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domingo, 2 de setembro de 2012

O desafio turco

 
 
   Muito para além do desafio de sábado*, a Turquia persistirá como uma das questões mais intratáveis com que se defrontam Portugal e os seus parceiros europeus. As negociações sobre a eventual adesão da Turquia à União Europeia começaram em Outubro de 2005, mas até agora apenas foi aberta a discussão de seis dos 35 capítulos do processo formal.
 
   Este mês poderá iniciar-se a análise dos “dossiers” de propriedade intelectual e direito das sociedades, mas a negociação de outros oito capítulos continua suspensa desde o final de 2006, devido à recusa de Ancara em abrir portos e aeroportos ao comércio com Chipre.

   Ao contrário das agruras turcas, a Croácia que iniciou também em 2005 as suas negociações com Bruxelas tem, pelo contrário, a expectativa de formalizar a adesão dentro de dois, ou no máximo, três anos.

   Os bloqueios nas negociações da UE com a Turquia estão patentes nos debates sobre revisão da Constituição francesa.

A oposição total da França

   Os deputados franceses aprovaram na semana passada uma emenda constitucional que obriga à convocação obrigatória de um referendo para a entrada de qualquer estado que represente mais de cinco por cento da população da União Europeia, ou seja, países com mais de 25 milhões de habitantes.

   Na mira ficam de imediato a Turquia (presentemente com 71 milhões de habitantes), mas também a Ucrânia (46 milhões) e até a Argélia ou Marrocos, como declarou um dos proponentes da emenda.

   Caiu assim por terra uma proposta do presidente Nicolas Sarkozy que visava eliminar o referendo obrigatório a futuras adesões à União Europeia (excepção feita à Croácia), introduzido pelo seu antecessor Jacques Chirac, em 2005, nas vésperas da votação da malograda Constituição Europeia.

    Sarkozy queria ter margem de manobra para que futuras adesões pudessem ser aprovadas por via de referendo ou através de voto parlamentar, mas uma revolta de deputados do seu partido, a União para um Movimento Popular, obrigou a esta solução de compromisso.

   Agora, caso a emenda não venha a conseguir uma maioria de 2/3 da Assembleia Nacional e do Senado na votação agendada para Julho, permanecerá em vigor a disposição de referendo obrigatório para qualquer novo alargamento da União Europeia após a entrada da Croácia.

    Sarkozy opõe-se à adesão da Turquia, mas queria espaço negocial para outros casos, em particular a desejada entrada na União Europeia de países dos Balcãs como a Macedónia, a Sérvia, a Bósnia-Herzegovina, o Montenegro, e, posteriormente, a Albânia, além do problemático Kosovo.

   Toda a negociação será sempre mais difícil no caso da adesão da Turquia, ou futuramente da Ucrânia, passar por referendo em França, onde, tal como na Alemanha, na Áustria ou na Grécia, maiorias consistentes do eleitorado se pronunciam sucessivamente contra a eventual entrada turca na União.

   Para fechar em absoluto as portas à Turquia, a direita francesa acabou também por dificultar futuras negociações com os estados balcânicos e a Ucrânia.

O desconcerto negocial

   Na Turquia, uma sondagem realizada em Maio indicava que 62 % do eleitorado apoiava a adesão, enquanto 27% se manifestava contra, mantendo-se, provavelmente, a percepção maioritária detectada em anteriores inquéritos de que a União Europeia seria a principal beneficiária da entrada do país no bloco.  

   Apesar das taxas de aprovação terem caído dos picos de 2/3 registados antes da abertura formal das negociações para mínimos de 30 por cento em 2006, o apoio do eleitorado turco à adesão volta a ser muito alto.

   Umas razões para tal apoio numa conjuntura negocial negativa pode encontrar-se nos temores criados pela grave crise política que avassalará a Turquia na eventualidade provável de o Tribunal Constitucional de Ancara interditar o Partido da Justiça e Desenvolvimento do primeiro-ministro Tayyip Erdogan e do presidente Abdullah Gul, tal como aconteceu à organização antecessora islamita em 2001.

   A percepção de que o processo negocial com a União Europeia promove a democratização e estabilidade política será possivelmente uma das explicações para o retorno de uma vaga de apoio à adesão por parte do eleitorado turco, apesar de a próxima presidência francesa apontar para mais um ponto baixo nas relações com Bruxelas.

   Tendo nos 27 o seu principal mercado (56% das exportações e 41% das importações) e na Europa o destino migratório por excelência (com mais de três milhões de emigrantes na Alemanha), a Turquia encontra-se vinculada à União Europeia, mas a real possibilidade de uma adesão, desejada para 2013 pelos governantes de Ancara, é cada vez mais remota.

    Do estatuto das minorias, à polémica laicidade/islamismo, passando pela democraticidade das instituições e o contencioso de Chipre, os problemas e temores (sobretudo religiosos e demográficos) levantados pela eventual entrada da Turquia na União aparentam pôr em causa as vantagens da integração de um estado de maioria muçulmana com uma posição estratégica no Médio Oriente e no Mar Negro.

   A margem de manobra negocial de Bruxelas e Ancara está muito constrangida pela oposição declarada da direita francesa à entrada de Turquia na União que acaba de demonstrar, mais uma vez, a impossibilidade prática de concretizar a adesão na próxima década.

   Ainda antes do grupo de reflexão liderado por Felipe González apresentar ao Conselho Europeu de Junho de 2010 o seu relatório sobre os desafios e prioridades da União para as próximas duas décadas o bloqueio na questão essencial do alargamento europeu à Turquia é já uma realidade.

    As negociações terão de enveredar por uma rota formal em que está em discussão a integração da Turquia, mas, na prática, deverão servir para definir os termos de uma parceira especial que minimize os efeitos negativos da recusa de uma adesão formal de Ancara.

* Referência à partida Portugal-Turquia (2-0) de 8 de Junho, em Genebra, da Fase de Grupos do Europeu de Futebol


Jornal de Negócios
04 Junho 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=319120

Escândalo político - curso intensivo



   Por cá, por enquanto, não chegámos a tanto, mas em Paris o presidente da república acusa um ex-primeiro-ministro de conspirar para o caluniar com documentos falsos, ainda que o processo passe por uma acusação do ministério público sobre "cumplicidade em denúncia caluniosa", "abuso de confiança" e "utilização de documentos falsos".

   Dominique de Villepin arrisca até cinco anos de prisão e uma multa de 45 mil euros se o julgamento que começou esta semana der como provado que foi cúmplice com outros quatro acusados de envolvimento numa escabrosa cabala datada dos idos de 2004, quando a sua rivalidade com Nicolas Sarkozy estava ao rubro.

   Villepin chefiava então a diplomacia francesa e era o favorito do presidente. Jacques Chirac suportava a contra-gosto Sarkozy, seu ministro do interior, desde que este apoiara, em 1994, a candidatura ao Eliseu de Édouard Balladur.

                                          Uma lista suspeita

   O vice-presidente da European Aeronautic Defence and Space Company, Jean-Louis Gregorian, envolvido em disputas com outros dirigentes da empresa, aproveitou ou inspirou na ocasião a falsificação de documentos sobre um velho escândalo: as comissões e luvas pagas pela venda de fragatas francesas a Taiwan no longínquo ano de 1991.

   O escândalo das fragatas fez época, contribuiu para a derrocada do governo nacionalista de Taipé e gerou inquéritos diversos sempre limitados pela invocação do segredo de estado em França.

   No rescaldo 13 pessoas foram presas em Taipé, três envolvidos suicidaram-se em circunstâncias dúbias e um oficial da marinha de Taiwan foi assassinado por desconhecidos, mas em França as investigações revelaram-se inconclusivas.

  Sobrou, no entanto, o apuro de que mais de 450 milhões de euros tinham sido pagos a intermediários desconhecidos.

   No início de 2004 chegou às mãos de Villepin, por cortesia de Gregorian, uma lista com nomes de alegados beneficiários das luvas das fragatas. Tudo gente da alta roda, da actriz Laetitia Casta ao traficante de armas Arkady Gaydamak, passando pelo antigo presidente da Thomson Alain Gomez e políticos como Dominique Strauss-Kahn e Laurent Fabius, que alegadamente figurava num rol da sociedade financeira do Luxemburgo Clearstream.

   Sarkozy era um dos visados e Villepin incumbiu um antigo responsável dos serviços secretos, o general Phillippe Rondot, de abrir uma investigação ao mesmo tempo que fazia chegar à praça pública através de bem calculadas fugas de informação os nomes dos alegados abusadores do escândalo das fragatas.

   A lista era uma falsificação, e um tortuoso inquérito da procuradoria acabou por acusar Villepin de ter ordenado investigações e fugas de informação, tendo conhecimento de se tratarem de documentos falsos, para comprometer Sarkozy com o intuito de conseguir a nomeação a candidato presidencial pela "União Para Um Movimento Popular" na eleição de 2007.

                                       O açougue e o matador

   Em Janeiro de 2006, quando era ainda ministro do Interior, Sarkozy constituiu-se em parte civil e fez saber de forma lapidar que queria ver pendurados num gancho de talhante os responsáveis pelas calúnias.

    Alegações diversas indiciam, por seu turno, que Sarkozy estava a par da manobra de Villepin, mas jogou no contra-ataque aproveitando-se da situação para passar por vítima e comprometer o então primeiro-ministro.

   Na Grand Chambre do Palácio da Justiça, onde Maria Antonieta foi condenada à guilhotina em 1793, o julgamento assume todas as características de um processo político e Villepin defende-se, dizendo que agiu de boa-fé e negando qualquer envolvimento nas falsificações.

   O rival de Sarkozy contesta ainda que um presidente em exercício se possa apresentar como queixoso dado que como chefe de estado preside ao Supremo Conselho da Magistratura, além de gozar de imunidade.

   Sarkozy afirma, por sua vez, que, tal como outros 40 queixosos no processo, tem direito ao bom-nome e que não está acima, nem abaixo da lei.

  O processo Clearstream, pode, em boa verdade, ser tido como um curso para alunos avançados em matéria de calúnia e manobra de baixa política e bem merece ser esmiuçado em Portugal pelos estados maiores partidários, Governo e Presidente, além, naturalmente, de humoristas inspirados.

Jornal de Negócios
23 Setembro 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=387927