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domingo, 9 de setembro de 2012

A última barata e o próximo terrorista




   O debitar a confirmação oficial do extermínio da última barata em Hohhot, capital da Região Autónoma Chinesa da Mongólia Interior, informação veiculada pela Agência Nova China, a par, provavelmente, das notícias sobre os esforços envergonhados de Carlos Melancia para se insinuar às boas sortes da geomância chinesa, com a erecção da estátua de uma carpa frente ao Palácio do Governador em Macau, contam-se entre alguns dos momentos mais excêntricos que me calharam em sorte como jornalista no final dos anos 80.

   Depois, claro, outras ocasiões vieram, desde, em longas entrevistas com Mikhail Gorbachev, o ex-secretário-geral, conceder a sua surpresa quanto à virulência dos movimentos nacionalistas, admitir uma ignorância genérica sobre o estado da União Soviética ao ascender ao poder em 1985, desconhecendo até o proveito das colheitas agrícolas num estado que se confrontava com o triste dilema de uma agricultura fruste e fustigada pelas rotineiras quatro estações do ano.

   Muito estranha foi, também, uma tumultuosa conversa nos jardins do palácio presidencial de Jacarta com Jusuf Habibie que acusava Kofi Annan de não ter respeitado um alegado acordo para adiar por três dias a divulgação do resultado do referendo de 30 de Agosto de 1999 de modo a permitir a declaração do estado de emergência em Timor-Leste e a substituição das unidades militares estacionadas na província por "tropas disciplinadas".

   Dizendo-se traído e humilhado pelos seus generais, em particular por Zacky Anwar Makarim, chefe dos serviços secretos indonésios em Timor, e pelo ministro da Defesa e chefe de estado-maior das forças armadas, Wiranto, o presidente indonésio jurava que se necessário fosse apelaria ao povo para se erguer contra os militares golpistas.

   Entretanto, Timor ardia e intrigantes indefinições que alimentavam, então, a crescente suspeita de que as autoridades portugueses também não estavam preparadas para o pior cenário vieram a confirmar-se preto no branco ao ler anos depois o depoimento de Ana Gomes no seu blogue "Causa Nossa".

   A antiga embaixadora revelaria, a 29 de Dezembro de 2004, ter partido "para Jacarta em Janeiro de 1999 com três meses adiantados de ajudas de custo no bolso, sem fundos para funcionamento dos serviços e sem qualquer fundo para uma emergência, que só no auge da crise de Setembro de 1999 foi disponibilizado (depois do embaixador da Holanda me emprestar dinheiro para pagar – adiantado – o avião que evacuou os jornalistas portugueses atacados no famigerado Hotel Makhota)".

                                Pequenos e diminutos pormenores

   Por tanta coisa vista e contada, chega uma altura em que se olha necessariamente, a considerável distância, os pequenos e diminutos pormenores.

  É significativa, por exemplo, a notícia de que a maioria dos multimilionários da China seja descendente directa de altos responsáveis do Partido Comunista Chinês. É uma especificidade do modelo chinês que passa em claro à maioria dos políticos que buscam a boa vontade de Pequim.

   Teríamos, a crer no Chief Executive China Online, um total de 2 932 filhos de dirigentes comunistas entre 3 320 possuidores de pecúlios acima dos 100 milhões de yuan, ou seja gente empreendedora com fortunas acima de 12 milhões de euros.

  Acontece, também, que ainda esta semana o presidente da Câmara de Xangai, Han Zheng, anunciou ter recuperado cerca de 990 milhões de euros de fundos desviados do fundo de pensões do município, pondo assim fim a uma purga política ao mais alto nível que se arrastava há meses.

                           As preocupações de Condoleezza Rice

   Pormenor por pormenor podemos assinalar aquilo que aventou, esta semana, em entrevista ao Der Spiegel o antigo chefe de operações da CIA na Europa.

   Tyler Drumheller afirmou ao semanário de Hamburgo que em tempos teve de informar a secretária de estado Condoleezza Rice acerca de uma operação de extradição extrajudicial.

   O ipsis verbis é confrangedor: "A sua preocupação principal não tinha a ver com o acerto ou erro da operação. O que lhe importava era o que o presidente poderia vir a pensar disso."

  Acha, então, o ex-responsável da CIA que "isto não é a forma correcta de conduzir operações clandestinas".

   Concisa conclusão de Drumheller que confessa, igualmente, ter chegado a pensar que a CIA tinha entregue o discurso errado a Colin Powell quando o então secretário de estado tentou convencer, em Fevereiro de 2003, o Conselho de Segurança da ONU da existência de armas de destruição maciça no Iraque, apesar das reticências dos serviços secretos norte-americanos sobre tais alegações.

                                   As tiradas de Ségolène Royal

   Que mais entre as coisas de nada?

   Ségolène Royal continua a perder-se sem tento na língua cada vez que se pronuncia sobre questões internacionais.

    Ainda antes de ter sido nomeada candidata presidencial Royal dizia, a 6 de Novembro, que o Irão, estado signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, não tinha direito a desenvolver projectos nucleares civis.

   A 23 de Janeiro haveria de repetir a mesma inanidade e dois dias depois revelava em entrevista radiofónica desconhecer quantos submarinos equipados com mísseis nucleares intercontinentais constam do arsenal francês.

   O mês já tinha, aliás, começado mal quando na sua primeira visita à China a candidata achou por bem louvar a rapidez da justiça chinesa.

  Dezembro não fora melhor com uma sucessão de declarações contraditórias acerca dos voos militares israelitas sobre o Líbano, a indiferença ante declarações de um deputado do Hizballah sobre o carácter nazi da política israelita e a afirmação de que a barreira de protecção/muro de separação erigida por Telavive na Cisjordânia se justificaria caso houvesse "um bom entendimento" entre árabes e judeus.

   Ségolène voltaria a 22 deste mês a criar a confusão com o governo canadiano ao louvar "a soberania e a liberdade do Quebeque" para acabar enredada às mãos de um humorista numa tirada equívoca sobre a independência da Córsega.

   Os sucessivos deslizes da candidata socialista não são meros sobressaltos de percurso malevolamente aproveitados pelos apoiantes de Nicolas Sarkozy.

   Acabam por revelar uma franca falta de preparação e ignorância dificilmente admissíveis numa candidata ao Eliseu.

                                 Sunita, xiita? Who cares!!!

   Por sinal, do outro lado do Atlântico, também abundam excentricidades perigosas.

  Silvestre Reyes, o novo presidente do comité da Câmara de Representantes que supervisiona os serviços de informação e espionagem dos Estados Unidos, revelou recentemente uma ignorância assombrosa em matéria de alto risco.

   Este democrata do Texas está na Câmara de Representantes há dez anos e tem servido nos comités que controlam as forças armadas e os serviços de informação.

  Combateu no Vietname e como congressista fez parte de delegações em visita a países tão inóspitos quanto o Iraque e a Coreia do Norte.
   Seria de esperar encontrar aqui um homem sabedor. Pura ilusão!

   Em entrevista a uma das revistas de referências de Washington, "Congressional Quarterly", Reyes afirmou que a Al Qaeda de Bin Laden é "provavelmente uma organização predominantemente xiita".

   O congressista não se saiu muito melhor quando lhe perguntaram o que pensava do movimento xiita libanês Hizballah. Também não sabia se eram sunitas ou xiitas.

   Lá confessou que é preciso fazer um esforço pois as questões são complexas, concedendo que pessoalmente tinha dificuldade em enquadrar as coisas.

   Nessa entrevista de Dezembro, Reyes admitia, ainda, reforçar a título excepcional o contingente militar no Iraque com mais "vinte ou trinta mil homens" por um período que poderia ir de dois a seis meses.

   Este mês ainda antes de acompanhar Nancy Pelosi numa viagem ao Iraque, Paquistão e Afeganistão, já considera inviável o envio de mais tropas, afirmando que o êxito do esforço de guerra "depende do governo iraquiano e que os Estados Unidos devem responsabilizar o governo iraquiano pelas suas acções".

   Silvestre Reyes não é caso único.

   Também o veterano e muito influente senador republicano Trent Lott depois de um encontro em Setembro com o presidente Bush já confessara não perceber porque é que xiitas e sunitas se andavam a matar uns aos outros.

   O senador republicano, outro devotado especialista em matérias militares e de segurança, admitiu mesmo que não conseguia distinguir xiitas e sunitas, parecia-lhe tudo a mesma gente. Pode, assim, imaginar-se o que terá sido a conversa na Casa Branca.

   É o que temos: ao mais alto nível de responsabilidade grassa uma ignorância atroz e criminosa que costuma revelar-se em imensos pormenores e explica muito desvario político e estratégico.

   Não é por acaso que ainda hoje se conta a história de um aristocrático diplomata da velha Europa que um dia confessou o maior dos segredos ao seu herdeiro: "a política, filho, é feita tantas vezes por gente tão ignorante que o melhor é guardarmos segredo disso".

   Era o segredo que o aristocrata tinha para contar acerca dos meandros do poder no Ancien Régime, mas que actualmente já não é possível esconder.


PS


An nescis, mi fili, quantilla prudentia mundus regatur?

Conde Axel Gustafsson Oxenstierna 1648

Jornal de Negócios
31 Janeiro 2007

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Um presidente desconcertante e dois chefes de governo equivocados

 Bush e John Howard
                                                    Forum APEC, Hanói, 18 Novembro 2006


    A vontade de "êxito instantâneo" é, afinal, uma ilusão nefasta, o Iraque uma "tarefa morosa" e difícil, mas o que conta é a determinação porque o triunfo é possível a menos que se opte pela retirada, tal a lição que, trinta e um anos após a queda de Saigão, George W. Bush diz ter retirado da guerra do Vietname ao compará-la com a actual situação em terras de Mesopotâmia.

   À desconcertante tirada de Bush na presença do seu aliado australiano John Howard, no primeiro dia de visita a Hanói, veio juntar-se a admissão por Tony Blair de que a intervenção no Iraque foi "um desastre", mas não por erros de planeamento ou devido a qualquer erro estratégico.

   Mais articulado do que o presidente norte-americano, o chefe de governo britânico culpava "as dificuldades" por motivo da violência desencadeada pela Al Qaeda e os insurrectos sunitas, por um lado, e pelas milícias xiitas apoiadas pelo Irão, por outro, contra a vontade de paz da maioria dos iraquianos.

    Determinado a manter tropas no Iraque em apoio do governo de Bagdade, Blair na sua entrevista ao canal inglês da Al Jazeera, concluiu que a dificuldade da situação residia na acção dos mesmos "elementos estrangeiros" que alimentam o extremismo global e, consequentemente, só uma estratégia de pacificação abarcando todo o Médio Oriente e o Afeganistão poderá conter a ameaça de uma corrente minoritária islamita "perversa e aberrante".

                             Blair em busca de crédito e parceiros

   A "estratégia global" de Blair passa por promover "forças moderadas" e oferecer uma parceria para "uma solução construtiva" à Síria e ao Irão a partir do momento em que designadamente Teerão abdique do apoio ao terrorismo e cumpra as suas obrigações internacionais desistindo do programa militar nuclear.

   A recusa de cooperação por parte de sírios e iranianos implica o isolamento internacional dos dois regimes, na visão do chefe de governo britânico.
Ignorando as advertências de Blair, Damasco e Teerão rapidamente tomaram a iniciativa diplomática para alargarem a sua margem de manobra no conflito sem esperarem por eventuais convites para negociações.

   A Síria restabelecia as relações diplomáticas com Bagdade cortadas em 1982 e o presidente Ahmanidejad convidada os homólogos iraquiano e sírio para uma cimeira em Teerão.

   Confrontada com as manchetes sobre o "desastre iraquiano", Downing Street viu-se obrigada a rectificar o sentido das declarações de Blair, precisando que o derrube de Saddam Hussein e a formação de um governo democraticamente eleito em Bagdade só podiam considerar-se como evoluções positivas e que o primeiro-ministro se limitara a constatar "as dificuldades existentes".

   As precisões e rectificações dificilmente terão elevado o crédito político de Blair nas capitais do Médio Oriente que, para além do caos da invasão do Iraque, ainda estão longe de lhe perdoar o apoio concedido a Israel quando Londres se recusou a apelar a um cessar-fogo imediato, em Julho, na fase inicial do ataque ao Líbano.

   De volta a Hanói, Condoleezza Rice, contagiada pelo desconcerto do seu presidente, afirmava, na mesma altura em que Blair se esquivava à apreciação desastrosa, que os iraquianos tinham boas lições a receber dos vietnamitas.

   No entender da secretária de estado os iraquianos devem preservar a sua unidade estatal e tal como os vietnamitas assumiram "escolhas difíceis" sobre os seus "conflitos internos" (eufemismo para a guerra contra a França entre 1945 e 1954 e para o posterior conflito com os Estados Unidos e os seus aliados anticomunistas) e abriram a economia ao exterior (a partir de 1986) também os povos da Mesopotâmia se seguirem o exemplo dos comunistas de Hanói terão "um futuro de paz e oportunidades".

   À encomendação da "escolha difícil" da guerra sem quartel dos líderes comunistas do Vietname e das suas reformas económicas após anos de catástrofe por parte da antiga professor universitária de Stanford, seguiu-se a vez do chefe do governo australiano que veio negar a ocorrência qualquer desastre no Iraque.

   Para John Howard é inverosímil falar em desastre pois a intervenção revelou-se apenas "mais difícil do que o esperado" e duas eleições, um referendo e o julgamento de Saddam são prova do "heroísmo" e "perseverança" dos iraquianos.

   Num fim-de-semana em que a violência fazia mais de 150 mortos no Iraque as declarações de Bush, Blair e Howard parecem, pois, revelar incapacidade em reconhecer que a situação se caracteriza pela proliferação de poderes rivais locais e regionais de base clânica, tribal e étnica, bem como pela multiplicação de bandos criminosos armados, em consequência da dissolução do estado central dominado pelos sunitas na era de Saddam Hussein, e que nenhuma potência exterior está em condições de impor os termos de uma eventual partilha do país.

   Constatar que o exército e as forças de segurança são permeáveis à acção de milícias desafectas ao governo central e reconhecer o fracasso do executivo de Bagdade em assegurar o mínimo de consenso entre partidos xiitas, curdos e sunitas, além de se mostrar incapaz de prover condições de segurança e serviços básicos de fornecimento de electricidade e água, cuidados de saúde e saneamento, é acto que tão pouco parece estar ao alcance dos actuais responsáveis em Washington, Londres e Camberra.
      
                            A pergunta que faziam a Baker

   O paradoxo da presença militar estrangeira ser factor de conflito e, simultaneamente, único freio à guerra civil aberta e generalizada, condiciona qualquer iniciativa política e acabou por deixar os três políticos implicados no fracasso à espera das propostas que a comissão Baker-Hamilton venha a aventar para puderem alterar o rumo.

   Henry Kissinger já opinou junto da comissão bipartidária que uma retirada precipitada destabilizaria por muito tempo a região, admitindo, no entanto, que o governo de Bagdade não conseguirá impor a curto prazo a sua autoridade a todo o país e controlar a violência sectária.

   Para o velho estratego só uma grande conferência internacional, com participação obrigatória da Síria e do Irão poderá definir compromissos que permitam ultrapassar o impasse.

   Da parte de Bush e de Howard, o compromisso para com um calendário de retirada faseada parece, no entanto, ser a atitude mais previsível ante as recomendações que o painel de notáveis e o grupo de análise do Pentágono venham a apresentar.

   A opção de reforço do actual contingente militar é, notoriamente, de difícil execução, de valia duvidosa e praticamente impossível de aceitar pelas opiniões públicas nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália.

   Já Blair acalenta algumas esperanças de apoio à sua vaga "estratégia global" e à possível convocação de uma grande cimeira internacional à semelhança da Conferência de Madrid orquestrada por James Baker em Outubro de 1991 com a anuência de Gorbachev no rescaldo da Operação Escudo do Deserto que obrigou Saddam a retirar do Kuwait e garantiu a autonomia das regiões curdas na zona de exclusão no norte do Iraque.

   Antes do mais, o presidente desconcertante e os dois primeiros-ministros equivocados terão, contudo, de atentar nas razões que levam James Baker a contar para quem o quer ouvir como, depois de anos passados a ser constantemente interrogado sobre as razões que o levaram a apoiar a decisão de Bush pai de não derrubar Saddam Hussein em 1991, acabou por chegar uma altura em que já ninguém via necessidade de lhe perguntar tal coisa.

   Já ninguém pergunta ao antigo secretário de Estado o porquê de tão controversa decisão que tanto amargou aos xiitas.

   Ninguém o interpela sobre tal opção desde o final de 2003, meio ano depois de Bush filho ter proclamado o "fim de operações militares significativas" no Iraque a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln com a faixa em fundo de "Missão Cumprida", quando os crescentes ataques de insurrectos e terroristas sunitas e xiitas vieram juntar-se ao caos dos primeiros meses da ocupação.



Jornal de Negócios
22 Novembro 2006

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Tudo se desmorona

Hassan Nasrallah, Líder Hizballah


   Quando, a 20 de Julho, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan presidiu na República Turca do Norte do Chipre ao trigésimo segundo aniversário da invasão turca da ilha, denunciando o embargo europeu ao enclave, reconhecido apenas por Ancara e o Arzebeijão, já comandos turcos faziam missões de reconhecimento nas montanhas Kandil, no Curdistão iraquiano.

   Ancara, em pleno braço de ferro com Bruxelas sobre o estatuto de Chipre, ameaça desencadear uma ofensiva contra as bases dos guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão em retaliação pelos ataques que os separatistas curdos têm vindo a lançar a partir do norte do Iraque.

   A Turquia denuncia, ainda, a complacência do governo do Iraque ao permitir a abertura de centros de propaganda do Partido dos Trabalhadores do Curdistão em Kirkuk e Bagdade e exorta a União Europeia, os Estados Unidos e a NATO a apoiarem uma acção militar contra uma organização tida por terrorista nas capitais ocidentais.

   Paralelamente, a Turquia negocia a sua eventual participação numa força multinacional para o Líbano graças às boas relações que mantém com Israel e ao seu estatuto de membro da NATO e da Organização da Conferência Islâmica.

   A ameaça de intervenção militar turca - que deve evocar em Washington más recordações por via da recusa de Ancara em permitir a abertura de uma frente norte contra Saddam Hussein na campanha militar de 2003 - junta-se à vaga de atentados terroristas que nos últimos dois meses têm vindo a abalar Kirkuk, a capital petrolífera do norte do Iraque, disputada por curdos, árabes sunitas e xiitas, cristãos e turcomenos.

   O plano de reconciliação nacional do primeiro-ministro iraquiano Nuri al Malik revela-se, por sua vez, um fracasso e o Pentágono viu-se obrigado a transferir 3 200 homens de Mosul, no norte do país, para Bagdade num esforço para estancar a violência entre sunitas e xiitas na capital.

   Perigam os planos de retirada gradual do contingente norte-americano ante a persistência da insurreição nas províncias de maioria sunita, enquanto Londres e Washington se resignam à crescente afirmação das milícias xiitas no sul do Iraque, temendo a destabilização do Curdistão iraquiano como a machadada final na periclitante unidade do estado iraquiano.

   Totalmente ignaros face às realidades do Médio Oriente políticos norte-americanos, como o presidente do Partido Democrático Howard Dean, acabam a denunciar Nuri al Malik como anti-semita pelo facto do primeiro-ministro xiita recusar denunciar o terrorismo do Hizballah e acusar Israel de crimes de guerra no Líbano.

                            Um mistério dentro de um enigma

   Condoleezza Rice e seus assessores perderam-se, entretanto, na quimera da mais estranha das campanhas militares israelitas dando cobertura política a uma ofensiva que, alegadamente, propiciaria um golpe devastador contra um aliado regional do eixo maligno sírio-iraniano.

   Em boa verdade, o ataque ao Líbano revelou-se mais incoerente do que a investida israelita de 1956 contra o Suez, apoiada por Londres e Paris, e menos determinado do que as invasões de 1978 e 1982 para extirpar os guerrilheiros palestinianos.

   Por razões enigmáticas, mas em que o amargo de duas décadas de intervenção directa Líbano pesou muito, o Estado-Maior de Telavive optou por uma campanha de bombardeamentos aéreos, sem a correlativa ofensiva terrestre, com o objectivo inicial de escorraçar a componente guerrilheira - dotada de arsenais de mísseis subestimados - de um movimento islamita fortemente implantado nas comunidades xiitas do sul do Líbano.

   A ofensiva militar israelita falhou em toda a linha, reforçando a posição política do Hizballah. Uma acção de contra-guerrilha com ocupação territorial do sul do Líbano implicava aceitar baixas consideráveis por parte de Israel e obrigava a uma ocupação prolongada para a qual não existiam garantias diplomáticas.

   O objectivo de isolar o Hizballah das demais forças políticas libanesas era necessariamente incompatível com a devastação do país. Nada resultou e Telavive entrega-se, agora, à inaudita negociação sobre a eventual presença de forças multinacionais no sul do Líbano para garantia de uma zona desmilitarizada a prazo.

   A investida terrestre à terceira semana de guerra já só serve para delimitar território que venha eventualmente a ser ocupado por uma força militar internacional.

   O corolário político é, ainda, mais gravoso.

   A capacidade de dissuasão de Israel falhou: nem degradou significativamente a capacidade de flagelação do Hizballah, nem concretizou uma ocupação territorial para erradicar focos de guerrilha.

   O simples facto de o Hizballah ter resistido à ofensiva e continuar a flagelar Israel com os seus mísseis é motivo suficiente para Hassan Nasrallah reivindicar vitória.

   Não há político em Israel que não compreenda as implicações assustadoras do fracasso. Depois das Intifadas, após a vaga islamita, Israel mostrou-se incapaz de aplacar pela força os movimentos que põem em causa a sua existência como estado, ora as fronteiras impostas nas guerras de 1967 e 1973.

   Retiradas unilaterais ficam assim fora de questão sem acordos políticos com parceiros negociais reconhecidos internacionalmente. É um beco sem saída e, portanto, só resta a Telavive contar com a ameaça nuclear iraniana para recuperar margem de manobra diplomática.

                                    Trunfos de Teerão


  Ora, se houve potência regional capaz de capitalizar com a crise libanesa foi, precisamente, o Irão.

  Viu desfazer-se a inicial convergência dos estados sunitas na condenação do aventureirismo do Hizballah, cavalgou a vaga de repulsa anti-americana pelo apoio à ofensiva israelita e guardou-se para o confronto de Agosto.

  Tudo somado estamos perante um impasse muito similar ao criado pela Coreia do Norte, mas, enquanto Pyongyang prosseguiu um programa nuclear militar clandestino num contexto de escassez extrema de recursos e por exclusiva estratégia de unificação nacional sob a tutela do confucionismo-estalinista da dinastia de Kim Il Sung, o Irão optou, na senda do Xá Pahlevi, por dotar-se de capacidades de dissuasão, ou ofensivas, capazes de garantirem a sua hegemonia regional.

   Teerão guarda os trunfos de influência entre os xiitas do Iraque, apesar das reticências de Ali al Sistani, o principal ayatollah iraquiano, mas, sobretudo, joga com as dissenções entre as potências do Conselho de Segurança da ONU para ganhar tempo para o seu programa nuclear.

   Quando, a 22 de Agosto, Teerão, a meio termo das negociações sobre a crise libanesa, rejeitar as injunções da ONU e anunciar a prossecução do seu programa nuclear, cavará um fosso entre a Rússia, a China e os demais estados do Conselho de Segurança.

  Após as primeiras sanções, interditando designadamente transferências de tecnologia com possível uso militar, dificilmente haverá consenso para adoptar medidas que degradem sensivelmente a economia iraniana.

   Então, desfeita a quimera de uma vaga de democratização no Médio Oriente que a intervenção no Iraque alegadamente propiciaria, Washington terá de ponderar seriamente a possibilidade de um ataque militar ao Irão.


Jornal de Negócios
02 Agosto 2006

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sábado, 8 de setembro de 2012

Bush: os anos do fim

Valerie Plame e Joseph Wilson
 
 
   Um ano após a reeleição, o presidente perdeu a iniciativa política e começa a ganhar corpo a ideia de que o actual impasse irá prejudicar os interesses políticos dos seus apoiantes.
  
   Muito em breve o número de militares norte-americanos caídos no Iraque alcançará a fatídica fasquia dos dois mil mortos precisamente na altura em que George Bush se confronta com o pior escândalo dos últimos cinco anos.

   Karl Rove, o «cérebro» da Casa Branca, irá conhecer, ao que tudo indica, o mesmo destino de Lewis Libby, chefe de gabinete do vice-presidente, e ser confrontado com acusações de perjúrio e de violação da Lei de Protecção de Identidades Secretas.

   A denúncia de Valerie Plame como agente da CIA surge aos olhos da opinião pública, que mal digeriu o escândalo de Abu Graibh, como uma retaliação insane contra o seu marido, o embaixador Joseph Wilson, que, em Julho de 2003, acusou publicamente a Casa Branca de manipular informações e mentir sobre a alegada existência de armas de destruição maciça no Iraque.

   A revelação da identidade de uma agente secreta por altos responsáveis governamentais desmoralizou os serviços de informação e contribuiu para alimentar fugas sucessivas sobre a forma como a Casa Branca ignorou sistematicamente todos os dados e análises que punham em causa os planos de guerra.

   À direita as críticas sobem de tom. O antigo conselheiro de segurança nacional de Bush pai, general Brent Scowcroft, ridiculariza, agora, «a ideia evangélica» de que seja possível exportar a democracia por via militar, enquanto o chefe de gabinete do ex-secretário de estado Colin Powell, coronel Lawrence Wilkerson, acusa o vice-presidente Dick Cheney e o secretário da defesa Donald Rumsfeld de promoverem uma «cabala incompetente» e prosseguirem uma política externa ruinosa, com a conivência de Condoleezza Rice.

   Declarações contraditórias dos altos comandos sobre eventuais reduções do contingente militar e acerca da estabilização do Iraque fragilizam ainda mais a administração que não tem reconhecidamente estratégia alternativa e procura, em vão, recentrar a agenda política e conter as críticas crescentes dos sectores mais direitistas.

   Os índices de aprovação da política presidencial, abaixo dos 40 por cento, não põem ainda em causa a base de apoio republicana, mas as preocupações nas hostes partidárias avolumam-se com a expectativa de maus resultados nas eleições para o Senado e a Câmara de Representantes no próximo ano.

    Os inquéritos judiciais a Tom DeLay, que teve de renunciar à liderança da maioria republicana na Câmara de Representantes face a acusações de financiamentos eleitorais ilícitos, e ao líder no Senado, Bill Fristy, alvo de suspeitas mais difíceis de provar, de insider trading, não moralizam o partido.

   O mais grave, do ponto de vista da direita republicana, é, no entanto, a incapacidade de Bush de avançar uma agenda conservadora - sobretudo na questão do aborto e da disciplina fiscal -, acrescida de sinais de desorientação política.

   À nomeação bem sucedida, mas pouco entusiasmante para os radicais republicanas, de John Roberts para a presidência do Supremo Tribunal, sucedeu-se o fracasso na escolha da advogada Harriet Miers. Um caso de autismo político na linha do falhanço administrativo na gestão do desastre do furacão Katrina que bem revelou os perigos do favoritismo e da reestruturação dos departamentos federais de segurança segundo uma óptica estrita de combate a ameaças terroristas. 

   A bem acolhida indigitação de Bernard Bernanke para a presidência da Reserva Federal surge em fundo às dúvidas sobre o bem fundado da política económica da administração Bush que fracassou no controlo do défice orçamental.

   A alta dos combustíveis, os sinais de quebra no mercado imobiliário a agravar a redução do consumo interno, associadas aos défices comercial e orçamental, não dão grande margem de manobra a Bush, apesar das previsões da Reserva Federal apontarem para a manutenção de taxas de crescimento de 3,5 por cento no corrente ano e de 3,25 ou 3,5 por cento em 2006, à semelhança do que vem ocorrendo desde 2002.

   A tentativa de promover uma reforma do código fiscal, a última cartada de Bush para retomar a iniciativa política, encontra forte oposição no Congresso que já bloqueou as propostas de privatização da segurança social.

   Um ano após a reeleição, o presidente perdeu a iniciativa política e começa a ganhar corpo a ideia de que o actual impasse irá prejudicar os interesses políticos dos seus apoiantes.

   Em Dezembro de 2001 George Bush tomou a decisão de invadir o Iraque. Quatro anos o Iraque tem uma constituição que aliena a comunidade sunita e está a braços com uma insurreição que levará muito tempo da debelar.

   O espectro do Iraque assombra a Casa Branca. É a questão que paralisa a administração. Bush não pode declarar vitória e retirar; pede tempo, mas já não convence a opinião pública.

   Certo é que escândalos e crises de conjuntura são comuns, mas se os derradeiros três anos de presidência redundarem em gestão de expedientes para obviar a escândalos maiores e impotência estratégica, então, o panorama é mesmo muito negro.



Jornal de Negócios
26 Outubro 2005



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