Mostrar mensagens com a etiqueta Narcotráfico. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Narcotráfico. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A hora do Plano México


 
   Os Estados Unidos e o México preparam-se para anunciar um programa orçado entre os 800 milhões e os mil milhões de dólares para combater nos próximos seis anos o narcotráfico.
 
  O acordo surge numa conjuntura de guerra aberta entre o governo mexicano e os cartéis da droga que se tornaram nos principais fornecedores do mercado de estupefacientes dos Estados Unidos.
 
   A altura é propícia porque os cartéis de estupefacientes digladiam-se pelo controlo de um mercado em baixa e procuram alternativas para rentabilizar as redes de tráfico.


                               Um mercado mundial estagnado

   A produção e consumo global de estupefacientes estagnaram, segundo o último relatório anual da Agência de Controlo da Droga e Prevenção do Crime divulgado em Junho.

   Apesar de 200 milhões de pessoas (5% da população mundial) terem consumido pontualmente algum tipo de estupefacientes em 2006, o número de consumidores dependentes, entre os 15 e os 64 anos, ronda os 25 milhões, ou seja 0,6 por cento da população do planeta.

   A única excepção na estagnação de um mercado que gera vendas anuais superiores a 300 mil milhões de euros advém da explosão na produção de ópio no Afeganistão que representava 92 por cento das 6610 toneladas métricas contabilizadas pelas Nações Unidas em 2006.

   Os aumentos no consumo de heroína, em contraste com as tendências de contenção ou redução no uso de estupefacientes noutras regiões nos últimos três anos, verificaram-se no Paquistão, Irão e países da Ásia Central, além da Rússia, Índia e certas áreas de África.

   Nos Estados Unidos, cujo mercado absorve 60 por cento das drogas ilegais, regista-se uma quebra nos níveis de consumo de todos os tipos de drogas, sendo particularmente sensível a diminuição do número de consumidores de cocaína.

   Os dados disponíveis, relativos a 2005, indicam que apenas 2,8 por cento da população norte-americana entre os 15 e os 64 anos consume cocaína o que mostra uma quebra de superior a 50 por cento nas duas últimas décadas.

   O orçamento do Office of  National Drug Control Policy  aumentou 34 por cento nos últimos seis anos, cifrando-se em cerca de 12,7 mil milhões de dólares, e aplica aproximadamente 65 por cento das verbas em programas de combate à produção e tráfico.

   A região andina concentra o grosso desses orçamentos: 721,5 milhões de dólares destinam-se a acções destinadas à redução da produção de cocaína.

                                              O Plano Colômbia

   Na Colômbia a área de cultivo de coca sofreu uma redução de 52 por cento entre 2000 e 2006, mas a produção de cocaína a nível regional manteve-se estável nos últimos três anos (1 008 toneladas métricas em 2004 e 984 no ano passado) devido ao uso de fertilizantes e pesticidas, inovações tecnológicas, e ao aumento das quotas da Bolívia e do Peru.

   O “Plano Colômbia” lançado em 1999 pelos presidentes Bill Clinton e Andrés Pastrana já mobilizou 4,7 mil milhões de dólares.

   A quase totalidade desse dinheiro destinou-se ao reforço das forças armadas colombianas e a acções de pulverização com herbicidas das plantações de coca, mas o país continua a prover mais de metade da cocaína que entra no mercado mundial.

   Os resultados são mitigados, pois a produção de coca persiste em 24 das 32 províncias da Colômbia e só em 2004 foram exportadas para os Estados Unidos cerca de 450 toneladas de cocaína.

   A violência diminuiu consideravelmente, mas os guerrilheiros das FARC ainda controlam extensos territórios, e as conivências de apoiantes do presidente Álvaro Uribe com os grupos de extrema-direita da UAC e os sucessivos assassínios de sindicalistas continuam a provocar críticas dos congressistas democratas em Washington que contestam a excessiva militarização do “Plano Colômbia” e recusam ratificar o acordo de livre-comércio entre os dois países.  
  
    O relativo fracasso do “Plano Colômbia” é, por sinal, mensurável através da análise dos preços de venda de cocaína nos Estados Unidos que são actualmente três vezes mais baixos do que em 1990.

   Acresce que 90 por cento da cocaína que entra nos Estados Unidos transita pelo México, que também viu aumentar significativamente a produção de meta-anfetaminas com destino ao vizinho do Norte, e, consequentemente, chegou agora a vez de centrar as atenções no “Plano México”.

                                    A ofensiva Mexicana

   A campanha desencadeada este ano pelo presidente Felipe Calderón para combater o narcotráfico levou a uma mobilização em força do exército. Mais de 20 mil militares mexicanos participam agora directamente em operações de combate ao narcotráfico em cooperação com a polícia federal.

   As reformas judiciárias e reestruturações das forças de seguranças em curso, a par das campanhas de erradicação de plantações de marijuana e desmantelamento de laboratórios de produção de meta-anfetaminas, além das extradições de traficantes para os Estados Unidos, têm vindo a dar novo ânimo ao combate ao narcotráfico, mas os resultados são, ainda, incertos.

   À corrupção das forças policiais e do sistema judiciário, sobretudo ao nível dos municípios e dos governos estaduais, junta-se a extrema violência dos cartéis na luta pelo controlo das rotas de tráfico do Pacífico e da costa do Golfo do México.

   Desde o início deste ano mais de 1 700 pessoas (contando-se cerca de duas centenas de polícias entre as vítimas) morreram em ataques de sicários.

   Os assassínios começaram a diminuir em Junho, mas, a atenuação da violência ficou a dever-se a um acordo de partilha territorial entre os principais cartéis.

   À ofensiva militar e policial contra os cartéis, após dois anos de violências inauditas por parte do crime organizado, que provocaram 1 600 mortes em 2005 e 2 200 vítimas em 2006, junta-se agora o reforço da cooperação com os Estados Unidos que se limitava essencialmente à recolha e partilha de informações e à formação de efectivos policiais mexicanos.

   O acordo entre Bush e Calderón exclui desde logo a participação directa de conselheiros militares e policiais norte-americanos em operações de vigilância e combate à produção e tráfico ao contrário do que acontece na Colômbia.
   Os Estados Unidos fornecerão ao México equipamentos de monitorização e vigilância, sistemas de escutas, e irão encarregar-se da formarão de pessoal especializado.

   Unidades mistas terão a seu cargo a vigilância dos 3 mil quilómetros de fronteira e acções de identificação de rotas marítimas e aéreas de tráfico.

   Por parte de Washington será reforçada a repressão dos grupos que a partir dos Estados Unidos fornecem armamento, componentes químicos para produção de estupefacientes, e procedem a financiamentos e lavagem de dinheiro.

   A administração Bush, enfraquecida na sua capacidade negocial com o México depois do Congresso ter rejeitado a reforma das leis de imigração, compromete-se, ainda, a incrementar programas de prevenção do consumo de drogas o que obriga a rever as estratégias do Office of National Drug Control Policy que reserva apenas 12 por cento do seu orçamento para esse efeito.

   A conjuntura é propícia à cooperação no combate ao narcotráfico, mas tudo vai depender da capacidade do estado mexicano concretizar reformas institucionais e judiciárias e de Washington reorientar a sua política anti-droga a nível global.

   Além de um aumento dos programas de prevenção que aproveitem a tendência de quebra no consumo de estupefacientes, os Estados Unidos terão de conciliar operações de combate à produção e tráfico com financiamentos a projectos de auxílio económico.

   A componente repressiva, essencial para promover condições de segurança e evitar a criminalização das estruturas do estado, terá de ir a par de programas de auxílio capazes de reforçar a coesão social e promover as economias dos países produtores e dos estados que se transformaram em plataformas de tráfico.

   Para não esquecer a enormidade e extrema dificuldade da tarefa basta mencionar dois países bem diferentes do México ou da Colômbia e sem solução à vista: o Afeganistão e a Guiné-Bissau.

Jornal de Negócios
22 Agosto 2007

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=301308

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A morte e a morte de Marulanda

Marulanda (Tirofijo)



   Muitos anos depois, diante a selva e a um estremeção do fim, Pedro Marín, dito Tiro Certeiro e conhecido por Marulanda, haveria de recordar aquela tarde remota que levou seu tio Ángel a pegar em armas para vingar outra morte.

   Tiro Certeiro, prestes a sucumbir aos 78 anos, não teve sequer um vislumbre de piedade para com as suas centenas de reféns e mesmo a sorte de Ingrid Betancourt, a candidata presidencial que fizera raptar em 2002, só lhe interessava como trunfo político. 

   Marulanda, o mais velho guerrilheiro do mundo, só tinha para recordar na hora derradeira a primeira salva de outra guerra civil que começara naquele dia 9 de Abril de 1948.

   Ao princípio da tarde dessa sexta-feira, o líder liberal Jorge Gaitán sucumbira em Bogotá a três tiros que iriam lançar a Colômbia em sete anos de confrontos brutais que passaram à história como La Violencia.

   Aos 20 anos, Pedro revira-se na revolta que o tio Ángel alentou de imediato na cidade de Ceilán para vingar Gaitán e dias depois acompanharia os seus primos na fuga para as montanhas da cordilheira central, quando o exército e bandos de caciques conservadores ripostaram.

   Então, o mundo de Pedro Marín era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nome, mas, depois, numa longa gesta de guerrilha rural, ele assumiria o nome de Manuel Marulanda Velez – um sindicalista comunista assassinado em 1951 – e faria frente ao regime de Gustavo Pinilla, o general que chegou ao poder em 1953 num golpe de estado que era o compromisso possível entre conservadores e liberais.

  Nas zonas rebeldes dos contrafortes dos Andes, Marulanda resistiu aos ataques do exército e às ofensivas decretadas pelos governos da Frente Nacional de conservadores e liberais que em 1958 sucedeu à ditadura de Pinilla.

  Entre 1964 e 1966 as frentes da guerrilha comunista concentradas nas áreas rurais do Centro-Oeste e do Sul dariam origem às Forças Armadas da Colômbia – Exército do Povo e Marulanda seria o líder incontestado.

                                    A narcoguerrilha

   As FARC lançaram impostos sobre tráficos de droga e os homens da selva rapidamente descambariam na exploração sem quartel da cocaína, dos raptos e extorsões numa espiral que teria o seu contraponto no vendaval de violência dos cartéis de Meddelín e Cáli e nas exacções de bandos de extrema-direita. 

   Uma trégua acordada pelas FARC com o presidente Belisario Betancurt, em 1984, levou Marulanda a apoiar a criação de uma frente política, a União Patriótica, mas confrontou-se com uma vaga de atentados da extrema-direita contra políticos da esquerda e simpatizantes da guerrilha. 

   O resto da vida de Marulanda foi negociar terreno para a sua guerrilha até descobrir mais recentemente que valia a pena traficar interesses com o venezuelano Hugo Chávez e o equatoriano Rafael Correa, para, enfim, se ir desta selva para outro mundo nos idos de Março, sem saber se a sua estirpe condenada teria uma segunda oportunidade sobre a Terra.

                                           Os herdeiros

   Ao camponês Tiro Certeiro segue-se na chefia das FARC Guillermo Sáenz, filho de intelectuais, estudante de antropologia em Bogotá, que se juntou à guerrilha em 1982 e tem agora 59 anos.

   Com o pseudónimo Alfonso Cano, tornou-se conhecido como porta-voz das FARC em negociações com o governo de Bogotá nos anos 90 e chefiava ultimamente as guerrilhas do Bloco Ocidental, uma das frentes mais flageladas pelo exército colombiano.

   Cano chega à liderança depois das FARC terem perdido desde o início do ano três dos sete membros do seu secretariado, o comandante da frente do Caribe e o principal operacional das operações de produção e tráfico de cocaína no Sudoeste da Colômbia.  

   Nas fileiras das FARC contam-se actualmente cerca de 10 mil guerrilheiros – menos de metade dos efectivos dos anos 90 – repartidos por sete blocos militares e controlando cerca de 30 por cento das áreas de cultivo de cocaína que, juntamente com receitas de raptos e extorsões, rendem à organização pelo menos 100 milhões de dólares anuais.

   As deserções têm vindo a aumentar e mais de 200 guerrilheiros entregaram-se este ano às forças governamentais que instituíram um fundo de 100 milhões de dólares para pagamentos a desertores.

   A guerrilha mantém a sua estrutura militar descentralizada e Jorge Briceño, aliás Mono Jojoy, que comanda o Bloco Oriental – o núcleo mais forte com 4.000 guerrilheiros e que tem em seu poder a maior parte dos cerca de 700 reféns das FARC – é, ainda, o comandante com mais influência no terreno, apesar de o Bloco Sul controlar o grosso do narcotráfico.

                           Desmobilizar, traficar, perseverar  
                
   O presidente Álvaro Uribe recusa a pretensão das FARC de obterem o estatuto de entidade beligerante e poderem acantonar-se numa zona desmilitarizada de 800 quilómetros quadrados no Sul da Colômbia para negociar a eventual libertação de reféns.

   Para o governo de Bogotá só é possível a desmobilização total das FARC, tendo o presidente aventado a possibilidade de ex-guerrilheiros virem a partir para França em liberdade condicional.

   Se as actuais ofensivas militares quebrarem as FARC será inevitável que, à semelhança do ocorrido com a desmobilização de mais de 30 mil homens de grupos de extrema-direita em 2006, uma parte da guerrilha se converta exclusivamente ao tráfico de droga, sobretudo nas regiões do Sul da Colômbia.

   Aos guerrilheiros que aceitem eventualmente desmobilizar, Uribe terá de oferecer garantias de segurança para que não se repitam os assassínios que entre 1984 e 1988 custaram a vida a mais de três mil militantes da União Patriótica.

   A conjuntura não é propícia neste particular e acentuará as divisões entre os líderes das FARC sobre possíveis negociações com Bogotá, sendo provável que persistam alguns núcleos de guerrilha irredutíveis.

   Os assassínios de sindicalistas (mais de 450 vítimas desde que Uribe ascendeu à presidência em 2002 e, ainda que a violência tenha diminuído no ano passado, apenas três por cento dos crimes resultaram até agora em condenações judiciais) e as recentes revelações de conivências de narcotraficantes de extrema-direita com políticos apoiantes do presidente pouca confiança podem oferecer aos líderes da guerrilha.

   A extradição para os EUA, este mês, de 15 ex-dirigentes das forças paramilitares de extrema-direita acusados de violar os termos do acordo de paz de 2003 tão-pouco sossegará os narcotraficantes das FARC.

   O modelo de penas reduzidas e garantias de não-extradição negociado com a extrema-direita é, no entanto, a oferta que Uribe tem na mesa para os herdeiros de Marulanda, morto na selva, perdedor de todas as guerras.


Jornal de Negócios
28 Maio 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=318240