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domingo, 9 de setembro de 2012

Iraque: a guerra acabou

 
Anbar, Janeiro 2007
 
 
    Toda a guerra tem um objectivo e a investida norte-americana no Iraque perdeu o norte.
 
   A guerra continuará nas terras da Mesopotâmia, mas os objectivos estratégicos de Washington esvaíram-se sem que tenha sido definida até agora uma alternativa por parte dos Estados Unidos.

   A “Estratégia Nacional para a Vitória no Iraque”, aventada em Novembro de 2005 pela Casa Branca, definia como objectivos a curto prazo a consolidação de instituições democráticas em Bagdad, sustentadas por forças de segurança próprias capazes de deter ameaças terroristas.

   O plano estratégico implicava a médio e longo prazo a instituição de um estado unitário capaz de integrar uma “parceria global de combate ao terrorismo”, com autonomia económica assente na exploração dos recursos petrolíferos.

   Quatro anos depois da intervenção militar os Estados Unidos confrontam-se com um fracasso estratégico e, independentemente de considerações tácticas acerca da condução de operações militares, chegou a hora de redefinir as alternativas de Washington no Golfo Pérsico e no Médio Oriente.
    
                                  A retirada pela Primavera

   Quando chegarmos à Primavera, será altura de iniciar a retirada de algumas brigadas a menos que a Casa Branca opte pela mobilização de efectivos da Guarda Nacional ou de reservas.

  Tal opção é inviável de um ponto de vista político e, consequentemente, na falta de efectivos mobilizáveis assistir-se-á a uma redução no actual contingente militar de 160 mil homens.

   A contenção de acções de guerrilha ligadas à Al Qaeda, através de acordos pontuais com tribos sunitas em Anbar, é notoriamente insuficiente para uma pacificação que implique um acordo político entre diversos grupos políticos nas províncias de maioria sunita. Acresce que as tréguas concertadas com as tribos sunitas em Anbar foram realizadas à revelia do governo central.

   Os confrontos em Bassorá entre milícias xiitas pelo controlo das principais jazidas de petróleo do Iraque, bem como a tensão entre curdos, árabes e turcomenos sobre o estatuto de Kirkuk no norte do país escapam, igualmente, à mediação do governo central e à intervenção das forças norte-americanas.

   O exército e as forças policiais iraquianas continuam a revelar-se divididas nas suas lealdades sectárias e impotentes para garantir condições de segurança, ao passo que as milícias xiitas e curdas mantêm as suas estruturas autónomas pondo em causa a autoridade do governo de Bagdad.

   A partilha dos recursos petrolíferos e a autonomia provincial e regional não fazem consenso entre os partidos políticos e minam a eficácia do executivo de coligação, enquanto o acantonamento por filiação étnica se estendeu a todo o país.

   Na capital, o êxodo da população sunita converteu a cidade numa metrópole de incontestável maioria xiita. Os bairros do noroeste de Bagdade foram, por exemplo, abandonados pelos habitantes sunitas e os xiitas constituem presentemente 75 por cento da população da maior cidade iraquiana.

   A maioria dos fundos disponibilizados até Junho pelos Estados Unidos (44,5 mil milhões de dólares) e por doadores internacionais (18,2 mil milhões de dólares), além dos 36,8 mil milhões de dólares investidos pelo governo iraquiano, não tiveram aplicações que se traduzissem na recuperação de infra-estruturas e a produção de petróleo mantém-se abaixo dos níveis de 2003.

   À excepção do Curdistão, os fornecimentos de electricidade são insuficientes, estima-se que apenas 30 por cento da população tenha acesso a água potável e, segundo dados da Oxfam, 28 por cento das crianças iraquianas revela sinais de desnutrição.

   Os mais de dois milhões de refugiados em países vizinhos e os dois milhões de deslocados no Iraque continuam sem perspectivas de retorno e realojamento.  

   Os níveis de violência mantêm-se muito elevados, tendo-se registado 1 980 mortes em Julho e 2.890 vítimas em confrontos e atentados em Agosto.
                                       
                                           Outra guerra

   Por qualquer padrão de avaliação os níveis de conflitualidade mostram um país atormentado por violências que opõem as principais comunidades étnicas e religiosas, sem que o governo central, paralisado por conflitos políticos, faça valer a sua putativa autoridade.

   Os objectivos estratégicos dos Estados Unidos não foram, portanto, atingidos e a instabilidade interna do Iraque tornou o país mais permeável aos interesses conflituosos dos estados vizinhos, designadamente o Irão, a Turquia e a Síria.

   Aos Estados Unidos resta apenas reduzir as perdas, tentar evitar que uma retirada faseada alente nos próximos dois anos uma guerra civil que provoque o desmembramento do estado iraquiano e concentrarem-se na protecção dos demais estados petrolíferos árabes do Golfo.

   A contenção do Irão passou a ser o principal desiderato estratégico dos Estados Unidos.
   Esta guerra acabou.

   Agora é outra guerra.



Jornal de Negócios
13 Setembro 2007

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=302324

Iraque: uma guerra sem norte

Bassorá, 30 Março 2008

   A próxima administração norte-americana terá de definir até ao final do primeiro trimestre de 2009 uma nova estratégia para o Médio Oriente, mas alguns objectivos essenciais irão condicionar quaisquer políticas.

   Conter o Irão e preservar o entendimento com as monarquias árabes petrolíferas do Golfo prevalecem sobre qualquer outra consideração, mas para Washington isso implica assegurar um Iraque não hostil (ou a neutralização de estados que resultem da sua desagregação) e, consequentemente, uma nova lógica para a guerra que se arrasta há cinco anos.

   A previsível instabilidade do Egipto pós-Hosni Mubarak e o conflito israelo-palestiniano (em que entra em jogo outro imperativo norte-americano que passa pela salvaguarda do estado judaico) implicam de forma menos directa com a guerra iraquiana, mas já a sorte da Síria e do Líbano levantam a questão-chave da política a seguir frente ao Irão que confina, ainda, com o arco de crises que vão do Afeganistão ao Paquistão.

                                O Irão é a questão essencial

   A guerra do Iraque transformou-se em grande medida no esforço para conter o Irão e suspender ou desmantelar o programa militar nuclear de Teerão.

   A guerra de Bush é já outra guerra.

   Um fracasso na contenção do Irão teria como consequência imediata uma escalada armamentista do Cairo a Riade e resultaria na falência do Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

   No desenlace da guerra do Iraque o que mais importa é saber se será possível preservar a integridade do estado e nesta matéria há consenso quanto à necessidade dos Estados Unidos manterem no país contingentes militares acima dos cem mil homens (acrescidos de mais de 50 mil mercenários em empresas de segurança) para evitar uma guerra civil.

   Uma eventual desintegração do Iraque criado pelo mandato britânico na Mesopotâmia em 1921 continua a ser uma possibilidade muito crível, mas, além da angústia regional que representaria a independência curda, a emergência de um estado xiita associado ao Irão transforma esta hipótese num pesadelo político para os regimes sunitas e os Estados Unidos.

                                  Uma violência suportável

   Apenas uma conjunção irrepetível de factores permitiu uma redução dos níveis de violência que chegaram a causar 65 mortos por dia na sequência do atentado à mesquita dourada de Samarra, em Fevereiro de 2006, para médias de 20 mortes/dia em Janeiro, 26/dia em Fevereiro e 39/dia na primeira metade deste mês.

   A violência própria de uma guerra civil diminuiu sobretudo a partir do final do Verão passado, mas aparenta ter voltado a aumentar desde o início deste ano.

   A adopção de nova estratégia anti-insurreição pelo general David Petraeus, o reforço militar norte-americano de 30 mil homens, o acordo táctico com tribos sunitas à revelia do governo central para obstar à campanha terrorista da Al Qaeda, a concretização da limpeza étnica de Bagdade a favor dos xiitas, a trégua do exército do Mahdi do líder xiita Moqtad Al Sadr e a cedência de Bassorá a milícias xiitas por parte da Grã-Bretanha diminuíram os níveis de violência, mas não se concretizaram em consensos políticos.

                                              Medir forças

   O Iraque, com os seus 2,5 milhões de deslocados internos e mais de 2 milhões de refugiados nos países vizinhos, subsiste naquilo a que o Pentágono define como níveis de violência suportáveis.

   Os combatentes medem forças para o próximo confronto.

   Os indicadores económicos e sociais continuam a mostrar-se negativos, apesar da diminuição da inflação de 32% em 2006 para 12 % em 2007, e como factor positivo desponta o aumento na produção de petróleo para 2,4 milhões de barris/dia no mês passado, o nível mais alto desde 2003.

   Falta combustível, contudo, porque das três maiores refinarias iraquianas saem apenas 700 mil barris/dia (60 mil barris/dia abaixo das necessidades de consumo interno), metade do nível alcançado antes da guerra, e na maior delas, em Baiji, no norte do país, estima-se que um terço da produção acabe desviada para o mercado negro.

   A execução orçamental por parte do governo de Bagdade, segundo o relatório trimestral apresentado este mês ao Congresso de Washington pelo Pentágono, registou progressos no ano de 2007, mas, mesmo assim, quedou-se pelos 36 % entre Janeiro e Agosto.

   Da leitura do relatório sobressaem, ainda, os custos da corrupção (não contabilizada) e outros indicadores tão negativos como uma produção de electricidade que só satisfaz 43% do consumo.

   A legislação negociada entre os partidos xiitas, curdos e sunitas para reintegração na administração de antigos membros do partido Baas de Saddam Hussein ou a partilha de recursos das receitas petrolíferas entre as 18 províncias ainda tem de dar provas de viabilidade efectiva e questões contenciosas como a convocação de eleições provinciais, o estatuto federal do país ou o referendo sobre a eventual integração de Kirkuk no Curdistão iraquiano continuam em suspenso.

   A oportunidade para negociações políticas criada pelo esforço militar gizado pelo general Petraeus e a conjunção momentânea de interesses díspares para conter uma escalada na guerra civil por parte de partidos xiitas, reservando-se para próximos combates, curdos, consolidando posições, e sunitas, procurando reduzir perdas inelutáveis, está prestes a esgotar-se.

   Na melhor das hipóteses o impasse irá arrastar-se até que John McCain, Barack Obama ou Hillary Clinton assumam uma nova estratégia no Iraque e concebam uma política regional para fazer frente ao Irão.



Jornal de Negócios
19 Março 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=313691

O Iraque depois do fracasso

Iraqis view burnt and damaged vehicles, after a suicide car bomb attack, in Kirkuk, 290 kilometers (180 miles) north of Baghdad, Iraq, Sunday Sept.17, 2006.

A series of five bomb attacks including two suicide car bombings in the northern city of Kirkuk Sunday left more than 20 people dead and nearly 80 wounded, police said.

Picture: AP/Yahya AhmedKirkuk, 17 Setembro 2006

  A amplitude da derrota republicana nas eleições do próximo mês determinará os termos da revisão da política norte-americana face ao Iraque, mas o fracasso estratégico de Washington é já uma realidade incontornável.

   O reforço da presença militar norte-americana em Bagdade, iniciado em Junho para tentar controlar a violência sectária na capital, não produziu resultados e a insegurança continua a aumentar nas províncias sunitas ao mesmo tempo que eclodem confrontos entre milícias xiitas.

   As rivalidades étnicas e as conivências com as diversas milícias impossibilitam que as forças policiais e militares iraquianas se assumam como garante de segurança, tornando vãs as promessas do governo central de controlar directamente metade das 18 províncias do país dentro de um ano.

   Seis meses após ter assumido o cargo de primeiro-ministro, o xiita Nuri al Malik é incapaz de assegurar o mínimo de consenso que permita dar corpo ao plano de reconciliação nacional ao mesmo tempo que as autoridades centrais não conseguem prover serviços básicos de fornecimento de electricidade e água, cuidados de saúde e saneamento.

   Todos os esforços de investimento e reconstrução estão condicionados pela deterioração das condições de segurança que provocaram mais de meio milhão de mortes nos últimos três anos e pelas deslocações de população que já levaram 1,6 milhões de iraquianos a deixar o país e condenaram outro milhão e meio à situação de refugiados internos.

  As recentes negociações encetados pelos militares norte-americanos com líderes tribais e grupos de guerrilheiros sunitas, excluindo, segundo as primeiras indicações apenas as facções ligadas à Al Qaeda – que representam menos de 10 por cento dos cerca de 20 a 40 mil insurrectos activos nas províncias ocidentais e no centro do Iraque – estão condenadas ao fracasso à medida que se acentua a preponderância das milícias xiitas do Exército do Mahdi, liderado por Moqtada Sadr, e da Organização Badr, o braço armado do "Conselho Supremo para a Revolução Islâmica".

                                 Bancarrota dos acordos políticos

   As garantias dadas este ano pelo embaixador norte-americano Zalmay Khalizad a líderes sunitas de que uma eventual reorganização administrativa implicaria uma partilha equitativa das receitas petrolíferas e o direito de veto sobre questões essenciais de segurança, relações externas e representação política caíram por terra.

   Os partidos xiitas impõem a sua lei no sul do país e nas áreas de maioria xiita de Bagdade e as regiões curdas praticamente não reconhecem a autoridade do governo central, reservando-se o direito de secessão.

   A estabilidade da região norte de maioria curda está, no entanto, sujeita a vagas periódicas de atentados terroristas sobretudo em Kirkuk, a sua capital petrolífera, disputada por curdos, árabes sunitas e xiitas, cristãos e turcomenos.

   Na inexistência de condições para a consolidação de um governo central que, através de um pacto de federação e suportado por um exército fiável e eficaz, possa impor a sua autoridade política e administrativa a todo o país, a discussão de calendários de retirada dos 140 mil militares norte-americanos e dos 7200 britânicos acantonados na região de Bassorá apenas agrava as dissensões étnicas.

   A proliferação de poderes locais e regionais de base clânica, tribal e étnica, bem como a multiplicação de bandos criminosos armados, é uma consequência irreversível a médio prazo da dissolução do estado central dominado pelos sunitas na era de Saddam Hussein e nenhuma potência exterior está em condições de impor os termos de uma eventual partilha do país.

   Mesmo um improvável acordo de princípio entre os Estados Unidos e o Irão sobre o estatuto da maioria xiita num estado independente ou como entidade preponderante num estado unitário ou federal não garantiria o termo das rivalidades entre as diversas facções xiitas, pouco propensas, aliás, a aceitar a tutela persa, e confrontar-se-ia com a oposição das restantes comunidades.

                                   Partilhas sangrentas

   Uma partilha do Iraque em três entidades, concedendo "grosso modo" as províncias do norte aos curdos, as regiões centrais aos sunitas e o sul aos xiitas, seguindo o modelo de administração otomano, implicaria um banho de sangue entre os sete milhões de habitantes de Bagdade e uma sistemática limpeza étnica de contornos tão selváticos quanto a divisão do Raj em 1947.

   Tal cenário seria agravado, ao contrário do que aconteceu com as independências da Índia e do Paquistão, pela forte possibilidade de intervenção das potências vizinhas, nomeadamente da Turquia temerosa de um eventual estado curdo independente, dos países de maioria sunita, como a Jordânia ou a Arábia Saudita e, naturalmente, do Irão, além de poder fazer perigar o domínio dos alauítas na Síria.

   Outra forma de partilha segundo o modelo confessional que vingou no Líbano a partir dos anos quarenta é inviável dado o passado recente de violência extrema e a desproporção entre as diversas comunidades: cerca de 65 por cento de xiitas, 20 por cento de sunitas, percentagem similar de curdos, além de minorias turcomenas e assírios, entre outras, entre os 27 milhões de habitantes do país.

   A incapacidade do exército (cerca de 130 mil homens) e das forças policiais (aproximadamente 150 mil efectivos) demonstrarem unidade e eficácia – o que, simultaneamente, afasta a tradicional solução do poder ditatorial de junta militar ou homem-forte -, bem como a existência de potências vizinhas com interesses divergentes quanto à estabilização e, sobretudo, neutralização do Iraque, tornam, também, irrelevante a opção do modelo confessional libanês.

   Ante o paradoxo da presença militar estrangeira ser factor de conflito e, simultaneamente, único freio à guerra civil aberta e generalizada, Washington e Londres estão, agora, sem condições políticas para reforçar os seus efectivos – uma iniciativa que, de qualquer modo, nesta fase já não conseguiria evitar a erosão do estado iraquiano – e condenadas a procurar formas de retirada a curto prazo.

                                     Sem margem de manobra

   A oposição das opiniões públicas na Grã-Bretanha, na Austrália (parceiro menor com cerca de 1 400 militares) e, mais recentemente, nos Estados Unidos, à continuação da presença militar no Iraque obrigam, portanto, a limitar dados junto dos respectivos eleitorados, mas retiram margem de manobra negocial.

   A consolidação de um regime democrático num estado unitário ou federal, com uma aliança preferencial com os Estados Unidos, está, presentemente, fora de consideração.

   Um regime ditatorial que assegure a unidade estatal do Iraque é inviável devido à fraqueza e cisões nas forças militares e de segurança e por motivo da força e proliferação de milícias xiitas, sunitas e curdas.

   A hipótese mais crível aponta no sentido do aumento da violência e confrontos tribais, clânicos e étnicos e à emergência de centros de poder locais e regionais autónomos que poderão conduzir à partilha de facto do país, sacrificando, sobretudo, os interesses da minoria sunita, privada das receitas do petróleo.

   Por mais voltas que a administração Bush tente dar ao problema o facto essencial é que a sua intervenção militar ameaça conduzir à desagregação do estado iraquiano e destabilizar a região que vai Golfo Pérsico, ao deserto da Síria, passando pelo Curdistão.

   Só o Irão verá a sua posição estratégica reforçada com o colapso do estado que nos anos oitenta foi a principal força de contenção com que os Estados Unidos contaram para se opor ao regime de Khomeini.

Jornal de Negócios
26 Outubro 2006

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=284778