Mostrar mensagens com a etiqueta India. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta India. Mostrar todas as mensagens

domingo, 16 de setembro de 2012

O preço do risco geopolítico



Rawalpindi, 27 Dezembro 2007


   O petróleo voltou a subir nos mercados de Nova Iorque e Londres na sequência do assassinato de Benazir Bhutto, das incursões militares turcas no Curdistão iraquiano e da quebra nas reservas de crude e produtos destilados norte-americanos, mas a maioria dos analistas prevê uma diminuição de preços para este ano.

   Apesar da Goldman Sachs admitir que o crude ultrapasse os 110 dólares até ao final de 2008 e a PVM Oil Associates, a maior empresa mundial de corretagem de petróleo, considerar possível uma variação entre os 50 e os 130 dólares, o grosso das previsões aponta para valores dos 60 a 80 dólares.

   A especulação agravada pela queda do dólar, as incertezas dos mercados financeiros e, sobretudo, os riscos geopolíticos são os principais imponderáveis destas previsões.

                                   O custo de um atentado

   O ataque suicida que custou a vida a Benazir Bhutto é um caso exemplar da imponderabilidade do risco político.

   A instabilidade política e os altos níveis de violência terrorista fazem do Paquistão um caso extremo de estado perigoso, agravando-se a situação pela ameaça de descontrolo numa escalada militar com a Índia, tal como ocorreu em 2002, e de proliferação clandestina ou desvio de armamento e tecnologias nucleares como fez prova a rede de tráfico montada por Abdul Khan a partir do final dos anos 70.

   Ainda que o agravamento da violência interna com consequências imediatas de destabilização no Afeganistão e em Caxemira fosse uma probabilidade admitida, a morte de Benazir foi o último prego no caixão das tentativas de mediação dos Estados Unidos na crise paquistanesa.

   Falhada a tentativa de concertação política entre Pervez Musharraf e o Partido do Povo, um feudo familiar dos Bhutto, a administração norte-americana vê-se sem alternativas viáveis para evitar um agravamento da situação num país estratégico no derradeiro ano de George W. Bush.

   Sem solução política à vista para a crise iraquiana e incapaz de mediar o conflito israelo-palestiniano, a diplomacia norte-americana entra em 2008 à mercê de todos os imponderáveis no grande arco de crises que vai do Líbano ao Bangladesh.

   O único elemento capaz de alimentar algum optimismo passa pelo afastamento da hipótese de acção militar unilateral norte-americana a curto prazo contra o Irão, mas qualquer golpe terrorista bem sucedido no Egipto ou na Arábia Saudita pode precipitar crises em cascada.

   A política externa, precisamente a área onde ainda resta a Bush significativa capacidade de acção, acaba por se ver condicionada pelo fracasso de todas as suas estratégias de gestão de conflitos promovidas no Médio Oriente, no centro e no sul da Ásia após os atentados de 11 de Setembro de 2001.

                    Os Estados Unidos à mercê dos acontecimentos

   Este fracasso patente no Afeganistão, no Iraque e cada vez mais ameaçador no Paquistão, fragiliza em excesso a posição norte-americana e deixa um legado confrangedor para o sucessor ou sucessora de Bush na Casa Branca.

   Os principais candidatos presidenciais democratas e republicanos tão pouco apresentaram até agora alternativas políticas capazes de deslindar saídas para os impasses com que se confronta Bush.

   Os Jogos Olímpicos de Pequim são factor apaziguador para uma conciliação pontual de interesses entre a China e os Estados Unidos em questões delicadas como a neutralização nuclear da Coreia do Norte e Taiwan, mas não implicam uma partilha de objectivos noutros diferendos como seja, por exemplo, a imposição de mais sanções financeiras e comerciais ao Irão.

   Os limites de concertação com Moscovo ficaram patentes nas desinteligências de 2007 e este ano a independência do Kosovo alimentará nova ronda de litígios com uma Rússia que vincará ainda mais o estatuto de grande potência numa fase de necessária afirmação externa de Putin ao enveredar por uma experiência de poder partilhado no Kremlin.

   Outras crises a mobilizarem necessariamente as atenções da diplomacia norte-americana – Corno de África, Darfur, Cuba – e em que poderá contar com o apoio dos aliados europeus terão, em princípio, prioridade secundária face aos perigos que se vislumbram do Médio Oriente ao sul da Ásia.

   À espera da sucessão de Bush todos os parceiros e adversários dos Estados Unidos ponderarão, sobretudo, as vantagens e desvantagens que as respostas da Casa Branca às crises em curso – e demais eventos inesperados - possam representar para marcar posição face à próxima administração e será nessa base que irão decidir as posições a tomar.

   O maior risco geopolítico de 2008, a somar-se às incertezas financeiras, é, precisamente, a extrema vulnerabilidade dos Estados Unidos no Médio Oriente, na Ásia Central e no subcontinente indiano a eventos incontroláveis, ainda que mais ou menos previsíveis, depois do fracasso de todas as estratégias pós 11 de Setembro.

   Este risco geopolítico é por demais elevado e impossível de contabilizar e será ele que irá marcar este ano de 2008.


Jornal de Negócios
03 Janeiro 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=308548

A agenda nuclear




   Russos e norte-americanos assinam quinta-feira em Praga um tratado de redução de armas nucleares estratégicas abrindo portas para negociações mais alargadas entre Moscovo e Washington, mas que fica muito aquém de envolver outras potências no efectivo desmantelamento dos arsenais existentes.

   Um dos aspectos mais positivos do tratado reside na simplificação e reforço dos procedimentos de verificação, designadamente através de 18 missões anuais in loco para cada parte.

   Num prazo de sete anos norte-americanos e russos comprometem-se a reduzir o número de veículos estratégicos (mísseis balísticos de longe alcance baseados em terra ou submarinos e bombardeiros) a um máximo de 800.

   Apenas 700 destas unidades de transporte poderão ser armadas com ogivas (uma centena fica assim de reserva ou equipada com armamento não-nuclear).

   Cada bombardeiro, apesar de poder transportar mais de uma dezena de bombas, será para efeitos práticos contabilizado como portador de apenas uma arma nuclear.

   O novo tratado, New START/ CHB III, cujas cláusulas expiram em 2020, não implica cortes significativos nos números de ogivas que poderão ser de facto lançadas através de mísseis e bombardeiros devido à regra um bombardeiro igual a uma bomba.

   O número de bombas e ogivas não ultrapassará, no entanto, um total de 1 550 para cada parte.

   Presentemente, após cortes unilaterais por parte de Moscovo e Washington, as estimativas mais fiáveis apontam para um arsenal operacional de 2 787 bombas estratégicas nucleares russas sustentadas por cerca de 600 veículos de transporte e 2 252 ogivas norte-americanas para aproximadamente 850 mísseis e bombardeiros.

   O START de 1991, que expirou em Dezembro, estabelecia como limite 2 200 ogivas e 1 600 mísseis e bombardeiros.

                                    O dilema das armas tácticas

   Fora do acordo ficam as armas tácticas que nos arsenais das superpotências nucleares se destinam a utilização em operações militares limitadas.

   Moscovo dispõe de cerca de 2 000 armas nucleares tácticas operacionais e Washington contará, provavelmente, com meio milhar de armas deste tipo no arsenal operacional, mantendo na Europa entre 150 a 240.

    Alemanha, Holanda e Bélgica albergam, cada qual, entre uma a duas dezenas, Itália 70 a 80, Turquia talvez 50 a 90.

   Estas bombas da classe B 61, de gravidade sem dispositivos de orientação, destinam-se no quadro da NATO a ser utilizadas pelas forças aéreas dos estados europeus em eventuais operações militares.

    A Alemanha, a Bélgica, a Holanda, o Luxemburgo e a Noruega propuseram este ano a sua retirada da Europa e o assunto será discutido na cimeira dos ministros dos negócios estrangeiros da NATO em Tallin a 22 e 23 de Abril.

   Diversos membros da NATO temem que tal retirada, sem contrapartida verificável por parte da Rússia no cenário europeu, reduza a capacidade de dissuasão da aliança levando potencialmente alguns estados como a Turquia a optarem por se dotar de arsenal nuclear próprio, à semelhança da França e da Grã-Bretanha.

    Os estudos em curso por parte da National Nuclear Security Administration do Departamento de Energia dos Estados Unidos, que gere a manutenção, segurança e desenvolvimento do arsenal nuclear, quanto a uma possível modernização das versões mais antigas de armas nucleares tácticas da classe B 61 são um dos factores de incerteza sobre o futuro desse armamento no cenário europeu.

                                         As reticências alheias

  O acordo é um elemento fundamental para permitir futuras negociações bilaterais sobre sistemas de defesa anti-mísseis e militarização do espaço e permitirá que quer Washington, quer Moscovo, continuem a deter quase o dobro do total das armas nucleares (provavelmente cerca de 850) ao dispor de franceses, chineses, britânicos, israelitas, indianos, paquistaneses e norte-coreanos (por ordem de grandeza).

   Apesar de diversas reticências a Duma de Moscovo e o Senado de Washington deverão ratificar o acordo.

   Obama está, no entanto, longe de vir a conseguir o apoio de dois terços dos senadores (67 votos) necessário para ratificar o Tratado de Interdição Total de Testes Nucleares, adoptado em 1996 pela ONU e que ainda não entrou em vigor devido à falta de ratificação por parte de Washington, além da China, Índia, Paquistão, Indonésia, Egipto, Israel, Irão e Coreia do Norte.

   A continuada oposição do Senado à ratificação do Tratado de Interdição Total de Testes Nucleares dificulta, ainda, o reforço do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), designadamente a adopção de um acordo de proibição de produção de materiais físseis para armas nucleares.

   O estatuto especial atribuído em 2008 à Índia, que não ratificou o TNP, em vigor desde 1970, para aquisição de tecnologias, equipamentos e combustíveis para fins civis sob supervisão limitada da Agência Internacional de Energia Atómica, libertando recursos para o programa militar de Nova Delhi, complicou ademais as negociações.

   As expectativas para a conferência de Maio da ONU quanto ao reforço de garantias do TNP e de adopção de sanções gravosas para estados que denunciem o acordo, caso da Coreia do Norte em 2003, são assim escassas, ainda que a cimeira de segurança nuclear dos próximos dias 12 e 13, organizada pela administração Obama, possa avançar com algumas propostas efectivas para controlo do mercado negro de tecnologias nucleares, matérias radioactivas e físseis.

                                          Nova estratégia nuclear

   Finalmente, a revisão da estratégia nuclear dos Estados Unidos, anunciada terça-feira, apresenta um aspecto positivo ao assumir explicitamente, pela primeira vez, que Washington não utilizará armas nucleares contra estados que não possuam armas desse tipo, sejam signatários do TNP e cumpram os termos do tratado.

   Esta declaração de intenção admite, contudo, uma excepção para o caso de eventualidade de risco de ataque com armas biológicas que possa assumir proporções devastadoras.

   O objectivo fundamental da estratégia apresentada por Obama é definido como a dissuasão de ataques nucleares contra os Estados Unidos, seus aliados e parceiros.

   Washington compromete-se, também, a não desenvolver novos armamentos nucleares, mas aumentará o investimento na manutenção e modernização dos arsenais existentes de forma a garantir a sua operacionalidade e eficácia.

   Obama apresenta a nova estratégia como parte de um esforço global para tornar as armas nucleares obsoletas e incentivar a não-proliferação.

   Independentemente das intenções e garantias formais a lógica no mundo real é, contudo, diferente.

   A mera posse de armas nucleares assegura a qualquer estado capacidade de dissuasão e retaliação, diminuindo o risco de sofrer um ataque.



Jornal de Negócios
07 Abril 2010

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=418501

Uma nova era nuclear no Médio Oriente

Mohamed El Baradei, Director-Geral AIEA


   No próximo dia 24 de Novembro, a Agência Internacional de Energia Atómica vai, com toda a probabilidade, remeter para o Conselho de Segurança das Nações Unidas a decisão sobre eventuais sanções contra o Irão por violação dos protocolos do Tratado de Não-Proliferação (TNP).

   O Irão terá ao longo de 18 anos desenvolvido actividades no sentido de produzir plutónio e enriquecer urânio, passíveis de eventual utilização militar, à revelia das inspecções da Agência.

   Três anos de tentativas de mediação diplomática da Alemanha, Grã-Bretanha e França redundaram num fracasso e Teerão não dá mostras de pretender suspender o seu programa nuclear e aceder a inspecções da AIEA.

   Os Estados Unidos pressionam o Conselho de Segurança para impor sanções diplomáticas, económicas, tecnológicas e militares ao Irão, mas confrontam-se com reticências de Moscovo, Pequim e, também, de Nova Delhi.

  A Rússia é o principal parceiro nos projectos nucleares civis iranianos, a China já conta com Teerão para mais de 14 por cento das importações de petróleo e a Índia acordou em Janeiro a compra anual até 2035 de 7,5 milhões de toneladas de gás natural ao Irão, além de estudar a construção de um gasoduto através do Paquistão para assegurar os fornecimentos.

   O programa nuclear de construção de 15 reactores para produção de electricidade e dois de pesquisa é justificado por Teerão pela necessidade de atender às necessidades energéticas do país, presentemente asseguradas a 91 por cento por recursos fósseis, e goza de amplo consenso nacional.

   O eventual isolamento internacional do segundo maior exportador da OPEP, detentor de 10 por cento das reservas mundiais de petróleo e 16 por cento das reservas de gás natural, é de difícil persecução e sobra o exemplo da África do Sul do «apartheid» que, com a cumplicidade de Israel e num contexto de guerra fria, conseguiu, ainda assim, desenvolver com sucesso um programa militar nuclear.

   As estimativas das capacidades autónomas humanas e tecnológicas iranianas para levar a bom termo a produção de armas nucleares apontam para prazos de dois a quatro anos.

  Teerão dispõe de mísseis Shihab 3 com alcance de 1 300 Km, estando a desenvolver uma nova classe com alcance de 3 000 Km, capaz de atingir a Europa Central e Oriental, que podem ser adaptados ao transporte de ogivas nucleares.

   A posse de armas nucleares é tida em Teerão como a única forma de salvaguardar a independência do Irão face aos Estados Unidos e a uma eventual ameaça de ataque israelita ou iraquiano.

   Esta posição de recurso às armas nucleares como factor de dissuasão reforçou-se nos anos oitenta devido ao apoio internacional ao esforço de guerra iraquiano contra o regime de Khomeini.

  A presença norte-americana no Iraque e no Afeganistão, as pressões sobre Damasco, o único aliado regional de Teerão, as concessões feitas por Washington ao reconhecer Nova Delhi como «potência nuclear responsável» apesar de a Índia nem sequer aderir ao TNP, e a posição de força adoptada pela Coreia do Norte graças à chantagem nuclear, incentivam o Irão à rápida aquisição de meios de dissuasão.

   As divergências em Teerão quanto ao ritmo de desenvolvimento do programa nuclear militar incidem apenas sobre o impacte interno destabilizador de eventuais sanções, tendo em conta que os principais parceiros comerciais do Irão são a União Europeia (35 %), o Japão (12%) e a China (9%).

   As vendas de petróleo representam entre 80 a 90 por cento das exportações e cobrem sensivelmente metade do orçamento.

    O PIB tem crescido ao ritmo de cerca de 6 por cento nos últimos cinco anos, mas apesar de uma baixa do desemprego para 11,5 por cento, metade das raparigas e um quarto dos jovens com menos de 25 anos não encontram colocação no mercado de trabalho.
  
   O regime irá gastar este ano 7,7 mil milhões de dólares em subsídios a combustíveis e produtos agrícolas, tem conseguido dinamizar a agricultura que emprega 20 por cento da população, mas fracassado nas áreas de serviços e das indústrias não energéticas.

   A curto prazo, Teerão não enfrenta movimentos destabilizadores de contestação social e a província de maioria árabe do Kuzistão (produtora de 80 por cento do petróleo iraniano), apesar de actos terroristas esporádicos, está sob controlo do governo central.

   As autoridades não dão, no entanto, provas de capacidade de mobilização e o sistema de poderes paralelos promove iniciativas políticas desconexas.

   O triunfo eleitoral dos radicais liderados pelo presidente Ahmadinejad foi contrabalançado pela decisão do líder supremo Ali Khamenei de alargar os poderes do Conselho de Discernimento, chefiado pelo ex-presidente Ali Rafsanjani, para controlo das opções governamentais macroeconómicas e de política nuclear.

   O perigo de bombardeamentos israelitas contra as instalações nucleares iranianas é limitado.

   Um ataque israelita teria de contar com apoio norte-americano e a dispersão e inacessibilidade de muitos dos alvos produziria no melhor dos cenários possíveis danos em apenas três quartos das instalações nucleares.

   Os custos políticos seriam insustentáveis para os aliados de Israel e a radicalização antiocidental no mundo árabe e islâmico inevitável.

   A possibilidade de retaliação iraniana sobre os estados dos Golfo e o encerramento do estreito de Ormuz por onde passam 2/5 das exportações mundiais de petróleo são outras razões mais do que suficientes para obviar à opção militar contra o Irão.

   A maioria dos dirigentes iranianos pode, pois, mostrar-se confiante em persistir na opção pelas armas nucleares como factor de dissuasão, mesmo que os Estados Unidos declarem que qualquer ataque não-convencional iraniano contra estados da região será considerado motivo suficiente para uma retaliação em larga escala. 

   A nuclearização do Irão provocará iniciativas idênticas por parte de outros estados – caso da Arábia Saudita ou do Egipto – e Israel, a actual potência nuclear regional, terá de passar a integrar estes condicionalismos na sua estratégia.

   A dissuasão nuclear no Médio Oriente é, no entanto, muito pouco fiável devido à instabilidade e radicalização política da maior parte dos estados da região e a lógicas por demais antagónicas sobre cálculos de perdas e ganhos previsíveis por parte dos diversos actores.

   Consoante a evolução interna do Irão nos próximos dois anos e a conjuntura regional não é assim de descartar a possibilidade de o próximo presidente dos Estados Unidos chegar à Casa Branca e ter de decidir sobre um eventual ataque ao Irão.



Jornal de Negócios
02 Novembro 2005

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=266944

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Se não o matarem...

   A manobra já foi realizada uma vez com êxito quando o Presidente Ayub Khan, o primeiro de uma longa série de golpistas, se afastou após 11 anos no poder para ceder o lugar ao seu chefe do Estado-Maior do Exército Yahya Khan, mas, desta feita, parece faltar uma alternativa militar ao general Pervez Musharraf.

  Em Março de 1969, com a passagem de testemunho a Yahya Khan, as chefias militares acordaram uma estratégia para perpetuar a ditadura e só a derrota dois anos depois na guerra com a Índia pela independência do Paquistão Oriental as levou a ceder o poder ao líder do Partido do Povo Zulfikar Ali Bhutto.

   Musharraf tem este exemplo bem presente.

   O general teme que a rebelião no Baluchistão e nas zonas tribais do Noroeste redunde em nova desagregação do estado paquistanês.

   O general vigia os seus altos comandos e colocou nos postos-chave homens de confiança.

   O número dois na chefia das forças armadas, Ashfaq Pervez Kiani, o director dos serviços de inteligência (ISI), Nadim Taj, e o responsável pelos serviços secretos militares, Nadim Ejaz, são generais que devem a carreira a Musharraf. Os arsenais nucleares continuam a cargo do general Khalid Kidwai, apesar de ter oficialmente passado à reserva em 2005. 

                                           Reprimir e dividir

   O general reprime as oposições, manipula os tribunais, impõe a censura, mas evitou até agora hostilizar directamente o Partido do Povo de Benazir Bhutto e os islamitas do Jamiat Ulema-i-Islam liderados por Faz ul Rahman.

   O islamita, figura importante na Província da Fronteira do Noroeste, e Benazir, com o seu bastião no Sind, são os potenciais aliados para uma partilha de poder.

   A manobra do general é clara, mas joga com muitos inimigos jurados.

   O apoio conjuntural do Muttahida Qaumi Mouvement (MQM) - o principal partido dos mohajir (muçulmanos de língua urdu oriundos da Índia após a Partilha de 1947, como é o caso de Musharraf) - pode ajudar o general a controlar a grande metrópole de Karachi, mas arrisca alienar Benazir Bhutto.

   Por mais esforços que os Estados Unidos tenham feito para encontrar um general que possa substituir Musharraf, o facto é que até agora o presidente continua a gozar da lealdade dos altos comandos.

   O maior risco para Musharraf passa por um alastrar da contestação no Punjab, onde é forte o apoio à Liga Muçulmana de Nawaz Shariff, que obrigue à intervenção das forças militares, alienando os oficiais de origem punjabi que predominam nas chefias do exército.

   Outro factor que escapa ao controlo do general é o acumular dos sinais de desmoralização e desorientação entre os 550 mil homens do exército, sobretudo entre os militares pashtun que representam um quarto dos efectivos, pelo fracasso em controlar as zonas tribais na fronteira com o Afeganistão.

   Sucedem-se deserções e rendições em massa de soldados a milícias islamitas como as ocorridas recentemente no vale de Swat e no sul do Waziristão.

  Apesar de ter destacado mais de 90 mil homens para o noroeste do país, o exército e o depauperado Corpo de Fronteira, 80 mil polícias militarizados recrutados localmente, revelam-se incapazes de controlar as tribos pashtun que contestam o governo de Islamabade e apoiam a insurreição taliban no Afegansitão.

   Se o general, forçado pelo agravamento da conjuntura económica e a contestação violenta, tentar cerrar fileiras jogando a cartada de destabilização na Caxemira indiana e manipulando acções terroristas na Índia corre o risco de gerar uma escalada militar potencialmente desastrosa como aconteceu em 1999 e 2002.    

   Caxemira e o confronto com a Índia continuarão, ainda assim, a servir de pretexto para canalizar a maioria dos mais de dez mil milhões de dólares de ajuda militar norte-americana para aquisição de armamento convencional em detrimento da formação de corpos especializados em operações anti-insurreição e antiterroristas, como tem vindo a acontecer desde 2001.

                                  Um assassínio muito provável

   O general pensa ter calculado bem a manobra e espera que conversações com Benazir Bhutto debilitem ainda mais o Partido do Povo para forçar uma ex-governante de má reputação a aceitar a sua permanência na presidência depois de um impasse eleitoral na votação que talvez possa ocorrer em Janeiro.

   O general sabe que a antiga primeira-ministra não goza de grandes simpatias nas hierarquias militares e carece de apoios nas regiões do sudoeste e do noroeste, fronteiriças do Irão e do Afeganistão e, consequentemente, vitais para os Estados Unidos.

   O general, se continuar a escapar às tentativas de assassinato dos islamitas, calcula ter boas hipóteses de neste segundo golpe, após oito anos no poder, conseguir neutralizar o aparelho judicial e dividir as oposições.

   O general manipulou o seu patrono norte-americano e está seguro que enquanto puder contar com as forças armadas, que sugam um quarto do orçamento, controlam empresas com um valor superior a 4 mil milhões de dólares e propriedades avaliadas em 20 mil milhões de dólares, não haverá quem o afaste do poder.

   É bem possível que Musharraf tenha razão e, por isso mesmo, será provavelmente assassinado, que é o que costuma acontecer nestes casos.

Jornal de Negócios
07 Novembro 2007

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=305433

sábado, 8 de setembro de 2012

O grandeza minguada dos fusos horários da Rússia




  
   No domingo com o horário de Verão os russos vão perder um dos seus motivos de orgulho nacional: desaparecem dois fusos horários.

   Dos onze fusos horários sobram nove.

   No Extremo-Oriente a Tchuckotka e a península da Kamchatka passam a alinhar pelo fuso de Magadan na Sibéria Oriental.

   Nos confins da planície europeia desaparece também o fuso horário de Samara.

   É uma medida promovida pelo presidente Dmitri Medvedev para facilitar contactos administrativos e comerciais ao longo dos 7 mil e 400 quilómetros que vão do enclave de Kaliningrad no Mar Báltico até à costa do Pacífico.

  Os onze fusos horários eram um dos orgulhos da Rússia.

   O maior país do mundo não era de facto o que ostentatava maior número de fusos horários.

   A França é recordista: conta com 12 fusos horarios por causa dos seus territórios e colectividades ultramarinos nas Caraíbas, América do Sul e do Norte, no Índico e no Pacífico.

   Mas a Rússia com a sua imensa massa nos continentes asiático e europeu revia-se na grandeza dos seus onze fusos horários continuos.

  Estavam em vigor desde 1919. Eram mais um dos sinais da grandeza soviética e depois, mais minguada, da grandeza russa.

  Eram bem mais dos que os seis fusos dos Estados Unidos, com Alasca incluindo e descontando outros três para ilhas do Pacífico.

   Mais do que o Canadá que também se reparte por seis fusos horários. 

   Em prol da racionalização administrativa Moscovo opta, pois, pela redução dos fusos horários que poderá já no próximo ano vir a apertar ainda mais as diferenças de hora entre as várias regiões, sobretudo nos Urais e na Sibéria.

   Cada vez mais perto do fuso de Moscovo enquanto a oriente todos se levantam mais cedo.

    Não chega ao exagero da China ou da Índia que subsistem com um único fuso horário, mas a reforma avança.

   Está também em estudo abandonar a diferença entre Hora de Verão e de Inverno que só foi introduzida tardiamente em 1981, ainda existia a União Soviética. 

   Parece coisa pouca isto dos dois fusos horários que se esvanecem na imensidão do maior país do mundo. Mas para muitos russos é como se a pátria perdesse um pouco mais da sua grandeza.    



TSF / O Mundo num Minuto
26 Março 2010

http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=917506&audio_id=1529257

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Índia e Paquistão de crise em crise




   Os ataques de Mumbai foram o culminar de um ano de acções terroristas na Índia, na maior parte perpetradas por redes islamitas, e colocaram o governo de coligação liderado pelo Partido do Congresso numa situação insustentável.
   Aos fracassos sucessivos dos serviços de informação e segurança de Nova Delhi para obstarem a atentados de organizações como os Mujahideen da Índia, apoiados por islamitas do Paquistão e do Bangladesh, aos ataques de radicais hindus contra comunidades cristãs e muçulmanas, à insurreição maoísta em Bengala Ocidental e no Centro e Leste do país, veio juntar-se o "raide" terrorista de Mumbai.

                                  A ameaça islamita na Índia
   Apesar dos operacionais que desembarcaram em Mumbai serem oriundos do Paquistão as acções mais violentas partiram recentemente do Movimento dos Estudantes Islamitas da Índia.

   As redes islamitas indianas ganharam força desde a destruição da mesquita de Ayodhya em 1992 por radicais hindus e dos motins em Bombaim no ano seguinte (a Bombaim que Catarina de Bragança levou como dote no casamento com Carlos II de Inglaterra em 1661 só assumiu o nome em maharati em 1996), enveredando pela via terrorista em contacto com militantes paquistanesas e bengalis.

   O submundo do crime organizado de Mumbai, com ligações aos emirados do Golfo Pérsico e ao Paquistão, embrenhou-se, também, em acções terroristas que tiveram o seu momento mais sangrento nos atentados organizados em 2003 pelo mafioso Dawood Ibrahim (refugiado actualmente em Karachi) e patrocina grupos radicais hindus e muçulmanos.

   Os motins anti-muçulmanos em Gujarat, com a complacência do governo estadual nacionalista hindu, em 2002, marcaram outro momento de radicalização da militância islamita na Índia.

   A acentuada degradação das condições de vida da minoria muçulmana (cerca de 150 milhões de fiéis, 14 % da população) reconhecida pelos próprios estudos oficiais, como, por exemplo, o relatório da Comissão Sachar de 2006, tem vindo a facilitar o recrutamento de jovens motivados pela ideologia jihadista.

   Desde os anos 90 que organizações como Lashkar-e-Toiba (O Exército dos Puros) e Joish-e-Mohammad (Os Guerreiros de Maomé), sustentadas pelo exército e serviços secretos do Paquistão, revigoraram com fervor fundamentalista a contestação separatista em Caxemira.

   A confluência de todas estas tendências é agora cada vez mais notória. O "raide" de Mumbai visou os símbolos cosmopolitas das elites da capital financeira da Índia, atingindo por arrasto visitantes estrangeiros, e assumiu mesmo um teor anti-judaico com o massacre no centro ortodoxo dos Lubavitch numa cidade sem tradição de anti-semitismo.

                                        De Caxemira a Cabul

   O diferendo sobre o estatuto de Caxemira, na origem directa de duas guerras entre a Índia e o Paquistão desde a partilha sangrenta de 1947, passou a ser um elemento catalisador da toda a militância islamita no subcontinente.

   O arco de crises que vai do Afeganistão (o atentado de Julho à embaixada indiana em Cabul contou com a cumplicidade dos serviços secretos paquistaneses) ao Bangladesh (o Harkat-ul-Jihad-al-Islami, Movimento da Guerra Santa Islâmica, criado durante a guerra anti-soviética no Afeganistão, tem lançado ataques na Índia a partir da fronteira bengali) paralisa o governo de Manmohan Singh que incapaz de negociar um acordo sobre Caxemira se vê obrigado a exigir a Islamabade a repressão de frentes islamitas e bandos do crime organizado.

    O governo de Asif Zardari, confrontado com elementos das forças armadas e dos serviços de informação que apoiam os islamitas, não tem condições para cumprir a exigência de Nova Delhi sem obter concessões quanto ao referendo adiado desde 1947 sobre Caxemira.

   Um agravamento das relações entre as duas potências nucleares do subcontinente é tanto mais previsível quanto maior for o aumento da contestação dos nacionalistas hindus do Baharatiya Janata que têm nas eleições legislativas de Maio uma oportunidade para regressar ao poder e retomarem uma campanha anti-muçulmana à semelhança do que aconteceu durante a sua governação entre 1998 e 2004.

   A resposta previsível por parte do Paquistão, depois de Zardari ceder às pressões dos militares, passa pela ameaça de recolocar forças ao longo da fronteira com a Índia o que agravaria ainda mais a situação na Província do Noroeste e nas áreas tribais, aproveitando aos tabilan, além dos separatistas do Baluchistão, no sul do país.

   Em Dezembro de 2001 um ataque suicida dos islamitas do Lashkar-e-Toiba ao parlamento de Nova Delhi criou uma situação de tal tensão que só a mediação de Washington evitou in extremis uma guerra entre a Índia e o Paquistão.

   Ao acabar 2008 a tensão está de volta, mas com a frente afegã a reduzir a margem de manobra, o acordo nuclear entre Washington e Nova Delhi ameaçado por um futuro governo nacionalista hindu, e um rol de agravos cada vez mais pesado.


Jornal de Negócios
03 Dezembro 2008

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?id=343758&template=SHOWNEWS_V2

domingo, 2 de setembro de 2012

Ganhar uma guerra e perder-se na paz




   A vitória militar do governo de Colombo sobre os guerrilheiros Tigres de Libertação do Tamil Eelam (LTTE) levanta questões delicadas quanto às políticas a seguir para promover a efectiva pacificação do Sri Lanka e a compatibilização dos divergentes interesses das potências regionais e internacionais.

   No imediato, a União Europeia, os Estados Unidos e o Canadá pressionam o presidente Mahinda Rajapaksa a tomar medidas de auxílio aos mais de 250 mil refugiados causados pela derradeira fase dos combates no Norte do país e a pôr termo a abusos do exército e das forças de segurança contra civis.

   Bloquear um empréstimo de 1,9 mil milhões de dólares do FMI para obviar à escassez de divisas (as reservas de Colombo cobrem apenas seis semanas de importações) e a renegociação de direitos preferenciais de exportação por parte da União Europeia não são opções credíveis e arriscam diminuir ainda mais a capacidade de influência dos países ocidentais.

   As críticas à forma brutal como as forças armadas do Sri Lanka conduziram a fase final da guerra, em paralelo à tradicional utilização de civis como escudos de protecção pelos Tigres, não tiveram efeitos práticos a partir do momento em que a Índia deu o seu apoio tácito a uma investida contra a guerrilha e a China assumiu decisivamente o apoio ao governo de Rajapaksa.

                                       Pressões delicadas

   A Índia pressiona agora Colombo a concretizar o acordo firmado em 1987 entre o presidente Junius Jaywardene e o primeiro-ministro Rajiv Gandhi para reconhecimento político dos direitos das minorias tâmil (12 % dos 20 milhões de habitantes), muçulmana (8 %) e burgher (os cerca de 40 mil mestiços católicos de origem portuguesa, holandesa e britânica) e a revisão constitucional desse ano que garantiria maior autonomia às províncias do Leste e do Norte.

   Os mais de 60 milhões de tâmil do estado indiano de Tamil Nadu são particularmente susceptíveis à sorte dos seus congéneres no Sri Lanka, mas os principais partidos políticos locais não põem em causa a opção dos sucessivos governos em Nova Deli que depois de apoiarem os separatistas tâmil na década de setenta passaram a partir dos anos oitenta a tentar mediar o conflito, fomentando uma solução federal.

   O assassínio de Rajiv Gandhi em 1991 por uma terrorista suicida dos Tigres, um ano depois da retirada do contingente militar indiano que acabara envolvido em combates com os separatistas, levou Nova Deli a assumir uma atitude mais distanciada do conflito e a defender que só uma negociação política, após uma decisiva vitória militar, permitirá criar condições para levar a população tâmil a negar apoio a movimentos subversivos à semelhança do que aconteceu com os sikhs no Punjab nos anos 90.

   A China, o maior fornecedor militar e principal esteio diplomático e financeiro do Sri Lanka, junta-se à Líbia e ao Irão para apoiar economicamente Colombo e prepara-se para reforçar a influência na ilha que lhe permitirá alargar a sua margem de manobra estratégica no Oceano Índico.

                                      A arrogância da vitória

   A relutância da maioria cingalesa e em particular do clero budista em apoiar eventuais concessões políticas aos tâmil hindus cria, por seu turno, uma situação difícil ao presidente Rajapaksa que no final do ano se candidatará a um segundo mandato.

   Vítimas do chauvinismo virulento do nacionalismo cingalês, que desde a independência em 1948 perseguiu a minoria tida por favorecida durante a colonização britânica, cerca de metade dos tâmil, maioritários no Norte e Leste do velho Ceilão, habitam outras regiões do país onde a intolerância étnico-religiosa está à flor da pele.

   Os Tigres, sob a chefia de Vellupillai Prabhakaran, tinham aniquilado todos os movimentos rivais e imposto uma ditadura racista sem quartel nas áreas sob seu controlo até a ofensiva governamental iniciada em 2006 os condenar à derrota.

   A partir da segunda metade de 2007 os Tigres, que chegaram a controlar um terço da ilha, viram-se acantonados em posições estáticas defensivas e começaram a perder território, mas, apesar de batidos como força militar após 26 anos de guerra que provocaram mais de 70 mil mortos e brutalizaram o Sri Lanka, mantêm uma rede invulgar de apoio e financiamento entre a diáspora tâmil.

   A extorsão e contrabando são parte integrante dos esquemas de financiamento do LTTE e estimativas do "Jane's Intelligence Report" indicavam que em 2008 os Tigres conseguiam, apesar de proscritos como organização terrorista em 32 estados, angariar cerca de 200 milhões de euros por ano.

                                     A cartada terrorista

   O tesouro de guerra dos Tigres, apenas superado pelas receitas da cocaína das também exangues Forças Revolucionárias Armadas da Colômbia (FARC), é assegurado junto da emigração tâmil (cerca de um quarto da comunidade que se expatriou para o Canadá, Índia, Grã-Bretanha, Alemanha, França, Suíça e Austrália) e será mais do suficiente para sustentar uma campanha terrorista.

   A tradição terrorista do LTTE, com fortíssima componente suicidária feminina e masculina, permitirá aos separatistas manter vivo o conflito e se o governo de Rajapaska alimentar, conforme fez até agora, o triunfalismo dos nacionalistas cingaleses e não souber neutralizar politicamente as consequências dos previsíveis atentados, a longa guerra do Sri Lanka continuará a deixar um rasto de mortes.

   Num cenário em que só a China se pode arrogar como aliado indefectível de Colombo e em que o nacionalismo cingalês clama vitória qualquer pressão precipitada por parte de indianos, norte-americanos, canadianos ou europeus, mesmo bem-intencionadas sugestões dos esforçados mediadores noruegueses que em 2002 conseguiram negociar uma trégua, revelar-se-á contraproducente.

   Impor uma vez mais uma política racista, frustrando e desesperando a minoria tâmil, seria, por sua vez, a pior atitude possível por parte dos políticos e religiosos cingaleses, mas na história do Sri Lanka já muitas vitórias se transmutaram em guerras fatais.


Jornal de Negócios
20 Maio 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=368802

A caminho da pior das derrotas



Ponte da Amizade
Afeganistão-Rep. Socialista Soviética do Uzbequistão
1 Fevereiro de 1989

     O mais difícil, quando tudo estiver acabado, vai ser encenar qualquer coisa que tente iludir a desgraça à imagem do que foi a partida do último soldado soviético do Afeganistão, protagonizada pelo general Boris Gromov ao atravessar a ponte sobre o Amu Darya para o Uzbequistão ao sol de um meio-dia de Fevereiro de 1989.

  A mais poderosa aliança militar do mundo, os seus aliados australianos, sul-coreanos e demais envolvidos caminham inexoravelmente para um fracasso militar e uma catástrofe política no Afeganistão, numa guerra que, passados oito anos, falha nos objectivos e se revela equívoca na estratégia e tácticas.

                                        Guerra para quê?

   Firmar um governo em Cabul suficientemente forte para impedir que o Afeganistão reverta a favor de investidas radicais islamitas na Ásia Central e covil de organizações terroristas é, agora, sacrificadas a realidades intratáveis a democratização ou os direitos das mulheres, o objectivo da NATO.

  Limitar a produção e tráfico de drogas, desviando, na medida do possível, os seus proventos do financiamento de actividades subversivas e terrorristas, surge, subsidiariamente, como condição muito necessária, mas não impreterível, para a NATO e aliados virem a conformar-se com uma autoridade autocrática em Cabul capaz de evitar a desagregação do estado afegão por via de acordos com potentados regionais e senhores da guerra.

   Barack Obama acabou de selar o compromisso de mais tropas no terreno e maior compromisso na formação de militares e polícias afegãos na expectativa de dentro de quatro a cinco anos poder iniciar uma retirada gradual de tropas.

   Em números redondos, os Estados Unidos contarão, em meados de 2010, com 100 mil militares no Afeganistão e os seus aliados somarão outros 40 mil homens, chegando, assim, a níveis de presença no terreno superiores aos cerca de 120 mil homens que a União Soviética mobilizou ao apogeu da intervenção que se arrastou por uma década desde o final de 1979.

   Afeganizar a guerra, duplicando os actuais efectivos do exército para 240 mil homens e da polícia para 160 mil, afigura-se difícil de conseguir a curto prazo.

   As actuais taxas de deserção no exército rondam um para quatro e os efectivos mal chegam aos 134 mil homens. A desproporção étnica, dada a dificuldade de recrutamento entre a maioria pashtun (40% da população), é, ainda, perigosa, dado que os tadjiques (um quarto da população) representam 41% dos efectivos e dominam as chefias militares e do ministério da defesa.

   Baixas civis e militares muito aquém das provocadas pelas tácticas de terra queimada e gente massacrada da URSS, legitimação internacional por obra de mandatos da ONU, distinguem, no imediato, a guerra da NATO da invasão soviética.

   Os investimentos em infra-estrutruras e desenvolvimento rural claudicam, no entanto, ainda mais do que os tentados durante a intervenção soviética, e a corrupção administrativa é tão endémica e pervasiva quanto a dos anos oitenta e surge potenciada pelo tráfico de drogas, que ronda, presentemente, os 4 mil milhões de dólares por ano.

                                          Pior do que antes

  Um dos factos alarmantes resume-se a isto: sem apoios estrangeiros significativos (como o arco que uniu Washington, Islamabade, Riade e Pequim contra Moscovo) ou equipamento militar de ponta (caso dos fatais mísseis Stinger, que fizeram claudicar o domínio aéreo soviético), a insurreição taliban no Sul e Leste do Afeganistão, além da guerrilha de históricos radicais islamitas como Gulbuddin Hekmatyar, e revoltas locais alastrando além das áreas de maioria pashtun, replicam para pior o impasse que levou à derrota soviética.

  Desta feita, o pecado original não advém de um erro de cálculo estratégico ao desencadear a invasão, como ocorreu com a intervenção soviética de Dezembro de 1979, apesar de desde os idos de Outubro de 2001 a investida militar liderada pelos Estados Unidos esbarrar contra as resistências dos tradicionalismos locais e, sobretudo, claudicar ante algo que implica pensar estratégia.

   Um governo afegão alinhado com a Índia (alvo de sucessivos atentados à sua representação diplomática em Cabul desde que Nova Deli apostou em Hamid Karzai ou quem seja poder na capital afegã e se mostre adverso a submter-se ao Paquistão) será sempre tido em Islamabade como um risco estratégico.

   A contenção dos riscos de subversão radical islamita nas províncias pashtun na fronteira do Afeganistão nunca será tida em Islamabade como algo que valha contrição militar face à Índia e, pelo lado do Paquistão, o vizinho da Ásia Central pode ir ardendo a fogo lento.

                                                  Nada ajuda

   A acrescer risco ao compromisso de Obama, advém o crescendo de tensão com o Irão, as dificuldades previsíveis para cumprir o calendário de retirada do Iraque, e os custos da guerra num clima pouco propício, sem que o governo de Cabul releve lisura ou eficácia administrativas.

  Custos de 3,6 mil milhões de dólares/mês, quase mil mortos norte-americanos até agora, outros 30 mil milhões de dólares por ano para pagar o reforço de efectivos no Afeganistão, tornam cada vez mais difícil de fazer aceitar uma guerra por um eleitorado que dentro de um ano decidirá as maiorias no Congresso de Washington.

  As contas estão feitas e as realidades no terreno obrigariam a um muito maior investimento em tropas e ajuda económica efectiva que são inaceitáveis para os eleitorados ocidentais.

  Quando a guerra e os caixões retornarem em força, passado o Inverno no Afeganistão, e se aproximarem as eleições gerais britânicas e as votações para o Congresso de Washington no final de 2010, pouco haverá para apresentar de positivo da investida militar.

   A partir daí será o princípio do fim, a busca afogueada de compromissos para uma retirada, sem que se possa presumir o que venham a ser as consequências globais da pior das derrotas possíveis: a que nem se pode assumir como tal.



Jornal de Negócios
02 Dezembro 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=398853

Armas, poluição e muitos milhões

  

   Depois da China amargurar os Estados Unidos com reiteradas reticências quanto ao futuro do dólar como moeda de reserva internacional, esta semana foi a vez da Índia evidenciar a capacidade cada vez mais limitada dos Estados Unidos para fazerem vingar as suas opções estratégicas.

   Hillary Clinton conseguiu em Nova Delhi firmar acordos sobre defesa e cooperação nuclear civil a contento dos parceiros indianos e de empresas norte-americanas, mas fracassou na área ambiental e da não proliferação.

   A Índia comprometeu-se a não transferir ou revender a países terceiros equipamentos e tecnologias militares adquiridas aos Estados Unidos, nos termos da Lei de Controlo de Exportação de Armamentos, aprovada em Washington em 1996, abrindo assim o mercado indiano às firmas norte-americanas.

                                          Caças e contratos
    No âmbito do programa de modernização militar de Nova Delhi, orçado em 30 mil milhões de dólares para os próximos cinco anos, as empresas norte-americanas Lockheed Martin e Boeing entram de imediato na corrida para a venda de caças.

    Nova Delhi disponibilizou 11 mil milhões de dólares para adquirir 126 caças de última geração e conta já com ofertas de venda de aparelhos Mig 35 por parte da Rússia, Rafale, propostos pela Dassault francesa, Saab JAS 39 Gripen suecos, e Thyphoon do euroconsórcio britânico-alemão-espanhol-italiano.

    Para os exportadores de armamento norte-americanos e europeus o aumento de 23% nas despesas militares (não incluindo pensões, custos do programa militar nuclear, despesas correntes do Ministério da Defesa e Guarda Costeira) consagrado no orçamento apresentado este mês pelo governo de Manmohan Singh é uma oportunidade a não perder para entrarem num mercado que é dominado pela Rússia (70% das aquisições de equipamento indianas), seguida por Israel.

   Outro acordo desta semana permitirá ainda a venda à Índia de componentes para satélites civis, à semelhança do compromisso existente entre Washington e Pequim.

   Eventuais contratos para lançamento por parte da Índia de satélites comerciais norte-americanos ou de terceiros países com equipamentos de firmas dos Estados Unidos ficaram ainda salvaguardados.

    A Índia consagra agora 2,35% do PIB à Defesa - que compara com 5% do Paquistão e 7% da China - e a modernização de um exército de 1,1 milhões de homens, de uma força aérea obsoleta e de uma marinha aquém das necessidades de projecção de força no Índico face sobretudo à China, firme na aliança estabelecida com a Birmânia, é tida como um desiderato estratégico em Nova Delhi.

    Os diferendos com o Paquistão, o contencioso fronteiriço com a China sobre a soberania no estado de Arunachal Pradesh, vital para o controlo dos Himalaias e dos cursos de água do subcontinente, levam, no entanto, a que o renovado esforço de defesa da Índia tenha implicações que estão muito para além do interesse dos Estados Unidos em garantir um contrapeso a Pequim.

    Nova Delhi joga por sua própria conta frente à China (guarda as lições da derrota na guerra de 1962) e ao Paquistão e, por extensão, ao Afeganistão e ao Irão, onde os seus interesses de segurança não coincidem com os Estados Unidos.

                                     Uma contradição nuclear
  
    Na sequência do estatuto especial concedido pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) à Índia em Setembro de 2008 por pressão de Washington, os Estados Unidos levantaram o boicote que durava há 34 anos à venda de tecnologia e combustíveis para o programa nuclear civil de Nova Delhi.

   Depois da França e da Rússia terem assegurado a construção de reactores nucleares civis na Índia, Nova Delhi reservou agora dois locais nos estados de Gujarat e Andhra Pradesh para firmas norte-americanas apresentarem projectos que orçarão em cerca de 10 mil milhões de dólares.

    Os investimentos norte-americanos no nuclear civil (dependentes da ratificação por Nova Delhi de acordos internacionais para limitação da responsabilidade civil dos fornecedores em caso de acidentes) são uma componente essencial para o aumento das trocas comerciais bilaterais que actualmente rondam os 60 mil milhões de dólares, claudicando em particular nas áreas de serviços, como ficou patente no fracasso das negociações de Doha da Organização Mundial do Comércio.

    O investimento no nuclear civil indiano está, contudo, em contradição com o compromisso assumido pelos Estados Unidos na última cimeira do G8 de que estados que rejeitem o Tratado de Não-Proliferação Nuclear devem ser excluídos de tecnologias de enriquecimento e reprocessamento.

    Nova Delhi mantém a recusa em assinar os Tratados de Não-Proliferação, de 1968, e de Interdição Total de Testes Nucleares, de 1996, que Obama, por sua vez, prometeu levar ao Senado de Washington para ratificação.

    Os últimos testes nucleares da Índia ocorreram a 11 e 13 de Maio de 1998, 24 anos depois da primeira explosão, tendo o Paquistão ripostado com o seu teste de estreia no final desse mês.

    O argumento de que a Índia nunca transferiu tecnologias, combustíveis ou equipamentos para países terceiros serviu à administração Bush para fazer aprovar um estatuto especial para Nova Delhi, que ficou sujeita a uma supervisão limitada por parte da AIEA, permitindo, de facto, a libertação de recursos para o seu programa militar nuclear.

    As declarações de intenções da administração Obama sobre o reforço do regime de não proliferação e limitação da produção de matérias físseis chocam com o estatuto especial da Índia.

                                        Um diferendo climático
    Em Junho, a Câmara de Representantes de Washington aprovou legislação, que aguarda votação no Senado, para reduções de 17% em relação a 2005 das emissões de gases com efeito de estufa até 2020 e de 80% até 2050.

    A lei consagra a penalização de importações de países que não se comprometam com reduções substanciais das suas emissões de gases com efeito de estufa até 2020 e o governo indiano já se manifestou publicamente contra tal eventualidade.

   A posição de Nova Delhi em relação a quotas obrigatórias para redução das emissões de gases com efeito de estufa, a discutir na conferência de Copenhaga em Dezembro, mantém-se inalterável.

    A Índia é responsável por apenas 4,6% das emissões globais (20,9% é a quota norte-americana recentemente ultrapassada pela China) e em termos per capita a sua contribuição para o aquecimento global é irrelevante.

    500 milhões de indianos não têm sequer acesso ao mercado comercial de energia, segundo declarou a Hillary Clinton o ministro do Ambiente Jairam Ramesh, vincando publicamente as divergências.

    O governo do Partido do Congresso e as oposições em Nova Delhi concordam que o desenvolvimento da Índia não se compadece com as restrições que os mais antigos estados industrializados pretendem da parte de economias emergentes.

    Os objectivos estratégicos dos Estados Unidos em matéria de combate às alterações climáticas chocam, também, com a posição de princípio da Índia.

    Depois do fim da Guerra Fria, os Estados Unidos encontraram na Índia - que as reformas económicas encetadas por Manmohan Singh começavam a libertar dos espartilhos estatistas herdados da era Nehru - um parceiro potencial.

    Agora, numa altura em que o declínio relativo e absoluto do poderio norte-americano é cada vez mais evidente, a Índia surge como um parceiro incontornável dos Estados Unidos, mas afirma-se, também, como uma potência que assume plenamente claras divergências de interesses.


Jornal de Negócios
22 Julho 2009

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A outra crise intratável




   Dia após dia, Barack Obama e seus relutantes aliados europeus, canadianos e australianos, vão somando reveses na frente de guerra afegã e deparam-se ante uma crise insanável e cada vez mais alarmante no Paquistão.

   Obama, os presidentes do Afeganistão, Hamid Karzai, e do Paquistão, Asaf Ali Zardari, respectivas chefias militares e dos serviços secretos, estão reunidos em Washington numa cimeira de emergência que vai por à prova a nova estratégia norte-americana para o arco de crises que vai do Médio Oriente, passa pela Ásia Central e culmina no subcontinente indiano.

   A tentativa americana e europeia de afastar Karzai nas eleições presidenciais de Agosto falhou e, na ausência de alternativas, a Casa Branca e a NATO vão ter de continuar a negociar com um governo em Cabul que não poderão deixar cair.

   Karzai tem deixado bem claro, ao jogar com os interesses de russos, iranianos e indianos no Afeganistão, que sabe usar contrapesos à dependência dos seus reticentes patronos ocidentais.

                                      Uma mão sem ás pashtun

   A insurreição, que mobiliza boa parte dos pashtun (40% da população afegã), e a produção de ópio, nervo da guerra, estão para durar e a estratégia de contenção por parte da NATO arrisca o fracasso à medida em que os taliban ganham força no Paquistão e consolidam a sua presença no sul do país e leste do Afeganistão.

    A incapacidade do exército paquistanês para obstar às investidas taliban para além das áreas tribais nas regiões fronteiriças com o Afeganistão, levanta cada vez maiores dúvidas sobre a capacidade do governo de Islamabade para garantir a integridade do Estado sem recorrer ao tradicional recurso de confronto com a Índia.

   As dúvidas expressas publicamente por altos responsáveis norte-americanos sobre a segurança das instalações nucleares militares e civis paquistanesas são, mais do que mera manobra de propaganda, expressão de uma real incerteza acerca dos riscos potenciais que o Paquistão representa em termos de eventual desvio de materiais capazes de produzir bombas sujas para não falar da reactivação de redes de proliferação clandestina como ocorreu com o bando de Abdul Khan nos anos noventa.

   Reforçar a ajuda militar dos Estados Unidos ao Paquistão (mil milhões de dólares anuais desde os atentados de 2001) com pretexto de apoiar acções anti-terroristas e contra-insurreição, além de verbas para o sistema de ensino (num país que apresenta deploráveis níveis educacionais com mais de metade da população analfabeta), não colhe presentemente grande favor no Congresso de Washington dado os parcos resultados obtidos até hoje.

   Um novo pacote de ajuda económica a Islamabade de 7,5 mil milhões de dólares em cinco anos proposto pela Casa Branca enfrenta resistência no Congresso e nem sequer a hipótese do líder da oposição conservadora Nawaz Sharif integrar um governo de salvação nacional servirá de contrapartida aceitável dada a ineficácia e corrupção da administração civil no Paquistão.

   Ao contrário do que sucede no Afeganistão as organizações taliban paquistanesas ultrapassam o grupo étnico pashtun (15% da população) e começaram a expandir-se pelas províncias do Punjab e de Sind, apesar de não terem presença significativa em cidades como Lahore e Karachi.

   Para o exército paquistanês, uma campanha militar em larga escala contra os taliban não é uma prioridade estratégica (80% dos efectivos continuam concentrados na fronteira com a Índia) e na região do noroeste a implantação dos integristas continuará a sustentar a insurreição dos pashtun afegãos ao mesmo tempo que alarma cada vez aliados tradicionais como a China e a Arábia Saudita.

                                           Póquer com a Índia

   Face à urgência aflitiva em Cabul e Islamabade, surge a Índia que usa o Afeganistão como frente de batalha para fragilizar o Paquistão e impor-se como parceiro preferencial dos Estados Unidos, potência pacificadora da Ásia Central e no Oceano Índico frente à China.

   O acordo nuclear de 2008 patrocinado por Washington - que permite à Índia adquirir tecnologias, equipamentos e combustíveis para fins civis sob supervisão limitada da Agência Internacional de Energia Atómica, libertando recursos para o programa nuclear militar, sem que Nova Delhi, tal como o Paquistão, tenha subscrito o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, de 1968, ou o Tratado de Interdição Completa de Testes Nucleares de 1996 - não se traduziu de momento num realinhamento estratégico.

   A prazo um entendimento entre Nova Delhi e os Estados Unidos à custa de Islamabade é, no entanto, uma alternativa cada vez mais viável à medida em que o esforço de guerra no Afeganistão fica comprometido pela presença taliban no Paquistão.

   De momento, Obama e os seus averbam derrotas tácticas que comprometem projectos de estabilização na Ásia Central e no Paquistão e tudo isso dá asas ao governo que advir das eleições indianos e imensa margem de manobra ao Irão.

   Para quem tiver de jogar no xadrez da geopolítica, tudo isto é muito pior do que os dramas da General Motors e os activos tóxicos de Wall Street.



Jornal de Negócios
06 Maio 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=366436

Um embargo arriscado




   A reorganização do mercado petrolífero seguirá um rumo que dificilmente convirá aos interesses europeus e norte-americanos.
  
   Os efeitos contraproducentes do embargo petrolífero da União Europeia ao Irão deverão fazer-se sentir ainda antes do Verão e da imposição plena das sanções comerciais, económicas e financeiras dos Estados Unidos e de outros aliados como a Austrália.

   Obrigar Teerão a regressar às negociações sobre o programa nuclear é o objectivo declarado do embargo, mas, mesmo que as conversações sejam retomadas (sem garantias de obtenção de acordo satisfatório) a reorganização do mercado petrolífero seguirá um rumo que dificilmente convirá aos interesses europeus e norte-americanos.

   O Irão terá de compensar a perda do mercado da UE (20% do total das exportações de crude) e, desde logo, interessa-lhe que os preços não caiam abaixo dos 100 USD/barril para aliviar perdas das receitas na ordem dos 70 mil milhões de dólares (metade do orçamento de estado) que obtém com vendas de petróleo.

   A Arábia Saudita ou a Rússia, dois exportadores com necessidade de financiarem dispendiosos programas sociais por motivos de segurança interna, partilham o mesmo interesse.

                                        Petróleo caro

   A procura global de petróleo deverá rondar este ano entre os 90 a 89 milhões de barris/dia, de acordo com projecções da "Agência Internacional de Energia" e da "Organização dos Países Exportadores de Petróleo", e a médio prazo o consumo continuará a superar a oferta.

   O Irão extrai actualmente cerca de 3,5 milhões barris/dia e a capacidade de produção extra da OPEP cifra-se em 2,85 milhões barris/dia (75% assegurada pelos sauditas), segundo a AIE, chegando aos 3,8 milhões barris/dia se forem considerados Iraque, Nigéria, Venezuela e Líbia.

   Caberá a Riade, além do Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos, assegurar a estabilidade do mercado, independentemente de eventuais acréscimos na produção iraquiana e líbia.

   A capacidade extra das monarquias do Golfo equivale praticamente às exportações iranianas que rondam os 2,5 milhões barris/dia e teoricamente estabilizará os preços, podendo-se negligenciar a valorização de variedades de crude próximas da qualidade iraniana como o "Urals" russo em relação ao "Brent" do Mar do Norte.

   O Irão deverá conformar-se com a redução a curto prazo das compras de outros importantes clientes como o Japão e a Coreia do Sul (17% e 9% das exportações, respectivamente), mas procura obviar a maiores perdas mantendo ou alargando as quotas de venda à China (20%) e Índia (17%).

                                     Um óbice estratégico

   Pequim adquiriu em 2011 ao Irão 557 000 barris/dia (um aumento de 30% em relação a 2010 ano em que as compras chinesas de crude no mercado internacional subiram 6,1%) e desde Dezembro as suas companhias pressionam Teerão para maiores descontos.

   Além dos investimentos no sector de hidrocarbonetos iraniano a China dificilmente poderá reduzir drasticamente a quota de vendas do seu terceiro maior fornecedor após a Arábia Saudita e Angola.

   A Índia, longe da diversidade de fornecedores conseguida pela China graças às compras em África e na América Latina, depende do Irão para 11% das suas necessidades de petróleo e 70% das suas importações provêm do Médio Oriente.

   As duas potências asiáticas, independentemente da avaliação que façam dos seus interesses estratégicos nas relações com Washington e em menor medida com a União Europeia, não podem ficar excessivamente dependentes de fornecimentos de petróleo das monarquias do Golfo.

   Nem a Pequim, nem a Nova Delhi interessa uma dependência energética sujeita à garantia de defesa e segurança em última instância dos Estados Unidos.

    Teerão irá tentar obviar aos danos do cerco norte-americano e europeu através de acordos de troca directa, da negociação de preços favoráveis - sobretudo a empresas chinesas e indianas - contornando o sistema bancário sujeito a sanções e por via do mercado negro.

   As eleições legislativas de Março irão demonstrar se as sanções reforçaram uma dinâmica política mais nacionalista e intransigente no Irão como é de esperar.

   A subida gradual dos preços do petróleo pode, entretanto, ser dada como  adquirida porque não é possível tentar excluir o quarto maior produtor do mercado mundial sem arriscar uma agitação dificilmente controlável.

Jornal de Negócios
25 Janeiro 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=533607

O apertar da tarraxa




   O bloqueio ocidental do Irão ficou completo com a entrada em vigor este mês das sanções da UE interditando o seguro de transporte de crude e a aquisição de petróleo a Teerão.

  Obrigar o Irão a renunciar a um programa nuclear passível de uso militar é objectivo da UE e de Washington, tal como das sanções decretadas pela ONU, mas após o fracasso das negociações entre Teerão e os membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha, é pouco crível que estas pressões venham a surtir efeito.

   A semana começou, entretanto, com exercícios militares iranianos e lançamento de mísseis "Shahab" de longo alcance (1300 Km) e ameaças de parlamentares de Teerão de eventual bloqueio do estreito de Ormuz a navios que transportem crude para países que apliquem sanções.

   A um nível mais prosaico o governo de Teerão anunciou a suspensão de aumentos de preços de produtos alimentares, água e energia, no âmbito de um programa a cinco anos de eliminação de subsídios iniciado em Dezembro de 2010, enquanto o Banco Central referia dispor de 150 mil milhões de dólares em divisas para fazer frente à ofensiva ocidental.

   Ante a iminência de novas sanções a quebra na produção e exportações de petróleo já se tinha feito sentir.

   Os 3,3 milhões de barris/dia extraídos em Maio reduziram-se para 2,95 milhões em Junho, de acordo com estimativas da "Reuteurs", prevendo a "Agência Internacional de Energia" que o Irão venha produzir menos 1 milhão de barris/dia no segundo semestre deste ano.

   Neste cenário a Arábia Saudita mantém altos níveis de extracção e o Iraque ultrapassou o Irão, tornando-se no segundo maior produtor da OPEP que, em Junho, extraiu 1,63 milhões de barris/dia acima do tecto de 30 milhões acordado entre os 12 estados, ainda que o crude tenha caído de 130 USD em Março para menos de 90 USD no mês passado.

   Para Teerão à perda do mercado da UE, que representava 18% das exportações, vêm juntar-se reduções nas aquisições da Coreia do Sul, Japão, Índia e China.

   A prazo a China e a Índia não prescindirão do crude iraniano para evitar uma excessiva dependência das monarquias do Golfo sujeita a garantia em última instância de defesa e segurança por parte dos Estados Unidos.

   Nesta fase, contudo, Pequim e Nova Delhi salvaguardam os seus interesses a troco de concessões e descontos nas compras de petróleo que Teerão terá de acomodar para reduzir prejuízos.

   Vendas através de empresas de fachada, o recurso a troca directa, pagamentos em ouro ou divisas distintas do dólar e do euro, não compensarão as perdas num sector que representa 80% das exportações e metade das receitas do orçamento do Irão.

   Teerão não conta com indústrias que evitem o recurso a importações significativas de artigos de consumo corrente e bens de capital, confronta-se com a desvalorização do rial (perda em relação ao dólar superior a 50% num ano) e uma taxa oficial de inflação anual que, em Maio, atingiu os 22,2%.

   O Irão corre o risco -- apesar de a dívida pública rondar apenas 9% do PIB – da deterioração dos saldos positivos do orçamento e da balança de pagamentos provocar uma espiral inflacionista e uma contracção económica superior aos 1% previstos para este ano e aos 0,7% estimados para 2013 pelo "Banco Mundial".

   O regime tem resistido às sanções que os Estados Unidos começaram a impor desde 1992 para conter o programa militar nuclear, posteriormente acompanhadas de restrições aprovadas pela ONU e ampliadas por estados aliados de Washington.

   O boicote comercial, económico e financeiro falhou até agora os seus objectivos políticos e nada indica que os decisores políticos iranianos não estejam dispostos a arrostar com os custos do desafio a velhos inimigos.

   As sanções internacionais criaram sérias dificuldades à prossecução de programas de desenvolvimento de armas de destruição maciça no Iraque e na Líbia, mas, do ponto de vista preponderante no Irão, os exemplos de Saddam Hussein, Gaddafi e da Coreia do Norte, no pólo oposto, provam que um estado em confronto com Washington só garante alguma imunidade perante um ataque militar se dispuser de meios de retaliação.

   O apertar da tarraxa surge numa altura em que Teerão aposta que um ataque israelita seja contido por Washington, aguardando, de resto, pelos resultados das eleições de Novembro para a Casa Branca antes de eventualmente optar por novas tácticas para protelar concessões.

   O bloqueio económico, comercial e financeiro dos Estados Unidos e da União Europeia é mais uma frente de combate num conflito que caminha para um confronto letal.

Jornal de Negócios
04 Julho 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=565975

domingo, 19 de agosto de 2012

A lenta ascensão da Índia




   A viagem à Índia de Cavaco Silva e de nutrida delegação empresarial vale bem a pena, sobretudo este ano, depois de Lisboa e Nova Delhi terem perdido tanto tempo em declarações de intenções falhadas e contenciosos que nem pouparam as comemorações da chegada de Vasco da Gama a Calecute.
  
   O tempo é propício depois doutro ano se ter passado em que a Índia acusou Islamabade de cumplicidade em actos terroristas, reavivando o risco de nova guerra com o Paquistão, tal como em 1999 e em 2001, no que seria o quarto conflito militar desde a Partilha do Raj em 1947.

   Os ventos correm de feição pois 2006 foi, também, o ano em que a Índia brilhou no Fórum de Davos, reforçou as relações económicas com o Irão, viu com agrado o triunfo de expatriados como Lakshmi Mittal ainda que bem mais importantes tenham sido os êxitos de empresas como a Tata Motors e a Infosys Technologies.

   Pequim e Nova Delhi relançaram, igualmente, no preciso ano em que os Estados Unidos reconhecerem o estatuto de potência militar nuclear da Índia, a cooperação económica e resolveram os principais diferendos fronteiriços, que provocaram uma guerra em 1962.

   A coligação liderada por Manmohan Singh chega assim a 2007 com uma considerável rede internacional de protecção – apesar dos imprevisíveis confrontos com o Paquistão, a crise iraniana, a destabilização crescente do Bangladesh e o recrudescer da guerra civil no Sri Lanka – que oferece boas perspectivas para sustentar o boom económico que desde o início da liberalização em 1991 tem possibilitado à Índia um crescimento anual na ordem dos sete por cento.

                              O crescimento pelo lado de dentro

   O modelo indiano de desenvolvimento prosseguido na última década e meia tem assentado essencialmente na mobilização do capital privado interno tanto mais que o investimento directo estrangeiro representa menos de 1 por cento do Produto Interno Bruto, que está prestes a atingir os 930 mil milhões de dólares, sendo inclusivamente ultrapassado pelas remessas dos emigrantes.   

   A percentagem das trocas comerciais com o exterior já superou os 30 por cento do PIB, com as importações a ultrapassarem as exportações, mas o consumo interno é o motor da economia, equivalendo a mais de 60 por cento de toda a riqueza gerada no país.

   A fraca criação de emprego, na ordem de um por cento ao ano, a par dos persistentes défices orçamentais, é a maior pecha do desenvolvimento indiano e o tão dinâmico sector das indústrias de serviços, cujas exportações representam mais de 30 por cento das vendas ao exterior (metade por via de produção de software), absorve no subsector das tecnologias de informação apenas 1,3 milhões dos 400 milhões de almas que constituem a força laboral do país. 

   Apesar de 70 por cento dos 1,13 mil milhões de indianos residirem em áreas rurais o contributo do sector agrícola para o PIB queda-se pelos 22 por cento e a indústria (27 por cento do PIB) revela-se incapaz de absorver mão-de-obra excedentária.

   Uma política industrial ainda orientada para a promoção não-concorrencial de pequenas e médias empresas nacionais e leis laborais de protecção de emprego dos dez por cento de trabalhadores cobertos pelo sistema herdado dos anos 50 excluem do mercado de trabalho entre três a cinco por cento da população.

   Ainda que os padrões de desigualdade social na Índia sejam inferiores aos registados na China ou no Brasil, o baixíssimo rendimento per capita anual de 830 dólares e a subsistência de 380 milhões de pessoas com menos de um dólar disponível por dia condenam o país a um longo e penoso calvário de miséria.

   Os cerca de 250 milhões de indianos tidos como pertencentes às classes médias serão factor de inovação e promotores de novos padrões de consumo, mas a outra Índia é um travão ao desenvolvimento.

   Um sistema partidário em que os dois grandes partidos – Congresso e Bharatiya Janata – estão condenados a coligações pulverizadas pelos interesses de forças regionais, uma burocracia omnipresente, infra-estruturas e serviços básicos inadequados são outras pechas da sociedade indiana que limitam sensivelmente as aspirações das elites de Nova Deli, Mumbai ou Chennai.

                                 A democracia e outras vantagens

   A Índia conta, contudo, com vantagens de maior que eventualmente lhe podem vir a garantir um futuro bem mais auspicioso do que o reservado ao único país que se lhe pode comparar em peso histórico e demográfico.

   Em primeiro lugar, a Índia apresenta uma dinâmica demográfica mais favorável.

    Em 2020, a idade média será de 29 anos, contra 37 anos na China e 45 anos na Europa Ocidental para termo de comparação.

   A Índia, que ultrapassará antes de meados do século a massa humana da China, não se confrontará assim com o problema de sustentabilidade de uma população envelhecida, apesar de ter de resolver rapidamente a crescente quebra no rácio mulheres-homens provocada pelo infanticídio e aborto de bebés do sexo feminino.

   Em segundo lugar, o descalabro ambiental que avassala a China está longe de se fazer sentir com semelhante acuidade na Índia (devido em parte ao menor crescimento industrial) que conta, ainda, com padrões de povoamento mais equilibrados.

   Em terceiro lugar, a prevalência do inglês como língua veicular das elites e dos meios de negócios facilita grandemente a integração económica global da Índia, apesar da mediocridade do sistema de ensino público.   

   Finalmente, uma imprensa livre, tribunais independentes e um sistema democrático que ultrapassou o sobressalto da "Emergência" imposta por Indira Ghandi em 1975 e continua a resistir a confrontos religiosos, guerrilhas maoístas e separatistas, banditismo e níveis de corrupção inauditos em estados como Bihar ou conflitos de castas virulentos, representam, por si só, por maiores que sejam as suas insuficiências, um valor inestimável para o desenvolvimento da Índia.

Jornal de Negócios
10 Janeiro 2007

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=288677

O Silêncio de Cavaco, Sócrates, Manuela e tutti quanti




Centro de Pesquisas Nucleares Bhabha
Mumbai, Maharashtra


   Num silêncio de chumbo nenhum responsável político avançou qualquer explicação, sequer um comentário de circunstância, sobre uma das decisões mais graves tomadas pelo Estado português em matéria de política internacional.

   Portugal e os demais 44 países do Grupo de Fornecedores Nucleares (GFN) aprovaram sábado, por iniciativa de Washington, o levantamento de um embargo de venda de materiais, equipamentos e tecnologias imposto à Índia há 34 anos.

   A promessa de Nova Delhi de manter uma moratória unilateral e voluntária quanto à realização de testes nucleares, anunciada depois de fazer detonar cinco dispositivos militares em 1998, permitiu ultrapassar as objecções da Nova Zelândia ou da Áustria e as reservas da China.

   O incómodo, a má consciência, as apreensões de grande número de estados do GFN após três dias de negociações em Viena ficou patente nas declarações dubitativas e precisões diplomáticas que se seguiram ao anúncio do levantamento do embargo.

   O GFN, criado na sequência do primeiro teste nuclear indiano de 1974, passou assim a admitir o comércio nuclear para fins civis com um estado que recusa assinar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear de 1968 (a que Portugal aderiu em 1977) e o Tratado de Interdição Total de Ensaios Nucleares de 1996 (ratificado por Lisboa em 2000).

                              Um regime especial para a Índia

   Nos termos de um acordo aceite em Agosto pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) Nova Deli permitirá que o organismo da ONU supervisione as suas instalações nucleares civis, mas reserva-se o direito de autorização prévia.

   A Índia fica em condições de prosseguir um programa militar nuclear que, alegadamente, não aproveitará combustíveis, equipamentos e tecnologias adquiridos no estrangeiro para uso exclusivamente civil.

   Os 17 reactores nucleares indianos civis funcionam actualmente a metade da sua capacidade (com um consumo anual estimado de 500 toneladas de urânio) devido à escassez das reservas domésticas de urânio e ao seu desvio, bem como de tório, para fins militares.

   Presentemente, só a Rússia vende urânio a Nova Delhi, enquanto o complexo nuclear militar, particularmente no Centro de Pesquisa Bhabha, perto de Mumbai, continua a fornecer matéria físsil ao arsenal indiano através da produção de plutónio, enriquecimento de urânio e graças à utilização de tório.

   O sector nuclear civil indiano vai libertar ainda mais recursos para o programa militar de um país que em 2002 esteve à beira de uma guerra nuclear com o Paquistão por causa do conflito de Caxemira.

   A abertura do mercado nuclear civil indiano e a construção de 18 a 20 centrais com um investimento estimado na ordem dos 27 mil milhões de dólares são particularmente atractivos para empresas russas, francesas e norte-americanas.

   Todo o investimento no nuclear civil satisfará, no entanto, segundo as projecções oficiais de Nova Delhi, apenas 8% das necessidades energéticas do país em 2030.

                                 Um rombo na Não-Proliferação

A excepção aberta para Nova Delhi assenta no pressuposto político de que a Índia (ao contrário do Paquistão) é um estado apostado na contenção do tráfico ilegal de materiais, equipamentos e tecnologias nucleares.

   A decisão do GFN, além de estar "longe de ser uma solução ideal", conforme admitiu o Ministério alemão dos Negócios Estrangeiros, levanta ainda a questão do estatuto do Paquistão, Israel e Coreia do Norte, que também não subscrevem o Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

   O sistema de exclusão do comércio nuclear civil imposto a estados fora do sistema de salvaguardas e controlo do Tratado de Não-Proliferação (além do Tratado de Interdição Total de Ensaios Nucleares) sofre um rombo irremediável e, a prazo, alenta outros países para, a exemplo do Irão, enveredarem por programas alegadamente pacíficos, mas, na prática, dotados de capacidade militar.

    O regime especial aplicado à Índia não convence presentemente países como a Austrália (detentora de 40 por cento das reservas provadas de urânio), que anunciou de imediato manter o embargo de vendas a estados não signatários do Tratado de Não-Proliferação, e está em vias de levar o Japão, a Noruega, a Nova Zelândia e a Áustria a imporem restrições similares.

   Invocando considerações estratégicas de reforço de cooperação política e militar como contrapeso à China, além das potenciais vantagens comerciais, a administração Bush conseguiu obter em 2006, quando ainda dispunha de uma maioria no Congresso, o apoio condicional dos legisladores para o acordo que veio a assinar em 2007 com o primeiro-ministro Manmohan Singh.

   Se o Congresso não aprovar o acordo de fornecimento de combustível e tecnologia nucleares até ao final deste mês, data em que termina a actual sessão legislativa, fica em aberto a possibilidade de um "não" por parte de uma maioria democrática alargada após as eleições de Novembro, independentemente de quem seja eleito presidente.

   A forte contestação de sectores nacionalistas, de esquerda e direita, além de grande número de partidos de castas e regionais, ao acordo promovido pelo Partido do Congresso, que acusam de limitar a soberania indiana, poderá ainda levar nas próximas eleições legislativas, agendadas para Maio, a uma reviravolta que lance por terra o compromisso negociado entre Bush e Singh e anule as garantias apresentadas por Nova Delhi à AIEA e ao GFN.

                                      Calados e alheios
                                              

   O retomar da exploração de urânio através da mineração, no distrito de Portalegre, na jazida de Nisa – com um potencial estimado em quase 6,3 milhões de toneladas de minério não sujeito a qualquer tratamento, 760 mil toneladas de minério seco e cerca de 650 mil quilos de óxido de urânio – continua em análise, tal como a eventual opção pela capacidade de geração de energia eléctrica em centrais nucleares.

   A volatibilidade dos preços do óxido de urânio é frequentemente referida como factor condicionante da viabilidade da exploração mineira, além das considerações de saúde pública e protecção ambiental.

   O programa nuclear militar do Irão é tido como uma ameaça à paz mundial e os apelos à segurança colectiva e cooperação pacífica entre os estados são omnipresentes nas declarações políticas.

   Na hora da verdade, quando uma questão estratégica da mais alta importância está em causa, nem uma explicação se ouviu quanto às consequências do desmantelamento parcial dos pressupostos em que assenta o Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

Jornal de Negócios