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Carme Chacón na base militar de Djakoviva, Kosovo
Madrid conseguiu em poucos dias indispor os seus aliados da NATO e, em particular os Estados Unidos, com o anúncio intempestivo da retirada do contingente espanhol do Kosovo num caso exemplar de incompetência diplomática.
A ministra da Defesa Carme Chacón anunciou na passada quinta-feira, durante uma visita às tropas espanholas no Kosovo, que os militares estariam de regresso a casa antes de acabar o próximo Verão.
No dia seguinte, o Departamento de Estado norte-americano declarou-se "profundamente desapontado" e em Bruxelas o secretário-geral da NATO, Jaap de Hoop Scheffer, lamentou que a Espanha não tivesse procedido a consultas com os demais 25 aliados.
Retirar sem olhar a consequências
A ministra da Defesa Carme Chacón anunciou na passada quinta-feira, durante uma visita às tropas espanholas no Kosovo, que os militares estariam de regresso a casa antes de acabar o próximo Verão.
No dia seguinte, o Departamento de Estado norte-americano declarou-se "profundamente desapontado" e em Bruxelas o secretário-geral da NATO, Jaap de Hoop Scheffer, lamentou que a Espanha não tivesse procedido a consultas com os demais 25 aliados.
Retirar sem olhar a consequências
O anúncio de retirada unilateral foi confirmado segunda-feira com a precisão de que "o grosso do contingente" de 632 militares abandonaria o Kosovo até final de Setembro e que a saída das tropas seria coordenada com os outros Estados da NATO presentes no território no âmbito da missão da KFOR (apenas a Islândia não se encontra representada).
O governo de Madrid justificou a retirada por não se considerar vinculado a tarefas de criação e consolidação de instituições de defesa de um Estado cuja declaração de independência unilateral de Fevereiro de 2008 não reconhece.
O chefe da diplomacia espanhola Miguel Moratinos tinha, contudo, reiterado a 5 deste mês que a Espanha manteria a sua presença no Kosovo e que participaria nas discussões sobre uma eventual redução da missão da KFOR (que conta com cerca de 15.450 militares) de forma a contribuir para um consenso sobre a matéria na próxima cimeira da NATO agendada para 3 e 4 de Abril.
A reviravolta espanhola colocou numa situação delicada a Roménia, a Grécia e a Eslováquia que, apesar de também não reconhecerem a independência do Kosovo participam na KFOR, e rompeu com o consenso de que uma redução da missão da NATO só seria considerada caso as condições políticas e de segurança no território fossem tidas por satisfatórias.
À KFOR, presente no Kosovo desde Junho de 1999 ao abrigo da Resolução 1244 do Conselho de Segurança, veio juntar-se em Dezembro último, também com aval da ONU, a missão da União Europeia, a EULEX (sem participação da Espanha), essencialmente administrativa, policial e judiciária, que conta já com 1.687 membros e emprega 806 funcionários locais.
Um impasse para durar
O governo de Madrid justificou a retirada por não se considerar vinculado a tarefas de criação e consolidação de instituições de defesa de um Estado cuja declaração de independência unilateral de Fevereiro de 2008 não reconhece.
O chefe da diplomacia espanhola Miguel Moratinos tinha, contudo, reiterado a 5 deste mês que a Espanha manteria a sua presença no Kosovo e que participaria nas discussões sobre uma eventual redução da missão da KFOR (que conta com cerca de 15.450 militares) de forma a contribuir para um consenso sobre a matéria na próxima cimeira da NATO agendada para 3 e 4 de Abril.
A reviravolta espanhola colocou numa situação delicada a Roménia, a Grécia e a Eslováquia que, apesar de também não reconhecerem a independência do Kosovo participam na KFOR, e rompeu com o consenso de que uma redução da missão da NATO só seria considerada caso as condições políticas e de segurança no território fossem tidas por satisfatórias.
À KFOR, presente no Kosovo desde Junho de 1999 ao abrigo da Resolução 1244 do Conselho de Segurança, veio juntar-se em Dezembro último, também com aval da ONU, a missão da União Europeia, a EULEX (sem participação da Espanha), essencialmente administrativa, policial e judiciária, que conta já com 1.687 membros e emprega 806 funcionários locais.
Um impasse para durar
Independentemente de outras mudanças de posição, caso de Portugal que em Outubro do ano passado decidiu reconhecer a independência do Kosovo, a antiga província controlada por Belgrado ainda só estabeleceu relações diplomáticas com 56 países.
Treze meses passados sobre a declaração de independência mantém-se a oposição de Estados como a Rússia, a China, o Brasil, a África do Sul e a maioria dos países islâmicos ao reconhecimento do Kosovo.
A esperada decisão não-vinculativa do Tribunal Internacional de Justiça sobre a legalidade da declaração, votada por iniciativa da Sérvia pela assembleia-geral da ONU em Outubro de 2008 (a Espanha foi um dos 77 Estados a votar a favor e Portugal um dos 74 que se abstiveram), não deverá trazer alterações de maior à actual relação de forças, tanto mais que a tensão entre a minoria sérvia e a maioria albanesa no Kosovo não dá sinais de diminuir.
A iniciativa espanhola foi criticada internamente pelos principais partidos da oposição devido à forma inesperada, descoordenada (sem informação prévia sequer à embaixada em Washington) e ao arrepio de compromissos anteriores que caracterizou a actuação dos ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros.
O governo de Madrid acabou por tornar inopinadamente um assunto menor e relativamente consensual - o Partido Popular deplorou a independência unilateral que só contou com o apoio de nacionalistas bascos e catalães - num caso de discórdia partidária.
Para piorar as coisas e à procura de alguma forma de compensação o governo de José Luis Zapatero veio, entretanto, afirmar a disponibilidade para reforçar a sua presença no Afeganistão, onde tem 800 militares, se os Estados Unidos lhe endereçarem um pedido nesse sentido, apesar de ter repetidamente afirmado em ocasiões anteriores que estava fora de questão reforçar o contingente na Ásia Central.
O anúncio da retirada do Kosovo, apesar de ter um significado diferente da saída das tropas espanholas do Iraque em 2004 depois da vitória eleitoral socialista, veio pôr em causa a credibilidade da diplomacia espanhola que não mediu as consequências da sua decisão, desprezou os interesses de diversos estados aliados e ignorou os procedimentos de consultas no seio da NATO. Um verdadeiro tiro no pé que Madrid irá pagar caro.
Treze meses passados sobre a declaração de independência mantém-se a oposição de Estados como a Rússia, a China, o Brasil, a África do Sul e a maioria dos países islâmicos ao reconhecimento do Kosovo.
A esperada decisão não-vinculativa do Tribunal Internacional de Justiça sobre a legalidade da declaração, votada por iniciativa da Sérvia pela assembleia-geral da ONU em Outubro de 2008 (a Espanha foi um dos 77 Estados a votar a favor e Portugal um dos 74 que se abstiveram), não deverá trazer alterações de maior à actual relação de forças, tanto mais que a tensão entre a minoria sérvia e a maioria albanesa no Kosovo não dá sinais de diminuir.
A iniciativa espanhola foi criticada internamente pelos principais partidos da oposição devido à forma inesperada, descoordenada (sem informação prévia sequer à embaixada em Washington) e ao arrepio de compromissos anteriores que caracterizou a actuação dos ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros.
O governo de Madrid acabou por tornar inopinadamente um assunto menor e relativamente consensual - o Partido Popular deplorou a independência unilateral que só contou com o apoio de nacionalistas bascos e catalães - num caso de discórdia partidária.
Para piorar as coisas e à procura de alguma forma de compensação o governo de José Luis Zapatero veio, entretanto, afirmar a disponibilidade para reforçar a sua presença no Afeganistão, onde tem 800 militares, se os Estados Unidos lhe endereçarem um pedido nesse sentido, apesar de ter repetidamente afirmado em ocasiões anteriores que estava fora de questão reforçar o contingente na Ásia Central.
O anúncio da retirada do Kosovo, apesar de ter um significado diferente da saída das tropas espanholas do Iraque em 2004 depois da vitória eleitoral socialista, veio pôr em causa a credibilidade da diplomacia espanhola que não mediu as consequências da sua decisão, desprezou os interesses de diversos estados aliados e ignorou os procedimentos de consultas no seio da NATO. Um verdadeiro tiro no pé que Madrid irá pagar caro.
Jornal de Negócios
25 Março 2009
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