Mostrar mensagens com a etiqueta Barack Obama. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Barack Obama. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Obama e a escuta sem fronteiras





     "Não é sem motivo que, nos últimos tempos, se diz um pouco por toda a parte que seja quem for que exerça ascendente sobre o Palácio dos Sonhos deterá as chaves do Estado."

Ismail Kadaré, "O Palácio dos Sonhos"


   Era uma vez um sultão que queria classificar e examinar a totalidade dos sonhos dos súbditos em busca de sinais divinos capazes de esconjurarem o mal, evitarem a desgraça e propiciarem até novas ideias.

  Esta quimera d’ "O Palácio dos Sonhos", pesadelo do romancista Ismail Kadaré na Albânia comunista dos anos 80, alastra, agora, vivaz na incessante recolha de dados engendrada pela "National Security Agency" (NSA) norte-americana.

  Os programas de monitorização de comunicações telefónicas e no ciberespaço, denunciados por um jovem técnico informático ex-funcionário da CIA e empregado por uma companhia contratada pela NSA, assentam no princípio de que quanto mais exaustiva a base de dados disponível tanto maior a possibilidade de detectar indícios de conjuras.

  A vigilância electrónica da actividade de organizações estatais e civis, empresas, associações e indivíduos segue a mesma regra e provê informação privilegiada de natureza política, militar, científica, económica e financeira.

  Depois do 11 de Setembro a recolha e análise computarizadas de comunicações cresceram desmesuradamente nos Estados Unidos, assumindo um pendor cada vez mais intrusivo, enquanto as decisões tomadas pela Casa Branca ou comissões do Congresso são mantidas em segredo.

  A expansão da actividade das agências empenhadas na vigilância electrónica, sobretudo da NSA, a subcontratação de empresas privadas, o aumento de pessoas com acesso a dados classificados e o afrouxamento de procedimentos de segurança tiveram o contraponto em espectaculares fugas de informação levadas a cabo por técnicos confinados a modestos escalões.

  Em 2010, o soldado Bradley Manning passou material embaraçoso, mas aquém da classificação "top secret" para "Wikileaks" e, desta feita, surge Edward Snowden num acto muito mais gravoso de denúncia do "Big Brother", punível pela legislação do seu país, que pretende definir como "objecção de consciência".

                                        Segredos e garantias

   "Google", "Microsoft" ou "Facebook" de uma forma ou de outra conformam-se aos ditames do "Foreign Intelligence Surveillance Act", revisto em 2008, que as obriga a cooperar na recolha de informação sobre cidadãos estrangeiros que alegadamente representem uma ameaça de segurança.

   Sendo sigilosos os procedimentos técnicos, são igualmente secretas as decisões do tribunal especial em Washington que julga pedidos de instituições governamentais e eventuais objecções das empresas.

   A vigilância electrónica de comunicações telefónicas nos Estados Unidos, excluindo, em princípio o teor das conversas requerendo autorização judicial, é feita, por seu turno, noutro enquadramento legal que, em última análise, exclui salvaguardas para cidadãos, empresas e entidades estrangeiras.

  O pacto de cooperação da NSA com o Canadá, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia – e, eventualmente, acordos secretos com outros estados – permite contornar limitações legais quanto à vigilância de cidadãos norte-americanos e vale o mesmo para os demais parceiros em relação aos seus concidadãos.

   Dada a prevalência de empresas norte-americanas na economia digital e no sector de comunicações todos os utentes dos seus serviços têm razões acrescidas para duvidar das garantias de privacidade que lhes sejam apresentadas.

   No emaranhado de interesses contraditórios das diversas entidades colectoras de informação e dos departamentos e agências que definem e implementam políticas nos Estados Unidos todo e qualquer dado confidencial sobre aliado ou adversário está sujeito a ser utilizado não apenas na prevenção e combate ao terrorismo, mas, ainda, para fins inconfessáveis de concorrência comercial ou espionagem industrial.

                                   Do alto do panóptico

  Washington abusa da vantagem tecnológica e económica, mas apenas dá mostra do que será a prática a que outros estados com importantes empresas informáticas e de telecomunicações não hesitarão igualmente a recorrer.

  Porque o mundo é uma selva, a União Europeia, que conta com estados prevaricadores na matéria, nas negociações para um acordo comercial com Washington terá de exigir maiores e mais precisas garantias sobre privacidade de comunicações e dados digitais.

  Obama e os seus, na senda de Bush, almejando o topo de um imenso panóptico, tendem à escuta sem fronteiras e olvidam que há mais mundo.

Jornal de Negócios
12 de Junho 2013

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/detalhe/obama_e_a_escuta_sem_fronteiras.html

quarta-feira, 13 de março de 2013

A violência da História



Manifestação antigovernamental sunita
Falluja, 15 Fevereiro 2013


   Entalado entre a guerra civil síria e o temor do programa militar nuclear iraniano provocar um conflito generalizado do Golfo Pérsico ao Cáspio, o Iraque, dez anos depois da queda de Saddam Hussein, está longe de ser o “farol da democracia” prometido por George W. Bush.

  Tensões entre xiitas e as minorias sunita, curda e turcomena comprometem um sistema federalista imperfeito, toldam a negociação sobre repartição de recursos e a institucionalização de normas democráticas.

  Os níveis de violência atingidos entre 2006 e 2008 reduziram-se significativamente, mas, sobretudo nas áreas sunitas, impera a falta de segurança e é também entre a minoria arredada do poder que se faz sentir mais fortemente o peso do desemprego que atinge cerca de 40% dos iraquianos.

   Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, por seu turno, confrontam-se com o passivo de uma invasão concebida sem medir as consequências e planeada com negligência criminosa que chegou a aproveitar aos extermicionistas terroristas da Al Qaeda sunita.

   As justificações invocadas para a guerra, designadamente a existência de arsenais de armas químicas e biológicas como ameaça iminente, revelaram-se falsas e demonstraram a sistemática manipulação de dados de valor duvidoso recolhidos e analisados por serviços de informação incapazes de assegurarem a sua autonomia face a preconceitos governamentais arreigados.

  A fraude das armas de destruição maciça – além da questão da insuficiência na recolha de informações sobre projectos militares clandestinos e confronto de análises contraditórias -- saparam a legitimidade para futuras intervenções unilaterais, sem cobertura da ONU, para alegadamente salvaguardar a paz e segurança internacionais.

  Nem o anúncio por Washington e Londres em Dezembro de 2003 de que Muammar Gadaffi renunciara a um programa militar nuclear clandestino de dimensões insuspeitas evitou o avolumar de críticas ao bem fundado da estratégia de Bush e Tony Blair.

   O patrocínio norte-americano da intrasigência israelita no conflito com palestinianos reforçou as alas islamitas e rejeicionistas de um acordo com o estado hebraico, que, por seu turno, persistentemente discrimina a população árabe.

   A duplicidade de critérios, patente na aliança com as monarquias sunitas autocráticas do Golfo Pérsico, retirou credibilidade à propalada “nova era de democratização” por todo o Médio Oriente e os abusos na “guerra contra o terrorismo” conjuraram-se para acentuar uma imagem altamente negativa dos Estados Unidos, e por arrasto dos seus aliados ocidentais, na maior parte dos países árabes e islâmicos.

  A ausência de planos, a falta de recursos militares e assistenciais civis, a desorientação na identificação de aliados locais para dar início a esforços necessariamente morosos e de resultados incerto de criação de entidades administrativas minimamente credíveis saldaram-se num estrondoso fracasso político, com elevadíssimos custos humanos para as populações do Iraque, como, ainda, do Afeganistão.

  A presunção de que não seria necessário mobilizar grandes contingentes militares para garantir a segurança no final das hostilidades, actos inanes como a decisão do líder da Autoridade Provisória Paul Bremer de desmantelar as forças armadas iraquianas e expulsar da administração pública todos os membros do antigo partido governamental Ba`ath, selaram o destino de uma intervenção mal concebida e pior concretizada.

   Barack Obama ao concretizar a retirada militar en 2012 deixou o Iraque como aliado incerto, sem conseguir mitigar as consequências estratégicas negativas da invasão de 2003.

   A guerra acelerou dinâmicas conflituais internas nos estados do Médio Oriente saídos da partilha anglo-francesa dos despojos do Império Otomano no final da I Guerra Mundial.

   Na Síria ou no Iraque os poderes de minorias étnico-confessionais, promovidas por Paris e Londres, foram irremediavelmente postos em causa e volatilizou-se a barreira de segurança das monarquias sunitas que representava o regime de Saddam contra o Irão xiita liderado por Khomeini.

   O pacto de 1943 entre Franklin Roosevelt e o rei Saud ainda define as garantias de segurança de Washington a Riade e os Estados Unidos, apesar da sua cada vez maior autonomia energética, precisam de assegurar o livre fluxo de petróleo e gás do Médio Oriente para os mercados mundiais.

   Independemente de uma capacidade única de projecção de força, Washington perde influência política à medida que a contestação, com forte pendor islamita, derruba regimes autocráticos no Médio Oriente.

   A arrogância e inépcia de Bush, Donald Rumsfeld, Dick Cheney, Blair e demais coniventes, o despotismo torcionário de Saddam apostado num confronto insustentável, a deriva terrorista dos salafistas sunitas, a vingança xiita e curda, ficam como um exemplo dos malefícios da ignorância e da violência da história.

Jornal de Negócios
13 Fevereiro 2013

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

007 por controlo remoto





   Uma arrepiante carência de controlos institucionais caracteriza a condução de operações militares anti-terroristas nos Estados Unidos, conforme ficou patente na audiência no Senado para confirmação do novo director da CIA John Brennan.

   Obama expandiu o programa de ataques com Veículos Aéreos Não-Tripulados (VANT) lançado pela administração Bush, deixando à discrição dos comandos militares e da CIA o assassínio de suspeitos terroristas no estrangeiro na condição de minizarem o mais possível danos colaterais.

   O parecer de justificação legal da Casa Branca do “assassínio selectivo” em Setembro de 2011 de Anwar Al Awlaki, nascido no Novo México e um dos principais operacionais da Al Qaeda no Iémen, alarga desmesuradamente as condições em que pode ser dada “ordem para matar”.

   Mesmo no caso de cidadãos norte-americanos a eliminação física de “líderes operacionais” da Al Qaeda ou organizações associadas só é constrangida pelo tradicional imperativo da proporcionalidade na guerra, ou seja, pela obrigação de restringir ao máximo o número de vítimas civis tidas por inocentes.

   O “assassínio selectivo” com recurso a VANT justifica-se, segundo o parecer do Departamento de Justiça de Washington divulgado este mês, por os alegados terroristas constituirem um permanente perigo iminente dada a sua incessante actividade conspiratória.

   A “não-viabilidade” de captura dos suspeitos -- por dificuldades operacionais, diplomáticas ou outras razões não-especificadas – é definida igualmente por “funcionários de alto nível devidamente informados”.

   Nestas condições haverá luz verde para a pronta eliminação de terroristas.

   Além da lista de pessoas a abater autorizada pelo presidente, todos os suspeitos de associação ideológica ou operacional, pontual ou sistemática, a organizações terroristas anti-norte-americanas podem vir a ser considerados para “assassínio selectivo”.

   As Comissões do Congresso com poderes para supervisionar as forças armadas e os serviços de informação deram a maior liberdade de acção aos responsáveis por acções anti-terroristas no estrangeiro que a opinião pública aprova por larga maioria, apesar da oposição aumentar no caso de se tratar de cidadãos norte-americanos.

   A mortandade entre as populações civis provocada pela utilização letal de VANT é subavaliada pelos responsáveis militares e da CIA que consideram terroristas, até prova em contrário, todos os homens em idade combatente que se encontrem em contacto com suspeitos sob mira ou na área restrita alvo de ataque.

   A New America Foundation contabilizou 350 ataques no Paquistão entre 2004 e a primeira semana deste mês que teriam provocado 1 956 a 2 649 mortes. As vítimas civis neste balanço representariam18% a 23%.

  Uma investigação de The Bureau of Investigative Journalism, referenciado pelo projecto Living Under Drones das Faculdades de Direito de Stanford e Nova Iorque, estima, por sua vez, o número de mortes no Paquistão de Junho 2004 a meados de Setembro do ano passado entre 2 562 a 3 325. Os dados disponíveis ao público apontam para 474 a 881 mortes de civis.

  No caso do Paquistão os ataques de VANT contribuiram para dizimar a liderança da Al Qaeda, provocaram baixas de vulto entre chefes taliban, mas devido aos elevados custos colaterais encolarizaram ainda mais populações altamente motivadas pelo ódio aos Estados Unidos.

  O uso letal, fácil e expedito, de VANT noutros países como o Afeganistão, Iémen ou Somália – evitando arriscar unidades de forças especiais – tranformou-se num expediente táctico cada vez mais frequente e com tendência a alastrar -- agora o Mali, amanhã a Síria – apesar dos elevadíssimos riscos de alienar populações civis, dificultar a recolha de informação por espiões no terreno, e provocar cismas com putativos aliados políticos e militares.

  O “assassínio selectivo” por controlo remoto no estrangeiro de suspeitos definidos por vezes em função de padrões comportamentais ou associações pessoais e de parentesco passíveis de suscitar a suspeita de intenção terrorista é altamente controverso de um ponto de vista legal.

  O cunho sistemático desta prática vai acarretar complicações desmesuradas à medida que outros estados e entidades não-estatais venham a dispor de meios técnicos para recorrer aos mesmos expedientes.

  Os Estados Unidos à escala planetária, Israel na sua vizinhança e Moscovo no norte do Cáucaso, estão a estabelecer precendentes perniciosos na utilização letal de VANT.

Jornal de Negócios

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O precipício americano




   Quando a poeira assentar, reconfirmadas as maiorias republicana na Câmara de Representantes e democrática no Senado, os dois partidos terão de chegar a um compromisso para evitar a 1 de Janeiro cortes de despesas e aumentos de impostos superiores a 600 mil milhões de dólares.

   Se Barack Obama conseguir a reeleição para escapar ao chamado “precipício orçamental” terá de retomar negociações com democratas a aceitarem reduções em programas assistenciais, sobretudo o Medicare e Medicaid, a troco de republicanos admitirem aumentos de impostos para rendimentos superiores a 250 mil USD/ano.

   Uma vitória de Mitt Romney obrigará a um maior compasso de espera já que o novo Congresso só toma posse a 3 de Janeiro e o presidente 17 dias mais tarde.

   Uma prorrogação com efectivos retroactivos das isenções e benefícios fiscais em vigor até 31 de Dezembro serviria a Romney para fazer avançar uma lógica negocial diferente, mas visando igualmente um acordo rápido de forma a mitigar os cortes obrigatórios na despesa federal.

   O republicano insistiria em reduções no sector da Defesa abaixo dos 9,4% previstos e numa reconfiguração da carga fiscal beneficiando proporcionalmente categorias de rendimentos mais elevados e com maior capacidade de investimento.

   O impacto económico negativo dos cortes de despesa e aumentos de impostos obriga a um acordo nas grandes linhas do discutido no Verão de 2011 quanto a redução do défice orçamental em 4 triliões de dólares numa década e à adopção de medidas para evitar que dívida pública, rondando presentemente os 72% do PIB, ultrapasse os 100% em 2020.

   Perca ou ganhe Romney, que apresentou como objectivo a redução em quatro anos a despesa federal de 24% para 20% do PIB, a ala republicana mais radical insistirá na recusa genérica de aumentos de impostos.

   Os democratas mais próximos dos sectores sociais dependentes do apoio estatal, sensivelmente um terço da população, tenderão a responder com reforçadas exigências de intervenção e regulação federal dita anti-plutocrática e de estímulo à criação de emprego.

   A extrema dificuldade em chegar a compromissos políticos entre republicanos e democratas, as dissencões entre várias vertentes de poderes do sistema político augura desordem e acordos meramente parciais agravando a prazo o défice orçamental, a dívida pública e bloqueando reformas estruturais.

  Numa fase de transição demográfica em que a geração da mitologia baby boomer -- pele branca, ideologia contestatária e consumista que tanta abarca Bill Clinton como George W. Bush – caminha para a reforma imperam contraditórias percepções e valorações sociais em reacção a uma crescente desigualdade social e ante reequilíbrios étnicos inéditos.

   Acentuam-se, assim, revoltas ante perdas de estatuto e expectativas frustradas inquinando de tal forma a política norte-americana que a polarização partidária é de regra.

  As polémicas sobre integração e expulsão de residentes ilegais -- cerca de 10 a 11 milhões de imigrantes clandestinos, sendo quase 80% hispano-americanos – revelam-se, desta forma, algo de intratável à imagem do que o futuro próximo reserva para questões ambientais.

  A virulência desta disputa só é comparável à controvérsia sobre o direito ao aborto que, ainda assim, se dilui em opções individuais irredutíveis à legislação vigente independentemente dos dramas pessoais, da afirmação feminista de igualdade de direitos e dos controversos direitos dos fetos.

   Desde 2008 e depois de Obama ter evitado por um triz uma depressão o drama da desigualdade ganha, contudo, cada vez mais expressão.

   O Departamento de Censos apurou que em 2011 o Índice Gini se cifrava em 0,463, o pior registo de desigualdade social das últimas quatro décadas (0 corresponde a igualdade absoluta e 1 à posse da totalidade do rendimento por uma única pessoa).

   Em 1980 as unidades familiares mais ricas, 5% dos contribuintes, detinham 16,5% da totalidade do rendimento nacional, mas em 2011 essa percentagem subira para 22,3%.

  As famílias de rendimentos médios absorviam, por sua vez, 51,7% do rendimento disponível em 1980 e apenas 45,7% no ano passado.

  O rendimento médio em 2011 era de 50 054 USD/ano e 46,2 milhões de norte-americanos quedavam-se abaixo do limiar da pobreza, definido para uma família de quatro pessoas em 23 021 USD/ano

  Subsídios directos e indirectos obviam a deterioração ainda pior das condições de vida das classes de menores rendimentos e apesar de em 2011 46% das famílias não terem pago imposto federal sobre o rendimento 2/3 efectuaram descontos para a Segurança Social e o Medicare.

  Da degradação de infraestruturas às carências educativas, passando pela potência comercial da China, os temores e revolta quanto à perda relativa de capacidade competitiva dos Estados Unidos ganham força.

  Temerosas ante precipícios nunca vislumbrados as tribos políticas norte-americanos cerram fileiras em torno das suas certezas e o país racha ao meio.

Jornal de Negócios, 7 Novembro 2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A América ensimesmada e incerta





   Mitt Romney saiu presidenciável da ronda de debates e a eleição depende agora da conquista de estados como a Flórida, Virgínia e Ohio onde o republicano se bate taco a taco com Barack Obama.

   No primeiro confronto, a 3 de Outubro, Romney conseguiu impor-se como candidato credível e contrariar uma desvantagem persistente nas sondagens, subindo quatro pontos em média.

   O melhor desempenho de Obama no debate de dia 16 não foi suficiente para desfeitiar as pretensões do republicano que, graças a um empate técnico nas intenções de voto, conseguiu manter em aberto a possibilidade de uma maioria no Colégio Eleitoral.

   Os debates televisivos tornaram-se num facto importante numa votação que será renhida tal como sucedeu em 1960 na disputa entre Richard Nixon e John Kennedy e, de novo, em 2000, com Al Gore e George W. Bush.

   Na derradeira discussão Romney perdeu aos pontos, mas ao optar por uma posição moderada e conciliatória em política externa ultrapassou um do seus óbices principais patente na desastrosa viagem de Julho à Grã-Bretanha, Israel e Polónia.

   Em Boca Raton foi exemplar o modo como a abordagem de diferendos comerciais com a China redundou em polémica sobre criação de emprego no Ohio, investimentos no sector educativo e eventuais vantagens do reforço na pesquisa científica para assegurar a primazia norte-americana.

   A importância que Obama e Romney conferiram à economia doméstica num debate que deveria cobrir as principais questões internacionais acabou por corresponder aos interesses e perplexidades do eleitorado.

   Uma sondagem realizada a 15 e 16 deste mês pela Gallup revelava que a “economia em geral” é a principal preocupação de 37% dos inquiridos, seguida do “desemprego” para 26%.

   Na mesma altura em 2008 “a economia em geral” motivava 47% dos inquiridos e o “desemprego” apenas 3%, mas o contraste é evidente em relação às eleições de 2000, em que predominavam temas não-económicos como a educação, e de 2004 quando as guerras do Afeganistão e do Iraque dominavam as atenções.

   Romney evitou brandir o “machado de guerra” para ganhar credibilidade como estadista, passou a defender a retirada militar do Afeganistão em 2014 e mesmo criticando o rival por alegadamente ter propiciado uma “crescente vaga de caos” no Médio Oriente acabou por concordar no essencial com a política da Casa Branca quanto à Síria, Irão ou Paquistão.

   O debate deixou de lado palestinianos e judeus, a Europa, a Rússia, a Índia, Guantánamo, política ambiental, narcotráfico, migrações e toda uma série de questões de interesse estratégico para os Estados Unidos.

   As diferenças retóricas – Obama privilegiando a busca de alianças e abordagens multilaterais, Romney mais insistente na necessidade de capacitar o país para a projecção de poder a nível global – não conseguiram esconder o facto de que os Estados Unidos contam com opções muito limitadas.

   O próximo presidente não terá maioria no Congresso – é provável que os republicanos dominem a Câmara de Representantes e os democratas o Senado –, sendo difícil avançar com políticas para redução do défice orçamental, da dívida pública e de incentivo ao crescimento económico, seja por via de mobilização de recursos estatais ou reduções de impostos.

   À radicalização política direitista e ultraconservadora entre os republicanos e à dificuldade dos democratas de repetirem a mobilização que levou Obama ao poder cumpre juntar 3% a 8% do eleitorado que ainda se declara indeciso quanto ao voto a 6 de Novembro.

   A participação eleitoral poderá cair abaixo dos 57% registados em 2008 e pôr fim a uma tendência para maior empenhamento que se vinha a notar após o ponto baixo de 1996 – reeleição de Bill Clinton contra Bob Dole – quando apenas 49% do eleitorado votou.

   Agora, depois de 4,4 milhões de votos já terem sido expressos, as contradições de Romney, que sucessivamente alterou posições de princípio, e de Obama, insistindo essencialmente na necessidade de um novo mandato para cumprir promessas adiadas,
o sentido de voto é particulamente incerto.

   Em dez estados a vitória tanto pode pender para Romney como para Obama.

   Os 270 votos do Colégio Eleitoral necessários para a vitória dependem do sentido de voto em estados tão diversos quanto a Flórida (29 mandatos), Ohio (18), Iowa (6) ou Virgínia (13).

   Na bolsa de apostas Intrade, um indicador que desde 2002 merece relevância, Obama liderava na abertura de terça-feira com 59,3% e pode ser que consiga a reeleição, mas estamos no âmbito da aposta e não da conjectura razoável.

Jornal de Negócios

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Um Nobel da Paz por declaração de intenções


   Um Nobel da Paz por declarações de intenção, é o mínimo que se pode dizer da decisão do Comité de Oslo.

   Obama terá criado um novo clima na política internacional.

   O presidente que ainda nem cumpriu um ano de mandato terá mostrado o seu empenho num mundo sem armas nucleares, advoga o reforço da diplomacia multilateral, o diálogo e negociações, dá atenção particular à democracia e aos direitos humanos, manifesta preocupação pelos efeitos das alterações climáticas.

   Obama é o oposto de Bush e a sua agenda política vale um Nobel.

   É a justificação do Comité de Oslo. É, pelo menos, prematura tamanha distinção.

  Quando noutras ocasiões recentes o Nobel foi para políticos com responsabilidades executivas tais premiados tinham já algo para mostrar.

   Frederik de Klerk e Nelson Mandela em 1993 tinham feito avançar o processo de desmantelamento pacífico do apartheid na África do Sul.

  No ano seguinte, em 1994, Shimon Peres, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat estavam empenhados num processo negocial que poderia ou não vir a resultar. Compreende-se o prémio como uma tentativa de apoio a um esforço que, afinal, acabou num fracasso.

  Mikhail Gorbatchov ao receber o Nobel da Paz em 1990 tinha já cumprido uma missão histórica. Restava-lhe só um ano como presidente de uma União Soviética que iria desaparecer, mas muito fizera pelo fim da Guerra Fria.

   Agora, no caso de Barack Obama é caso para dizer que ainda mal se fez ao caminho.

   Além disso, premiar o chefe de estado de uma superpotência com interesses contraditórios em processos negociais por todo o globo é altamente problemático.

   Obama propõe-se reduzir os arsenais nucleares das grandes potências e reforçar o regime de não-proliferação, mas essas negociações mal começaram e basta lembrar que também Ronald Reagan propõs o mesmo a Gorbatchov em 1986.
   
    Para a Cimeira de Copenhaga do próximo mês de Dezembro ainda se falta saber o que vai, de facto, propor  Washington em matéria de combate ao aquecimento global, que concessões farão, que condições tem Obama nos Estados Unidos para avançar com cortes significativos nas emissões de gases com efeito de estufa.

  Quanto a Guantánamo não será sequer no prazo apontado, no final do ano, que se resolverá o destino dos presos e mais difícil ainda é prever o que possa vir a acontecer no Afeganistão, no Iraque.

  É incerto também o que resultará dos diferendos sobre os projectos nucleares do Irão e da Coreia do Norte.

  Em suma, por melhores que sejam as intenções de Barack Obama, por mais que se leve à letra as suas declarações, é prematuro, muito prematuro, atribuir-lhe um Nobel da Paz. 

TSF / O Mundo num Minuto
9 Outubro 2009   

domingo, 9 de setembro de 2012

A guerra em busca de cobertura política

Chairman of U.S. Joint Chiefs of Staff, Adm. Mike Mullen, centre, Israel's Defence Minister Ehud Barak, left, and Israeli military chief, Lt. Gen. Gabi Ashkenazi, right, meet in Tel Aviv, Israel, Monday, Dec. 10, 2007. Mullen arrived in Israel on Sunday, as a guest of the Israel Defence Forces.
Chairman of U.S. Joint Chiefs of Staff, Adm. Mike Mullen, centre, Israel's Defence Minister Ehud Barak, left,
and Israeli military chief, Lt. Gen. Gabi Ashkenazi, right, meet in Tel Aviv, Israel, Monday, Dec. 10, 2007
                     
 
 
   O almirante Mike Mullen, chefe do estado-maior conjunto das forças armadas dos Estados Unidos, vetou um ataque de Israel ao Irão até a próxima administração de Washington formular uma estratégia para o Médio Oriente.
 
   A oposição do Pentágono foi expressa durante uma visita de Mullen a Israel no final de Junho depois das manobras conjuntas das forças aéreas de Telavive e de Atenas no Mediterrâneo oriental para testar a capacidade operacional israelita de desencadear acções ofensivas a longo distância.

   A opção dos comandos militares norte-americanos e da administração Bush passa, presentemente, pela via negocial e o aumento da pressão sobre Teerão através de sanções comerciais e financeiras.

   Até meados de Março, altura em que a próxima administração norte-americana estará plenamente operacional, a possibilidade de um confronto militar com o Irão está posta de lado, salvo alguma ocorrência excepcional e independentemente de declarações provocatórias vindas de Teerão por ocasião do 30º aniversário da Revolução Islâmica em Fevereiro.

                                      O impasse israelita

   O veto norte-americano cria uma situação delicada a Israel.

   A maior parte dos decisores políticos e militares israelitas rejeita a ideia de que o programa militar nuclear iraniano vise a obtenção de uma capacidade de dissuasão de último recurso contra ameaças externas.

    As análises do Instituto de Estudos de Segurança Nacional da Universidade de Telavive, considerando que a motivação iraniana para desenvolver um programa nuclear clandestino derivou da ameaça do Iraque de Saddam Hussein e do perigo que os Estados Unidos representam à soberania e ambições regionais do Irão, foram consideradas infundadas.

    As estimativas de existência de risco mínimo de transferência para grupos terroristas de armamento nuclear ou de materiais radioactivos para produção de uma “bomba suja”, aventadas no estudo publicado no ano passado em Telavive, são igualmente rejeitadas pelos decisores israelitas.

   Em Israel a possibilidade do Irão se dotar de capacidade militar nuclear, ainda que mínima, é encarada como uma alteração radical das relações de força e uma ameaça à existência do estado judaico que não tem dimensão territorial para sustentar as perdas provocadas por um potencial ataque.

   O monopólio nuclear de Israel no Médio Oriente ficaria comprometido e o novo estatuto iraniano implicaria a busca de meios equivalentes por parte de estados como a Turquia, o Egipto ou a Arábia Saudita.

   As estimativas israelitas, assumindo o pior cenário possível, apontam, ainda, para a obtenção de capacidade militar nuclear por parte do Irão (’stocks’ de urânio enriquecido e miniaturização de ogivas) no prazo de dois anos.

   Um ataque israelita visando as estruturas envolvidas no programa nuclear e, eventualmente, instalações militares e petrolíferas implicaria a cooperação dos Estados Unidos.

   O lançamento de mísseis de longo alcance da classe Jericó, o recurso aos três submarinos Dolphin ao dispor de Israel, as sucessivas vagas de bombardeamentos de caças F 15 e F 16, obrigam a autorização dos Estados Unidos que controlam o espaço aéreo do Iraque e mantém a Quinta Esquadra, baseada no Bahrain.

   Um ataque, que teria de se prolongar por vários dias, poderia na melhor das hipóteses destruir parte das instalações nucleares dispersas por todo o Irão e matar quadros técnicos essenciais ao projecto militar de Teerão.

   A questão política essencial agravar-se-ia, no entanto, pois um Irão sujeito a um ataque massivo optaria a prazo, independentemente das opções ideológicas dos seus dirigentes, por dotar-se de garantias de segurança que passam necessariamente por meios militares nucleares.

   Israel, ainda que recorra exclusivamente a meios convencionais, está manietada pela presença militar norte-americana no Golfo Pérsico.

                                 Os dilemas do sucessor de Bush
   Washington mesmo que não participasse directamente num ataque pagaria o preço de uma acção militar israelita, alegadamente unilateral, e a retaliação iraniana contra a navegação comercial no Golfo Pérsico obrigaria à intervenção da Quinta Esquadra.

   O próximo presidente norte-americano terá de tomar logo no início do mandato uma série de decisões vitais.

    Primeiro, será necessário avaliar se a imposição de sanções é suficiente para impedir a nuclearização militar do Irão.

   O eventual fornecimento ao Irão de sistemas de mísseis anti-aéreos S-300 por parte da Rússia poderá revelar-se igualmente crucial para aferir a viabilidade de isolamento diplomático de Teerão.

   Em segundo lugar, a situação política no Irão, após as eleições presidenciais de Maio, deverá fornecer dados sobre as possibilidades negociais, ainda que a determinação iraniana em obter capacidade de dissuasão nuclear dificilmente possa ser posta em causa.

   Por fim, ante o provável fracasso do recurso a sanções e negociações, o sucessor de Bush terá de considerar se a mais que provável obtenção de capacidade nuclear militar por parte de Teerão é, de facto, casus belli.

   A alternativa de oferta, por parte dos Estados Unidos, de um “chapéu nuclear” através de garantias formais e públicas de segurança aos estados da região, implicando uma retaliação não convencional em caso de ataque iraniano, dificilmente será crível e, consequentemente, revelar-se-á insuficiente para impedir uma escalada ‘armamentista’ e o colapso do Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

                             Um ataque com garantias políticas
   Uma operação militar exclusivamente norte-americana contra as instalações nucleares do Irão, sem apoio do Conselho de Segurança da ONU, poderá reduzir significativamente as capacidades do Irão retomar um programa militar, mas deixará em aberto a questão política de desnuclearização do Golfo Pérsico.

   A ponderação dos custos de destabilização generalizada do Líbano ao Afeganistão, passando pelo Iraque, e da interrupção e redução de fornecimentos petrolíferos acaba por estar subordinada às possíveis vantagens que apresente uma efectiva neutralização nuclear do Irão.

   Os riscos de escalada militar poderão ser contidos, mas, mesmo no melhor dos cenários possíveis, a questão política nunca terá solução sem o concurso da Rússia e da China para um compromisso regional que não poderá deixar de lado um acordo de paz entre Israel e um estado palestiniano.

    Os custos de uma acção militar de Washington sem ter assegurado com os estados aliados, a Rússia e a China os termos de um compromisso regional para desnuclearizar parcialmente o Médio Oriente, mantendo o arsenal israelita, são demasiado pesados e imprevisíveis.

   Estes dilemas vão condicionar os passos do sucessor de Bush e do lado de Israel, considerando o pior cenário possível que para Telavive passa pela eleição de Barack Obama, vai aumentar a pressão política e diplomática para forçar um ataque ao Irão.

   Um ataque norte-americano, que não envolva Israel, necessita de uma cobertura política que terá de começar a ser negociada logo nos primeiros dias do mandato do sucessor de Bush.


Jornal de Negócios
09 Julho 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?id=323198&template=SHOWNEWS_V2

sábado, 8 de setembro de 2012

Depois de Hillary perder


 
 
 
 
   Hillary Clinton perdeu o estatuto de candidata favorita à Casa Branca e resta-lhe agora tentar quebrar o ímpeto ganho por Barack Obama como o homem da mudança que galvaniza o voto de jovens e mulheres entre o eleitorado democrata, agregando, ainda, um crescente apoio entre independentes.
 
   Durante todo o ano de 2007 Hillary impôs-se nas sondagens como a predilecta dos eleitores democratas, apesar de Barack a igualar na angariação de fundos (cerca de 100 milhões de dólares), até a primeira derrota no caucus do Iowa abalar a marcha triunfal da senadora de Nova Iorque.

   Um sinal muito significativo da viragem nas intenções de voto surgiu, posteriormente, nas sondagens de fim-de-semana entre os eleitores democratas de New Hampshire.

   Os inquiridos que em Dezembro, antes da desfeita de 3 de Janeiro no Iowa, davam Hillary como a candidata melhor colocada para bater um republicano na eleição presidencial mudaram de opinião e passaram a considerar Barack como o democrata mais qualificado para conquistar a Casa Branca.

                     Duas derrotas e uma campanha acrimoniosa

   Duas derrotas consecutivas não representam o fim das ambições de Hillary, mas obrigam-na a enveredar por uma campanha acrimoniosa, arriscada e eventualmente contraproducente, contra Barack.

   Nas próximas primárias dos democratas com direito a eleição de delegados à Convenção Nacional de Agosto Hillary terá de ganhar em Nevada no dia 19 (presentemente a senadora vai à frente nas sondagens) e, uma semana depois, na Carolina do Sul, onde a parada é mais complexa dado o peso do eleitorado negro e a influência de John Edwards, nascido neste estado e antigo senador pela Carolina do Norte.

    Contra ela, além das expectativas defraudadas e do ímpeto ganho por Barack, joga também a campanha populista de John Edwards – candidato à vice-presidência na falhada investida de John Kerry contra George W. Bush e Dick Cheney em 2004 – que, apesar de não ter hipóteses de conseguir a nomeação, vinca ainda mais a retórica de ataque ao status quo e o peso da ala esquerda do partido democrata.

   Mesmo que fracasse nessas votações Hillary Clinton conta com a sua máquina a nível nacional para se impor nas primárias de 5 de Fevereiro.

   Dos 22 estados que votarão nessa terça-feira, Nova Iorque e a Califórnia eram dados como ganhos por Hillary até à votação no New Hampshire, e se o eleitorado hispânico mantiver as reticências que tem manifestado em relação a Obama a senadora ainda tem boas possibilidades de conseguir a nomeação.

   Mas Hillary, por mais fundadas que sejam as suas críticas à inexperiência e contradições da alegada “retórica poética” de Obama (nada de estranho nestas matérias, por sinal, já que ela própria fez campanha em 1992 ao lado do marido, o candidato nascido em Hope, Arkansas, que dizia “acreditar num lugar chamado Esperança”), viu escapar-lhe o tom triunfal, a dinâmica imparável de vitória com um programa centrista e confronta-se com um avolumar de críticas ao seu estilo frio e alegada veia manipuladora.

   Esta pecha política de jogar na imponderável “triangulação” ao estilo Bill Clinton – dizendo-se acima das opções entre a esquerda e direita do espectro político – e a imagem de marca crispada que tanto agastam o eleitorado independente e exasperam em absoluto os mais moderados dos republicanos irão prejudicar necessariamente Hillary no caso de eleitores, políticos e financiadores democratas se depararem com a alternativa de outra candidatura não menos equívoca, mas potencialmente ganhadora como a arrancada de Barack Obama começa a aventar.

   Se Hillary Clinton não conseguir anular a dinâmica de expectativas de mudança trazida por Barack Obama mesmo que consiga arrebatar a nomeação democrata terá pela frente a difícil escolha de um candidato à vice-presidência que consiga na Convenção de Denver, no final de Agosto, cumprir dois desígnios fundamentais: assegurar os equilíbrios que mantenham a unidade do partido e alargar o apelo eleitoral do ticket democrático à Casa Branca.    

                              O futuro candidato à derrota

   Frente a Hillary ou a Obama será ingrata a sorte do opositor republicano.

   As tendências de fundo apontam para uma vitória democrática nas presidenciais e largas maiorias anti-republicanas na votação para a Câmara de Representantes, na eleição de 35 dos 100 mandatos de senadores em disputa e em 11 dos estados cujos governadores vão a escrutínio a 4 de Novembro.
Mitt Romney, o ex-governador do Massachusetts, averbou no New
Hampshire a segunda derrota – apesar de ter arrebatado, entretanto, 8 dos 12 delegados em disputa no caucus republicano do Wyoming no passado sábado – sem que Mike Huckabee ou John McCain tenham assegurado qualquer viabilidade para as suas candidaturas.

   Rudolph Giuliani, o principal rival do milionário mórmon à nomeação republicana, só entrará na contenda dia 29 na primária da Florida, aposta nas votações de 5 de Fevereiro, e até lá tudo continua em aberto.

   O antigo presidente da câmara de Nova Iorque arriscou apostar apenas nas primárias dos grandes estados e é ainda o mais presidenciável entre os republicanos.

   O problema de Giuliani resume-se nisto: o gabarito nacional do homem que evoca 11 de Setembro ad nauseam é certo, mas a nomeação é mais equívoca. 

   Quer Romney, quer Giuliani (católico, três vezes casado e demasiado liberal para largas faixas do eleitorado republicano) estão longe de fazer consenso no partido que fez eleger George W. Bush e fazem desesperar a militância evangélica das causas fracturantes das guerras da cultura e costumes da América.

   A Convenção Nacional Republicana de Setembro em St. Paul, no Minnesota, será, muito provavelmente, ainda mais agreste que o conclave democrático.

   No meio de tudo isto, George W. Bush, ignoto e desesperante para os candidatos do partido republicano, partiu com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma para o Médio Oriente.

   É outra imagem forte desta campanha presidencial.



Jornal de Negócios
09 Janeiro 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=308907

Uma transição atípica na Casa Branca


 
 
   O sucessor de George W. Bush tem de anunciar o mais rapidamente possível os responsáveis por alguns dos principais cargos da nova administração.
 
   A ter-se confirmado a vitória de Barack Obama, a sua tarefa estará facilitada graças à maioria democrática no Senado, que acelerará as confirmações após o presidente tomar pose, a 20 de Janeiro.
 
   Um presidente democrata confrontar-se-á, no entanto, com a dificuldade de ter de assumir opções programáticas urgentes ainda antes de entrar na Casa Branca, evitando, simultaneamente, comprometer-se com iniciativas da administração Bush.

    A cimeira financeira internacional de 15 de Novembro em Washington é o primeiro exemplo de uma situação de potencial conflito entre a administração republicana e a futura equipa democrata.

                                     Uma cimeira sem Obama

    Obama terá então anunciado a escolha do futuro secretário do Tesouro, mas não poderá desautorizar compromissos que Bush venha a assumir.

    Os nomes mais falados numa administração Obama – designadamente Larry Summers ou Robert Rubin, antigos secretários do Tesouro de Bill Clinton, ou, ainda, o antigo presidente da Reserva Federal, Paul Volcker, além de Timothy Geithner, presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque – representam um capital de experiência e consistência política que poderá ser bem acolhido nos círculos financeiros e empresariais.

    Declarações de princípio ou propostas de medidas que sejam adoptadas na cimeira de nada valerão sem a aprovação prévia da equipa de Barack Obama, que, no entanto, não se pode arrogar das prerrogativas exclusivas do ainda presidente ou apresentar propostas contradizendo a Casa Branca numa altura em que ainda não tem capacidade oficial.

    Um confronto entre Bush e Obama nos próximos dois meses apresenta um risco demasiado alto de destabilização dos mercados financeiros e pode obrigar a um compromisso que limite ainda mais as opções da futura administração.

    Esta será uma das questões mais intrincadas do período de transição numa conjuntura de deterioração da situação económica nos Estados Unidos e de instabilidade financeira e cambial.

    Igual importância terá a indicação do futuro secretário de Estado e do conselheiro de segurança nacional.

   Entre as opções de Obama para chefiar o departamento de Estado, figuram dois senadores republicanos, Richard Lugar e Chuck Hagel, e o democrata hispânico Bill Richardson, governador do Novo México.

    A escolha de Samantha Power para conselheira seria a mais problemática duma lista onde figuram personalidades mais experientes, como o antigo responsável pelo Comando Central (Médio Oriente e Ásia Central), o general Anthony Zinni, ou a ex-subsecretária de Estado para os assuntos africanos de Clinton, Susan Rice.

    Uma das características das listas de nomes aventados nos círculos democratas é o elevado número de antigos responsáveis dos anos Clinton e de personalidades moderadas republicanas, o que indicia, à partida, as pressões a que Obama será sujeito para formar uma administração que, inevitavelmente, decepcionará a ala mais à esquerda que lançou a sua candidatura nas primárias democráticas.  

                                    O Iraque de novo no topo da agenda

   Em questões de política externa e de segurança, as escolhas de Obama assumirão uma importância capital, tanto mais porque Washington terá de chegar a acordo com Bagdade sobre um acordo de segurança até final de Dezembro, data em que expira o mandato da ONU para a presença de tropas norte-americanas no Iraque.

    Os termos do acordo, nomeadamente o estatuto legal das forças militares norte-americanas e datas de retirada, implicam o acordo prévio do sucessor de Bush e não é seguro que os partidos políticos iraquianos aceitem uma solução viável para Obama e para o Pentágono.

    Nestas questões, a que se junta a crise latente na península coreana, a presumível coerência de uma administração democrática será testada por outras nomeações fundamentais.

    Para secretário de estado da Defesa, Chuck Hagel surge de novo como hipótese viável, a par da manutenção de Robert Gates, entre outros nomes vindos uma vez mais da administração Clinton, casos de Richard Danzig ou John Hamre.

                                   Uma transição conflituosa

   A expectativa de que George Bush promulgue até à data limite de 20 deste mês legislação relevante na área económica e até 20 de Dezembro directivas governamentais noutros sectores, como justiça, saúde e ambiente, que obriguem a futura administração a tomar iniciativas morosas para anular essas iniciativas, é factor de potencial perturbação durante o período de transição.

    A dimensão da maioria democrática no Senado é outro elemento de consequências difíceis de avaliar.

    Caso os democratas tenham conseguido anular a minoria de bloqueio republicana, obtendo 60 mandatos, Obama terá de manobrar entre as propensões de uma revolução legislativa, cedendo à ala mais à esquerda do partido e às reivindicações de sindicatos, e a necessidade de refrear medidas incomportáveis com a gravíssima situação orçamental.

   Em qualquer dos casos, as expectativas de mudança que grande parte do eleitorado tem na presidência Obama serão rapidamente frustradas dados os constrangimentos económicos e financeiros, os confrontos internacionais provocados pela adopção de medidas proteccionistas e a elevadíssima probabilidade de uma grande crise no primeiro ano de mandato, devido aos programas militares nucleares do Irão e da Coreia do Norte.

   John McCain, que, por estas horas, estará muito provavelmente a ser acusado por todos os dramas da derrota republicana, tem ainda mais uma batalha pela frente.

   O senador do Arizona poderá contribuir para salvaguardar no Senado o núcleo mais moderado do partido republicano e, neste caso, será um dos aliados mais valiosos para Barack Obama e um dos seus críticos mais respeitados.

Jornal de Negócios
05 Novembro 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=339604

As cem horas de Pelosi e os 804 dias de Bush





   Nancy Pelosi, a primeira mulher a presidir à Câmara de Representantes, anunciou um plano parcimonioso para as suas primeiras cem horas como terceira figura da hierarquia do estado norte-americano que, a ser bem sucedido, contestará a iniciativa política em matéria de política interna de George W. Bush nos 804 dias que lhe restam de mandato presidencial.

   A milionária de São Francisco pretende levar a maioria democrática a votar, nomeadamente, o aumento do salário mínimo de 5,15 para 7,25 dólares/hora, a redução para metade das taxas de juro nos empréstimos a estudantes, uma diminuição dos preços dos medicamentos cobertos pelos seguros de saúde Medicare – abrangendo mais de 40 milhões de cidadãos, na esmagadora maioria com mais de 65 anos – e, na vertente anticorrupção, um pacote de reforma do sistema de "lobbying" no Congresso.  

   O ímpeto político que os democratas venham a ganhar na sua batalha minimalista das cem horas legislativas e nas nomeações para as principais comissões da Câmara de Representantes poderá, no entanto, ser contido caso os republicanos tenham conseguido manter o controlo do Senado.
                            
                                        A vitória curta

   Considerando a hipótese de o Partido Democrático ter recuperado a Câmara de Representantes, mas falhado o Senado, dificilmente os opositores de Bush poderão concretizar a partir de Janeiro o seu programa "Um novo rumo para a América" que preconiza, designadamente, a adopção de um calendário para a retirada do Iraque e a transferência das responsabilidades de segurança para o governo de Bagdade, o reforço do contingente militar empenhado na captura de Bin Laden, a redução dos impostos para as classes médias e a limitação de deduções fiscais para rendimentos elevados e companhias petrolíferas, além da recusa da privatização parcial do sistema de reformas.

   A necessidade de negociar acordos com uma maioria republicana no Senado poderá conduzir a alguns compromissos viáveis em matéria de políticas de imigração ou comercial – acentuando, no entanto, o pendor proteccionista face à concorrência internacional – e consensualizar iniciativas legislativas para maior eficiência energética, investigação de energias alternativas ou o programa de reforma do ensino primário e secundário promovido pela presidência Bush.   

   A margem de compromisso é, apesar de tudo, reduzida, se a maioria no Senado for liderada pelo republicano Mitch McConnel.

   As classes médias, com rendimentos inferiores a 75 mil dólares/ano, não beneficiaram do crescimento económico registado após a recessão de 2001 e mostram-se particularmente sensíveis às turbulências conjunturais, apesar do baixo nível de desemprego que se cifra em 4,4 por cento. Eventuais inflexões significativas nas intenções de voto poderão, assim, ocorrer nos próximos anos.

   Não tendo a Casa Branca recolhido benefício eleitoral da recuperação económica dos últimos cinco anos e claudicado em áreas fundamentais como os objectivos da guerra no Iraque, a luta antiterrorista, a probidade orçamental e a contenção do despesismo do governo federal – cifrado num aumento anual de 3,1 por cento no primeiro quinquénio da presidência Bush  –, além de deixar alastrar impunemente o cadastro de corrupção e imoralidades, é crível que os democratas venham a pressionar em todas estas questões através de comissões de inquérito de modo a pôr em causa a competência administrativa de Bush e os chamados valores morais caros aos republicanos. 

   Uma inflexão centrista por parte da Casa Branca em busca de compromissos legislativos confronta-se com a questão incontornável de reconhecimento do fracasso iraquiano e com a incoerência da maior parte dos líderes democratas em articularem uma estratégia de retirada militar que consiga preservar um vislumbre mínimo de estabilidade e integridade do estado no Iraque.
                                     
                                    Tiro de partida para 2008

   Esta quarta-feira marca o tiro de partida para as presidenciais de 2008 e nenhum putativo candidato à Casa Branca – da inevitável Hillary Clinton ao impoluto John McCain, passando pelo promissor Barack Obama e o consagrado Rudolph Giuliani – estará disposto a sacrificar as suas aspirações por um compromisso que salve a face a George W. Bush.

   A impossível pacificação do Iraque será uma das questões fundamentais com que se confrontarão os candidatos presidenciais e todos eles terão de se assumir contra a política de Bush no Iraque e as usurpações de poderes por parte da Casa Branca na chamada luta antiterrorista.

   A contestação dos abusos do privilégio executivo será, no entanto, mais fácil de levar a cabo pelos democratas e seus previsíveis candidatos presidenciais do que a definição de uma estratégia de retirada do Iraque efectiva que evite dar o flanco a acusações de derrotismo.

   Reza a história eleitoral norte-americana que para gerir o fracasso de uma intervenção militar falhada um candidato presidencial se obriga a aventar estratégias mais latas e de consequências imprevisíveis em prol de novos arranjos geoestratégicos.

   À imagem de um Eisenhower, atolado na Coreia, ou de um Nixon, perdido na Indochina, alguém terá de assumir que falhar no Iraque acarreta avançar com propostas arrojadas frente ao Irão, à Palestina, a Coreia do Norte ou, noutra vertente, assumir a impossibilidade dos Estados Unidos continuarem a ignorar as suas responsabilidades na questão maior do controlo das emissões de gases com efeito de estufa.
 
                                               O patinho coxo

   Se Harry Reid tiver garantido a liderança de uma maioria democrata no Senado a sua dinâmica de vitória condenará a Casa Branca a um arrastado confronto com comissões conjuntas do Congresso que escrutinarão todos os fiascos da administração republicana.

   Bush recorreu apenas uma vez ao veto presidencial para impor, em Julho, a manutenção das restrições de financiamento federal à investigação sobre células embrionárias estaminais, mas, a partir de agora, é de esperar que o veto venha a revelar-se a opção por excelência numa Casa Branca cercada tal como aconteceu a Bill Clinton em 1994, dois anos após a sua eleição – e anteriormente a Ronald Reagan –, mas sem que George W.Bush manifeste dotes de subtileza para negociar compromissos, apesar das recentes evocações da sua experiência como governador em Austin.

   John Bolton deixará a ONU, a demissão de Donald Rumsfeld será inevitável e, mesmo com um Supremo Tribunal de orientação maioritariamente conservadora, a capacidade da Casa Branca recuperar a iniciativa legislativa revelar-se-á diminuta. 

   Imperará o gridlock, o impasse, cujas consequências negativas também poderão prejudicar os democratas e, sobretudo, os seus senadores com ambições presidenciais.

   A quota de aprovação de Bush é inferior a 40 por cento, mas a actuação do Congresso de maioria republicana desde 1994 (excepto o breve interlúdio entre Maio de 2001 e Novembro de 2002 em que os democratas beneficiaram da deserção de um senador republicano num altura em que o Senado estava repartido equitativamente e o vice-presidente Dick Cheney assegurava o voto de desempate) é ainda pior não atingindo sequer os 30 por cento.

   Transformar a Câmara de Representantes e o Senado num palco de campanha sistemática de obstrução e inquérito apresenta, consequentemente, sérios riscos de credibilidade para os democratas.

   Depois da reeleição de 2004, Bush não conseguiu fazer aprovar os planos de autorização de descontos parciais para fundos privados de segurança social ou de legalização de imigrantes clandestinos e é ainda menos crível que, agora, possa avançar com iniciativas capazes de cativarem uma Câmara de Representantes hostil – independentemente do aumento do número de representantes democratas conservadores – quanto mais um Congresso dominado pelo partido democrático.

   Um presidente desacreditado é uma danação para um partido vencido depois de doze anos de maioria no Congresso e uma ameaça para qualquer candidato republicano à Casa Branca. Tanto basta, portanto, para que Bush corra o risco de penar 804 dias de solidão política e muito por culpa dos seus pares. 

   Conclua-se, apesar de tudo, com a mera consideração de que, ainda que uma vaga revanchista dos democratas possa vir a mostrar-se contraproducente, é bem provável que a inclemência das crises que assolam o vasto mundo venha a condenar as hostes republicanas e democratas a um confronto particularmente virulento.

Jornal de Negócios
08 Novembro 2006

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=285422

   As eleições de 7 de Novembro saldaram-se por 233 mandatos democratas contra 202 republicanos na Câmara de Representantes.
   No Senado registou-se um empate 49-49, com 2 independentes dispostos a alinhar com o Partido Democrático. (Nota de Setembro 2012)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O que pensam os brancos amargurados?



Democratic presidential hopeful Sen. Hillary Rodham Clinton, D-N.Y., celebrates at her Pennsylvania primary election night party in Philadelphia



    O que mais importa nesta quarta-feira é saber como o eleitorado branco democrata de baixos rendimentos da Pensilvânia votou por Barack Obama.
 
   O candidato cometeu um dos maiores lapsos desta campanha ao qualificar os eleitores das pequenas cidades da Pensilvânia como gente amargurada pela perda de empregos que sublima as suas frustrações através do culto das armas, da religião e da xenofobia.

   Apurar quanto pesou esta tirada na votação é um dos elementos fulcrais para perspectivar as hipóteses de Obama na contenda presidencial.

                                   Uma vitória indispensável

   Caso se tenham confirmado as sondagens que davam uma vantagem média de sete pontos a Hillary Clinton, a senadora de Nova Iorque continua na corrida pela nomeação presidencial, mas uma vitória inferior aos 10% de avanço conseguidos pela candidata no Ohio a 4 de Março nada de bom augura para as suas ambições.

   A Pensilvânia é um estado com perfil demográfico favorável a Hillary: 85% da população é branca (média nacional: 74 %), os negros representam 11 % dos 12,4 milhões de habitantes (menos 1% do que a média do país) e os hispânicos são a maior minoria 4% (15 % a nível nacional).

   O rendimento médio de 20 800 dólares é inferior aos 21 587 dólares da estatística nacional, a percentagem de pessoas maiores de 65 anos atinge os 15 % (só superada pela Florida e a Virgínia Ocidental) e com 22,4 % de licenciados a Pensilvânia encontra-se dois pontos abaixo da média nacional.

   Todos estes indicadores num estado em quebra demográfica e económica, bem como a presença de uma grande comunidade católica – 53% da população num país onde apenas 25 % professam a fé católica – e até a maioria feminina da população (51,4 % de mulheres para uma média nacional de 50,7%) favoreciam largamente Hillary Clinton.

   O apoio de eleitores democratas brancos de baixos rendimentos (menos de 50 mil dólares/ano) e fracas qualificações académicas, além do voto feminino, hispânico e de maiores de 55 anos, fora fulcral para as 16 vitórias de Hillary contra 26 de Obama (em termos de votos expressos) e, a confirmar-se de novo a dificuldade do senador do Illinois em captar estas faixas do eleitorado, o candidato estará em apuros no confronto com John McCain.

                             Um candidato com defeito grave

   Mais do que voltar a perder um grande estado, como aconteceu na Califórnia, em Nova Jersey, Nova Iorque, Texas ou Ohio, Barack poderá ter-se confrontado mais uma vez com a rejeição do eleitorado branco (que se fez sentir menos no Ohio e em New Hampshire) e partir em desvantagem para as próximas primárias de 6 de Maio, sobretudo em Indiana, apesar de ser favorito na Carolina do Norte.

   A confirmar-se a dificuldade de Obama em ganhar o eleitorado branco, as suas possibilidades de triunfo na votação de Novembro diminuem drasticamente.

   Sondagens da Universidade de Quinnipiac realizadas na Pensilvânia na semana passava indicavam que 34% dos eleitores democratas brancos optariam por votar em McCain em vez de Obama e idênticos resultados surgem em dois outros estados vitais para a eleição de Novembro: a Flórida e o Ohio.

   É com esta perspectiva que Hillary conta para tentar virar a seu favor a maioria dos delegados democratas, sublinhando, ainda, as vitórias que obteve nos estados com maior número de votos para o colégio eleitoral, resguardando-se, no entanto, a excepção do Illinois onde venceu Obama.

   Um eventual triunfo na Pensilvânia, onde se repartiam proporcionalmente 158 delegados, não terá, contudo, possibilitado a Hillary reduzir significativamente a sua desvantagem para a Convenção de Denver em Agosto.

   Antes da votação de terça-feira estavam em disputa 588 delegados e a senadora de Nova Iorque contava, segundo estimativa da Associated Press, com 1 251 mandatos, enquanto que Obama tinha garantidos 1 415.

   Com mais nove primárias pela frente, o senador do Illinois, independentemente do resultado na Pensilvânia, chegará com uma maioria de delegados eleitos à Convenção de Denver e, muito provavelmente, em vantagem no número de votos expressos a seu favor (mais 700 mil do que Hillary antes da votação de ontem).

   Obama terá, no entanto, de garantir apoio maioritário entre os 794 notáveis do partido, os chamados superdelegados com liberdade de voto, para conseguir os 2 025 delegados necessários para a nomeação.
   Hillary somava ontem o apoio de 258 superdelegados e Obama tinha a seu lado 233.

                                            Uma eleição renhida

   Seis semanas depois da última votação no Mississippi, ambos os candidatos democratas viram aumentar os seus níveis de rejeição e o tom acrimonioso da campanha favoreceu John McCain.

   O candidato republicano passou a surgir nas sondagens empatado num eventual confronto com Clinton e apenas um ponto abaixo de Obama, apesar do agravamento da situação económica e do recrudescer da violência no Iraque que levam 66 % dos norte-americanos a desaprovar a administração republicana.

   A vitória democrática na eleição presidencial que se prefigura em Janeiro é, agora, bem menos certa e o arrastar da disputa entre Hillary e Barack prejudica notoriamente o Partido Democrático.

   Um sinal da tormenta surgiu terça-feira com a decisão do Partido Democrático da Carolina do Norte de anular o debate entre os dois candidatos agendado para 27 de Abril.

   Constrangimentos de tempo e questões logísticas foram as razões apresentadas para o cancelamento do debate, mas a frase reveladora do comunicado era esta: “registam-se, ainda, preocupações crescentes sobre as consequências de mais um debate para a unidade do partido”.



Jornal de Negócios
23 Abril 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=315940

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Machado e bisturi


 

   O futuro próximo da política externa dos Estados Unidos vislumbrou-se numa troca de argumentos entre Barack Obama e John McCain no debate de sexta-feira.
   O candidato democrata, evocando a perícia e precisão do cirurgião e do seu bisturi para a inevitável cirurgia de cortes orçamentais, declarou que era preciso por termo à guerra no Iraque.
   Obama, sem delongas, sublinhou que a guerra custa aos Estados Unidos 10 mil milhões de dólares por mês numa altura em que Bagdad dispõe de um excedente orçamental de 79 mil milhões de dólares.
   O senador republicano na sua réplica denunciou despesas incontroladas e afirmou que Washington dispensava 700 mil milhões de dólares por ano a países que nem apreciam particularmente os Estados Unidos. McCain exigiu firmeza, mas não esqueceu de mencionar 500 mil milhões de dólares de dívidas para com a China como exemplo dos constrangimentos orçamentais.
   Dois dias antes a Câmara de Representantes aprovara um orçamento para o Pentágono, contemplando 621,5 mil milhões de dólares em programas de defesa nacional no ano fiscal que começa a 1 de Outubro.
   No próximo orçamento, seja à machadada, seja pelo corte de bisturi, as amputações vão obrigar a uma reavaliação dolorosa das capacidades de projecção do poder e influência de Washington.

                                            Cálculo político

   Os custos mais pesados do resgate e saneamento do sistema bancário e financeiro vão fazer-se sentir com maior virulência sobretudo nos primeiros dois anos da próxima administração.  
   Um presidente republicano terá uma margem de manobra limitada ante um Congresso de maioria democrata, mas Obama confrontar-se-á com a necessidade de não alienar a sua base política de apoio.
   Uma administração democrata terá de evitar que o abrandamento económico ou uma eventual recessão comprometam as eleições para o Congresso de 2010 e as perspectivas de reeleição presidencial.
   A estratégia política dos democratas implica evitar uma perda das maiorias na Câmara de Representantes e no Senado tal como sucedeu em 1994 a Bill Clinton, dois anos após a sua eleição.
   É neste condicionalismo político que serão negociados cortes no orçamento que terão, no entanto, de preservar o essencial das opções de defesa e ajuda militar e civil ao estrangeiro.
   Uma redefinição de prioridades estratégicas é limitada pelo arco de crises em que estão implicados interesses dos Estados Unidos.
   Mesmo que não se verifique um agravamento da situação no Iraque a transferência de recursos para o teatro de guerra no Afeganistão não possibilitará economias nos 68,6 milhões de dólares que em 2009 foram orçamentados para operações militares nos dois países.
   Os 45 mil milhões de dólares anuais em ajuda militar para aquisição de armamento aos Estados Unidos não deverão sofrer alteração de maior ainda que os principais beneficiários, Israel e o Egipto com uma quota superior a 80 %, possam ver diminuir um pouco a sua posição relativa.
   Washington tentará até, graças os financiamentos de ajuda militar, aumentar a quota de 52 % nas vendas internacionais de armamento que, segundo os últimos dados disponíveis relativos a 2006, supera largamente o competidor mais próximo: a Rússia com 21%.
   A instabilidade no Paquistão, a crise de sucessão de Mubarak no Egipto, a aliança com Israel, o programa de combate ao narcotráfico na Colômbia e a prevista ampliação deste tipo de cooperação ao México, não permitem cortes na ajuda dispensada aos principais beneficiários de Washington.
   A eventualidade de um confronto com o Irão, a tensão na península coreana e o aumento dos orçamentos militares da China e da Rússia tão pouco facilitarão a redução das despesas com defesa. O abandono de alguns programas de armamento convencional ou de iniciativas controversas, como o sistema de radares e baterias anti-mísseis na República Checa e na Polónia, será compensado por investimentos em projectos de militarização do espaço.
   Ambos os candidatos pretendem aumentar os efectivos nos corpos do exército e fuzileiros (750 mil no activo na proposta de Obama e 900 mil segundo McCain) e, consequentemente, se as despesas com defesa não podem continuar a crescer ao ritmo imposto pela administração Bush (um aumento de 85 % desde 2001) tão pouco são de esperar reduções significativas.
   Os Estados Unidos manterão as suas despesas militares aos níveis actuais, próximas, portanto, dos 4 % do PIB. Será sobre outras áreas do orçamento que recairão as machadas e os cortes de bisturi.

                                        Tensão generalizada

   A consequência incontornável é um aumento da tensão entre Washington e os aliados, sobretudo europeus.
   Os 60 mil homens da Força de Intervenção Rápida Europeia terão efectivamente de se apresentar a serviço e não faltarão pressões de Washington para aumento dos actuais níveis de despesas em defesa da União Europeia (na ordem de 1,9 % do PIB), dos demais aliados na NATO, além da mobilização de militares e equipamentos para o campo de batalha no Afeganistão.
   Os programas de ajuda ao desenvolvimento e de erradicação de doenças no Terceiro Mundo dificilmente continuarão a ser financiados ao nível estabelecido pela administração Bush que canalizou para combate à SIDA, sobretudo em África, 18,8 mil milhões de dólares desde 1993. Nesta matéria caberá aos demais países da OCDE criticarem e colmatarem o desinvestimento norte-americano.
   A crescente dependência de investidores estrangeiros para financiamento da dívida federal, 9,7 biliões de dólares este mês, condiciona a futura administração e limita as opções da diplomacia norte-americana.
   Se a Reserva Federal aumentar as taxas de juro para atrair investimento criará condições para aumento de investimentos em acções de empresas norte-americanas e aplicações em títulos de longo prazo, mas deprimirá a actividade económica.
   Caso Bernanke e o Tesouro optem por uma política inflacionária a posição do dólar será afectada negativamente.
   Em qualquer dos casos Washington terá de levar em conta que 45 % da dívida pública está na mão de investidores estrangeiros, cabendo quase metade ao Japão e à China.
   No jogo de interdependências é muito grande a quota de dependência norte-americana.
   A tensão com o exterior tenderá a crescer dada a importância para a estabilização do dólar das reservas em divisas de países como a China e dos capitais dos fundos soberanos.
    Os investimentos de fundos da Arábia Saudita, dos Emiratos Árabes Unidos ou da Rússia estão dependentes do preço do petróleo e da evolução da cotação do dólar, mas se as tendências proteccionistas predominarem no Congresso (como aconteceu ao torpedear em 2006 a compra pela Dubai Ports das operações da londrina Peninsular and Oriental Steam Navigation Corp. em seis portos norte-americanos) outros fundos da China a Singapura poderão reduzir a sua presença nos Estados Unidos.
   Numa conjuntura recessiva um congresso de maioria democrata tenderá a rejeitar a adopção de acordos de comércio livre com a Colômbia e a Coreia do Sul, complicará as relações com os parceiros da NAFTA e levantará objecções a uma reforma das leis de emigração o que não facilitará as relações com os países da América Central e do Sul.
   O défice na balança de transacções correntes de Washington nada augura de bom para o retomar das negociações na Organização Mundial do Comércio e na falta de recursos para investimento em programas de energias alternativas e de conservação energética a próxima administração não conseguirá diminuir a dependência de fornecimentos do exterior e consequentes custos políticos.
   Arábia Saudita, Angola ou Nigéria ocupam lugar cativo nos interesses de Washington.
   Este défice energético dificultará as negociações na área do ambiente e aumentará as tensões com aliados e estados como a China e a Índia na definição de um programa global de contenção das mudanças climáticas.
   Estas são consequências previsíveis da actual conta corrente em Washington, mas outras crises prováveis na Coreia do Norte, em Caxemira ou nalguma das autocracias da Ásia Central poderão complicar ainda mais o cenário.
   Os próximos anos com Barack ou McCain vão ser agrestes e uma potência global em apertos financeiros tenderá a assumir comportamentos erráticos e contraditórios.


Jornal e Negócios
29 Setembro 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=333222

Presidenciável procura parceiro(a)

 
   Barack Obama assegurou efectivamente a nomeação como candidato presidencial, mas ainda terá de penar muito para unir o eleitorado do Partido Democrático e definir uma estratégia vencedora para a Casa Branca. 
 
   Numa campanha acrimoniosa, os democratas escaparam pelo menos ao pesadelo de uma Convenção sem candidato definido, mas Obama não pode correr o risco de chegar a Denver no final de Agosto sem ter já escolhido um vice-presidente.
   Autoproclamado político da inclusão racial e da audácia da esperança, Obama viu-se claramente identificado pela campanha de Hillary e Bill Clinton como um candidato favorecido pela minoria negra que outrora incensara o antigo presidente democrata.
   A relutância de Obama em repudiar a velha amizade e admiração pelo pastor racista Jeremiah Wright agravou o estigma racial.
Obama continua a não conseguir garantir o apoio maioritário de democratas brancos de baixos rendimentos, qualificações académicas diminutas, além do voto feminino, hispânico e de maiores de 55 anos.
   Todos os temas de ataque a Obama – elitista, arrogante, inexperiente, dúbio patriota com ligações espúrias a empresários suspeitos de Chicago, pastores xenófobos e terroristas do Weather Underground – foram explorados por Hillary e aos republicanos resta repicar e acentuar o tom crítico para chocar o eleitorado hesitante ante um candidato filho de muçulmano que leva o nome Hussein.
   A recusa pública de Geraldine Ferraro – candidata à vice-presidência em 1984 na campanha de Walter Mondale que redundou na reeleição de Ronald Reagan – em votar Obama por o considerar sexista e oportunista na exploração de sentimentos racistas é um exemplo claro das dificuldades que o senador tem pela frente para unificar o eleitorado democrata.
   Entre os apoiantes de Hillary, 25 a 40 por cento admitem, presentemente, não votar ou escolher McCain em Novembro se a senadora não for candidata.
Esta rejeição que, em regra, diminui à medida que se aproxima a data da eleição, cifra-se em 25 por cento entre os eleitores de Obama que afirmam preferir o candidato republicano à senadora de Nova Iorque.
   Nenhuma sondagem considerou até agora a possibilidade de alteração de maiorias eleitorais em estados-chave através de transferências de votos de democratas e votantes sem filiação partidária para candidatos independentes como Ralph Nader, que em 2000 conseguiu quase 2.900.000 votos (2,7%), para quatro anos depois baixar para os 465.000 (0,38%).
   O parceiro ou parceira (Hillary excluída e remetida para eventual líder da maioria democrata no Senado) de Obama terá, portanto, de reunir requisitos suficientes para colmatar a maior parte das deficiências do senador que podem custar a eleição em estados- chave como o Ohio, Texas ou Flórida e, adicionalmente, apresentar credenciais em matéria de política externa e defesa.

                         McCain melhor do que os republicanos

   As vitórias de candidatos democratas em três circunscrições detidas por representantes republicanos em eleições realizadas desde Março apontam para um triunfo do Partido Democrático nas votações de Novembro para o Congresso.
   McCain, por sua vez, tem vindo a tentar superar as reticências dos republicanos evangélicos e a mitigar críticas passadas, a isenções fiscais, por exemplo, de forma a congregar o eleitorado mais conservador sem, contudo, deixar-se identificar com a actual administração.
   O candidato republicano surge com uma desvantagem apenas um ponto em relação a Obama na última sondagem nacional da Gallup (14-18 de Maio) sobre intenção de voto de eleitores registados, enquanto que Hillary conseguia reunir num confronto com McCain uma vantagem de quatro pontos.
    Faltam, no entanto, sondagens sobre o eventual prejuízo que a candidatura do antigo representante republicano da Geórgia Bob Barr pelo Partido Libertário possa causar a McCain.
   As polémicas das últimas semanas sobre a presença de representantes de empresas de “lobbying” na campanha de McCain indiciam algumas das linhas de ataque que Obama lançará para tentar abalar a imagem promovida pelo candidato republicano.
   A questão da idade de McCain, nascido a 29 de Agosto de 1936, surgirá inevitavelmente como outro tema forte, mas não será assumida por Obama e ficará a cargo dos activistas que já lançaram “sites” do género Things younger than Republican Presidential Candidate onde se comprazem a enumerar velharias mais jovens do que o candidato, caso do McDonald’s, a penicilina, as meias de nylon, a cinematográfica Golden Gate Bridge de São Francisco ou o Super-Homem.
   Obama terá de concentrar-se em alguns temas fortes – política energética e ambiental, reforma da segurança social e assistência médica, contenção do défice orçamental e comercial, Iraque – para fazer avançar a sua campanha e marcar a diferença em relação ao candidato republicano, particularmente vulnerável em matérias económicas e sociais, mas capaz de pôr em causa o discernimento e competência do senador do Illinois em questões de segurança nacional.
   Para McCain a escolha de um parceiro ou parceira na candidatura à Casa Branca passa obrigatoriamente pela identificação de um político(a) com credenciais sobretudo em matéria de economia, que não hostilize a ala conservadora republicana, mas que não surja também identificado com a administração Bush.

                                           Trunfos democratas

   O aumento no número de novos recenseados, o interesse demonstrado pelos jovens nestas primárias, o inovador sistema de angariação de fundos via Internet desenvolvido pela campanha de Obama são trunfos a favor dos democratas.
   No primeiro trimestre de 2008 recensearam-se mais de 3,5 milhões de eleitores, segundo um levantamento da Associated Press. É um aumento significativo de 64 por cento em relação ao primeiro trimestre da campanha de 2004, de acordo com os dados comparativos disponíveis em 21 dos 50 estados do país.
   Descontando a percentagem de cidadãos que mudou de estado (o censo de 2000 estimava a mobilidade geográfica interestadual em 8,5 milhões pessoas/ano, ou seja, 19 % dos 43 milhões de norte--americanos que entre Março de 1999 e Março de 2000 tinham alterado a sua residência), o aumento de inscrições nos cadernos eleitorais aponta para uma participação elevada na votação de Novembro, superior aos 60,7 % registados em 2004.
   Negros e mulheres constituem a maior parte dos novos recenseados e mesmo em estados ganhos por George W. Bush em 2004, como o Iowa, Luisiana ou Carolina do Norte, os democratas recém--inscritos nos cadernos eleitorais superam os republicanos.
   Obama tem a conjuntura a seu favor, mas se não conseguir evitar clivagens no campo democrata dificilmente poderá conduzir uma campanha capaz de seduzir os eleitores independentes.

Jornal de Negócios
21 Maio 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?id=317809&template=SHOWNEWS_V2