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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

007 por controlo remoto





   Uma arrepiante carência de controlos institucionais caracteriza a condução de operações militares anti-terroristas nos Estados Unidos, conforme ficou patente na audiência no Senado para confirmação do novo director da CIA John Brennan.

   Obama expandiu o programa de ataques com Veículos Aéreos Não-Tripulados (VANT) lançado pela administração Bush, deixando à discrição dos comandos militares e da CIA o assassínio de suspeitos terroristas no estrangeiro na condição de minizarem o mais possível danos colaterais.

   O parecer de justificação legal da Casa Branca do “assassínio selectivo” em Setembro de 2011 de Anwar Al Awlaki, nascido no Novo México e um dos principais operacionais da Al Qaeda no Iémen, alarga desmesuradamente as condições em que pode ser dada “ordem para matar”.

   Mesmo no caso de cidadãos norte-americanos a eliminação física de “líderes operacionais” da Al Qaeda ou organizações associadas só é constrangida pelo tradicional imperativo da proporcionalidade na guerra, ou seja, pela obrigação de restringir ao máximo o número de vítimas civis tidas por inocentes.

   O “assassínio selectivo” com recurso a VANT justifica-se, segundo o parecer do Departamento de Justiça de Washington divulgado este mês, por os alegados terroristas constituirem um permanente perigo iminente dada a sua incessante actividade conspiratória.

   A “não-viabilidade” de captura dos suspeitos -- por dificuldades operacionais, diplomáticas ou outras razões não-especificadas – é definida igualmente por “funcionários de alto nível devidamente informados”.

   Nestas condições haverá luz verde para a pronta eliminação de terroristas.

   Além da lista de pessoas a abater autorizada pelo presidente, todos os suspeitos de associação ideológica ou operacional, pontual ou sistemática, a organizações terroristas anti-norte-americanas podem vir a ser considerados para “assassínio selectivo”.

   As Comissões do Congresso com poderes para supervisionar as forças armadas e os serviços de informação deram a maior liberdade de acção aos responsáveis por acções anti-terroristas no estrangeiro que a opinião pública aprova por larga maioria, apesar da oposição aumentar no caso de se tratar de cidadãos norte-americanos.

   A mortandade entre as populações civis provocada pela utilização letal de VANT é subavaliada pelos responsáveis militares e da CIA que consideram terroristas, até prova em contrário, todos os homens em idade combatente que se encontrem em contacto com suspeitos sob mira ou na área restrita alvo de ataque.

   A New America Foundation contabilizou 350 ataques no Paquistão entre 2004 e a primeira semana deste mês que teriam provocado 1 956 a 2 649 mortes. As vítimas civis neste balanço representariam18% a 23%.

  Uma investigação de The Bureau of Investigative Journalism, referenciado pelo projecto Living Under Drones das Faculdades de Direito de Stanford e Nova Iorque, estima, por sua vez, o número de mortes no Paquistão de Junho 2004 a meados de Setembro do ano passado entre 2 562 a 3 325. Os dados disponíveis ao público apontam para 474 a 881 mortes de civis.

  No caso do Paquistão os ataques de VANT contribuiram para dizimar a liderança da Al Qaeda, provocaram baixas de vulto entre chefes taliban, mas devido aos elevados custos colaterais encolarizaram ainda mais populações altamente motivadas pelo ódio aos Estados Unidos.

  O uso letal, fácil e expedito, de VANT noutros países como o Afeganistão, Iémen ou Somália – evitando arriscar unidades de forças especiais – tranformou-se num expediente táctico cada vez mais frequente e com tendência a alastrar -- agora o Mali, amanhã a Síria – apesar dos elevadíssimos riscos de alienar populações civis, dificultar a recolha de informação por espiões no terreno, e provocar cismas com putativos aliados políticos e militares.

  O “assassínio selectivo” por controlo remoto no estrangeiro de suspeitos definidos por vezes em função de padrões comportamentais ou associações pessoais e de parentesco passíveis de suscitar a suspeita de intenção terrorista é altamente controverso de um ponto de vista legal.

  O cunho sistemático desta prática vai acarretar complicações desmesuradas à medida que outros estados e entidades não-estatais venham a dispor de meios técnicos para recorrer aos mesmos expedientes.

  Os Estados Unidos à escala planetária, Israel na sua vizinhança e Moscovo no norte do Cáucaso, estão a estabelecer precendentes perniciosos na utilização letal de VANT.

Jornal de Negócios

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Terrorismo low cost




   Terrorismo a baixo custo vale milhões.

   Assim, sem tirar nem pôr, a Al Qaeda do Iémen acaba de incentivar os militantes na luta contra os infiéis à inovação terrorista low cost.

   Os seguidores de Bin Laden na península arábica são particularmente letais e inventivos.

  A "Al Qaeda na Península Arábica" propaga na internet uma revista chamada "Inspire" em inglês de lei ou não fosse um dos seus principais operacionais, Anwar Al Awlaki, de origem norte-americana.

  Na última edição congratulam-se com o sucesso da conjura de Outubro de 2010 que paralizou o transporte de correio aéreo.

  Com muito detalhe e fotografias os terroristas imenenitas e sauditas explicam como enviarem encomendas com explosivos por correio aéreo expresso da capital do Iémen para sinagogas em Chicago.

   As bombas foram detectadas no Dubai e na Grã-Bretanha, depois dos serviços secretos da Arábia Saudita terem fonecido informações sobre a conspiração.

   Em resultado o transporte aéreo de correio expresso acabou sujeito a interrupções e novas regras de segurança tiveram de ser improvisadas de emergência.

  Só por isso a operação foi um sucesso e tudo por uma ninharia, gabam-se os terroristas.

  A conspiração custou apenas 4 mil e 200 dólares. Bastou comprar umas impressoras, uns telemóveis, e enviar tudo por correio aéreo.

  Um êxito porque os prejuízos provocados somaram milhares de milhões de dólares e vão obrigar a vultosos investimentos em medidas de segurança.

  Mais umas quantas conspirações destas, mais uns esforços de terrorismo a baixo custo, e os infiéis ainda vão à bancarrota.

  Tal é a recomendação terrorista que chega do Iémen.

  São, pois, uns fiéis seguidores de Bin Laden estes terroristas da península arábica.

  Já Bin Laden se gabara que investira uns poucos milhares de dezenas de dólares nos atentados do 11 de Setembro.

   Agora, os seus seguidores recomendam muitas e muitas acções terroristas a baixo custo para provocar milhões e milhões de prejuízos.

  É a era do terrorismo low cost. 

TSF / O Mundo num Minuto
22 Novembro 2010

Bismarck, as salsichas e Wikileaks



   Nada top secret surge nas mais de 250 mil comunicações diplomáticas dos Estados Unidos que começaram a ser reveladas por Wikileads e por publicações europeias e norte-americanas.

   Há, no entanto, informação muito relevante.

   Basta assinalar os esforços da administração Bush e Obama para isolar o Irão e a relutância de Washington em aceder a insistentes apelos de Israel e de estados árabes para lançar um ataque militar contra Teerão.

   Muitas das revelações vão criar sérios embaraços: é o caso da confirmação de que os Estados Unidos actuam militarmente contra terroristas islamitas no Iémen com acordo do governo local que sempre desmentiu apoio às operações norte-americanas.

  E como é que tudo isto veio a público?

  Porque depois dos atentados de 11 de Setembro foi alargado o sistema troca de dados entre as agências de informação e segurança dos Estados Unidos, forças armadas e o departamento de estado.

  Presentemente, segundo um estudo do Congresso de Washington, mais de três milhões de pessoas têm assim acesso a material classificado como secreto.

  Aparentemente um analista, um soldado de 22 anos, Bradley Manning, conseguiu fazer cópias de milhares de documentos sobre a guerra no Iraque, Afeganistão e estas comunicações diplomáticas e passou-as a Wikileaks.

  O resultado está à vista: graves complicações diplomáticas que vão obrigar a rever procedimentos de comunicação e partilha de informações.

  Já dizia o histórico chanceler alemão Otto von Bismarck nos finais do século 19 que não era nada bonito ver como são confeccionadas as salsichas ou negociada a feitura das leis.

   Vale o mesmo para a diplomacia.

TSF / O Mundo num Minuto
03 Dezembro 2010

domingo, 9 de setembro de 2012

Os malefícios da anarquia




“Sempre que se tolera que um único pirata percorra os mares, por não ser considerado digno da atenção de um governo, esse homem alcança sempre tal poder que obriga o governo a grande dispêndio de sangue e de fortuna antes que consiga suprimi-lo.”
Capitão Charles Johnson “História geral dos roubos e assassínios dos mais notáveis piratas”
Londres, 1724


     Um bloqueio da costa da Somália e uma intervenção militar contra os portos de Eyl, Hobyo e Harardade é a única opção imediata para conter a crescente pirataria marítima no Corno de África, mas razões políticas e estratégicas impedem a adopção de medidas radicais.

   O governo do presidente Abdullah Yusuf Ahmed, imposto em Mogadíscio em 2006 após uma intervenção militar da Etiópia com apoio de Washington contra milícias islamitas, apenas exerce um vago controlo sobre a capital e a cidade de Baidoa, no Sul do país.

   No Norte, a região de Putland é, actualmente, uma área onde se confrontam dezenas de tribos, clãs e bandos islamitas e tornou-se a principal base da pirataria que assola as costas Norte do Leste de África e o Golfo de Áden, afectando directamente a rota do Canal do Suez.

                                  Pirataria incontrolável

   O colapso do Estado em 1991, o fracasso da intervenção internacional iniciada em 1992 e a retirada das forças da ONU quatro anos depois, a pilhagem dos stocks de atum por pesqueiros estrangeiros e a ruína das comunidades de pescadores somalis criaram condições para o alastramento do banditismo marítimo.

   Em 2006 apenas 4% dos actos de pirataria referenciados pelo International Maritime Bureau ocorriam na região do Golfo de Áden, sendo mais grave a situação em águas territoriais da Indonésia, da Nigéria, do Bangladesh ou do Peru.

   Os actos de pirataria tinham, no entanto, aumentado de uma média de 209 entre 1994 e 1999 para 352 de 2000 a 2006, acompanhando o crescimento do tráfego marítimo que representa 80% do movimento mundial de mercadorias.

   No Sudeste da Ásia os ataques, visando essencialmente roubo de dinheiro e equipamentos a bordo, foram contidos a partir de 2006 graças a uma aumento da cooperação entre as autoridades da Malásia, de Singapura e da Indonésia para proteger a rota do Estreito de Malaca.

   No Corno de África, pelo contrário, a pirataria disparou. Os “raides” triplicaram desde 2007 e entre Janeiro e o início desta semana a pirataria somali tinha efectuado 96 ataques e sequestrado 40 embarcações, incluindo um “superpetroleiro” saudita.

   Presentemente, 16 embarcações e cerca de 300 tripulantes encontram-se em poder de diversos bandos, com pelo menos um milhar de operacionais, que desde o início do ano já arrecadaram mais de 30 milhões de euros em resgates.

   A área de actuação dos bandos somalis abrange uma superfície superior a 2,5 milhões de quilómetros quadrados, maior do que o Mediterrâneo, e, apesar de se concentrar na região de Putland, actua pontualmente a partir doutros portos ao longo dos 3 mil quilómetros de costa da Somália.

                                  Uma protecção ineficaz

   A pirataria somali assume particular gravidade por se concentrar na rota de Áden utilizada em 2007 por mais de 20 mil navios, entre eles 6.500 petroleiros transportando 7% das exportações de crude.

   Os ataques já provocaram um aumento de 10% nos seguros e o desvio de cargueiros e petroleiros por rotas mais longas através do Cabo da Boa Esperança implica custos acrescidos na ordem dos 30%.

   Diversas missões da NATO, dos Estados Unidos, da França, da Dinamarca, da Índia, do Paquistão, da Malásia e da Rússia têm actualmente 14 navios de guerra em patrulha na região, mas, além da escolta de cargueiros do Programa Alimentar Mundial e de auxílio a embarcações em risco, a presença militar internacional não efectua em regra acções de retaliação ou perseguição activa a piratas.

    Acrescem as dificuldades legais de jurisdição para actuar em áreas territoriais somalis ou imenitas, julgar piratas capturados e obtenção de autorização de diversos estados – dos proprietários das embarcações aos países de onde são oriundas as tripulações multinacionais – para eventuais acções militares.

   A capacidade de protecção é limitada, também, pela necessidade de intervir antes que os piratas tenham feito refém a tripulação. Na ausência de equipas de defesa a bordo ou formação de comboios, qualquer navio que caia sob a ameaça de ser atacado com lança-granadas capazes de perfurar a uma distância de 500 metros chapa de aço de 60 cm de espessura é altamente vulnerável e não tem alternativa à rendição.

                                     Pagar em vez de atacar

   Salvo um eventual acto de pirataria com claras intenções terroristas não é crível que algum estado ouse aventurar-se em acções militares que obriguem a uma presença continuada em território somali.

   À excepção das tropas etíopes que desde Dezembro de 2006 ocupam Mogadíscio nenhum Estado está disposto a arriscar envolver directamente forças militares num terreno hostil e o contingente de apenas 3 mil soldados do Uganda e do Burundi que a União Africana destacou para a capital é impotente para evitar o reacender dos combates.

   O vizinho Iémen, para onde desde o início do ano já fugiram cerca de 32 mil somalis, tão pouco tem condições para vigiar os seus 1 900 quilómetros de costa e a instabilidade crónica do país ameaça ainda mais a rota do Golfo de Áden.

   A via mais provável de actuação passa por pagamentos e fornecimentos de armas a milícias, tribos e clãs somalis que ataquem as bases de piratas, mas na anarquia da Somália será apenas mais do mesmo até que alianças de interesses pontuais se desfaçam em novos actos de banditismo.

Jornal de Negócios
26 Novembro 2008

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Al Qaeda 2010

   Umar Farouk Abdulmutallab
   Captura de Umar Farouk Abdulmutallab
   Detroit, 25 Dezembro 2009


    Outro terrorista oriundo de família milionária, à imagem do patrono Osama Bin Laden, desta feita o nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, marcou no dia de Natal a agenda terrorista Al Qaeda 2010.

   O ataque fracassado serviu para relembrar que na "frente distante" dos santuários do Islão, na lógica estratégica que Bin Laden definiu e outros prosseguem, os ataques a aviões, serviços de transportes ou alvos civis capazes de proporcionarem grande número de vítimas continuam a ser um dos objectivos essenciais dos radicais islamitas no Ocidente.

   Salvo recurso de acesso a armas radiológicas ou biológicas - o pior dos cenários -, as organizações terroristas islamitas apostam tudo por tudo na escalada de atentados que possam ultrapassar o impacto dos ataques de 11 de Setembro, das carnificinas de Madrid em 2004 ou de Londres no ano seguinte.

   A táctica terrorista de afrontamento é uma droga dura que obriga a redobrar a dose para conforto dos fiéis e temor de outrem.

                                          O eixo iemenita

    Da base ("al qaeda" significa precisamente "base" ou "fundação") paquistanesa-afegã criada nos finais dos anos oitenta pelos jihadistas em guerra contra a União Soviética até à actual galáxia de grupos terroristas com presença notória no Iémen e na Somália, além do Paquistão, os radicais islamistas perderam muita da sua sofisticação organizacional.

   O ataque ao voo da Northwest, copiando o padrão estabelecido em Dezembro de 2001 pelo bombista do sapato Richard Reid, que tentou também utilizar pentrita para derrubar um avião da American Airlines, revela a facilidade de recrutamento nos meios islamistas, mas mostra, igualmente, a crescente dificuldade em estabelecer células clandestinas na Europa.

   Na "frente próxima" da luta contra regimes ditos apóstatas e alvo de alegadas ocupações por infiéis, a galáxia radical islamita tem, no entanto, alvos bem mais precisos e uma base de apoio substancial, pelo que a verborreia ideológica se revela mais mortífera e eficaz ao potenciar conflitos étnicos-religiosos.

   O Paquistão, mais ainda do que o Afeganistão, é um palco de actuação privilegiado, sobretudo depois de fracassar a campanha antixiita de Abu Al Zarqawi no Iraque, mas, fustigados pela repressão e operações antiterroristas norte-americanas, os jihadistas têm vindo a refugiar-se mais recentemente no caótico Iémen.

   Fruste Estado marcado pelas dissensões tribais, o Iémen foi desde os anos setenta, juntamente com a Arábia Saudita, uma das principais fontes de recrutamento jihadistas e logo em Outubro de 2000 o contratorpedeiro norte-americano USS Cole foi atacado no porto de Adén.

   O Iémen, mais ainda do que a Somália, continua a apresentar condições para sustentar operações terroristas na península arábica e na África Oriental, servindo, ainda, de base para operações contra alvos ocidentais.

   Não por acaso, dos 198 presos que restam em Guantánamo 91 são imenitas e a eventual libertação de muitos destes detidos mostra-se problemática.

   Dois dos implicados na organização do ataque de Natal são imenitas libertados de Guantánamo em Novembro de 2007 que, após um período de doutrinamento antiterrorista na Arábia Saudita, acabaram por ressurgir no Iémen como líderes militares da Al Qaeda local.

   Os grupos radicais islamitas parasitam os conflitos locais do Magrebe à Indonésia, mas a sua sorte varia consoante conjunturas diversas e na presença de grupos com forte motivação nacionalista, conforme ocorre na Palestina ou no Líbano, a ideologia jihadista propagada por Bin Laden dificilmente se consegue implantar.

                               Um bando para matar muçulmanos

   De Caxemira à Argélia, tensões antigas propiciaram o advento de grupos radicais que, além dos seus objectivos locais, acabam por facultar operacionais para ataques a Ocidente.

   Os ataques na "frente distante", teorizados pelo saudita Bin Laden e o egípcio Ayman Al Zawahiri, revelaram-se efectivos, mas exigem financiamentos e uma rede organizacional que, presentemente, não estão ao alcance da maior parte das células jihadistas.

   A maioria das vítimas das investidas islamitas terroristas na matriz Al Qaeda acaba, assim, por ser gente dos estados da verdadeira linha da frente, os países muçulmanos.

   Nem os vis cristãos do dessacralizado Ocidente ou os Coptas do Egipto são as maiores vítimas da Al Qaeda.

   Muçulmanos, sobretudo xiitas, foram o principal alvo dos atentados cometidos nos últimos anos pelos terroristas que reivindicam o patrocínio de Bin Laden e Al Zawahiri.

   Os 313 atentados reivindicados pela Al Qaeda ou por organizações fiéis a Bin Laden entre 2004 e 2008 provocaram 3.010 mortos.

   Mesmo considerando os ataques em Madrid, em 2004, e em Londres, no ano seguinte (os 20 mortos do atentado de Outubro de 2005 em Bali, entre eles 15 indonésios, foram obra da Jemaah Islamiyah, uma organização local bem mais antiga e autónoma), só 12% das vítimas (371) era ocidental. A maioria dos mortos foi constituída por iraquianos, argelinos e egípcios.

   Considerando o período precedente, entre 1995 e 2003, 23 atentados reivindicados pela Al Qaeda resultaram em 3.454 mortos, mas aqui entram os ataques de 11 de Setembro, que causaram 3.021 vítimas.

   Inclusivamente na fase de maior sofisticação e eficácia terroristas, a Al Qaeda concentrou a sua acção em países de maioria islâmica (20 dos atentados) e, entre 433 mortos verificados em outros ataques efectuados entre 1995 e 2003, só 19% das vítimas (88 pessoas) era ocidental.

    A frente de ataque jihadista é fruste porque nada adianta como alternativa, resumindo-se à intransigência ante qualquer forma de modernidade alegadamente atentatória a valores atávicos de um Islão primordial.

   Fechada em si mesma, a Al Qaeda continuará em 2010 a tentar um ataque espectacular capaz de rivalizar com o 11 de Setembro, mas, mais do que nessa frente distante anti-ocidental, o terrorismo jihadista inspirado por Bin Laden continuará a seguir um padrão mortífero que o caracteriza como uma verdadeira máquina de matar muçulmanos.



Jornal de Negócios
20 Dezembro 2009

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domingo, 19 de agosto de 2012

Obrigado Bin Laden



   As exortações do terrorista Bin Laden têm uma vantagem incomensurável.

   Cada tirada do saudita aponta o caminho a seguir na guerra ao islamismo totalitário e desfaz qualquer ilusão em matéria de apaziguamento e concessões.

    Osama Bin Laden não ofereceu desta feita tréguas a europeus ou norte-americanos, intercaladas de ameaças de actos terroristas, e advertiu que a guerra é total e indiscriminada pois, afirma o xeque, recaem sobre todos os povos as responsabilidades pelas acções anti-islâmicas dos seus «dirigentes e senhores».

   Consequentemente, qualquer civil é conivente na cruzada e, portanto, potencial alvo por via da guerra sem quartel que movem «os sionistas e os cruzados» contra a comunidade imaginária de fiéis do Profeta, sob o comando do foragido em terras das tribos pashtun.

   A campanha de genocídio no Darfur, em que se empenham em particular as milícias Janjaweed, é apresentada por Bin Laden como «justa resistência» a uma cruzada ocidental e sionista para dividir o Sudão.

  A ignota tragédia do Darfur está, agora, a par da generalizada ofensiva anti-islâmica para «pilhar as riquezas» dos crentes.

  É uma tentativa propagandística de Bin Laden de justificar uma nova frente terrorista depois de ter ignorado o Sudão desde a sua expulsão do país em 1996.

   As referências ao Darfur, com os frustes conselhos para os putativos guerreiros aproveitarem a estação das chuvas e armarem-se, é, apenas, mais um caso exemplar da capacidade de Bin Laden em parasitar todo e qualquer conflito que envolva comunidades muçulmanas.

   Vem na linha da proclamação de Novembro de 2001 ao denunciar os «cruzados australianos» que a mando da ONU desembarcaram em terras indonésias para «separar Timor-Leste do mundo islâmico» e nesta mensagem de Abril Bin Laden reitera a denúncia desta conspiração dos «cruzados, dos sionistas e dos hindus».

   O boicote ao governo de Ismail Haniyeh é outra prova da conspiração global contra o Islão na interpretação mais recente de Bin Laden, ecoando as tiradas de um apoiante declarado, o xeque iemenita Abd al-Majid al Zindani, que no início deste mês manifestou o apoio aos islamitas palestinianos numa reunião no Iémen em que esteve presente o líder do Hamas Kahled Mashaal.

   O porta-voz do Hamas, Sami Abu Zuhri, apressou-se a afirmar que a doutrina do movimento «é totalmente diferente da ideologia do xeque Bin Laden», mas admitiu, também, que «o cerco internacional ao povo palestiniano» é foco de tensão no mundo árabe e islâmico» e alimenta a suspeita de «uma aliança ocidental e israelita».

   No plano da ideologia que alimenta a acção o universo fantasmagórico dos islamitas acaba por confundir todas as correntes e a vertente nacionalista do Hamas, herdeiro dos Irmãos Muçulmanos, revela-se, assim, na sua obsessão pelo extermínio dos judeus paralela à retórica exclusivista e genocida de Bin Laden.

   A incapacidade que a Al Qaeda tem mostrado para implantar-se na Palestina, mostra, contudo, que o islamismo nacionalista do Hamas é um obstáculo de peso às ambições de jihad global de Bin Laden.

   A deriva terrorista anti-xiita e contra as facções nacionalistas sunitas no Iraque promovida por Abu al Zarqawi e agravada pelos atentados de Novembro do ano passado em Amã contribuíram para desprestigiar ainda mais a Al Qaeda como alegada vanguarda da resistência islâmica.

   A marcar presença nesta última tentativa de Bin Laden para provar que é ainda capaz de marcar a agenda guerreira, apesar de, na realidade, limitar-se a parasitar os conflitos possíveis, o foragido tentou, igualmente, reavivar a campanha contra os alegados insultos caricaturais ao Profeta e a proibição do porte do véu islâmico nas escolas francesas, reiterando as tradicionais ameaças aos governantes «hipócritas e apóstatas» vendidos a um compromisso com os inimigos do Islão.

    Não trouxe novidade e revelou frustração quanto a movimentos e causas que se multiplicam, ignorando a jihad pela restauração do Califado acalentada por Osama Bin Laden.

                                         Bin Laden sem o Irão

   Gravada após a segunda semana de Março, a julgar pela referência ao ataque israelita à prisão de Jericó, a declaração de Bin Laden, tal como a exortação de 19 de Janeiro, refere as guerras do Iraque e do Afeganistão, acrescenta agravos sofridos na Tchetchénia, em Caxemira, na Bósnia, na Somália, no Afeganistão e no Paquistão, mas é omissa quanto a uma questão fulcral: o Irão.

   Bin Laden e o seu número dois, o egípcio Aimen al Zawari, evoluíram nas névoas do islamismo sunita e estão excluídos doutro universo dogmático, o dos heréticos xiitas, que, como ideólogos consequentes, optam por relegar às trevas.

   Ora, o xiita persa Mahmoud Ahmadinejad é o pólo oposto de Bin Laden.

   Nos seus momentos de exaltação Ahmadinejad perde-se no recolhimento do khalvat, na comunhão com o Mahdi, o décimo segundo imã oculto.

   Ahmadinejad é um crente no mahdaviat, devoto ao culto e activismo pelo retorno do Soberano do Mundo, como, aliás, deixou claro na alocução à Assembleia Geral da ONU em Setembro do ano passado, um mês após tomar posse como presidente do Irão.

   O martírio da bomba nuclear será, nas alucinações de Ahmadinejad, a via do activismo, a ta´bi`a, a exemplo do sacrifício do imã Husain para restaurar a Casa de Ali; um passo do walâyat, o ciclo de iniciação espiritual xiita no sentido oculto da mensagem profética.

   Esta dogmática xiita é alheia ao activismo sunita de Bin Laden que visa unificar os crentes e expandir a Casa do Islão na pureza mítica dos tempos do Profeta, sem miragem de apocalipse e advento da justiça divina.

   Nas suas alucinações místicas os radicais islamitas sunitas e xiitas têm em Bin Laden e Ahmadinejad dois pólos totalmente opostos que se combatem numa tradição que acreditam advir das lutas que dilaceraram os sucessores de Maomé.

   Ao foragido nas montanhas que as tribos pashtun protegem cabe daqui endereçar um imenso obrigado por nos relembrar estas infames e alucinadas verdades de uma guerra sem quartel.

Jornal de Negócios
26 Abril 2006

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=274979