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sábado, 22 de setembro de 2012

Timor-Leste: os impasses prováveis


 
 
   A Fretilin fracassou na tentativa de eleger à primeira volta o seu candidato presidencial, mas a criação de um bloco político alternativo ao partido de Mari Alkatiri é, ainda, uma aposta de alto risco.

   O aparente desaire do partido que nas eleições de Agosto de 2001 para a Assembleia Constituinte conseguira 57 por cento dos votos resulta da desagregação institucional, redundando na quase guerra civil do ano passado, e da degradação económica que continua a condenar à miséria mais de 750 mil camponeses. 

   As expectativas da restante população na área de influência da economia urbana, centrada na capital e em Baucau, foram igualmente defraudadas pela ineficácia do aparelho administrativo e a falta de emprego que atinge 40 por cento dos jovens.

   A fuga em massa da população, como sucedeu em Díli durante os confrontos de Abril e Maio, revelou a plena consciência por parte dos habitantes da capital da incapacidade do estado em garantir a segurança, além de mostrar a persistência dos traumatismos causados pelas violências que marcaram o país entre 1975 e 1999.
                        
                                      O projecto Alkatiri

    Um quinto dos timorenses subsiste com menos de um dólar por dia e a taxa de fertilidade de 7,8 por cento aponta para que a população triplique até 2050.

     A instabilidade política, a falta de quadros, o nepotismo e corrupção crescentes, a oposição da Igreja ao controlo de nascimentos apontavam, ainda antes da retirada da missão da ONU, para o fracasso dos objectivos governamentais de reduzir a pobreza extrema para metade até 2015 ou de diminuir significativamente o desemprego nas zonas urbanas.

   O culto tradicional da honra, da família e dos laços étnicos acentuou-se ante poderes de estado claudicantes e tornou-se, a par de um catolicismo popular com raízes na resistência à ocupação indonésia e muito marcado pelas devoções e ritos ancestrais, num dos principais factores na balança dos poderes simbólicos e das relações de força na sociedade timorense. 

   Neste contexto, a capacidade de mobilização do aparelho da Fretilin, hostilizado pela estrutura institucional da Igreja e pelo presidente, mostrou agora os primeiros sinais de enfraquecimento, mas, segundo os resultados provisórios, ainda revela capacidade para poder levar o seu candidato presidencial a uma vitória na segunda volta das eleições e comprometer seriamente as aspirações de Xanana Gusmão de vir a chefiar o governo de Díli.

   É de esperar ainda que, no mínimo, o partido de Mari Alkatiri consiga nas eleições legislativas de Junho ou Julho uma relevante minoria de bloqueio na assembleia de Díli, mas, mais provavelmente, será a formação chave para sustento de qualquer governo.

   A Fretilin conta com a sua organização partidária, a mais significativa a nível nacional, para garantir o controlo do incipiente aparelho de estado e, por isso, pode, de momento, privilegiar uma estratégia de investimentos no sector agrícola, infra-estruturas e equipamentos sociais, em detrimento de subsídios imediatos ao consumo.

   Esta custosa estratégia em termos sociais pensada por Mari Alkatiri implica, contudo, capacidade de contenção da violência o que obriga à muito morosa criação de um corpo militar e policial leal às chefias castrense e política.

   Acresce que terá de contar com a sagacidade e interesse de australianos e portugueses.

   A neutralização da Igreja, evitando que a hierarquia católica potencie forças de oposição ao governo, é outra exigência da estratégia de desenvolvimento a prazo que se confronta, no entanto, com o embaraço da indisponibilidade de quadros, tornando o aparelho estatal presa fácil da ineficácia que arrasta corrupções e nepotismos.

   Apesar da prevalência da Fretilin e do seu aparelho clientelar não ser a opção de maior agrado de conservadores ou trabalhistas na Austrália ou da diplomacia de bloco central portuguesa, será sempre possível aos estados com influência mais directa em Díli, incluindo a Indonésia, acautelarem uma rede de influências susceptível de evitar que Timor-Leste se transforme num foco de instabilidade regional.

   Xanana Gusmão permanecerá, contudo, como um embaraço capaz de a qualquer momento crítico mobilizar forças contestatárias ao projecto da Fretilin que tudo deve, essencialmente, a Mari Alkatiri.

   Um triunfo da Fretilin seria apenas o momento de conjuntura mais propício a uma estabilização instável e para tanto a sua vitória teria de se revelar incontestável nas eleições legislativas.                                            
                                        
                                  O projecto Horta-Xanana

   Timor-Leste é, a prazo, um estado precário, sob tutela de segurança estrangeira, e os proventos do fundo petrolífero, pensado em função da experiência de gestão norueguesa, arriscam, sobretudo, um destino mais próximo da Nigéria.

   Uma vitória de José Ramos-Horta nas eleições presidenciais abriria portas à investida de Xanana Gusmão contra a Fretilin nas legislativas e poria em causa o projecto desenvolvimentista de Alkatiri.

   A Fretilin, ainda assim, caso falhe a eleição presidencial e ocorra uma vitória por maioria relativa do recém inventado CNRT de Xanana Gusmão – a histórica sigla de Conselho Nacional da Resistência Timorense passa por Congresso Nacional da Reconstrução Timorense – disporá sempre de uma representação parlamentar capaz de bloquear qualquer iniciativa governamental.

   Com Ramos-Horta na presidência – apostado entre outras intenções que passaram despercebidas à imprensa portuguesa em levar Timor-Leste a seguir o exemplo de Moçambique solicitando a adesão à Commonwealth – o bloqueio institucional e partidário revelar-se-á inelutável mesmo na eventualidade de Xanana chegar à chefia do executivo.

    Ramos-Horta e Gusmão pretendem enveredar pela disponibilização imediata das receitas do sustento petrolífero e do gás natural e, eventualmente, promover uma isenção global de impostos para a quase totalidade dos timorenses. Sem uma estrutura administrativa e judicial capazes de controlarem a adjudicação de verbas elevadíssimas para a capacidade de execução do estado timorense é de esperar o pior.

   A dupla Horta-Xanana já deixou bem claro, no entanto, que, por necessidade óbvia de criar uma rede clientelar, optará por mobilizar imediatamente os mais de 1 200 milhões de dólares do fundo petrolífero para subsídios diversos.

    Sem estrutura partidária montada e subentendendo a criação de um sistema de clientela alternativo, a eventualidade desta estratégia surtir efeitos negativos e conflituosos é ainda mais perversa do que a lógica desenvolvimentista de Alkatiri.

   Mantém-se válido, portanto, com as devidas salvaguardas para apostas em casinos e outras jogadas de proventos abissais, o desabafo do antigo vice-ministro do Desenvolvimento, Abel Ximenes, no auge da crise de Abril/Maio do ano passado, de que “só um investidor maluco” aposta em Timor-Leste.

Jornal de Negócios
11 Abril 2007

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=293879

sábado, 25 de agosto de 2012

Timor: contas por saldar



  
As alianças para a segunda volta das presidenciais irão determinar as eleições legislativas de Junho em que CNRT e FRETILIN voltarão a medir forças.
Uma campanha invulgarmente ordeira as presidenciais aumentou as expectativas de autonomização de Timor-Leste da tutela de forças de segurança estrangeiras.

Apesar de alguns incidentes menores, os 12 candidatos concluíram hoje num clima distendido uma campanha em que a disputa na votação de sábado se deverá centrar em torno de Taur Matan Ruak, Francisco Guterres e José Ramos-Horta.

A reeleição de Ramos-Horta está bastante comprometida pelo apoio dado por Xanana Gusmão a Matan Ruak, comandante das Forças Armadas até Outubro de 2011.

Ramos-Horta após ser eleito em 2007 patrocinou a coligação liderada pelo recém-criado CNRT ("Conselho Nacional da Reconstrução Timorense", reciclando a sigla do "Conselho Nacional de Resistência Timorense") de Xanana, relegando para a oposição a FRETILIN.

Nas eleições legislativas de Junho de 2007 o CNRT elegera 18 deputados contra 21 da FRETILIN - sendo necessários 33 para maioria parlamentar – e o apoio de Ramos-Horta foi fundamental para permitir a Xanana formar governo com quatro pequenos partidos.

Num remate da crise político-militar que obrigara à demissão de Mari Alkatiri em Junho de 2006 os apoiantes da FRETILIN encetaram protestos violentos nas províncias orientais de Baucau, Lautém e Viqueque.

O espinho da FRETILIN

O afastamento do poder da FRETILIN -- que obtivera 57% dos votos nas eleições de 2001 para a Assembleia Constituente, transformada após a declaração formal de independência de Maio de 2002 em Parlamento Nacional – é questão ainda por resolver aos olhos do seu secretário-geral Alkatiri e do presidente Francisco Guterres. Tal como em 2007 Guterres pode passar à segunda volta, mas a FRETILIN – tradicionalmente a organização mais sólida e com maior número de quadros - enfrenta a rede de patrocínio e influências tecida por Xanana.

A convergência entre Xanana e Matan Ruak alimenta e fortalece estruturas de interesses e fidelidades distintas, mas que se confundem em certos casos, sobretudo na mobilização de veteranos da guerrilha.

Este bloco de poder, se não prevalecerem divergências pessoais e caso se mantenha o equilíbrio constitucional entre presidente, primeiro-ministro e parlamento modelado segundo o exemplo português, relega, uma vez mais, para segundo plano as províncias de leste, mas apresenta condições para governar.

As alianças para a segunda volta das presidenciais em Abril irão determinar as eleições legislativas de Junho em que CNRT e FRETILIN voltarão a medir forças.

Petróleo e pouco mais

A instabilidade pós-independência – motins de Dezembro de 2002, colapso do estado ante revolta de militares do leste em 2006, atentado contra Ramos-Horta em 2008 – manteve Timor-Leste sob tutela estrangeira.

A retirada até ao final de 2012 de mais de um milhar de efectivos policiais e de assessores militares estrangeiros – deixando espaço para acordos de cooperação bilaterais na área de segurança com Portugal e Austrália – é objectivo comum às lideranças políticas timorenses, mas só a conclusão pacífica dos processos eleitorais permitirá aferir da viabilidade destas aspirações.

A cooperação conseguida com Jacarta é factor extraordinariamente positivo, mas a perda da capacidade de mediação de conflitos por parte da igreja católica (cuja doutrina agrava o devastador crescimento demográfico de 3,4% ao ano) tem vindo a revelar-se óbice perigoso.

A confirmar-se a vitória do duo Matan Ruak-Xanana prosseguirá a política de fortes investimentos públicos – que tiveram um incremento de cerca de 350% desde 2008, atingindo este ano o orçamento, de execução duvidosa, 1,67 mil milhões de dólares –até os riscos da elevada inflação (taxa média anual de 14,3% em Janeiro) obrigarem a maior contenção.

Totalmente dependente do petróleo (cerca de 95% das receitas que só estão garantidas até 2025 sem que haja acordo até agora com a "Woodside" australiana para exploração das jazidas "off shore" de gás natural), o governo de Xanana optou por recorrer ao "Fundo Petrolífero" que conta com 7,2 mil milhões de dólares e comprometer-se com os primeiros empréstimos externos.

Pobreza generalizada, falta de quadros, prevalência da agricultura de subsistência e noutros sectores 70% de empregos precários, alta incidência da corrupção, condicionam qualquer esperança de progresso, mas Timor já conheceu dias piores.

Jornal de Negócios
14 Março 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=544269