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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A China suja



  
   As autoridades chinesas não olharam a meios: fecharam fábricas, reduziram drasticamente a circulação automóvel, encerraram estaleiros de obras, mas, mesmo assim, a poluição atmosférica arrisca atingir níveis demasiado elevados durante os Jogos Olímpicos.
   A qualidade do ar em Pequim é bastante má e, apesar dos esforços das autoridades chinesas terem conseguido reduzir os níveis de dióxido de enxofre e monóxido de carbono, a concentração de partículas encontra-se duas vezes acima dos padrões considerados aceitáveis pela Organização Mundial de Saúde.

   Os níveis elevados de concentração de ozono também poderão obrigar o Comité Olímpico Internacional a cancelar algumas provas.

                                         Ao sabor dos ventos

    Pequim é uma cidade muito quente e húmida no Verão e quando os ventos sopram de sul as partículas vindas das regiões onde é maior a concentração populacional e industrial degradam consideravelmente a qualidade do ar.

    Se soprar vento forte das estepes da Mongólia, a poluição diminui consideravelmente, mas o regime de ventos é instável e são frequentes os dias de Agosto sem uma brisa, em que pairam sobre a cidade nuvens cinzentas, reduzindo a visibilidade a escassas dezenas de metros.

    As medidas tomadas desde 2006 – encerramento das unidades industriais mais poluentes, utilização de gás natural em autocarros públicos, expansão das linhas de metro e, a partir de Julho, o regime de circulação limitada de carros particulares e veículos oficiais, por exemplo – permitiram aumentar o número de dias de "céu limpo", de 100 em 1998, para 246 no ano passado, ainda que as autoridades ignorem outros indicadores relativos a concentrações de partículas finas poluentes e a níveis de ozono.

    As chuvas de Verão serão bem-vindas para aclarar os céus, mas as variações bruscas na qualidade do ar em Pequim escapam ao controlo das autoridades e estão ao sabor dos ventos.

   Para além dos efeitos a curto prazo das medidas de urgência adoptadas para Agosto e dos Jogos Paralímpicos de Setembro, Pequim continuará a ser uma capital com péssima qualidade ambiental.

   Os cerca de 17 mil milhões de dólares de investimentos directos em medidas anti-poluição para Pequim, sem contabilizar custos de suspensão de actividades industriais, comerciais e da circulação de veículos durante períodos consideráveis, ficam aquém do necessário e resta ainda saber por quanto tempo será possível manter em vigor medidas excepcionais de controlo ambiental.

                                    A poluição insuportável

   Em 2004 o Banco Mundial classificava Pequim como a décima terceira cidade mais poluída do planeta numa listagem que, aliás, colocava 16 urbes chinesas entre as 20 metrópoles mais poluídas do mundo.

    Estudos oficiais indicavam, por sua vez, que 70 por cento da poluição na capital era provocada por emissões industriais e circulação automóvel nas províncias vizinhas de Pequim.

   As previsões optimistas, argumentando que o problema da poluição não porá em causa o modelo de desenvolvimento económico e que, tal como o Japão, a Coreia do Sul e Taiwan, também a China conseguirá ultrapassar os efeitos ambientais negativos de uma rápida industrialização, subestimam a amplitude da catástrofe ecológica.

   A China já está a par dos Estados Unidos na emissão de gases com efeito de estufa, os seus níveis de eficiência energética são baixíssimos e, infelizmente, persiste o cenário que aqui traçámos há um ano.

   As águas de 70 por cento dos rios do país estão poluídas, 300 milhões de pessoas não têm acesso a água potável e apenas 25 por cento das águas residuais domésticas são tratadas. As reservas de água serão insuficientes para prover às necessidades em 2030, quando a população total atingir 1,6 mil milhões de pessoas.

   As chuvas ácidas atingem um terço do país. A desflorestação e erosão dos solos afectam 37 por cento do território. A superfície de terras aráveis é cada vez menor e aproxima-se perigosamente dos 120 milhões de hectares, absolutamente insuficientes para prover às necessidades agrícolas.

   Os danos ambientais, segundo estudos diversos, podem corresponder a valores entre 7 e 20 por cento do PIB.

   O objectivo estabelecido pelo governo de Pequim para 2006 previa uma redução de 4 por cento do consumo de energia por unidade do PIB, mas, apesar de ter sido conseguida pela primeira vez uma diminuição de gastos energéticos, esta não chegou a ultrapassar os 1,2 por cento.

   O desiderato de uma redução de 20 por cento estabelecido no plano quinquenal 2006-2010 é assim cada vez mais difícil de alcançar e a prevista diminuição de 2 por cento nas emissões poluentes em 2006 revelou-se outro desiderato falhado.

    A catástrofe ecológica da China, a par do envelhecimento drástico da população, tornou insustentável o modelo de desenvolvimento seguido desde os anos 80.

    Por muito bem que corram os Jogos Olímpicos, mesmo que os ventos do norte ajudem a limpar os céus da capital, as imagens que vão chegar de Pequim nas próximas semanas servirão para lembrar a muita gente os imensos dramas com que se confronta a China.



Jornal de Negócios
30 Julho 2008

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A chama olímpica queima em Pequim

Uns Jogos Olímpicos sem mácula seriam para os dirigentes de Pequim a consagração da potência saída das reformas de Deng Xiaoping, mas a cascata de protestos que segue a tocha olímpica, potenciada pelas manifestações e motins no Tibete, está a denegrir o e
A imagem de uma China atroz, que se impôs a seguir ao Massacre de Tiannamen, em 1989, está de volta, ainda que interesses económicos, comerciais e diplomáticos inviabilizem um boicote às Olimpíadas.
Agosto em Pequim será um mês de alta tensão e as autoridades chinesas estão a braços com uma invasão de mais de 20 mil jornalistas estrangeiros que ameaça transformar em caos e escândalo o menor dos incidentes e elevar à categoria de crise catastrófica qualquer protesto ou violência.
Inseguros e brutais
A brutalidade com que foram reprimidas as manifestações tibetanas e as sucessivas detenções de dissidentes chineses derivam da insegurança persistente que atormenta os líderes de Pequim. 
Uma reacção autoritária face a críticas e contestações internas ou externas é própria de um regime que concebe a política como confronto de forças hostis num jogo de soma nula.
O agravamento das dissensões sociais e étnicas, o esgotamento do modelo de desenvolvimento económico, as crescentes disparidades regionais, a corrupção e a catástrofe ambiental levaram a liderança comunista a adoptar em 2006 um plano quinquenal para criar uma “sociedade harmoniosa”, mas os níveis de conflitualidade não cessaram de aumentar.
Cientes da inexistência de oposição política organizada capaz de afrontar o regime os hierarcas de Pequim subestimaram, no entanto, a cobertura internacional que alentaria actos de desafio dos irredentistas tibetanos e uighurs.
Pequim terá, presumivelmente, muito em breve de enfrentar também manifestações da seita Falun Gong banida em 1999.
A máquina de censura e propaganda a braços com uma vaga de protestos internacionais viu-se incapaz de evitar danos à imagem de harmonia e desenvolvimento da China e num ápice o virulento nacionalismo que é marca do regime irrompeu em cena.
O rio amarelo e o oceano azul
A República Popular define-se como um “estado unitário multinacional”, mas o regime que saiu do maoísmo investe a sua legitimidade num nacionalismo chinês em que a maioria chinesa han impõe os seus valores culturais e proeminência política.
A promoção de imagens de identidade nacional assentes nas mitologias dos han (92 por cento da população), aliena as minorias, sobretudo tibetanos e uighurs, mas é presentemente o baluarte ideológico do regime.
Pequim retomou velhas tradições confucionistas para justificar consenso e harmonia sob a liderança do Partido Comunista, apadrinhou a mitologia de uma raça chinesa descendente dum grande antepassado filho do dragão fundador de dinastias imperiais. 
Desde os finais dos anos 70 uma canção do compositor de Taiwan Hou Dejian tornou-se célebre na República Popular pela elegia do “despertar para todo o sempre” dos “Herdeiros do Dragão”, povo de “olhos negros/negro cabelo/pele amarela”.
O Imperador Amarelo, Huang Di, outro antepassado mítico que há cinco mil anos terá fundado o primeiro estado chinês, entrou igualmente para o panteão de legitimação do regime pós-maoísta como “encarnação do espírito nacional”. 
Estas metamorfoses ideológicas alimentam-se das diversas correntes nacionalistas que despontaram na China após as exacções ocidentais das Guerras do Ópio, iniciadas em 1834, que puseram em crise o império manchu, levaram à usurpação de concessões e territórios por europeus, russos, norte-americanos e japoneses, e culminaram em quatro décadas republicanas de desordem e guerra civil a que a vitória de Mao Zedong viria a por termo em 1949.
Falhado o maoísmo e surgidas as primeiras crises da era das reformas as campanhas patrióticas depois do abalo de Tiannamen abafaram as vozes críticas que nos anos 80 deploravam o chauvinismo e atraso da cultura tradicional.
O ponto mais alto da polémica nacional tivera lugar no Verão de 1988 em torno da série “Elegia do Rio” emitida pela televisão estatal.
O apelo do documentário ao abandono da “civilização do Rio Amarelo” para abraçar a modernidade e o cosmopolitismo da “civilização do oceano azul” acabou sufocado no pós-Tiannamen e as discussões passaram de novo a centrar-se na reforma e reforço do Estado como substância do poder da nação.
Unidos contra a conjura
Desde então o regime assumiu a ideia de Estado forte e economia próspera como fundamento e justificação para a “ascensão pacífica” da China a potência mundial.
O patrocínio estatal de valores patrióticos foi usado por diversas vezes para promover manifestações populares de repúdio a afrontas estrangeiras. 
A comunicação social ampliou os protestos populares de Maio de 1999, na sequência do bombardeamento pela NATO da embaixada chinesa em Belgrado, e dois anos depois os manifestantes voltaram às ruas em Abril aquando da crise entre Pequim e Washington provocada pelo choque entre um caça chinês e um avião espião norte-americano no Mar do Sul da China.
Violentos protestos escaparam ao controlo das autoridades em Março e Abril de 2005 quando centenas de milhares de manifestantes nas maiores cidades chinesas atacaram a embaixada, consulados e interesses japoneses em protesto contra a recusa de Tóquio em reconhecer e apresentar desculpas pelas atrocidades cometidas durante a guerra do Pacífico iniciada com a invasão da Manchúria em 1931.
O nacionalismo chinês é estimulado e patrocinado pelo regime, mas tem raízes bem fundas e ampla adesão popular patente no sucesso entre a população chinesa da campanha de repúdio contra o “separatismo da clique do Dalai Lama e seus acólitos”.
A propaganda desencadeada contra uma conjura internacional para manchar os Jogos Olímpicos, em conivência com separatistas ingratos tibetanos e uighurs e dissidentes traidores à pátria, foi a resposta natural de Pequim a uma crise diplomática presente nas televisões de todo o mundo.
Os Jogos de Pequim irão decorrer num clima de hostilidade e suspeita e as tendências mais chauvinistas do nacionalismo chinês vão subir ao pódio.

Jornal de Negócios
11 Abril, 2008

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