estados Unidos para apresentarem garantias de defesa, sem impedirem o acesso à exploração de energia nuclear civil, a estados vizinhos do Irão no caso de considerarem inviável deter o programa militar de Teerão.

   O lançamento na segunda-feira do primeiro satélite artificial iraniano foi mais uma prova da capacidade tecnológica de Teerão para desenvolver autonomamente mísseis de longo alcance.

   A provável vitória da direita e da extrema-direita nas eleições em Israel na próxima semana acentuará ainda mais a urgência de Obama para definir os termos estratégicos da negociação com o Irão e o encontro de Munique fornecerá as primeiras pistas.
 
Jornal de Negócios
 

Ir à bola com a Bósnia

   Paulo Ferreira vs Zlatan Muslimovic
                                                Zenica, 18 Novembro 2009

   "O que perde o futebol não é o jogo propriamente dito, mas todo o barulho que se faz à volta dele", desabafava o desiludido Alexandre O`Neill por altura do Europeu de 1984 em que Jordão, Gomes e Chalana quase chegaram a desfeitear a França no Vélodrome de Marselha.

   Quando o país fica pedrado no futebol perde-se "a razoabilidade, a isenção, o bom senso, a simples tineta", comentava o poeta dado à crónica, e, fisgados nesses momentos em que só há olhos para a bola, convém lembrar que nos Balcãs o jogo é caso ainda mais sério do que em Portugal.

  Nos derradeiros anos da Jugoslávia confrontos violentos - à facada, a tiro, com cocktails Molotov - eram de regra nos jogos entre sérvios e croatas e, passadas as guerras, que começaram com a secessão da Eslovénia em 1991, continuaram na Croácia no ano seguinte, prosseguiram na Bósnia até 1995, e levaram a NATO a atacar a Sérvia por causa do Kosovo em 1999, o futebol ainda agora é pretexto para violências.

   Num jogo para a Primeira Liga da Bósnia, a ida dos muçulmanos de Sarajevo à cidade croata de Siroki Brijeg redundou no passado 4 de Outubro em tumultos que se saldaram por um morto e cinco feridos e, uma vez mais se fizeram ouvir os clamores nessa entidade equívoca criada pelos acordos de Dayton no final de 1995 de que toda a bola está ulcerada por ódios étnicos e religiosos, sendo tempo de pôr termo ao campeonato e dissolver a selecção dita nacional criada em 1992.

Uma coisa em forma de assim

  É isto a Bósnia-Herzegovina: uma coisa em forma de assim, como diria O`Neill.

  Um protectorado internacional que integra uma federação de muçulmanos e croatas e uma república sérvia, sob tutela de um Alto Representante austríaco.

  Dois mil militares e polícias da União Europeia, entre eles meia centena de portugueses, não conseguem encontrar solução para sair da Bósnia, partilhada numa rede de poderes difícil de descortinar.

  Quando a selecção portuguesa fôr jogar a segunda mão na delapidada cidade industrial de Zenica, onde ficaram quase só muçulmanos e croatas depois da fuga dos sérvios, será altura de mais uma ronda de negociações entre a União Europeia e os Estados Unidos com os líderes da Bósnia-Herzegovina para tentar encontrar um compromisso que possa abrir caminho à levitação da entidade balcânica rumo à órbita de Bruxelas e da NATO.

  De momento, nem líderes sérvios, croatas ou muçulmanos se mostram dispostos a aceitar uma administração unificada com um presidente e dois vice-presidentes ao invés da presente disfuncionalidade de presidência rotativa a cada oito meses e responsabilidades difusas.

Tirar as castanhas do lume
   Mais de um milhão de sérvios estão sobretudo interessados em unir-se à Sérvia. Para cima de 200 mil croatas olham, por sua vez, para Zagrebe e quase 2 milhões de muçulmanos tentam perceber como poderão ser independentes e ter Sarajevo como capital, enquanto outras minorias procuram protecções alheias numa terra que não chega ao dobro do Alentejo.

   O que há de mais empreendedor pela Bósnia são as mafias, a corrupção impera e altas taxas de desemprego numa parte da antiga Jugoslávia onde se concentravam indústrias militares não auguram grande futuro.

   Os números do investimento estrangeiro só revelam quebra de confiança e nos primeiros três trimestres de 2009 a entrada de capitais caiu 56 % em relação a período homólogo do ano passado. Uns meros 28 milhões de euros chegados das vizinhas Eslovénia, Aústria e Croácia.

   A União Europeia e os Estados Unidos falam de uma última oportunidade negocial, um Dayton II, mas têm a castanha nas mãos, antes que reúna no final do ano o conclave de 50 países que integram o Comité de Implementação da Paz, Portugal incluído, que, em princípio deveria encerrar o dossier Bósnia congratulando-se pela autodeterminação das instituições democráticas.

  No entretanto, Radovan Karadzic, o psiquiatra sérvio e mestre da mortandade, vai vendo o seu julgamento adiado em Haia, outro comparsa, Ratko Mladic, continua a monte, a ex-presidente dos sérvios da Bósnia, Biljania Plasvsic, foi libertada da cadeia na Suécia e partiu para Belgrado depois de cumprir dois terços de uma pena de 11 anos de prisão por crimes contra a humanidade, e a vida, essa coisa videirinha, no adjectivar de O`Neill, continua.

Coisa muito séria
 
   De resto, o futebol é coisa muito séria e sobra política que, como temia o autor da "Feira Cabisbaixa", nem chegará a comover os adeptos lusos.

  Afinal, até O`Neill, poeta que não gostava de atropelos à esquerda e à direita, confessava nesses idos de 1984, por coisas da compita com Espanha que deu num 1-1, ter acabado "apanhado apenas por razões patrioteiras, que o jogo foi fraco, embora o golo (de António Sousa, aos 52 ', logo retorquido aos 73' por Santillana, recordo eu passados tantos anos sobre o empate dessa Primeira Fase em que se amontoavam ainda romenos e alemães ocidentais) tenha sido lindo".

  Fica "o País futebol" e "é assim por toda a parte", asseverara O`Neill, e, portanto, entre tramas e dramas, acaba a selecção de um país com fronteiras continentais velhas de quase um milénio a disputar a qualificação para um Mundial face a "uma coisa em forma de assim" atormentada por dramas e massacres que ainda nem deram para esquecer sem que adeptos ou políticos se comovam por ali além com as desgraças dos Balcãs.


Jornal de Negócios
11 Novembro 2009

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Que fazer com esta fraude?



     Uma companhia de comandos partirá para o Afeganistão em 2010 para integrar a "Força de Reacção Rápida" do contingente internacional e os custos da participação portuguesa, iniciada em 2002 e centrada sobretudo no treino da polícia e exército afegãos, superarão os 80 milhões de euros no final deste ano.

   Os 150 comandos irão juntar-se a 143 militares portugueses que têm vindo a participar em diversas missões da "Força Internacional de Assistência à Segurança" e, tal como os seus camaradas fuzileiros, duas dezenas de homens que este mês reforçaram as unidade de protecção bem se podem interrogar sobre o sentido da sua presença na Ásia Central.

   A guerra corre mal aos ocidentais, que se revelam incapazes de conter grupos talibã ou movimentos islamitas como o Hiz-e-Islami, de Gulbunddin Hekmatyar. Os mais de 100 mil militares da NATO e seus aliados (entre eles 65 mil norte-americanos), além de 43 mil homens de forças de segurança privadas, não conseguiram criar áreas seguras que permitam o estabelecimento de uma administração civil e militar afegã em mais de um terço do país.

   O que existe da administração central do presidente Hamid Karzai são estruturas ineficazes, corruptas e disfuncionais que assentam na partilha de poderes com senhores da guerra e líderes tribais.

Uma eleição viciada
   A eleição presidencial de Agosto deveria, num contexto de redefinição estratégica da presença militar estrangeira, legitimar o governo de Cabul e criar condições para um assumir crescente por parte das entidades administrativas centrais e dos conselhos da 34 províncias de responsabilidades de segurança e coordenação de projectos sanitários e de desenvolvimento.

   Tudo se gorou e a votação de 20 de Agosto redundou numa fraude grotesca depois de Karzai ter forjado acordos com líderes tribais como Jan Mohammand e Gul Sherzai para alargar a sua base de apoio tradicional entre as tribos pashtun (40% da população).

  Os dois candidatos a vice-presidentes, Mohammad Fahim, um tadjique, e Karim Khalil, um xiita hazara, cobriam, por sua vez, um espectro de alianças com as duas principais minorias étnicas, a que se juntava o contributo do uzbeque Rashid Dostum, num bloco eleitoral de políticos e senhores da guerra com cadastros confrangedores.

   A eleição foi, pela primeira vez, organizada pelas autoridades afegãs da "Comissão Eleitoral Independente", com apoio técnico estrangeiro e financiamento internacional.

   O número de recenseados atingiu os 16,6 milhões, 35% dos quais mulheres, sendo excluídos mais de milhão e meio de deslocados no Paquistão e 800 mil refugiados no Irão. Como a inscrição nos cadernos eleitorais fora efectuada voluntariamente e, quase sempre, por homens que declaravam o número de mulheres maiores de 18 anos a seu cargo sem verificação das declarações, tornava-se evidente o peso dos eleitores-fantasma e a eventualidade de fraude.

  Além das precárias condições de segurança que à partida poderiam excluir do processo eleitoral cerca de 10% dos 7 mil centros de votação, sobretudo no Sul do país, outros locais vieram a revelar-se problemáticos pois na ausência de monitores estrangeiros recrudesceram as dúvidas sobre a idoneidade de boa parte dos representantes da "Comissão Eleitoral Independente", encarregue do recenseamento, organização da eleição e escrutínio.

Perda de credibilidade da ONU
   Os resultados preliminares deram 55% dos votos a Karzai e 28% ao antigo ministro dos negócios estrangeiros Abdullah Abdullah e de imediato surgiram alegações de fraude generalizada a somarem-se às irregularidades no próprio dia da votação (cartões de recenseamento à venda, compra aberta de votos, etc.).

   Observadores da União Europeia manifestaram as suas suspeitas em relação à validade de pelo menos 1,5 milhões de votos (entre eles 1,1 milhões obtidos por Karzai) e, à medida que crescia a polémica, o número dois da missão da ONU, o norte-americano Peter Galbraith, acusou publicamente o seu chefe, o norueguês Kai Eide, de ter falhado na prevenção de actos fraudulentos e de esconder provas de fraude generalizada a favor de Karzai.

  As acusações de Galbraith levaram o secretário-geral da ONU Ban Ki Moon a demiti-lo a 30 de Setembro, mas Eide acabou por reconhecer no passado domingo a ocorrência de fraudes significativas nas regiões do Sul e do Sudeste, áreas de maioria pashtun favoráveis a Karzai.

  Documentos internos da ONU, entretanto vindos a público, constatam fraudes gravíssimas como, por exemplo, na província de Paktika, área maioritariamente pashtun no Sudeste do país. Os funcionários das Nações Unidas estimaram o número de votantes em cerca de 35 mil, mas a "Comissão Eleitoral Independente" registou 206.886 votos, dos quais 193.541 para Karzai.

Na guerra sem parceiro
  Uma fraude generalizada impossível de contabilizar foi o veredicto de Eide, que remeteu a prova dos factos para a "Comissão Eleitoral de Apelo", uma entidade presidida pelo canadiano Grant Kippen e onde se contam dois representantes afegãos, um norte-americano e um holandês.

  A Comissão invalidara a votação em 83 centros de voto devido a fraudes, e a 15 de Setembro declarou que os boletins de 2.516 locais de voto (10% do total) seriam recontados devido a suspeitas de irregularidades graves.

  Enquanto se aguarda para esta semana o veredicto da "Comissão Eleitoral de Apelo", logo na segunda-feira um dos seus elementos, o juiz afegão Maulawi Barakzai, demitia-se alegando "interferências estrangeiras inaceitáveis".

  Se a Comissão anular um número de votos que faça cair a votação em Karzai abaixo dos 50%, será necessário realizar uma segunda volta entre o actual presidente e Abdullah, de ascendência mista pashtun e tadjique.

   A nova votação teria lugar três semanas após a publicação dos resultados finais sem que haja tempo ou vontade para reformar as práticas corruptas da "Comissão Eleitoral Independente" e já sob a ameaça de isolamento de grande parte das zonas rurais do Centro e do Norte do Afeganistão devido a nevões.

   Caso Karzai veja confirmada a vitória, a legitimidade do presidente será contestada e, depois das próprias Nações Unidas verem a sua credibilidade posta em causa na monitorização e denúncia de fraudes, mais difícil ainda será aos estados empenhados militarmente no Afeganistão negociarem com um governo central saído de uma imensa tramóia eleitoral.

  Prosseguir um esforço de guerra sem ter parceiros credíveis nas próprias instituições oficiais afegãs é perder o norte e condenar-se ao fracasso.

  Não serão só os 40 mil militares que Barack Obama possa vir a destacar como reforço do contingente dos Estados Unidos, como pede insistentemente o seu comandante no Afeganistão, o general Stanley McChrystal, que acabarão por se interrogar sobre o sentido da sua presença na Ásia Central. Também as tropas portuguesas dificilmente compreenderão o que se quer nesta guerra.




Jornal de Negócios
14 Outubro 2009

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A caminho da pior das derrotas



Ponte da Amizade
Afeganistão-Rep. Socialista Soviética do Uzbequistão
1 Fevereiro de 1989

     O mais difícil, quando tudo estiver acabado, vai ser encenar qualquer coisa que tente iludir a desgraça à imagem do que foi a partida do último soldado soviético do Afeganistão, protagonizada pelo general Boris Gromov ao atravessar a ponte sobre o Amu Darya para o Uzbequistão ao sol de um meio-dia de Fevereiro de 1989.

  A mais poderosa aliança militar do mundo, os seus aliados australianos, sul-coreanos e demais envolvidos caminham inexoravelmente para um fracasso militar e uma catástrofe política no Afeganistão, numa guerra que, passados oito anos, falha nos objectivos e se revela equívoca na estratégia e tácticas.

                                        Guerra para quê?

   Firmar um governo em Cabul suficientemente forte para impedir que o Afeganistão reverta a favor de investidas radicais islamitas na Ásia Central e covil de organizações terroristas é, agora, sacrificadas a realidades intratáveis a democratização ou os direitos das mulheres, o objectivo da NATO.

  Limitar a produção e tráfico de drogas, desviando, na medida do possível, os seus proventos do financiamento de actividades subversivas e terrorristas, surge, subsidiariamente, como condição muito necessária, mas não impreterível, para a NATO e aliados virem a conformar-se com uma autoridade autocrática em Cabul capaz de evitar a desagregação do estado afegão por via de acordos com potentados regionais e senhores da guerra.

   Barack Obama acabou de selar o compromisso de mais tropas no terreno e maior compromisso na formação de militares e polícias afegãos na expectativa de dentro de quatro a cinco anos poder iniciar uma retirada gradual de tropas.

   Em números redondos, os Estados Unidos contarão, em meados de 2010, com 100 mil militares no Afeganistão e os seus aliados somarão outros 40 mil homens, chegando, assim, a níveis de presença no terreno superiores aos cerca de 120 mil homens que a União Soviética mobilizou ao apogeu da intervenção que se arrastou por uma década desde o final de 1979.

   Afeganizar a guerra, duplicando os actuais efectivos do exército para 240 mil homens e da polícia para 160 mil, afigura-se difícil de conseguir a curto prazo.

   As actuais taxas de deserção no exército rondam um para quatro e os efectivos mal chegam aos 134 mil homens. A desproporção étnica, dada a dificuldade de recrutamento entre a maioria pashtun (40% da população), é, ainda, perigosa, dado que os tadjiques (um quarto da população) representam 41% dos efectivos e dominam as chefias militares e do ministério da defesa.

   Baixas civis e militares muito aquém das provocadas pelas tácticas de terra queimada e gente massacrada da URSS, legitimação internacional por obra de mandatos da ONU, distinguem, no imediato, a guerra da NATO da invasão soviética.

   Os investimentos em infra-estrutruras e desenvolvimento rural claudicam, no entanto, ainda mais do que os tentados durante a intervenção soviética, e a corrupção administrativa é tão endémica e pervasiva quanto a dos anos oitenta e surge potenciada pelo tráfico de drogas, que ronda, presentemente, os 4 mil milhões de dólares por ano.

                                          Pior do que antes

  Um dos factos alarmantes resume-se a isto: sem apoios estrangeiros significativos (como o arco que uniu Washington, Islamabade, Riade e Pequim contra Moscovo) ou equipamento militar de ponta (caso dos fatais mísseis Stinger, que fizeram claudicar o domínio aéreo soviético), a insurreição taliban no Sul e Leste do Afeganistão, além da guerrilha de históricos radicais islamitas como Gulbuddin Hekmatyar, e revoltas locais alastrando além das áreas de maioria pashtun, replicam para pior o impasse que levou à derrota soviética.

  Desta feita, o pecado original não advém de um erro de cálculo estratégico ao desencadear a invasão, como ocorreu com a intervenção soviética de Dezembro de 1979, apesar de desde os idos de Outubro de 2001 a investida militar liderada pelos Estados Unidos esbarrar contra as resistências dos tradicionalismos locais e, sobretudo, claudicar ante algo que implica pensar estratégia.

   Um governo afegão alinhado com a Índia (alvo de sucessivos atentados à sua representação diplomática em Cabul desde que Nova Deli apostou em Hamid Karzai ou quem seja poder na capital afegã e se mostre adverso a submter-se ao Paquistão) será sempre tido em Islamabade como um risco estratégico.

   A contenção dos riscos de subversão radical islamita nas províncias pashtun na fronteira do Afeganistão nunca será tida em Islamabade como algo que valha contrição militar face à Índia e, pelo lado do Paquistão, o vizinho da Ásia Central pode ir ardendo a fogo lento.

                                                  Nada ajuda

   A acrescer risco ao compromisso de Obama, advém o crescendo de tensão com o Irão, as dificuldades previsíveis para cumprir o calendário de retirada do Iraque, e os custos da guerra num clima pouco propício, sem que o governo de Cabul releve lisura ou eficácia administrativas.

  Custos de 3,6 mil milhões de dólares/mês, quase mil mortos norte-americanos até agora, outros 30 mil milhões de dólares por ano para pagar o reforço de efectivos no Afeganistão, tornam cada vez mais difícil de fazer aceitar uma guerra por um eleitorado que dentro de um ano decidirá as maiorias no Congresso de Washington.

  As contas estão feitas e as realidades no terreno obrigariam a um muito maior investimento em tropas e ajuda económica efectiva que são inaceitáveis para os eleitorados ocidentais.

  Quando a guerra e os caixões retornarem em força, passado o Inverno no Afeganistão, e se aproximarem as eleições gerais britânicas e as votações para o Congresso de Washington no final de 2010, pouco haverá para apresentar de positivo da investida militar.

   A partir daí será o princípio do fim, a busca afogueada de compromissos para uma retirada, sem que se possa presumir o que venham a ser as consequências globais da pior das derrotas possíveis: a que nem se pode assumir como tal.



Jornal de Negócios
02 Dezembro 2009

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No Afeganistão até que a morte nos separe

   O casamento de conveniência entre Hamid Karzai e os seus patronos ocidentais passará quinta-feira por mais um transe difícil com uma eleição presidencial aquém dos interesses e objectivos dos países que se encontram militarmente envolvidos no Afeganistão.
   As ofensivas lançadas esta Primavera pelos militares dos Estados Unidos e da NATO estão longe de cumprir o objectivo de desalojar os taliban de vastas áreas rurais do Sul e do Leste do país.

   A diminuição do recurso a ataques aéreos não evitou o aumento do número de vítimas civis e as baixas das forças ocidentais, sobretudo norte-americanas e britânicas, cresce sem que tenha sido conseguido um controlo efectivo das regiões mais densamente povoadas do Sul e do Leste, e tão pouco a pacificação das províncias centrais.

  O exército afegão, 88 mil homens, e as forças da polícia nacional, 82 mil efectivos, não preenchem os requisitos para garantir a segurança dos principais centros urbanos, e projectos essenciais de reconstrução de infra-estruturas, como a rede de estradas ligando as maiores cidades, sofrem atrasos e danos consideráveis face às ameaças da guerrilha e do banditismo, mesmo em regiões tidas por seguras no Norte do Afeganistão. Praticamente metade do país é tida por insegura e os atentados terroristas não poupam a própria capital.

   Os mais de 100 mil militares da NATO e seus aliados (entre eles 62 mil norte-americanos), além de 43 mil homens de forças de segurança privadas, não estão a conseguir criar áreas seguras que permitam o estabelecimento de uma administração civil e militar afegã e a nova opção de ataque às redes de tráfico de drogas revela-se incapaz de pôr cobro ao principal negócio do país que movimenta mais de 4 mil milhões de dólares anualmente.

Karzai e os seus


  A administração do presidente Karzai degenerou nos últimos quatro anos numa rede de patrocínios, envolvendo potentados locais em acordos com o governo de Cabul, oleada pela corrupção e desvio de fundos da assistência internacional (cerca de 63 mil milhões de dólares investidos até hoje), sem que mais de 40% dos 30 milhões de afegãos consiga escapar A eleição presidencial e a votação para os conselhos das 34 províncias de Afeganistão surgem como um teste à viabilidade do esforço de guerra internacional, aos programas de reconstrução e à legitimidade das administrações provinciais e central. Os indicadores são tendencialmente negativos.

  Karzai para assegurar a reeleição, que poderá exigir uma segunda volta em Outubro, forjou alianças com líderes tribais como Jan Mohammand e Gul Sherzai para alargar a sua base de apoio tradicional entre as tribos pashtun (40% da população). Os dois candidatos a vice-presidentes, Mohammad Fahim, um tadjique, e Karim Khalil, um xiita hazara, cobrem um espectro de alianças com as duas principais minorias étnicas, a que se junta o contributo do uzbeque Rashid Dostum.

  O peso destes líderes, de cadastros confrangedores para os patronos ocidentais, augura a persistência de poderes locais e respectivos grupos armados em detrimento do governo central que se centra na figura do presidente.

Uma eleição no fio da navalha


  Um indicador seguro do real estado de coisas passa pela participação eleitoral num processo que, pela primeira vez, é organizado exclusivamente pelas autoridades afegãs, ainda que financiado por doadores internacionais.

  Nas presidenciais de Outubro de 2004, antes do recrudescimento da guerrilha taliban, registaram-se cerca de 10 milhões de eleitores e Karzai obteve 4,3 milhões dos 8,1 milhões de votos expressos, vencendo em 21 províncias.

  Para a votação de quinta-feira - que exclui mais de 800 mil refugiados no Irão e milhão e meio de deslocados no Paquistão -, o número de recenseados atinge os 16,6 milhões, 35% dos quais mulheres. Como a inscrição nos cadernos eleitorais é efectuada voluntariamente e, quase sempre, por homens que declaram o número de mulheres maiores de 18 anos a seu cargo sem verificação das declarações, é elevado o número de eleitores-fantasma e omnipresente a eventualidade de fraude. Só a análise dos resultados oficiais, com divulgação prevista para 17 de Setembro, permitirá apurar os níveis de real participação e de fraude eleitoral.

  Ao invés do que aconteceu em 2004, os taliban tentam desta vez impedir a votação e o primeiro e mais óbvio sinal da força da guerrilha terá a ver com o número de locais de voto que venham a funcionar. Na véspera da votação, a Comissão Eleitoral de Cabul previa que cerca de 10% dos 7 mil centros de votação, sobretudo no Sul do país, não conseguissem reunir condições de segurança.

  As eleições correm o risco de vir a dar uma nova vida a uma administração ineficaz, corrupta e disfuncional, assente na partilha de poderes com senhores da guerra e líderes tribais, que em nada facilitará um esforço de guerra ocidental capaz de conter os taliban ou grupos islamitas como a Hizb-e-Islami, de Gulbuddin Hekmatyar. 

Jornal de Negócios
19 Agosto 2009

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Outro Agosto no Cáucaso

 

  Um ano volvido Mikhail Saakashvili subsiste como presidente desacreditado da Geórgia, a Ossétia do Sul e a Abkázia estão sob tutela de Moscovo, enquanto a União Europeia e a NATO se conformaram à imposição pela força da doutrina dos interesses privilegiados da Rússia no Cáucaso.

  Da guerra de Agosto sobrou o putativo estado independente da Ossétia do Sul, de facto cada vez mais dependente da república da Ossétia do Norte e a caminho da integração na Federação Russa, e uma Abkázia dita soberana que oferece a sua costa do Mar Negro a Moscovo a troco da segurança contra o revanchismo georgiano.

   Os nacionalistas de Tbilissi tinham falhado nas guerras que se arrastaram entre 1989 e 1992 a imposição do domínio georgiano em grande parte das duas regiões, mas foi o aventureirismo de Saakashvili a consumar a sua perda irremediável.

Um imperativo estratégico
   Ao atacar a Ossétia do Sul, conforme insinuara desde a sua eleição em 2004, Saakashvili perdeu-se num crescendo de provocações de parte a parte e forneceu o pretexto com que Moscovo contava para uma intervenção militar.

   Vladimir Putin e Dmitri Medvedev tiveram a sua oportunidade para refazer a contento de Moscovo as fronteiras do Cáucaso Meridional e marcar o momento em que inverteram a tendência de refluxo estratégico da Rússia.

   A Rússia reforçou ainda subsidiariamente a pressão sobre o reticente  Arzebeijão em conflito com uma Arménia pró-russa, mas tentando normalizar relações com a Turquia, por causa do estatuto do enclave de Nagorno Karabach (situado em território azeri e controlado pelos arménios desde 1994).

   A entrada formal na esfera de influência russa da Ossétia do Sul - separada de facto desde 1992 de Tbilissi - e da Abkázia, que com os seus 250 mil habitantes seguira o mesmo caminho em 1993, pôs termo a qualquer veleidade de integração da Geórgia na NATO.

  Para a Geórgia sobrou um litígio de fronteiras que perdurará por longo tempo, a reclamação de indemnizações ou direito de retorno para 250 mil georgianos desalojados das duas regiões nas guerras do início dos anos 90 e a sorte ingrata de mais de 20 mil portadores de passaportes de Tbilissi perdidos entre 55 mil ossetas.

  Nenhum compromisso será viável a curto prazo e a memória dos irredentismos nacionais e étnicos perdurará por décadas como já ficara patente noutro exemplo do início dos anos 90, quando Tbilissi recusou o retorno dos sobreviventes e descendentes dos 120 mil turcos georgianos da região da Meskhetia deportados por Stalin para a Ásia Central em 1944.

  Mais a norte, Razam Kadirov está longe de tornar respeitável a Tchetchénia, nas vizinhas repúblicas da Ingushétia e do Daguestão organizações radicais islamitas num cenário de corrupção e violência ameaçam o flanco sul da Rússia, mas a soberania de Moscovo não sofre contestação internacional.

  A sumária guerra de Agosto deixou, ainda, um aviso para a Moldova em "conflito congelado" com os separatistas russos da Transdnistria, além de uma séria advertência para Kiev sob a eventual ameaça de contestação ou secessão por parte da maioria russófona das regiões orientais da Ucrânia e na península da Crimeia partilhada por ucranianos, russos e tártaros.

Dos gasodutos às esferas de influência



   Dos idos de Agosto o pretexto dos passaportes russos concedidos a ossetas serviu para reiterar, também, a declaração por Moscovo do direito de intervenção em defesa dos 25 milhões de russos residentes nos estados que se tornaram independentes após a desagregação da União Soviética.

  No Báltico, estónios, letões e lituanos, integrados na NATO e na União Europeia, podem tomar as declarações do Kremlin como bravata e meio de pressão, mas da Ucrânia ao Cazaquistão tornou-se mais presente o risco de possíveis conflitos por via do estatuto das minorias russas.

   Na União Europeia, na Turquia, no Irão e nos Estados Unidos, a guerra de Agosto foi sobretudo encarada sob o prisma dos gasodutos.
 
   Moscovo ganhou mais trunfos para a concretização do "South Stream" no Mar Negro à custa do "Nabuco", via Arzebeijão, Geórgia e Turquia, cujo consórcio formalizado em Julho está longe de ter garantidos abastecimentos do Iraque e do Mar Cáspio.

   As rotas dos gasodutos no Cáucaso e no Mar Negro foram efectivamente um dos factores essenciais na guerra de Agosto e a persistente dependência russa das exportações de hidrocarbonetos (tendo por reverso, a falta de alternativas imediatas da União Europeia que recebe da Rússia 40 % do gás natural que consome) é sinal da fragilidade estrutural das pretensões do Kremlin.

   Com uma economia pouco diversificada, assente nos hidrocarbonetos, e uma demografia em curva descendente acelerada, maior é, no entanto, a necessidade para o Kremlin de fazer valer a sua doutrina de interesses privilegiados.

   Impor o reconhecimento de áreas de influência privilegiada e conter a expansão da NATO que, na sequência da unificação alemã de 1990, já conseguira absorver em 2004 os três estados bálticos anexados pela União Soviética após o pacto Stalin-Hitler de 1939 além de países membros do antigo Pacto de Varsóvia, eram os objectivos essenciais do Kremlin quando ripostou à aguardada investida militar de Saakashvili.

   A intervenção russa na Ossétia do Sul contra a Geórgia foi, igualmente, justificada pelo imperativo de responder à declaração de independência do Kosovo em Fevereiro de 2008 que tinha levado o então presidente Putin a exigir "princípios únicos e universais" na resolução de conflitos étnico-nacionais.  

  Em Agosto de 2008 Moscovo cumpriu ameaças por muito tempo ignoradas.

  O Kremlin pôs a claro os limites da capacidade do bloco ocidental em defesa de potenciais aliados no Cáucaso e pôs em xeque uma Ucrânia dividida face a uma eventual adesão à NATO.

   A primeira guerra do presidente Medvedev foi a melhor guerra de sempre de Vladimir Putin.

   Todos, da China aos Estados Unidos, tomaram nota; muitos, da Ásia Central ao Mar Negro, refizeram cálculos sobre as relações de força.

  A Rússia ganhou uma guerra para se dar ao respeito, mas não fez sequer nem mais um amigo.

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A tentação militar na Líbia





    A guerra civil na Líbia está num impasse e as ameaças de intervenção militar de estados europeus e de Washington poderão tornar ainda mais complicada uma situação caótica.
   As forças rebeldes aparentam não ter capacidade militar para derrubar Gadaffi que se mantém entrincheirado em Tripoli, controla boa parte do ocidente do país e o porto de Sirte a meio caminho entre a capital e Benghazi.

   As tropas, milícias e mercenários do coronel não conseguem, por sua vez, lançar uma ofensiva para recuperar as cidades perdidas no leste do país.

   Gadaffi é ainda senhor de Sabha, a principal cidade na margens do Saara, mas a maior parte dos desertos do sul são domínio de tuaregues e outras tribos de fidelidades indefinidas.

   Vários políticos reivindicam em Benghazi representar um governo provisório ou um conselho nacional como alternativa a Gadaffi, mas não existe uma liderança política que possa ser reconhecida internacionalmente como representativa de uma qualquer futura autoridade de transição.

   As sanções internacionais aprovadas contra Gadaffi só surtirão efeito a prazo apesar de limitarem no imediato a capacidade do coronel para mobilizar recursos financeiros e militares e sirvam igualmente para fomentar deserções entre os seus fiéis.

                                        O dedo no gatilho

   À medida que se agravam a crise humanitária provocada pela fuga de trabalhadores imigrantes para o Egipto e a Tunísia e a ameaça de uma vaga de clandestinos cruzarem o Mediterrâneo, além de se acentuar a quebra nas exportações de petróleo e gás natural, surge a tentação de intervir militarmente na Líbia.

   Numa primeira fase apoiar militarmente diversas e conflituosas facções anti-Gadaffi em Benghazi e no leste da Líbia é a óbvia opção numa momentânea convergência de interesses estrangeiros - alguns países da União Europeia, os Estados Unidos e mesmo a China - para precipitar a queda do coronel.

   A França adiantou-se no envio de auxílio humanitário para Benghazi, enquanto conselheiros militares e operacionais de diversos serviços secretos se fizeram ao terreno, mas nenhuma pressão, mediação ou patrocínio estrangeiros têm hipóteses de sustentar uma frente unitária que só virá eventualmente a ganhar corpo mediante negociações e confrontos entre as facções líbias anti-Gadaffi.

   Armar grupos que não se controlam, de orientações políticas incertas e entre os quais se contam também islamitas radicais é, por outro lado, um tiro no escuro com efeito ricochete garantido.

   Da longínqua Austrália, pela voz do ministro dos negócios estrangeiros Kevin Rudd, surgiu o mote para a União Europeia - que falhou no essencial todas as políticas de cooperação com os estados do Magrebe - e Washington - outro caso de embaraço diplomático do Bahrein ao Egipto - começarem a admitir a hipótese de intervenção militar na Líbia, enquanto Moscovo foi célere no seu "nyet".

                                      Um risco excessivo

    A imposição de zonas de exclusão aéreas sem cobertura legal da ONU - concedida de forma indiscutível no caso da Bósnia-Herzegovina de 1993 a 1995 e controversa quanto ao Iraque entre 1992 e 2003 - e, tendo em conta que quem terá de tirar as castanhas do lume serão em primeiro lugar os estados europeus mais expostos aos riscos da Líbia, representa uma tentação por demais excessiva.

    Independentemente do Tribunal Penal Internacional puder vir a tipificar as acções de Gadaffi como crimes contra a humanidade ou crimes de guerra, a entrada no conflito de forças militares estrangeiras representa para todos os efeitos a intervenção numa guerra civil.

    Uma incursão militar com participação britânica, italiana e francesa nunca deixaria de ser vista como a mais cínica contrição de pecados por parte de antigos prevaricadores e parceiros económicos de Gadaffi.

    O contributo dos Estados Unidos para uma acção militar geraria uma onda de protestos contra Washington que até agora esteve ausente das revoltas árabes.

                                 Operação morosa e arriscada

    Para ser eficaz uma acção desse tipo (com prazo impossível de prever) teria, após definir com precisão as áreas alvo de vigilância e actuação, de impor zonas de exclusão aérea a todos aviões e helicópteros militares além de voos civis não-autorizados.

    O objectivo da operação não é claro e, no imediato, zonas de exclusão aérea apenas consolidariam as linhas de fractura existentes entre os beligerantes.

    Aguardar, depois, que protestos, revoltas, atentados e deserções acabem por reduzir cada vez mais as zonas sob controlo de Gadaffi deixa no escuro as condições em seria eventualmente prestado apoio militar no caso do coronel continuar a reprimir os opositores.

    Sem o contributo dos estados vizinhos - Egipto, Tunísia e Argélia - e limitada a bases em Malta, Chipre, Grécia e Itália, contando com a oposição de estados da NATO como a Turquia, o cunho unilateral da intervenção teria custos políticos e diplomáticos superiores a qualquer ganho imediato

    A eficácia da intervenção implicaria ainda alargar o âmbito das operações de forma a interditar a movimentação de tropas e equipamento militar no solo (basta lembrar que o massacre de Srebrenica em Julho de 1995 ocorreu apesar da zona de exclusão aérea da NATO e mesmo da presença de capacetes azuis no terreno) além de obrigar a bloquear surtidas da marinha fiel a Gadaffi e monitorizar o tráfego marítimo.

    A mobilização de meios seria necessariamente significativa e obrigaria a coordenar operações com facções anti-Gadaffi com a consequência de enlear desde logo forças estrangeiras nos conflitos que irão prosseguir após a queda de Tripoli.

    O risco de confrontos directos com apoiantes de Gadaffi numa situação de guerra implicaria também reavivar fúrias de todo o tipo contra o que seria visto por muitos como mais uma investida imperalista em terras árabes.

    O risco de uma intervenção militar é excessivo, certamente contraproducente, e a maior parte das opções que restam são más, mas as coisas são o que são.

                             A inevitável turbulência

    A guerra civil na Líbia seguirá o seu curso e, porque o petróleo encarece e os temores de outras sublevações em estados produtores estão bem vivos, a confluência de interesses contra Gadaffi acabará por prevalecer.

    Na Líbia, tal como no Iémen, as estruturas do estado são demasiado frustes e a ruptura dos equilíbrios e fidelidades tribais degeneram em guerras civis e movimentos separatistas.

    A turbulência e violência na Líbia persistirão depois da queda da Gadaffi, mas, tal como noutros estados árabes, tudo isso é parte de um ciclo imprevisível de conflitos a que as autocracias do Médio Oriente não podem escapar.


Jornal de Negócios
02 Março 2011

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Afeganistão: à espera da Primavera

  Helmand, Afeganistão


   Enlear-se numa guerra no Afeganistão sem objectivos claros no meio de uma crise económica e financeira é a última coisa de que precisam os Estados Unidos e os seus aliados europeus, canadianos e australianos.

   A ineficácia e corrupção da administração do presidente Hamid Karzai, a insuficiência de efectivos militares e de meios financeiros para a reconstrução de um país devastado por 30 anos de guerra conduziram a um impasse.

   Os aliados, com apenas cerca de 70 mil homens no terreno, não têm condições para assegurar o controlo das províncias de maioria pashtun do sul e leste do Afeganistão e ao optarem pelo recurso sistemático a ataques aéreos reforçaram a hostilidade das populações nas áreas mais sujeitas à presença dos talibans.

                           Uma guerra cada vez mais sangrenta

   A ONU estima que no ano passado, o mais sangrento desde a invasão de 2001, o número de vítimas civis tenha aumentado 39% em relação a 2007, cifrando-se em 2.119 mortes.

   Os talibans teriam causado 55% das baixas civis, mas os ataques aéreos da NATO e dos Estados Unidos seriam responsáveis por 455 mortes, apesar dos aliados reconhecerem apenas 237 vítimas.

  O agravamento da situação deu origem a críticas públicas de responsáveis norte-americanos e da NATO a Karzai, enquanto o presidente afegão exige que parem os ataques aéreos e as forças aliadas cooperem plenamente com os cerca de 80 mil homens do exército nacional não se envolvendo, designadamente, em buscas e interrogatórios não autorizados de civis.

  Numa altura em que se agrava a crise constitucional provocada pelo adiamento das eleições presidenciais para Agosto, quando o mandato de Karzai termina em Maio, o claro distanciamento entre os aliados e o presidente abriu caminho para a escolha de um sucessor que terá de ser aceitável para as tribos pashtun (cerca de 40% da população) e para as minorias tadjiques (aproximadamente 27% dos habitantes do Afeganistão), além de hazaras, uzbeques e turcomenos.

   Na expectativa de um recrudescimento dos combates no início da Primavera, as negociações políticas entre as facções afegãs e a recandidatura de Karzai estão dependentes da estratégia que os aliados venham a definir na cimeira da NATO de Abril.

                                            Irredutíveis pashtun

   Os talibans, nomeadamente a frente liderada pelo Mullah Omar e as forças comandadas por Jalauddin Haqqani, recusam quaisquer conversações, e só alguns comandantes islamitas isolados, designadamente na província de Helmand, aceitaram até agora tréguas a troco de assumirem o controlo das suas áreas de influência.

   Acordos pontuais fomentados, ora pelas forças aliadas, ora pelo governo de Cabul, têm permitido a milícias tribais e às forças dos chamados "senhores da guerra" controlarem vastas áreas territoriais.

   A produção de ópio diminuiu 19% no ano passado em relação a 2007, mas continua a ser suficiente para financiar o esforço de guerra dos talibans e alimentar a corrupção dos poderes públicos.

   Restrito presentemente a 12 das 34 províncias do país, o cultivo de ópio é também motivo de divergências entre os aliados (norte-americanos e britânicos consideram a erradicação um objectivo imediato ao contrário da maior parte dos demais contingentes da NATO) e as autoridades afegãs.

   Pelo menos 15% dos 32 milhões de afegãos dependem do cultivo de ópio e as políticas de substituição de culturas têm produzido resultados limitados, enquanto persistem desacordos sobre a viabilidade de programas de compra directa das colheitas aos produtores, legalizando a principal fonte de rendimento dos camponeses, sobretudo em Helmand e noutras províncias do sul.

   A irredutível resistência dos talibans pashtun no sul e no leste do Afeganistão é inseparável da rebelião islamita e tribal no Paquistão e o consenso entre os aliados é de que só acordos políticos, mitigando os apoios além fronteiriços, poderão evitar um agravamento da situação militar.

                                       O futuro da guerra

   Paquistaneses e indianos favorecem facções rivais no Afeganistão, mas, tal como a China e o Irão, têm interesse na viabilização de gasodutos, oleodutos e rotas comerciais que implicam a pacificação do território afegão.

   Negociações envolvendo paquistaneses, indianos, chineses e iranianos, além das repúblicas da Ásia Central onde a Rússia tem ascendente, são um pressuposto para a estabilização do Afeganistão, mas dependem da contenção dos talibans que no ano passado infligiram mais de 290 baixas aos aliados.

   A administração Obama considera duplicar o contingente norte-americano com mais 30 mil homens (o máximo reforço possível dadas as limitações orçamentais e humanas das forças armadas de Washington e ainda assim dependente da redução da presença no Iraque), mas conta com escasso apoio dos aliados.

   Mesmo um reforço dos 1 100 homens do contingente australiano não compensará a retirada de tropas canadianas e holandesas, ao mesmo tempo que a maior parte dos membros da NATO dificilmente mobilizarão mais de 10 mil militares para o cenário de guerra no Afeganistão.

   Um total de 100 mil homens é ainda insuficiente.

   Treinar e financiar o exército afegão para que chegue aos previstos 130 mil efectivos, encetar acções ofensivas no sul e leste do país e manter simultaneamente condições de segurança para projectos de desenvolvimento (para os quais não existem verbas, nem meios humanos) são objectivos que ultrapassam os meios previsivelmente disponíveis.

  O objectivo essencial de um reforço militar parece assim limitar-se a conter o alastramento e intensificação das ofensivas talibans de forma a criar condições diplomáticas para envolver os países vizinhos em negociações.

   A deriva islamita dos pashtun no Paquistão não augura, no entanto, hipóteses de sucesso a curto prazo para a estabilização do Afeganistão mesmo numa variante minimalista em que o governo de Cabul seja reconhecido como autoridade simbólica nos principais centros urbanos e entre as minorias étnicas.

   Um reforço militar implica no imediato uma intensificação dos combates e um aumento das vítimas civis, sem contrapartida na melhoria na oferta de equipamentos e serviços às populações, e poderá contribuir para uma alienação ainda maior dos pashtun.

   O que acontecer esta Primavera determinará o futuro da guerra no Afeganistão.

   Se os Estados Unidos e a NATO não conseguirem conter a guerrilha taliban, a vontade política para prosseguir o esforço de guerra e investir na reconstrução do Afeganistão claudicará irremediavelmente.



Jornal de Negócios
18 Fevereiro 2009

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