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domingo, 9 de setembro de 2012

Atolados de Gaza ao Jordão

 Faixa de Gaza


   É a última quimera nas chancelarias europeias e de Washington: apoiar um governo da Fatah na Cisjordânia, liderado por Mahmoud Abbas, e isolar Gaza com a ajuda do Egipto e a cumplicidade das monarquias sunitas do Médio Oriente.

   A melhoria das condições de vida dos dois milhões e meio de palestinianos da Cisjordânia, graças à eficiência e lisura administrativas da Fatah e à boa vontade de Israel, será, neste cálculo, o factor decisivo para provar a existência de uma alternativa credível aos habitantes de Gaza que acabarão por repudiar o Hamas.

   Os progressos nas negociações entre a Autoridade Palestiniana e Israel acabarão neste cenário por selar o isolamento e impotência dos islamitas a quem serão negadas quaisquer concessões políticas. Ao Hamas apenas será concedido o acesso a ajuda humanitária de emergência, fluxos mínimos de abastecimentos – electricidade, água, combustíveis – e trocas comerciais para obviar ao colapso de Gaza.

   Num primeiro momento Israel aceitou desbloquear cerca de 400 milhões de dólares de impostos e taxas devidos à Autoridade Palestiniana.

  Abbas reiterou, por sua vez, o compromisso de reconhecimento dos acordos estabelecidos entre a Autoridade Palestiniana e Israel. A União Europeia comprometeu-se a retomar a ajuda financeira embargada desde a formação do governo do Hamas em Março de 2006 e Washington pronunciou-se no mesmo sentido.

                                    A Fatah das quimeras

   Em Ramallah a nomeação para chefe de governo de Salam Fayyad, ministro das finanças entre 2002 e 2005, foi a solução encontrada dar uma nota de seriedade a um executivo sem figuras de peso político.

   Fayyad, que terá também a seu cargo as pastas dos negócios estrangeiros e das finanças, é, no entanto, apenas a face aceitável para uma reaproximação às capitais ocidentais. Os seus apoios políticos derivam do exterior, a sua margem de manobra está condicionada pelos interesses das facções da Fatah.

   O afastamento do antigo homem forte da Fatah em Gaza, Mohammed Dalan, foi entretanto consumado com a dissolução do Conselho Nacional de Segurança e a reorganização das forças de segurança ficou confiada a Abd Al Yahia, velho adversário de Arafat e falhado ministro do Interior nos idos de 2002.

   Al Yahia, que aos 78 anos é outra vez cara nova num sector fulcral da governação, reconheceu imediatamente não ter qualquer ideia de como impor em Gaza a ilegalização das milícias do Hamas, enquanto a Fatah prosseguia o desmantelamento das instituições ligadas aos islamitas na Cisjordânia.

   Independentemente do executivo nomeado por Abbas não ser reconhecido por um parlamento dominado pelo Hamas, cujos deputados são invariavelmente detidos por Israel, do presidente usurpar poderes e de ser impossível convocar eleições, a questão essencial tem a ver com a existência de uma efectiva dualidade de poderes: Gaza está nas mãos dos islamitas e a Cisjordânia sob controlo da Fatah.

   As duas forças não renegam o princípio de uma única entidade palestiniana, mas, na prática, agrava-se o fosso entre os habitantes de Gaza e da Cisjordânia.

   O primeiro problema para a Fatah será criar uma estrutura administrativa e de segurança na Cisjordânia expurgada de elementos do Hamas e gerir a ajuda internacional sem dar a impressão de que abandona à sua sorte os palestinianos de Gaza.

   A derrocada militar em Gaza não propicia grande confiança para o eventual esforço de apoio bélico à Fatah por parte de Israel, dos Estados Unidos e dos regimes árabes sunitas seus aliados.

   Práticas de boa governança são, por outro lado, impossíveis de criar num território sob controlo militar externo e dependente economicamente de Israel. Certas áreas da Cisjordânia – Nablus, por exemplo, onde o Hamas é maioritário – são tão ingovernáveis quanto Gaza.

   A segunda questão premente passa por Abbas conseguir que Israel liberte presos palestinianos, em particular o influente Marwan Barghouti, condenado a cinco penas de prisão perpétua, como sinal de boa vontade negocial.

   Dificilmente Israel cederá neste ponto e caso Barghouti voltasse a Ramallah constituir-se-ia à sua volta uma nova frente política capaz de agregar os descontentes da Fatah e islamitas próximos do Hamas e da Jihad Islâmica.

   Em terceiro lugar, os termos de eventuais negociações com Israel são absolutamente desfavoráveis à Fatah e condenam Abbas ao fracasso.

                            Israel sem interesse em concessões

   A esmagadora maioria dos israelitas recusa concessões territoriais que levem ao desmantelamento dos colonatos na Cisjordânia, que albergam 450 mil judeus, e apoia a manutenção da barreira de segurança e a fixação unilateral de fronteiras.

   Todas as sondagens indicam, ainda, que em Israel, após o fracasso da retirada unilateral de Gaza, o descalabro militar no Líbano e ante a persistência de ataques terroristas intermitentes oriundos dos territórios palestinianos, não existem condições políticas para negociações.

   Nem a partilha de Jerusalém é aceite, nem compensações aos quatro milhões de refugiados palestinianos estão em agenda.

   Transformar a Fatah numa entidade clientelar e subordinada numa Cisjordânia enxameada de colonatos e controlos militares israelitas é uma tentação impossível dado o irredentismo palestiniano.

   Após as primeiras tentativas de conversações Israel tentará convencer os seus aliados de que Abbas não reúne quaisquer condições para fazer valer compromissos de segurança e controlo administrativo na Cisjordânia.

   Israel terá ainda de negociar com o Hamas os controlos fronteiriços de Gaza e a passagem de boa parte da ajuda internacional que sustenta 85 por cento dos 1,4 milhões de palestinianos do enclave.

   Da parte do Cairo não se poderá esperar muito para evitar o contrabando e entrada de armamento em Gaza em contrapeso à ajuda internacional pois uma cooperação declarada com Israel não seria de bom-tom para o regime de Mubarak apostado no combate aos islamitas egípcios, parceiros do Hamas, mas necessitado da legitimidade que só a alegada solidariedade árabe confere.

   O Egipto, tal como a Jordânia ou a Arábia Saudita não podem, além disso, cortar as pontes com os islamitas palestinianos pois caber-lhes-á a curto prazo a tentativa de relançar negociações entre a Fatah e o Hamas.

                                         O crescente verde

   Os islamitas de Ismail Haniya em Gaza tenderão no imediato, por força da necessidade de negociar directamente com Israel, a evitar confrontos com o exército de Telavive e deixarão provavelmente a retórica de rejeição da existência do estado judaico para os seus correligionários exilados em Damasco sob a chefia de Khaleed Meshall a quem coube já, também, os primeiros sinais de abertura para negociações com Abbas.

   O sucesso da islamização de Gaza é uma incógnita e a possibilidade de actos de provocação e de acções terroristas a partir do enclave deixa em aberto a eventualidade de ataques israelitas que tenderão a ficar aquém da reocupação, apesar de Israel poder optar por estabelecer zonas tampão no norte e no sul do enclave.

   Os equilíbrios que vierem a ser conseguidos nas próximas semanas estarão dependentes de saber quem quebrará primeiro e da instável situação no Líbano.

   De um lado, o Hamas que caso se veja incapaz de administrar Gaza poderá optar por lançar novas ofensivas contra Israel.

   Do outro, Abbas que impotente para se afirmar como líder nacionalista capaz de arrancar concessões a Israel arrisca ver ruir o domínio da Fatah na Cisjordânia.

   Seja como for um nacionalismo palestiniano com uma vertente acentuadamente islamita tenderá a afirmar-se cada vez mais.

  Até porque por parte de Israel não se justifica presentemente fazer concessões aos palestinianos e nenhuma pressão norte-americana nesse sentido se fará sentir nos tempos mais próximos.



Jornal de Negócios
20 Junho 2007

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domingo, 2 de setembro de 2012

Israel: uma angústia sombria

 
   Uma guinada à direita em Israel, numa eleição marcada pela angústia sobre a segurança do estado judaico, bloqueou para os tempos mais próximos qualquer hipótese de negociação com as divididas facções palestinianas de Gaza e da Cisjordânia.

   Um sistema eleitoral votado à pulverização - 17 partidos estavam representados na última legislatura -, e uma crescente descrença na viabilidade de acordos com radicais islamitas e nacionalistas palestinianos, condena a próxima coligação governamental à impossibilidade negocial.

   Qualquer acerto de alianças por parte do Likud de Benyamin Netanyahu ou do Kadima de Tzipi Livni está fortemente condicionado pela subida do Yisrael Beteinu (Nossa Casa de Israel) de Avigdor Lieberman.

   Mesmo a eventual participação governamental dos trabalhistas de Ehud Barak num governo de unidade nacional obriga a compromissos com partidos religiosos que descartam a possibilidade de iniciativas aceitáveis pela debilitada Fatah de Mahmud Abbas.

   A partilha de Jerusalém, a suspensão da expansão ou desmantelamento dos colonatos judaicos na Cisjordânia estão fora do alcance de eventuais coligações, que englobem partidos incontornáveis como os ultra-ortodoxos do Shas do rabino Ovadia Yosef, e são rejeitadas pelo Likud e a extrema-direita.

O não à partilha territorial
   O contexto político traduz-se na contestação de que concessões territoriais, conforme a retirada unilateral de Gaza conduzida por Ariel Sharon em 2005, não foram tidas pelo eleitorado judaico como condizentes a garantias de segurança, e antes abriram caminho aos islamitas do Hamas.

   O teor das propostas eleitorais, desde a redefinição de fronteiras proposta por Lieberman para troca de áreas de maioria árabe em território israelita levando ao alargamento dos colonatos judaicos na Cisjordânia, até à do líder trabalhista para cavar um túnel entre Gaza e as áreas vagamente controladas pela Autoridade Palestiniana de Abbas de forma a permitir passagem de pessoas e mercadorias, indiciam claramente um repúdio total da hipótese de viabilidade de um estado palestiniano independente.

  Ante a guerra civil entre os islamistas do Hamas e a Fatah é dado adquirido para qualquer futuro eixo governamental israelita de direita a inviabilidade de negociações de partilha territorial.

   O peso crescente da extrema-direita laica liderada pelo moldavo Lieberman acentua ainda mais a alienação da minoria palestiniana israelita (cerca de 20% da população) cuja participação nestas eleições poderá ter caído abaixo dos 50%.

   O Yisrael Beteinu, fundado em 1999, já nas últimas eleições alargara a sua base inicial centrada nos imigrantes oriundos da ex-União Soviética, 1,25 milhões de "russófonos" entre 7,5 milhões de cidadãos de Israel, ou seja 20% da população judia.

   Um terço dos votantes que deram a Lieberman 11 deputados no Knesset em 2006 não pertencia à imigração pós-soviética e nestas eleições a sua percentagem terá aumentado motivada pela marcada intolerância face a palestinianos e árabes israelitas, pelo apoio entre os mais de 400 mil colonos judeus na Cisjordânia e pela campanha laica em prol do casamento civil.

Paz com a Síria para atacar o Irão
   Sobra para uma coligação liderada por Netanyahu, quer englobe ou não o Kadima, a possibilidade de negociar um acordo de paz com a Síria que leve à devolução dos Montes Golan.

   Um acordo neste contencioso, que se arrasta desde 1967, poderá ser visto em Telavive como uma forma de romper a conjunção de interesses entre Damasco e Teerão. A guinada à direita levanta, no entanto, a questão essencial da atitude estratégica de Israel em relação ao programa militar nuclear do Irão.

   Netanyahu poderá manifestar alguma maleabilidade táctica, tal como ocorreu durante a sua chefia do governo entre 1996 e 1999 em aliança com dois partidos religiosos ultra-ortodoxos ao retirar de Hebron, mas a opção militar contra o programa nuclear iraniano é tida por inevitável no eixo de direita e tão pouco é contestada pelo Kadima e os trabalhistas.

   Uma coligação instável dominada pela direita dificilmente terá condições para cumprir um mandato de quatro anos e a tensão com Washington será uma constante, quer pela recusa em negociar uma partilha territorial, inviabilizada ademais pela cisão entre o Hamas e a Fatah, quer pela urgência israelita em tentar forçar um ataque contra o Irão, mesmo que sem apoio declarado dos Estados Unidos.


Jornal de Negócios
11 Fevereiro 2009

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terça-feira, 28 de agosto de 2012

A ilusão da paz

  (Saeb Erekat)


  A Fatah, de Mahmoud Abbas, e Israel estão enredados numa teia de ilusões sobre negociações de paz e a divulgação de documentos secretos pela Al Jazeera apenas veio confirmar a inviabilidade de qualquer acordo.
 
   Os documentos relativos a propostas palestinianas apresentadas ao longo da última década não contêm qualquer revelação significativa, mas embaraçam a Fatah ao contradizerem as posições públicas assumidas pela liderança da Autoridade Palestiniana acantonada na Cisjordânia.

Os líderes palestinianos não tomaram até agora iniciativas para preparar a sua opinião pública para eventuais concessões territoriais e sobre retorno de refugiados.

Tal como sucessivos governos israelitas, os negociadores palestinianos assumem que um acordo final, com apoio de Washington, seria apresentado como um documento não sujeito a discussão e meramente passível de ratificação por via parlamentar ou através de referendo.

A fuga de informações sobre propostas ou consensos pontuais acarreta necessariamente a mobilização de todos os opositores às inevitáveis cedências num acordo de paz e um avolumar das críticas à forma como são conduzidas as negociações.

Muitas cedências, imensa intransigência

Os documentos publicitados pela cadeia do Qatar e o diário londrino "The Guardian" foram obtidos com toda a probabilidade junto de antigos colaboradores da Unidade de Apoio às Negociações, criada em 1999 com juristas palestinianos formados no estrangeiro para assessorar juridicamente a Organização de Libertação da Palestina e o seu principal negociador, Saeb Erekat.

As concessões palestinianas referenciadas nos documentos fazem cair por terra as pretensões israelitas de que não conta com um parceiro negocial e demonstram que em 2008 e 2009 a Fatah se mostrou disposta a aceitar a maior parte dos colonatos judaicos em Jerusalém Oriental e a soberania israelita sobre os bairros judeu e parte do bairro arménio da Cidade Velha.

No final de Outubro de 2009, já depois da queda do governo de Ehud Olmert e do retorno ao poder em Março de Benjamin Netanyahu, o principal negociador palestiniano propõe mesmo a título particular aos mediadores norte-americanos a hipótese de uma comissão internacional supervisionar os lugares santos da Esplanada das Mesquitas/Monte do Templo, tal como admitiria a possibilidade de um estado palestiniano desmilitarizado.

Das actas e comunicações relativas às conversações fica também clara que o governo de Olmert aventou trocas territoriais que lhe permitissem manter os colonatos na Cisjordânia de Gush Etzion, Maale Adumin, Givat Zeev e Ariel, além de permutas de população, que acabarem por ser rejeitadas pela parte palestiniana.

Abbas e Erekat concederam, entretanto, no retorno simbólico de mais de 5 milhões de refugiados e seus descendentes das guerras de 1948 e 1967.

Os números avançados para um retorno simbólico, em regra entre 10 mil a 15 mil pessoas, referidos nestes documentos confirmam relatos avançados por outras fontes.

Relevantes são, no entanto, diversas declarações de Erekat rejeitando peremptoriamente que os refugiados palestinianos em estados árabes, designadamente no Líbano e na Jordânia, pudessem vir a participar num referendo sobre a ratificação de um eventual acordo de paz.

Para a liderança da Fatah, ainda antes de perder o controlo de Gaza para o Hamas, em 2007, qualquer hipótese de referendo seria limitada aos palestinianos da Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza.

Esta é, juntamente com as negociações sobre os lugares santos de Jerusalém/Al Quds, uma das questões mais controversas em que a retórica oficial da Fatah entra em completa contradição com a realidade das negociações diplomáticas.

A eventualidade de um estado palestiniano desmilitarizado foi de igual forma considerada por Erekat em contactos com os mediadores de Washington em 2009 numa fase em que o colapso negocial atingira um ponto de não retorno que as posteriores tentativas da Administração Obama não conseguiram desbloquear.

O Estado fantasma

Mais documentação irá nos próximos dias aportar novos dados quanto à conivência da Fatah com Israel no combate aos islamitas do Hamas, mas o essencial da controvérsia mostra claramente que, ante sucessivos governos israelitas que nunca abandonaram uma política expansionista na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, a estratégia de concessões esteve desde sempre condenada ao fracasso.

Habbas, cuja mandato presidencial terminou em Janeiro de 2009 e tem sido prorrogado entre grande disputa jurídica, está agora confinado a uma estratégia de alcance limitado.

O primeiro-ministro Salam Fayyad prossegue, por um lado, uma política de consolidação de estruturas administrativas e de promoção económica na Cisjordânia que até agora registou alguns êxitos, sobretudo na criação de emprego, mas dependente da ajuda internacional e do interesse securitário de Israel.

A nível diplomático, a Autoridade Palestiniana tenta obter um reconhecimento diplomático internacional no quadro das linhas de fronteira de 1967 que, mesmo redundando numa proclamação de independência, em nada alterará as realidades no terreno.
Para Israel, o "status quo" serve perfeitamente e a consolidação dos colonatos assume um carácter irreversível.

O efeito perverso

Enquanto as relações de força não se alterarem em Israel, não há possibilidade de retomar negociações e a crise de legitimidade da Autoridade Palestiniana, reduzida a um controlo limitado de 40% da Cisjordânia e confrontada com uma alternativa islamita em Gaza, inviabiliza conversações.

Por fim, quando nova ronda de crises e confrontos obrigar ao retomar de negociações, sobrará um efeito perverso da publicação da documentação palestiniana sobre uma década de conversações falhadas.

Todos os negociadores palestinianos terão de assumir que a parte israelita irá exigir como ponto de partida negocial as maiores cedências que a Fatah admitiu em vão ao longo da última década.

Jornal de Negócios
26 Janeiro 2011

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Outra aposta falhada na Palestina

Incapaz de contestar a legitimidade do Hamas em matéria de lisura administrativa e combate à corrupção, o sucessor de Arafat tem tentado preservar poderes sobre as forças de segurança e impor-se, sem sucesso, como mediador face ao boicote ocidental e isra
Chegará domingo e a derradeira tentativa de Mahmoud Abbas para salvaguardar a sua autoridade presidencial claudicará numa confusão de propostas, documentos desencontrados, compromissos vagos e confrontos armados mortais que, a prazo, acabarão muito provavelmente por redundar na sua demissão.
Incapaz de contestar a legitimidade do Hamas em matéria de lisura administrativa e combate à corrupção, o sucessor de Arafat tem tentado preservar poderes sobre as forças de segurança e impor-se, sem sucesso, como mediador face ao boicote ocidental e israelita ao governo dos islamitas.
Valeu-se este mês da ameaça de convocação de um referendo para obviar à recusa do Hamas em reconhecer o estado judaico, mas basta considerar o documento que Abbas se propõe invocar para escrutinar a vontade dos palestinianos em negociar com Israel para desmascarar o bluff.
O chamado Documento de Reconciliação Nacional tem na sua origem uma primeira jogada para pôr Abbas em causa que teve lugar em Janeiro, pouco antes da bancarrota eleitoral da Fatah, quando as autoridades israelitas acederam a que Marwan Barghouti concedesse uma entrevista na penitenciária de Haridim.
Barghouti, líder das brigadas militares da Fatah, apelou, então, em declarações às cadeias televisivas Al Jazeera e Al Arabiya, à formação de um governo de salvação nacional com a participação de todas as forças políticas, incluindo o Hamas.
Sem se comprometer com Abbas e a liderança da Fatah em Gaza e na Cisjordânia, Barghouti - que purga desde 2004 cinco penas de prisão perpétua e se apresenta como líder alternativo às chefias tradicionais da OLP - reivindicou como plataforma de unidade política a criação de um estado palestiniano com capital em Jerusalém Oriental, no respeito pelas fronteiras anteriores à guerra de 1967, e defendeu o direito de retorno de mais de quatro milhões de refugiados.
Consumado o colapso da Fatah, Barghouti, na qualidade de secretário-geral da Fatah, surgiu de novo entre os signatários do Documento dos Presos de Haridim divulgado este mês, a par de outros detidos como o dirigente do Hamas Abdel Khalek Al Natsheh, Abdel Rahim Malouh, por parte da Frente Popular para a Libertação da Palestina, Mustafa Badarneh, pela Frente Democrática para a Libertação da Palestina e o xeique Sheikh Bassam AL Sa’di, da Jihad Islâmica.
A proposta dos presos de Haridim, que o presidente palestiniano sugere levar a referendo, retoma o plano avançado pela Liga Árabe em 2002, que toma por base em matéria de acertos territoriais a Resolução 242 da ONU, obrigando Israel à retirada dos territórios ocupados na guerra de 1967.
No essencial propõe a criação de um Conselho Nacional que recupere em detrimento da Fatah a legitimidade perdida da Organização para a Libertação da Palestina, não reconhece explicitamente a existência do estado de Israel, reitera o direito de retorno e indemnização de mais de quatro milhões de refugiados, sem especificar, no entanto, se está em causa a sua eventual residência na totalidade dos territórios do Mandato Britânico.
Os líderes palestinianos no cativeiro apelam, ainda, à instituição de uma Frente de Resistência para coordenar politicamente acções militares nos territórios ocupados. É o consenso mínimo de facções nacionalistas e islamitas para salvaguardar um programa que permita manter a Autoridade Palestiniana como parceiro negocial de Israel e ante a comunidade internacional antes que se dilacere numa guerra civil.
Israel ganha tempo
Do lado israelita tudo isto é visto como uma oportunidade única para roubar definitivamente qualquer crédito à Autoridade Palestiniana. Não por acaso o estado israelita acedeu este mês à entrega de armas ligeiras à guarda pessoal do presidente Habbas, não condenou à partida a ideia de um referendo sobre eventuais fronteiras de um estado palestiniano, mas, tão pouco, renegou da política de definição unilateral de ocupação territorial na Cisjordânia.
A estratégia do governo israelita é clara: impor fronteiras unilaterais na Cisjordânia, anexando os colonatos de Ariel, a sul de Nablus, Maale Adoumin, a leste de Jerusalém, Etzion, a sul de Belém, além de núcleos de colonização junto a Ramallah, Nablus e Hebron, congregando, assim, a maioria dos mais de 200 mil residentes judeus nos territórios ocupados.
O objectivo estratégico israelita, independentemente da presença militar na Cisjordânia, pode resumir-se em termos de consagração da separação unilateral e é tão equívoco que se arroga ignorar o destino da minoria árabe em Israel, que em 2025 representará 22 por cento da população do estado hebraico, e a própria viabilidade económica de um estado independente palestiniano.
Segura do apoio de Washington, certa de que os equívocos e desacertos árabes obstam a iniciativas diplomáticas exequíveis, Israel conforta-se na ideia de que a imposição de fronteiras acabará por ser aceite como uma realidade no terreno e de que um eventual referendo palestiniano apenas agudizará o confronto entre islamitas e nacionalistas, sem que o Hamas se veja obrigado a reconhecer explicitamente o estado hebraico.
O braço de ferro entre a Fatah e o Hamas, seja na frente diplomática como ficou demonstrado esta semana na conferência ministerial, em Kuala Lumpur, do Movimento dos Não Alinhados, passando pela impotência do governo islamita em pôr cobro aos ataques da Jihad Islâmica a partir de Gaza e pela incapacidade em pagar os vencimentos dos seus 165 mil funcionários, alimentam nos círculos políticos e militares israelitas a ideia de que o colapso ou paralisia da Autoridade Palestiniana lhe dão tempo a ganhar para impor fronteiras unilaterais.
Daqui por uma semana, depois do Hamas pôr em xeque o referendo proposto por Abbas, recusando a sua realização ou negando-lhe qualquer significado em termos de reconhecimento do estado hebraico, será relembrado em Telavive e Jerusalém o acerto do dito do antigo chefe da diplomacia israelita Abba Eban que, nas conversações falhadas de 1973, sofismava que «os árabes nunca perdem uma oportunidade de perderem uma oportunidade».
Dramático e triste é que do lado israelita tal dito faça, também, todo o sentido porque a tentativa de compromisso interno entre facções palestinianas, condenada à partida devido aos objectivos radicalmente incompatíveis do Hamas e da Fatah, está a ser apenas aproveitada para demonstrar a ausência de parceiro negocial.
O consolo de Israel de que mais algum tempo será ganho para impor-se pela força no terreno é um desacerto a prazo porque a ocupação de territórios palestinianos não faz sentido estratégico, o traçado de fronteiras só será validado por via negocial, e o próprio ente democrático do estado israelita está condenado por negar direitos aos cidadãos árabes.

Jornal de Negócios
31 Maio 2006

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O crescente verde na Palestina

 
 
   A bancarrota política da Fatah, depois de quatro décadas de liderança do movimento nacionalista palestiniano, consuma-se hoje nas eleições legislativas que marcam a ascendência dos islamitas do Hamas.

   A ocupação e cerco por parte de Israel, uma cultura de corrupção, nepotismo, autoritarismo, violência, e a emergência, durante as intifadas desencadeadas em 1987 e em 2000, de líderes e grupos armados radicais e islamitas em desafio à velha guarda da Fatah culminam numa votação praticamente imposta pelos Estados Unidos para obviar a uma degradação ainda mais brusca da situação da Autoridade Palestiniana.

   Sucessivos adiamentos das eleições agudizaram as divergências entre as facções da Fatah e desqualificaram a liderança de Mahmoud Abbas e do ex-primeiro-ministro Ahmed Qurei.

   As pressões de Washington levaram Israel a ter de aceitar a participação eleitoral do Hamas, enquanto a Abbas foram negados mais pretextos para adiar a votação que deveria ter tido lugar em Julho.

   A Autoridade Palestiniana não conseguiu capitalizar a nível interno a retirada unilateral israelita de Gaza e, sem apoios diplomáticos, nem sequer esboçou uma resposta às iniciativas políticas de Sharon que ignoraram sistematicamente os líderes da Fatah.

   Um ano depois de suceder a Arafat, Abbas é um presidente falhado que ora admite demitir-se antes de terminar o mandato em 2008 por impossibilidade de cumprir qualquer programa de reformas coerente, ora especula sobre a possibilidade do ex-ministro das finanças Sallam Fayad conseguir formar um governo capaz de satisfazer as facções da Fatah, ganhar apoios internacionais e, quiçá, chegar a negociar com Israel.

   Obrigada a convocar eleições dez anos depois das primeiras legislativas, só um compromisso de última hora permitiu evitar a divisão da Fatah e a apresentação de uma lista anti-velha guarda, liderada por Marwan Barghouti - o pequeno Napoleão de Ramallah, detido em Abril de 2002 e condenado, dois anos depois, por Israel a cinco penas de prisão perpétua -, e pelos principais homens-forte das forças de segurança palestinianas, Mohammed Dahlan e Jibril Rajoub.

   O compromisso guindou Barghouti a cabeça-de-lista da Fatah e incorporou militantes das Brigadas de Al Aqsa como candidatos do movimento de Mahmoud Abbas que, assim, desfazia qualquer dúvida que ainda restasse acerca da efectiva vontade das forças de segurança palestinianas em desarmarem e controlarem as milícias.

   As intrincadas concessões, apresentadas como um primeiro passo para o rejuvenescimento do aparelho político, levaram mais de 130 membros da Fatah a apresentarem-se como independentes e outros dirigentes com grande peso a nível local a recusarem candidatar-se.

    As possibilidades da Fatah voltar a dominar o Conselho Nacional Palestiniano são, ainda, prejudicadas pela adopção de um sistema eleitoral misto para a eleição dos 132 lugares em disputa.

   Metade dos mandatos será atribuída na votação por maioria para o candidato e partido a nível de distrito; os restantes 66 serão definidos por critério de representação proporcional na escolha de listas de partido a nível nacional.

   As sondagens indicam que, num cenário muito favorável, a Fatah possa recolher quase mais dez por cento dos votos do que o Hamas, cabendo o restante a organizações de dissidentes do antigo movimento de Yasser Arafat e a independentes.

    Os islamitas têm garantida não só uma forte representação nacional, mas deverão ganhar mais mandatos do que os previstos pelas sondagens dado o seu peso dos seus candidatos a nível distrital, designadamente em cidades como Gaza, Tulkarm ou Hebron.

   A vantagem política do Hamas e da sua lista «Mudança e Reforma» é tal que a organização optou por privilegiar como principais temas de propaganda as questões de assistência social, educação e manutenção da ordem, áreas onde o fracasso da Autoridade Palestiniana é patente, sem ter necessidade de proclamar abertamente a negação do direito à existência do estado de Israel ou frisar o não envolvimento em actos de corrupção dos seus candidatos.

   Após a vitória nas eleições municipais de Maio e Dezembro ter alargada a sua influência, designadamente em cidades da Cisjordânia como Nablus, o Hamas, que controla municípios onde reside quase um terço dos 3,6 milhões de palestinianos dos territórios, tem evitado impor a sua agenda integrista em matéria de proibição de vendas de álcool ou de segregação das mulheres.

   O Hamas dá alguns sinais de procurar escusar-se a confrontos imediatos com os sectores mais secularizados da sociedade palestiniana que apesar de aceitarem a justificação religiosa dos atentados terroristas suicidas como «actos de martírio», se mostram renitentes à islamização forçada em matérias de práticas quotidianas.

   Os dirigentes islamitas revelam-se, igualmente, pragmáticos quanto à impossibilidade de alcançar a médio prazo o objectivo de libertação da totalidade da Palestina, destruindo o estado de Israel.

   Alguns líderes do Hamas admitem a possibilidade de um prolongamento da suspensão dos ataques a Israel por tempo indefinido, enquanto se reservam o direito de manter operacional o braço armado da organização, as brigadas Azadin El Kassan.

   A revelação de que Estados Unidos investiram cerca de dois milhões de dólares desde Novembro em projectos de desenvolvimento local e eventos desportivos de forma a melhorar a imagem de eficácia administrativa da Autoridade Palestiniana em detrimento de áreas controladas por eleitos do Hamas veio reforçar ainda mais as credenciais nacionalistas dos islamitas.

   Os esforços de última hora para reforçar a posição de Abbas e da Fatah, as interdições de actos de campanha dos islamitas redundaram num derradeiro cálculo falhado da parte dos Estados Unidos, com apoio da União Europeia, apesar dos mediadores europeus serem cada vez mais cépticos quanto à capacidade de regeneração da Autoridade Palestiniana.

   Israel, preocupada com a escalada de apoio ao Hamas, cedeu às pressões de Washington e permitiu que Barghouti, cada vez mais visto como um interlocutor incontornável, desse no domingo a sua primeira entrevista na penitenciária de Haridim para difusão nos canais difundidos por via satélite Al-Jazeera e Al-Arabiya.

   O líder palestiniano, que aos 47 anos não esconde a pretensão de assumir a presidência de um estado independente, acabou por apelar à formação de um governo de salvação nacional com a participação de todas as forças políticas, incluindo o Hamas.

   Reivindicando a criação de um estado palestiniano com capital em Jerusalém Oriental, no respeito pelas fronteiras anteriores à guerra de 1967, e o direito de retorno de mais de quatro milhões de refugiados, Barghouti defendeu, ainda, o recurso à resistência armada com única forma de forçar Israel a concessões.

   Barghouti acabou por não apelar sequer ao voto na lista conjunta da Fatah e subiu a parada, apresentando-se como o líder acima de todas as facções, crítico dos erros da velha liderança personificada no sucessor de Arafat.

   O preso de Haridim opôs-se, assim, abertamente à linha política defendida pela velha guarda que pela voz do vice-primeiro-ministro Nabil Shaat ainda tenta convencer a comunidade internacional de que tem capacidade para governar ignorando o Hamas.

   Barghouti já está a jogar na hipótese de, mesmo que a Fatah consiga meia centena de mandatos, a sua mediação vir a ser necessária para agregar as facções, captar independentes e abrir algumas portas para o diálogo com o Hamas.

   Do colapso da Fatah sobressaem, agora, as ironias.

   Barghouti, o terrorista das cinco penas de prisão perpétua que se revelou nas intifadas e ganhou o respeito do Hamas e da Jihad Islâmica, está em vias de ser tornar no único interlocutor possível de Israel.

   Os islamitas, cuja ascensão foi discretamente promovida por Israel nos anos 80 para dividir os palestinianos, provaram a sua força terrorista ante o estado judaico e a sua influência social e militar em Gaza, depois alargada à Cisjordânia, e entram agora no sistema político palestiniano.

   Nada pode ser feito contra eles, nem sem eles. O tempo em que os eventuais interlocutores do lado palestiniano eram apenas nacionalistas laicos passou irremediavelmente.

Jornal de Negócios
25 Janeiro 2006

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