Depois da China amargurar os Estados Unidos com reiteradas reticências quanto ao futuro do dólar como moeda de reserva internacional, esta semana foi a vez da Índia evidenciar a capacidade cada vez mais limitada dos Estados Unidos para fazerem vingar as suas opções estratégicas.
Hillary Clinton conseguiu em Nova Delhi firmar acordos sobre defesa e cooperação nuclear civil a contento dos parceiros indianos e de empresas norte-americanas, mas fracassou na área ambiental e da não proliferação.
A Índia comprometeu-se a não transferir ou revender a países terceiros equipamentos e tecnologias militares adquiridas aos Estados Unidos, nos termos da Lei de Controlo de Exportação de Armamentos, aprovada em Washington em 1996, abrindo assim o mercado indiano às firmas norte-americanas.
Caças e contratos
Hillary Clinton conseguiu em Nova Delhi firmar acordos sobre defesa e cooperação nuclear civil a contento dos parceiros indianos e de empresas norte-americanas, mas fracassou na área ambiental e da não proliferação.
A Índia comprometeu-se a não transferir ou revender a países terceiros equipamentos e tecnologias militares adquiridas aos Estados Unidos, nos termos da Lei de Controlo de Exportação de Armamentos, aprovada em Washington em 1996, abrindo assim o mercado indiano às firmas norte-americanas.
Caças e contratos
No âmbito do programa de modernização militar de Nova Delhi, orçado em 30 mil milhões de dólares para os próximos cinco anos, as empresas norte-americanas Lockheed Martin e Boeing entram de imediato na corrida para a venda de caças.
Nova Delhi disponibilizou 11 mil milhões de dólares para adquirir 126 caças de última geração e conta já com ofertas de venda de aparelhos Mig 35 por parte da Rússia, Rafale, propostos pela Dassault francesa, Saab JAS 39 Gripen suecos, e Thyphoon do euroconsórcio britânico-alemão-espanhol-italiano.
Para os exportadores de armamento norte-americanos e europeus o aumento de 23% nas despesas militares (não incluindo pensões, custos do programa militar nuclear, despesas correntes do Ministério da Defesa e Guarda Costeira) consagrado no orçamento apresentado este mês pelo governo de Manmohan Singh é uma oportunidade a não perder para entrarem num mercado que é dominado pela Rússia (70% das aquisições de equipamento indianas), seguida por Israel.
Outro acordo desta semana permitirá ainda a venda à Índia de componentes para satélites civis, à semelhança do compromisso existente entre Washington e Pequim.
Eventuais contratos para lançamento por parte da Índia de satélites comerciais norte-americanos ou de terceiros países com equipamentos de firmas dos Estados Unidos ficaram ainda salvaguardados.
A Índia consagra agora 2,35% do PIB à Defesa - que compara com 5% do Paquistão e 7% da China - e a modernização de um exército de 1,1 milhões de homens, de uma força aérea obsoleta e de uma marinha aquém das necessidades de projecção de força no Índico face sobretudo à China, firme na aliança estabelecida com a Birmânia, é tida como um desiderato estratégico em Nova Delhi.
Os diferendos com o Paquistão, o contencioso fronteiriço com a China sobre a soberania no estado de Arunachal Pradesh, vital para o controlo dos Himalaias e dos cursos de água do subcontinente, levam, no entanto, a que o renovado esforço de defesa da Índia tenha implicações que estão muito para além do interesse dos Estados Unidos em garantir um contrapeso a Pequim.
Nova Delhi joga por sua própria conta frente à China (guarda as lições da derrota na guerra de 1962) e ao Paquistão e, por extensão, ao Afeganistão e ao Irão, onde os seus interesses de segurança não coincidem com os Estados Unidos.
Uma contradição nuclear
Nova Delhi disponibilizou 11 mil milhões de dólares para adquirir 126 caças de última geração e conta já com ofertas de venda de aparelhos Mig 35 por parte da Rússia, Rafale, propostos pela Dassault francesa, Saab JAS 39 Gripen suecos, e Thyphoon do euroconsórcio britânico-alemão-espanhol-italiano.
Para os exportadores de armamento norte-americanos e europeus o aumento de 23% nas despesas militares (não incluindo pensões, custos do programa militar nuclear, despesas correntes do Ministério da Defesa e Guarda Costeira) consagrado no orçamento apresentado este mês pelo governo de Manmohan Singh é uma oportunidade a não perder para entrarem num mercado que é dominado pela Rússia (70% das aquisições de equipamento indianas), seguida por Israel.
Outro acordo desta semana permitirá ainda a venda à Índia de componentes para satélites civis, à semelhança do compromisso existente entre Washington e Pequim.
Eventuais contratos para lançamento por parte da Índia de satélites comerciais norte-americanos ou de terceiros países com equipamentos de firmas dos Estados Unidos ficaram ainda salvaguardados.
A Índia consagra agora 2,35% do PIB à Defesa - que compara com 5% do Paquistão e 7% da China - e a modernização de um exército de 1,1 milhões de homens, de uma força aérea obsoleta e de uma marinha aquém das necessidades de projecção de força no Índico face sobretudo à China, firme na aliança estabelecida com a Birmânia, é tida como um desiderato estratégico em Nova Delhi.
Os diferendos com o Paquistão, o contencioso fronteiriço com a China sobre a soberania no estado de Arunachal Pradesh, vital para o controlo dos Himalaias e dos cursos de água do subcontinente, levam, no entanto, a que o renovado esforço de defesa da Índia tenha implicações que estão muito para além do interesse dos Estados Unidos em garantir um contrapeso a Pequim.
Nova Delhi joga por sua própria conta frente à China (guarda as lições da derrota na guerra de 1962) e ao Paquistão e, por extensão, ao Afeganistão e ao Irão, onde os seus interesses de segurança não coincidem com os Estados Unidos.
Uma contradição nuclear
Na sequência do estatuto especial concedido pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) à Índia em Setembro de 2008 por pressão de Washington, os Estados Unidos levantaram o boicote que durava há 34 anos à venda de tecnologia e combustíveis para o programa nuclear civil de Nova Delhi.
Depois da França e da Rússia terem assegurado a construção de reactores nucleares civis na Índia, Nova Delhi reservou agora dois locais nos estados de Gujarat e Andhra Pradesh para firmas norte-americanas apresentarem projectos que orçarão em cerca de 10 mil milhões de dólares.
Os investimentos norte-americanos no nuclear civil (dependentes da ratificação por Nova Delhi de acordos internacionais para limitação da responsabilidade civil dos fornecedores em caso de acidentes) são uma componente essencial para o aumento das trocas comerciais bilaterais que actualmente rondam os 60 mil milhões de dólares, claudicando em particular nas áreas de serviços, como ficou patente no fracasso das negociações de Doha da Organização Mundial do Comércio.
O investimento no nuclear civil indiano está, contudo, em contradição com o compromisso assumido pelos Estados Unidos na última cimeira do G8 de que estados que rejeitem o Tratado de Não-Proliferação Nuclear devem ser excluídos de tecnologias de enriquecimento e reprocessamento.
Nova Delhi mantém a recusa em assinar os Tratados de Não-Proliferação, de 1968, e de Interdição Total de Testes Nucleares, de 1996, que Obama, por sua vez, prometeu levar ao Senado de Washington para ratificação.
Os últimos testes nucleares da Índia ocorreram a 11 e 13 de Maio de 1998, 24 anos depois da primeira explosão, tendo o Paquistão ripostado com o seu teste de estreia no final desse mês.
O argumento de que a Índia nunca transferiu tecnologias, combustíveis ou equipamentos para países terceiros serviu à administração Bush para fazer aprovar um estatuto especial para Nova Delhi, que ficou sujeita a uma supervisão limitada por parte da AIEA, permitindo, de facto, a libertação de recursos para o seu programa militar nuclear.
As declarações de intenções da administração Obama sobre o reforço do regime de não proliferação e limitação da produção de matérias físseis chocam com o estatuto especial da Índia.
Um diferendo climático
Em Junho, a Câmara de Representantes de Washington aprovou legislação, que aguarda votação no Senado, para reduções de 17% em relação a 2005 das emissões de gases com efeito de estufa até 2020 e de 80% até 2050.
A lei consagra a penalização de importações de países que não se comprometam com reduções substanciais das suas emissões de gases com efeito de estufa até 2020 e o governo indiano já se manifestou publicamente contra tal eventualidade.
A posição de Nova Delhi em relação a quotas obrigatórias para redução das emissões de gases com efeito de estufa, a discutir na conferência de Copenhaga em Dezembro, mantém-se inalterável.
A Índia é responsável por apenas 4,6% das emissões globais (20,9% é a quota norte-americana recentemente ultrapassada pela China) e em termos per capita a sua contribuição para o aquecimento global é irrelevante.
500 milhões de indianos não têm sequer acesso ao mercado comercial de energia, segundo declarou a Hillary Clinton o ministro do Ambiente Jairam Ramesh, vincando publicamente as divergências.
O governo do Partido do Congresso e as oposições em Nova Delhi concordam que o desenvolvimento da Índia não se compadece com as restrições que os mais antigos estados industrializados pretendem da parte de economias emergentes.
Os objectivos estratégicos dos Estados Unidos em matéria de combate às alterações climáticas chocam, também, com a posição de princípio da Índia.
Depois do fim da Guerra Fria, os Estados Unidos encontraram na Índia - que as reformas económicas encetadas por Manmohan Singh começavam a libertar dos espartilhos estatistas herdados da era Nehru - um parceiro potencial.
Agora, numa altura em que o declínio relativo e absoluto do poderio norte-americano é cada vez mais evidente, a Índia surge como um parceiro incontornável dos Estados Unidos, mas afirma-se, também, como uma potência que assume plenamente claras divergências de interesses.
A lei consagra a penalização de importações de países que não se comprometam com reduções substanciais das suas emissões de gases com efeito de estufa até 2020 e o governo indiano já se manifestou publicamente contra tal eventualidade.
A posição de Nova Delhi em relação a quotas obrigatórias para redução das emissões de gases com efeito de estufa, a discutir na conferência de Copenhaga em Dezembro, mantém-se inalterável.
A Índia é responsável por apenas 4,6% das emissões globais (20,9% é a quota norte-americana recentemente ultrapassada pela China) e em termos per capita a sua contribuição para o aquecimento global é irrelevante.
500 milhões de indianos não têm sequer acesso ao mercado comercial de energia, segundo declarou a Hillary Clinton o ministro do Ambiente Jairam Ramesh, vincando publicamente as divergências.
O governo do Partido do Congresso e as oposições em Nova Delhi concordam que o desenvolvimento da Índia não se compadece com as restrições que os mais antigos estados industrializados pretendem da parte de economias emergentes.
Os objectivos estratégicos dos Estados Unidos em matéria de combate às alterações climáticas chocam, também, com a posição de princípio da Índia.
Depois do fim da Guerra Fria, os Estados Unidos encontraram na Índia - que as reformas económicas encetadas por Manmohan Singh começavam a libertar dos espartilhos estatistas herdados da era Nehru - um parceiro potencial.
Agora, numa altura em que o declínio relativo e absoluto do poderio norte-americano é cada vez mais evidente, a Índia surge como um parceiro incontornável dos Estados Unidos, mas afirma-se, também, como uma potência que assume plenamente claras divergências de interesses.
Jornal de Negócios
22 Julho 2009
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