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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A via terrorista da ETA

 Mikel Azpiazum, Txeroki
 
 
 
   Os comandos da ETA, liderados por Mikel Azpiazum, Txeroki, brandem o machado de guerra e, ante o cerco político no país Basco, apostaram tudo por tudo numa escalada terrorista. 
 
  A ala militar etarra, o machado do símbolo oficial do movimento, assumiu a iniciativa e impôs-se decisivamente às tácticas doutros dirigentes, como Josu Ternera, que admitiram explorar a via da mobilização política pelo menos até a ETA ter anunciado em Junho de 2006 o termo de 14 meses de trégua terrorista.

   Bietan Jarrai, o velho lema etarra de “seguir as duas vias” em que o machado da luta armada surge enlaçado pela serpente do combate político, deu agora lugar a uma estratégia de concentração terrorista que para muitos militantes surge como a única maneira de forçar os partidos nacionalistas bascos a pressionarem o governo de Madrid para retomar negociações com a ETA.

                                A aposta desesperada de Txeroki

   A última vaga terrorista é um recurso desesperado que aproveita as redes clandestinas ainda operacionais, mas cada vez mais debilitadas pelas acções policiais em Espanha e em França. Mais de centena e meia de detenções de operacionais etarras desde 2004 e o desmantelamento de apoios logísticos no sul de França abalaram significativamente a ETA.

   É neste contexto que surgem as tentativas de utilizar Portugal para estabelecer eventualmente células de apoio logístico, desencadear acções terroristas pontuais ou mesmo procurar refúgio momentâneo como ocorreu no passado com membros do comando Argala responsáveis por atentados no sul de Espanha no Verão de 2002.

   Txeroki, que desde o final de 2003 dirige a estrutura militar, ainda conta com dezenas de militantes capazes de serem infiltrados em Espanha, sobretudo a partir de França, para atentados pontuais em paralelo com acções autónomas desenvolvidas pelos comandos que subsistem na clandestinidade.

   A maior parte do dispositivo terrorista parece ser, no entanto, bastante jovem, tal como Txeroki que tem apenas 34 anos, e a nova vaga etarra apesar de se mostrar muito motivada e rendida à acção terrorista carece de experiência clandestina.

   É sintomático que dos quatro homens e duas mulheres procurados desde o mês passado pelas autoridades espanholas por suspeita de participação na última onda de atentados três deles não tenham participado anteriormente em ataques bombistas.

   À concretização do rompimento da trégua em Dezembro do ano passado com o atentado no Aeroporto de Barajas deveria seguir-se agora uma série de ataques terroristas à imagem do ocorrido no Verão de 2000, mas até ao momento, com excepção da explosão junto ao quartel da Guardia Civil em Durango, no país basco, circunstâncias diversas e erros de operacionais frustraram a escalada da ETA.

   As autoridades espanholas afirmam ter impedido cinco atentados terroristas etarras desde Junho do ano passado.

                                      O isolamento político etarra
                           
   Após esta campanha terrorista será mais difícil ao Partido Nacionalista Basco e ao lendakari Juan José Ibarretxe admitirem a possibilidade de diálogo político com apoiantes da ETA.

   O objectivo do chefe do governo basco passava por promover líderes alegadamente moderados e isolar a ala militar etarra. Evitar o corte com os radicais próximos da ETA era fundamental para Ibarretxe obter o maior apoio possível para a concretização do almejado processo de “consulta popular” sobre o estatuto da comunidade autónoma.

   Um sinal desse possível repúdio de contactos com apoiantes da ETA tem sido dado pelo presidente do partido de Ibarretxe, Josu Jon Imaz, que defende “acordos transversais com forças não-nacionalistas” para evitar um confronto com Madrid, obstar à hostilização das demais comunidades e promover o autogoverno.

   A ilegalização do Batasuna, Euskal Herritarrok e Herri Batasuna, confirmada em 2003, e a possível abertura de um processo para ilegalizar a Eusko Abertzale Ekintza, a Acção Nacionalista Basca, que colheu o apoio de 95 mil votantes nas eleições municipais e autonómicas de Maio, limitam a liberdade de acção da esquerda abertzale.

   A falta de consenso entre os nacionalistas bascos, a clivagem entre direita e esquerda quanto ao modelo de estado e o desacordo sobre a estratégica de combate ao terrorismo, não facilitam, contudo, uma discussão política que possa vir a isolar a ETA e desmotivar os quase 10 por cento da população basca que sustenta a rede de associações e agrupamentos próximos da organização. 

   Se as autoridades espanholas conseguirem conter a tentativa de ofensiva da ETA e obrigarem os terroristas bascos a novo período de inactividade terrorista e de reorganização será ainda necessário pôr cobro à chamada “violência de baixa intensidade” e aos confrontos de rua, a Kalea Borroka, todos elementos fulcrais da estratégia dita de “Assédio” (Oldartzen), adoptada em 1995, para apoio aos ataques contra alvos militares, policiais e civis.

   A violência de baixa intensidade foi, aliás, o recurso adoptado para manter viva a chama da organização quando toda a direcção da ETA foi capturada em Bidart, no sul da França, em Março de 1992.

   Simultaneamente, enquanto tentava reorganizar a rede clandestina, a nova liderança, onde imperava, Iñaki de Rentería, tentou então negociar uma trégua com o governo de Felipe González. 

   É provável que em caso de impotência dos comandos terroristas o estratagema venha a repetir-se. É uma possibilidade que dá ainda maior importância às acções repressivas que o estado espanhol tem de desencadear contra os sequestros, as cobranças de imposto revolucionário e as redes de financiamento e lavagem de dinheiro que são outras actividades vitais para o funcionamento da ETA.

   A ofensiva de Txeroki é, no entanto, sinal claro de que a ETA está prestes a esgotar mais uma fase de aposta terrorista.

   Novas cisões entre os etarras ou o agravamento do isolamento político da ETA poderão vir a revelar-se algumas das alternativas possíveis após esta fuga para a frente.

   A acrimónia que rodeia as eleições legislativas do próximo ano deixa, contudo, muitas dúvidas sobre a consistência de uma estratégia para isolar a ETA que agregue os socialistas, o Partido Popular e os nacionalistas bascos.


Jornal de Negócios
29 Agosto 2007

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=301615

Pátria basca e liberdade


   José Luis Zapatero corre o sério risco de repetir o erro cometido por Felipe González há vinte anos se retomar as negociações com a ETA após o atentado no aeroporto de Barajas.

   Em 1987 o governo socialista insistiu na prossecução da estratégia simultânea de repressão policial, patrocínio à guerra suja dos GAL (os comandos anti ETA que alegadamente defendiam a democracia nos esgotos, no dizer de González), negociações políticas directas com os separatistas em Argel e conversações para um acordo antiterrorista com os partidos bascos à excepção do Herri Batasuna, concluído com o pacto de Ajuria Enea assinado em Janeiro de 1988.

   Há vinte anos os etarras alternaram, por sua vez, a mobilização política através da participação do Herri Batasuna nas eleições europeias, em que conseguiu a eleição de um deputado para o parlamento de Estrasburgo, e as acções terroristas que atingiram o paroxismo em Junho com o seu primeiro atentado contra alvos civis ao deflagrarem uma bomba incendiária no supermercado Hipercor, em Barcelona, matando 21 pessoas e ferindo 39.

   Ainda assim, dois meses depois do massacre na capital catalã, o líder etarra Eugénio Estxebeste negociava de novo em Argel com o comissário da polícia Manuel Ballesteros (posteriormente implicado no processo dos GAL) e após arrastadas negociações a ETA anunciaria a 21 de Janeiro de 1989 o seu primeiro cessar-fogo unilateral que logo no início de Abril seria morto e enterrado numa série de atentados.

                       Bem diferente é a situação vinte anos depois.

   O Herri Batasuna de Arnaldo Otegi está ilegalizado e os nacionalistas bascos, que chegaram a embarcar no pacto de Lizarra com a ETA em 1998, confundidos com o irredentismo dos terroristas. O atentado de Barajas deu origem às primeiras divergências públicas entre o lehendakari Juan Ibarretxe, pronunciando-se no sentido de manter o diálogo com a ETA e a sua ala política, e o líder do Partido Nacional Basco, Josu Imaz, que responsabilizou exclusivamente os separatistas pelo rompimento das negociações.

   A promessa de cessar-fogo permanente da ETA de 22 de Março de 2006 e a subsequente resolução parlamentar de Maio, com a oposição do Partido Popular, autorizando o governo a negociar se os separatistas ETA abandonassem as armas estão enterradas nos escombros de Barajas.

                                   A persistência do terrorismo

   O maior erro de Zapatero foi ignorar que em quase meio século de activismo etarra, desde a fase de guerra revolucionária anticapitalista e antifranquista até o irredentismo nacionalista a partir de 1974 começar a admitir a táctica de negociações com Madrid, a luta armada sempre foi definida pelos sucessivos líderes separatistas como a forma de acção mais eficaz para obter cedências do governo central, dos partidos nacionalistas e dos socialistas bascos.

   Ao fechar os olhos aos roubos de armas no sul da França, à persistência das "extorsões revolucionárias" e à violência de rua os socialistas permitiram que a rede informal de associações e agrupamentos separatistas, que eleitoralmente representa apenas cerca de 140 mil votantes entre perto de três milhões de bascos espanhóis, continuasse a sustentar as células clandestinas da ETA.

   A subestimação da importância das acções violentas de rua, a Kalea Borroka – outro dos elementos de intimidação e destabilização da sociedade basca que contribuem para o crescimento económico comparativamente mais baixo da região em relação à Catalunha, à Comunidade Valenciana ou a Navarra, por exemplo – resultou claramente de um erro de cálculo quanto à prevalência da chamada "violência de baixa intensidade" como um elemento fulcral da estratégia dita de "Assédio" (Oldartzen), adoptada pela ETA em 1995, para apoio à luta terrorista contra alvos militares, policiais e civis.

   Ao não exigir a cessação da "violência de baixa intensidade" e das extorsões antes de admitir publicamente a hipótese de negociações com a ETA, Zapatero correu um risco que redundou num fracasso político muito grave e descredibilizou por tabela o líder socialista basco Jesus Eguiguren.

   As já escassas hipóteses de acertar com a oposição conservadora um acordo de princípio sobre os termos de uma eventual negociação com a ETA ficaram comprometidas pela exigência de Mariano Rajoy, de olhos postos nas eleições do próximo ano, do governo suprimir imediatamente qualquer contacto com os separatistas.

   Zapatero resiste ainda ao reconhecimento do seu fracasso político e a admitir que imposição de desarmamento, fim da violência terrorista, das extorsões e da "Kalea Borroka" é condição prévia a negociações.
Sinal do embaraço de Zapatero é o facto de só ontem, quatro dias após o atentado, porta-vozes não identificados do governo virem afirmar ao diário El País que a "suspensão das iniciativas de diálogo", anunciada pelo primeiro-ministro no sábado, significava "dar por terminado o processo de diálogo".

                                          O maior inimigo

   Conversações que possam conduzir à integração política da ETA, à semelhança do que aconteceu com o IRA, implicam ainda que os etarras abdiquem das suas teses sobre a grande nação basca, Euskal Herria, e os alegados direitos territoriais em Espanha e França de que alegadamente goza o celebrado falante do basco, qualquer euskaldun, em detrimento do desprezado erduldunak, esse ignorante da mais velha língua da Península em que o reaccionário e racista Sabino Arana inventou a mitologia do nacionalismo eterno dos foros de antanho e do catolicismo conservador nas últimas décadas do século XIX.

   Pior ainda: a crise basca acentua a clivagem entre direita e esquerda sobre o modelo de estado, o projecto de reordenamento quase federal encetado pelos socialistas e os termos das relações entre as 17 comunidades e as cidades autónomas de Ceuta e Melilla que integram a monarquia espanhola.

   A recusa de Zapatero em dar publicamente por total e absolutamente excluída qualquer negociação com a ETA sem provas concludentes do desarmamento e desarticulação da rede terrorista torna o primeiro-ministro espanhol refém dos separatistas e diminui-o politicamente frente às oposições nacionalistas no País Basco e na Catalunha, dando trunfos à estratégia securitária e às tendências centralistas de vastos sectores do Partido Popular.

   Na Espanha democrática a ETA representa precisamente o oposto da denominação pela qual jurou lutar em 1959: Euskadi Ta Askatasuna.

   A ETA é o maior inimigo da Pátria Basca e da liberdade.



Jornal de Negócios
03 Janeiro 2007

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?id=288252&template=SHOWNEWS_V2