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domingo, 2 de setembro de 2012

Penúltimo acto na crise iraniana

Javier Solana e Saeed Jalili



   São pouco animadoras as perspectivas para as conversações que se iniciam na quinta-feira, em Genebra, entre o Irão, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha.

   A suspensão do programa de enriquecimento de urânio, a troco de garantias de segurança e levantamento de sanções comerciais e financeiras, é o mínimo denominador comum entre ocidentais, russos e chineses, mas Teerão reitera, em princípio, o cunho pacífico do seu programa nuclear e recusa a exigência do Conselho de Segurança.

   A construção de uma segunda instalação para enriquecimento de urânio, só reconhecida por Teerão a 21 deste mês, obriga ainda o Irão a aceitar a sua inspecção pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).

Outro segredo controverso
  A unidade, situada perto da cidade santa de Qom, entrará em funcionamento a partir do próximo ano e terá uma capacidade demasiado pequena para servir à produção de energia eléctrica, mas suficiente para enriquecimento de urânio, capaz de eventualmente ser utilizado para fins militares.

   Tal como sucedeu no Verão de 2002, quando dissidentes iranianos revelaram a existência de instalações nucleares secretas em Natanz (enriquecimento de urânio) e Arak (produção de água pesada para moderar processos de fissão), a construção de mais uma unidade perto de Qom já era do conhecimento prévio dos serviços de informação norte-americanos, além de britânicos e franceses.

   A nova unidade tinha sido identificada há pelo menos quatro anos pelos Estados Unidos e os trabalhos de construção aceleraram em 2006, o que se afigura contraditório com a avaliação oficial das 16 agências de informação norte-americanas de Novembro de 2007 de que o Irão teria suspendido no Outono de 2003 um "programa militar nuclear", ou seja após a invasão do Iraque ocorrida em Março.

   A estimativa, referindo "alto grau de confiança" nas suas conclusões, definia como programa militar nuclear "projectos de concepção e aplicação armamentista e actividades clandestinas correlativas de conversão e enriquecimento de urânio".

   O consenso oficial das agências norte-americanas foi imediatamente contestado, designadamente por alemães e israelitas, e, entre outras avaliações para consumo público, as presentes estimativas de Washington apontam para um prazo máximo de cinco anos até o Irão ter capacidade para dispor de suficiente urânio enriquecido, tecnologia para construção de dois ou três engenhos nucleares e respectivos meios de transporte.

   Na frente de informação e desinformação, o Irão está, de momento, numa   situação difícil para justificar omissões diversas e dados suspeitos na posse da AIEA e até à publicação do próximo relatório da agência de Viena, previsto para Novembro, não será possível aos inspectores concluírem o escrutínio da unidade de Qom.

Sanções em dúvida

  No cenário provável das conversações de Genebra não produzirem resultados positivos, o Conselho de Segurança terá de decidir no final do ano um quarto pacote de sanções contra o Irão, na sequência das medidas adoptadas a partir de Dezembro de 2006 que incidem essencialmente sobre transacções relacionadas com equipamentos militares e aquisição de componentes para a indústria nuclear.

  Os Estados Unidos têm vindo a agravar sucessivamente as sanções financeiras e comerciais desde a crise dos reféns de 1979-1981, a União Europeia, principal parceiro comercial do Irão, limita, também, transacções envolvendo o maior banco iraniano, o Banco Melli, e concessão de créditos, mas no contexto internacional o Irão consegue escapar a um bloqueio como o que recaiu sobre o Iraque de Saddam Hussein a partir de Agosto de 1990, após a invasão do Koweit.

   A China surge claramente como o principal opositor a sanções multilaterais gravosas, dado que depende das importações de petróleo iranianas (15 % das compras chinesas de crude no primeiro semestre deste ano) e abastece Teerão com gasolina, através de intermediários em Singapura, já que a falta de capacidade de refinação do Irão obriga o país a adquirir no exterior o suficiente para satisfazer 40 % do consumo interno.

   A Rússia, apesar das suas inquietações com o desenvolvimento do arsenal de mísseis iranianos e os riscos de proliferação nuclear no Médio Oriente, tem demasiados interesses estratégicos no Cáucaso e no Mar Cáspio para hostilizar Teerão, e, presentemente, limita-se a adiar a entrega de baterias de mísseis antiaéreos S 300, contratada em 2005.

   Entre estados vizinhos, o primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, já se manifestou contra a imposição de sanções que afectem designadamente as exportações de gás iraniano e o presidente do Iraque, Jalal Talabani, declarou contraprodutiva e ineficaz a eventual adopção de novas medidas punitivas contra Teerão.

   A via do boicote aos fornecimentos de combustíveis, mesmo que Washington imponha medidas unilaterais contra empresas, seguradoras e resseguradoras envolvidas no fornecimento por via marítima de derivados do petróleo ao Irão, parece inviável e estados como a França têm presente que este tipo de embargos atinge brutalmente a população como sucedeu no Iraque.

  Sanções contra investidores na indústria do petróleo e gás dificilmente serão aceites no Conselho de Segurança, ainda que talvez seja possível reforçar os controlos sobre transacções internacionais de empresas iranianas ou interditar vendas de equipamentos militares.

A próxima Primavera e talvez a guerra
  No pior e mais previsível dos cenários não haverá compromissos aceitáveis para o Irão desenvolver um sector nuclear civil sob supervisão da AIEA e tão pouco será adoptado pela ONU um regime multilateral de sanções gravosas.

  Falhada a via das sanções, aliás de eficácia duvidosa face à determinação dos diversos centros de poder no Irão quanto à necessidade de dotar o país de um programa nuclear civil capaz, no mínimo, de rápida conversão militar, restarão, já na próxima Primavera, duas alternativas.

   Os Estados Unidos terão de optar entre aceitar um Irão capaz de se dotar a curto prazo de capacidade de dissuasão militar nuclear e respectivas consequências de proliferação regional, ou, então, preparar condições para um eventual acto de força.

   Em Israel, partindo do princípio de que não serão aplicadas sanções internacionais gravosas, será chegada a altura em que terá de ser tomada uma decisão sobre a viabilidade e oportunidade de uma acção militar capaz de atrasar significantemente o programa nuclear do Irão.


Jornal de Negócios
30 Setembro 2009

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Um embargo arriscado




   A reorganização do mercado petrolífero seguirá um rumo que dificilmente convirá aos interesses europeus e norte-americanos.
  
   Os efeitos contraproducentes do embargo petrolífero da União Europeia ao Irão deverão fazer-se sentir ainda antes do Verão e da imposição plena das sanções comerciais, económicas e financeiras dos Estados Unidos e de outros aliados como a Austrália.

   Obrigar Teerão a regressar às negociações sobre o programa nuclear é o objectivo declarado do embargo, mas, mesmo que as conversações sejam retomadas (sem garantias de obtenção de acordo satisfatório) a reorganização do mercado petrolífero seguirá um rumo que dificilmente convirá aos interesses europeus e norte-americanos.

   O Irão terá de compensar a perda do mercado da UE (20% do total das exportações de crude) e, desde logo, interessa-lhe que os preços não caiam abaixo dos 100 USD/barril para aliviar perdas das receitas na ordem dos 70 mil milhões de dólares (metade do orçamento de estado) que obtém com vendas de petróleo.

   A Arábia Saudita ou a Rússia, dois exportadores com necessidade de financiarem dispendiosos programas sociais por motivos de segurança interna, partilham o mesmo interesse.

                                        Petróleo caro

   A procura global de petróleo deverá rondar este ano entre os 90 a 89 milhões de barris/dia, de acordo com projecções da "Agência Internacional de Energia" e da "Organização dos Países Exportadores de Petróleo", e a médio prazo o consumo continuará a superar a oferta.

   O Irão extrai actualmente cerca de 3,5 milhões barris/dia e a capacidade de produção extra da OPEP cifra-se em 2,85 milhões barris/dia (75% assegurada pelos sauditas), segundo a AIE, chegando aos 3,8 milhões barris/dia se forem considerados Iraque, Nigéria, Venezuela e Líbia.

   Caberá a Riade, além do Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos, assegurar a estabilidade do mercado, independentemente de eventuais acréscimos na produção iraquiana e líbia.

   A capacidade extra das monarquias do Golfo equivale praticamente às exportações iranianas que rondam os 2,5 milhões barris/dia e teoricamente estabilizará os preços, podendo-se negligenciar a valorização de variedades de crude próximas da qualidade iraniana como o "Urals" russo em relação ao "Brent" do Mar do Norte.

   O Irão deverá conformar-se com a redução a curto prazo das compras de outros importantes clientes como o Japão e a Coreia do Sul (17% e 9% das exportações, respectivamente), mas procura obviar a maiores perdas mantendo ou alargando as quotas de venda à China (20%) e Índia (17%).

                                     Um óbice estratégico

   Pequim adquiriu em 2011 ao Irão 557 000 barris/dia (um aumento de 30% em relação a 2010 ano em que as compras chinesas de crude no mercado internacional subiram 6,1%) e desde Dezembro as suas companhias pressionam Teerão para maiores descontos.

   Além dos investimentos no sector de hidrocarbonetos iraniano a China dificilmente poderá reduzir drasticamente a quota de vendas do seu terceiro maior fornecedor após a Arábia Saudita e Angola.

   A Índia, longe da diversidade de fornecedores conseguida pela China graças às compras em África e na América Latina, depende do Irão para 11% das suas necessidades de petróleo e 70% das suas importações provêm do Médio Oriente.

   As duas potências asiáticas, independentemente da avaliação que façam dos seus interesses estratégicos nas relações com Washington e em menor medida com a União Europeia, não podem ficar excessivamente dependentes de fornecimentos de petróleo das monarquias do Golfo.

   Nem a Pequim, nem a Nova Delhi interessa uma dependência energética sujeita à garantia de defesa e segurança em última instância dos Estados Unidos.

    Teerão irá tentar obviar aos danos do cerco norte-americano e europeu através de acordos de troca directa, da negociação de preços favoráveis - sobretudo a empresas chinesas e indianas - contornando o sistema bancário sujeito a sanções e por via do mercado negro.

   As eleições legislativas de Março irão demonstrar se as sanções reforçaram uma dinâmica política mais nacionalista e intransigente no Irão como é de esperar.

   A subida gradual dos preços do petróleo pode, entretanto, ser dada como  adquirida porque não é possível tentar excluir o quarto maior produtor do mercado mundial sem arriscar uma agitação dificilmente controlável.

Jornal de Negócios
25 Janeiro 2012

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O apertar da tarraxa




   O bloqueio ocidental do Irão ficou completo com a entrada em vigor este mês das sanções da UE interditando o seguro de transporte de crude e a aquisição de petróleo a Teerão.

  Obrigar o Irão a renunciar a um programa nuclear passível de uso militar é objectivo da UE e de Washington, tal como das sanções decretadas pela ONU, mas após o fracasso das negociações entre Teerão e os membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha, é pouco crível que estas pressões venham a surtir efeito.

   A semana começou, entretanto, com exercícios militares iranianos e lançamento de mísseis "Shahab" de longo alcance (1300 Km) e ameaças de parlamentares de Teerão de eventual bloqueio do estreito de Ormuz a navios que transportem crude para países que apliquem sanções.

   A um nível mais prosaico o governo de Teerão anunciou a suspensão de aumentos de preços de produtos alimentares, água e energia, no âmbito de um programa a cinco anos de eliminação de subsídios iniciado em Dezembro de 2010, enquanto o Banco Central referia dispor de 150 mil milhões de dólares em divisas para fazer frente à ofensiva ocidental.

   Ante a iminência de novas sanções a quebra na produção e exportações de petróleo já se tinha feito sentir.

   Os 3,3 milhões de barris/dia extraídos em Maio reduziram-se para 2,95 milhões em Junho, de acordo com estimativas da "Reuteurs", prevendo a "Agência Internacional de Energia" que o Irão venha produzir menos 1 milhão de barris/dia no segundo semestre deste ano.

   Neste cenário a Arábia Saudita mantém altos níveis de extracção e o Iraque ultrapassou o Irão, tornando-se no segundo maior produtor da OPEP que, em Junho, extraiu 1,63 milhões de barris/dia acima do tecto de 30 milhões acordado entre os 12 estados, ainda que o crude tenha caído de 130 USD em Março para menos de 90 USD no mês passado.

   Para Teerão à perda do mercado da UE, que representava 18% das exportações, vêm juntar-se reduções nas aquisições da Coreia do Sul, Japão, Índia e China.

   A prazo a China e a Índia não prescindirão do crude iraniano para evitar uma excessiva dependência das monarquias do Golfo sujeita a garantia em última instância de defesa e segurança por parte dos Estados Unidos.

   Nesta fase, contudo, Pequim e Nova Delhi salvaguardam os seus interesses a troco de concessões e descontos nas compras de petróleo que Teerão terá de acomodar para reduzir prejuízos.

   Vendas através de empresas de fachada, o recurso a troca directa, pagamentos em ouro ou divisas distintas do dólar e do euro, não compensarão as perdas num sector que representa 80% das exportações e metade das receitas do orçamento do Irão.

   Teerão não conta com indústrias que evitem o recurso a importações significativas de artigos de consumo corrente e bens de capital, confronta-se com a desvalorização do rial (perda em relação ao dólar superior a 50% num ano) e uma taxa oficial de inflação anual que, em Maio, atingiu os 22,2%.

   O Irão corre o risco -- apesar de a dívida pública rondar apenas 9% do PIB – da deterioração dos saldos positivos do orçamento e da balança de pagamentos provocar uma espiral inflacionista e uma contracção económica superior aos 1% previstos para este ano e aos 0,7% estimados para 2013 pelo "Banco Mundial".

   O regime tem resistido às sanções que os Estados Unidos começaram a impor desde 1992 para conter o programa militar nuclear, posteriormente acompanhadas de restrições aprovadas pela ONU e ampliadas por estados aliados de Washington.

   O boicote comercial, económico e financeiro falhou até agora os seus objectivos políticos e nada indica que os decisores políticos iranianos não estejam dispostos a arrostar com os custos do desafio a velhos inimigos.

   As sanções internacionais criaram sérias dificuldades à prossecução de programas de desenvolvimento de armas de destruição maciça no Iraque e na Líbia, mas, do ponto de vista preponderante no Irão, os exemplos de Saddam Hussein, Gaddafi e da Coreia do Norte, no pólo oposto, provam que um estado em confronto com Washington só garante alguma imunidade perante um ataque militar se dispuser de meios de retaliação.

   O apertar da tarraxa surge numa altura em que Teerão aposta que um ataque israelita seja contido por Washington, aguardando, de resto, pelos resultados das eleições de Novembro para a Casa Branca antes de eventualmente optar por novas tácticas para protelar concessões.

   O bloqueio económico, comercial e financeiro dos Estados Unidos e da União Europeia é mais uma frente de combate num conflito que caminha para um confronto letal.

Jornal de Negócios
04 Julho 2012

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A grande guerra do Irão

Bloquear Ormuz seria para Teerão um último recurso em situação de guerra total, envolvendo confronto com Israel e apoio de potenciais aliados do Iraque ao Líbano.

Petróleo em alta, rial em queda, sanções e ameaças militares deram o mote para um ano de tensão no Golfo Pérsico em que qualquer erro de avaliação pode resultar num confronto.

As sanções aprovadas no Congresso e ratificadas por Obama contra o Banco Central de Teerão e seus clientes privados e estatais só entram em vigor em Junho, e apenas se o presidente as considerar favoráveis ao interesse nacional, mas bastaram para provocar a quebra do rial.

A apreensão nos mercados iranianos justifica-se pelo teor cada vez mais gravoso do cerco montado pelos Estados Unidos, Canadá e Grã--Bretanha, a que em breve se poderá juntar a União Europeia, às instituições financeiras iranianas e à sua indústria de hidrocarbonetos.

Sanções financeiras e comerciais continuam, entretanto, sem apoio de Pequim e Moscovo no Conselho de Segurança e ameaçam directamente os interesses dos principais comerciais do Irão, como a China, a Índia, Japão e Coreia do Sul.

O objectivo de criar uma dissuasão nuclear militar, consensual entre as elites iranianas desde o final dos anos oitenta, não será, no entanto, abandonado, por mais prejuízos económicos que as sanções possam causar.

A intervenção estrangeira contra Muammar Gadafi, que em 2003, na sequência da invasão do Iraque, abandonara o seu programa clandestino de armas de destruição maciça, apenas reforçou uma convicção estratégica essencial em Teerão.

A amplitude limitada das medidas de pressão lideradas por Washington e o actual cálculo russo e chinês de que o risco de uma nuclearização militar limitada do Irão é ainda preferível aos custos de uma guerra generalizada do Golfo Pérsico ao Mar Cáspio oferece suficiente margem de manobra a Teerão.

Braço-de-ferro

As eleições legislativas de Março irão definir as relações de força entre as principais facções do poder, os partidários do presidente Mahmud Ahmadinejad vs. Guia Supremo Ali Khamenei.

É do interesse do regime evitar que o sufrágio seja marcado por fraudes que relancem a contestação ocorrida na reeleição fraudulenta de Ahmadinejad em 2009, quando, pela primeira vez, foi posta em causa a legitimação popular da República Islâmica.

A recente escalada retórica quanto a um eventual bloqueio do estreito de Ormuz facilita a mobilização ante a ameaça externa, leva à alta do crude e aumenta as receitas do Irão - cuja produção petrolífera ronda presentemente os 3,5 milhões de barris/dia -, mas agrava o risco de isolamento diplomático de Teerão.

A capacidade militar limitada do Irão para impedir durante alguns dias ou semanas o tráfego de petroleiros não resistiria à intervenção imediata da V Esquadra dos EUA e os efeitos negativos sobre preços do crude e seguros marítimos levariam a amplo apoio internacional para punição de Teerão.

Bloquear Ormuz, por onde passa cerca de 17% do crude à disposição do mercado mundial, seria para Teerão, cujo orçamento depende em mais de 50% das receitas de exportação de petróleo, um último recurso em situação de guerra total, envolvendo confronto com Israel e apoio de potenciais aliados do Iraque ao Líbano.

Confronto inevitável

Os avanços no enriquecimento de urânio indiciam que, salvo novos atrasos provocados por sabotagem externa, o Irão poderá dotar-se, provavelmente até 2014 ou 2015, de engenhos nucleares mesmo que tais bombas não possam ser disponibilizadas como ogivas transportáveis por mísseis.

Esta eventualidade garantiria ao Irão dissuasão óptima em termos de retaliação destrutiva, independentemente dos altos custos humanos e materiais, tal como sucede presentemente com a Coreia do Norte, e é inaceitável para Israel que a curto prazo tentará criar uma situação de confronto.

A maioria dos decisores político-militares israelitas opta por ataque preventivo, obrigando a envolvimento norte-americano, ainda que a escala e risco das operações ultrapasse em muito os bem-sucedidos raides pontuais contra o reactor nuclear iraquiano de Osirak, em 1981, ou as instalações clandestinas sírias de Deir ez Zor, em 2007.

As negociações sobre o programa nuclear continuarão a arrastar-se, sanções serão impostas e contornadas, e por mais algum tempo persistirá esta situação em que a paz é impossível e a guerra mais do que provável até que as armas façam valer outros argumentos.

Jornal de Negócios
04 Janeiro 2012
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O BCP às claras em Teerão

Pegando com pinças a comunicação diplomática parcial, truncada e descontextualizada, sobre um encontro entre Santos Ferreira e um representante da Secção de Assuntos Políticos e Económicos da Embaixada dos Estados Unidos, em Fevereiro de 2010, veiculada através de WikiLeaks, mesmo assim, ainda se conseguem colher alguns ensinamentos sobre um acto de desatino.

O BCP reconhece ter acedido, no início de 2009, a um convite do governo de Teerão para analisar a possibilidade de abrir linhas de negócios com empresas e bancos iranianos.
Nesta fase ignora-se se convites similares foram endereçados a outros bancos portugueses e suas eventuais reacções, mas, segundo o telegrama emitido de Lisboa, o BCP, após contactos com o Banco de Portugal, confirmados entretanto pelo banco central, optou por enviar uma delegação a Teerão.

Da visita realizada em Abril de 2009, mal passado um mês sobre uma declaração do Líder Supremo Ali Khamenei condenando as iniciativas políticas de Barack Obama para o Médio Oriente, passando pelas controversas eleições presidenciais de Junho, saltamos para a conversa de Fevereiro de 2010 solicitada pelo presidente do BCP para tactear a possível reacção norte-americana a eventuais negócios no Irão.

O cerne dos putativos negócios
O telegrama diplomático refere alguns pontos que batem certo com o comunicado do Banco de Portugal.

Santos Ferreira teria, alegadamente, esclarecido a posição de princípio do BCP de respeito pelos imperativos referidos pelo Banco de Portugal que explicitara as obrigações "decorrentes de legislação internacional que impõe medidas restritivas contra o Irão, designadamente os procedimentos específicos a observar pelas instituições financeiras nas suas actividades com entidades financeiras sediadas no Irão, bem como as proibições de financiamento ou de assistência financeira estabelecidas naquela legislação".

O Banco de Portugal teria, ainda, notificado o BCP quanto às "obrigações legais de comunicação ao Procurador-Geral da República e à Unidade de Informação Financeira de qualquer operação tentada, em curso, ou realizada, que seja susceptível de configurar a prática de crime de branqueamento ou de financiamento do terrorismo".

Na ausência de outras entidades confessadamente a par dos contactos do BCP com Teerão, e deixando de lado os inevitáveis desmentidos governamentais por ausência de prova factual, o resto da comunicação da Secção de Assuntos Políticos e Económicas, chefiada pelo conselheiro Richard Reiter, levanta, contudo, algumas questões.

O presidente do BCP afirma que o banco já teria informado a embaixada do Irão em Lisboa da decisão de não abrir negócios com entidades iranianas antes do encontro com o diplomata norte-americano, pretendo apenas "aferir qual a situação das sanções" e sua previsível evolução.

O telegrama refere precisamente o oposto e, não estando em causa a sua autenticidade, não se compreende porque iria a embaixada inventar que o BCP estaria em Fevereiro de 2010 a considerar a possibilidade de "realizar transacções a favor de instituições de crédito iranianas" e "operações de apoio" a clientes com interesses na área das exportações para o Irão.

Indica a Embaixada norte-americana que o BCP teria identificado quatro potenciais parceiros no Irão: três bancos privados - Tejarat, Parsyan e Eghtesad Novin - e outra entidade com participação estatal, o Export Development Bank of Iran. Nesses idos de 2010 todos eles a salvo das sanções em vigor decretadas pela ONU e a União Europeia.

O banqueiro não sabia
Causa estranheza que Santos Ferreira pareça ignorar e que o redactor do telegrama não indique que o Export Development Bank of Iran se encontrava desde Outubro de 2008 na lista negra de Washington como prestador de serviços para o Ministério da Defesa de Teerão.

O resto, a intenção de violação do sigilo bancário, é crime tipificado e prática ínvia e quase inevitável da banca no caso de transacções com estados, empresas e particulares que possam estar envolvidos em actividades suspeitas, neste caso um programa militar nuclear clandestino.

Informa a embaixada da disponibilidade manifestada por Santos Ferreira para acertar com as autoridades norte-americanas a vigilância das transacções de entidades iranianas que possam eventualmente vir a ter negócios com o BCP.

Recomenda a embaixada que se manifeste a oposição dos Estados Unidos a quaisquer transacções com entidades iranianas, ainda que reconheça a conveniência de caso no BCP vir a estabelecer relações comerciais com empresas e bancos do Irão se manterem os canais abertos para monitorização de eventuais negócios com Teerão.

A parte absolutamente abstrusa dos fragamentos que se conhecem destas conversas tem a ver com a conjuntura.

Andava Santos Ferreira nestas conversas com a Embaixada norte-americana, ponderando os custos e benefícios dos tratos com Teerão, em busca de protecção face a eventuais retaliações norte-americanas com propostas de salvaguardas, precisamente na altura em que estava ao rubro a negociação diplomática sobre a adopção de novas sanções económicas e financeiras contra o Irão.

No início de Junho deste ano, o Conselho de Segurança da ONU adoptava um quarto pacote de sanções interditando vendas de equipamentos e tecnologias passíveis de utilização num programa nuclear militar.

A resolução proibia, também, contactos com pessoas envolvidas em actividades de proliferação nuclear militar, congelava os activos do Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica e da companhia Linhas Marítimas da República Islâmica do Irão, além de recomendar particular vigilância sobre a actividade de instituições financeiras eventualmente ligadas a operações de proliferação militar nuclear.

A União Europeia, por sua vez, seguindo o exemplo de Washington, alargava significativamente no final de Julho as sanções contra o Irão, visando em particular o sector financeiro.
O Export Development Bank of Iran foi, precisamente, uma das instituições interditadas pela União Europeia.

A tonteria Não se compreende, portanto, a lógica que poderia levar o BCP a encetar operações com o Irão, juntando-se a uma vintena de bancos europeus que no início de 2010 ainda mantinham relações de negócio com entidades iranianas alvo de sanções dos Estados Unidos, logo na altura em que era claro que as restrições legais aos contactos com Teerão iriam aumentar.

O teor do telegrama da embaixada poderá ser "surreal e uma completa tonteria", conforme declara Santos Ferreira, mas não se vislumbra por que é que os diplomatas norte-americanos produziriam afirmações "falsas e fantasiosas" sobre um encontro solicitado pelo próprio banco.

Do que se conhece desta história, entre a versão do presidente do BCP e o telegrama da Secção de Assuntos Políticos e Económicos da embaixada norte-americana, a falta de discernimento parece ser uma falha a imputar a Santos Ferreira.

Jornal de Negócios
15 Dezembro 2010

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