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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A canalha contra a República



   Integrar no mercado de trabalho e no sistema escolar os deserdados alienados e violentos dos subúrbios não é desiderato que se alcance sequer numa geração.

   Sem qualquer solução a curto prazo a França vai ter de viver por muitos anos com o espectro da revolta da canalha, no qualificativo do ministro Nicolas Sarkozy; a minoria deserdada, alienada e propensa à violência, que cresceu nos subúrbios.

   A resistência a reformas do sistema de emprego e segurança social, o proteccionismo promovido pelas elites francesas e a prevalência do modelo integracionista da imigração assente na imposição dos valores republicanos e laicos não auguram uma mudança radical de política.
  
   Os primeiros confrontos sérios entre bandos juvenis oriundos de famílias imigrantes e a polícia começaram em 1979, em Vaulx-en-Velin, nos arredores de Lyon, e dois anos depois novos motins no bairro de Minguettes à Vénissieux, na mesma região, colocaram irreversivelmente na agenda política a questão da «violência urbana».

    A vitória da selecção black-blue-beur no Mundial de futebol de 1998 foi, provavelmente, o último momento de ilusão no sucesso do modelo de integração da segunda e terceira geração de imigrantes, mas três anos depois a Marselhesa era vaiada nas bancadas do Stade de France pelos jovens maghrebinos que assistiam ao primeiro jogo amigável entre a França e a Argélia.

   O choque foi brutal e Le Pen fez, uma vez mais, ouvir a sua voz ante o desconcerto dos partidos tradicionais.
 
    O diagnóstico da crise é claro.

    As 750 cités construídas a partir da década de cinquenta nos arredores das grandes cidades, classificadas presentemente como «zonas urbanas sensíveis», albergam mais de 4,5 milhões de habitantes, com escassas ou nulas qualificações profissionais, emprego precário ou em situação de desemprego.
 
   Nas cités as taxas de desemprego cifram-se em 21 por cento (o dobro da média nacional), chegando aos 40 por cento no caso de jovens até aos 25 anos de ambos os sexos, e registam-se níveis de delinquência e abandono escolar muito superiores aos registados no resto da França.

    Entre 30 a 60 por cento dos residentes nas cités são de origem estrangeira e a tendência é para um aumento da concentração nos subúrbios dos excluídos do mercado de trabalho e do sistema de ensino.
  
    As instâncias tradicionais de mediação política, caso do partido comunista e de organizações associativas animadas por activistas da classe média, perderam influência e o seu espaço foi ocupado por líderes religiosos, essencialmente muçulmanos, que o aparelho de estado não conseguiu integrar. A criminalidade de bandos alastrou à medida que as cités eram abandonadas pelos habitantes melhor sucedidos.
  
   Sem modelos de sucesso com quem se possam identificar nas áreas políticas, culturais, de entretenimento ou desportivas, sobra o vazio para uma geração que vê frustradas as expectativas inalcançáveis de consumo e prestígio social.

   Sarkozy ao prometer varrer «a canalha» cometeu um erro crasso, para gaúdio momentâneo e insensato dos seus rivais Chirac e Villepin, ao transmitir um sinal que foi tomado comoprova da hostilidade declarada do estado face aos jovens dos subúrbios e expressão de criminalização de comunidades inteiras.

   Ora, a canalha não se confunde de forma alguma com o universo da imigração.

   É o mundo da exclusão.

   O censo de Março de 1999 referenciava 4,3 milhões de residentes na França metropolitana de origem estrangeira, ou seja 7,4 por cento da população, uma proporção invariável desde 1975.

  Um terço possuía nacionalidade francesa. A Europa fornecia ainda o maior contingente à imigração (45 por cento) - entre eles 571 874 portugueses (13,3 % do total) -, mas estava em crescimento o número de oriundos do Maghreb (39 %) e da África subsaariana (9%).
  
   Presentemente, as autoridades de Paris estimam, ainda, a presença de 200 mil a 400 mil ilegais em França e é Nicolas Sarkozy, o principal político da direita a tomar a questão em mãos, quem tem vindo a aventar a adopção de uma política de maior selectividade nas autorizações de trabalho para estrangeiros.

   Num contexto de quebra demográfica (entre 1990-1995 registaram-se 1,7 nascimentos por mulher) a população criada em contextos culturais islâmicos continua a aumentar o seu peso e ronda os quatro a cinco milhões, tendo cerca de metade nacionalidade francesa.

   A violência suburbana é, consequentemente, obra das camadas de jovens alienados em resultado do fracasso dos sistemas de integração e da incapacidade de absorção pelo mercado de trabalho.

   O abandono escolar foi agravado no caso da população jovem masculina pela abolição do serviço militar obrigatório em 1996.

   A segregação nas áreas degradadas dos subúrbios, destinadas exclusivamente a habitação, levou ao desenvolvimento de uma cultura de dependência dos sistemas assistenciais que rejeita, simultaneamente, os valores promovidos pela República.

   As áreas de exclusão viram expandir-se uma subcultura identitária de violência, criminalidade e banditismo.

   A maior parte da criação rap - cínica, cruel e machista - é a expressão musical da alienação que transformou em rituais a destruição de símbolos de sucesso como o automóvel, uma constante nas noites de S. Silvestre desde 1997, ou de equipamentos públicos, dos contentores de lixo aos autocarros.

                         Nihilistas, criminosos e xenófobos

   Entre a recusa nihilista de todos os valores e a criminalidade como modo de vida nos subúrbios, um grupo crescente de jovens de origem muçulmana assumem o Islão nas suas versões mais integristas como cultura alternativa.

   A tentativa do estado laico de criar um interlocutor oficial com a instituição, em 2003, do Conselho Francês do Culto Muçulmano, seguida da proibição de símbolos religiosos nas escolas como a hijab, não cativou a minoria islâmica.   

     A endoutrinação nas mesquitas é conduzida por 1000 a 1500 imãs, 90 por cento dos quais são cidadãos estrangeiros.

   Cerca de metade dos imãs ignora o francês e as prédicas radicais como as de Abdelkader Bouziane, sediado em Lyon e expulso para a Argélia em Abril, advogam a submissão das mulheres e a poligamia e exigem o respeito estrito de valores islâmicos contrários à ordem constitucional.

    A nomeação, em Março, do presidente da Renault, Louis Schweitzer, para chefiar a recém-criada Alta Autoridade para a Luta contra as Discriminações e pela Igualdade, ainda não se traduziu em resultados práticos.

   A rejeição crescente pelas empresas e serviços públicos de filhos e netos de imigrantes reflecte-se parcialmente nas estatísticas oficiais que assinalam 9 por cento de desempregados com qualificações universitárias entre os franceses de raiz e 26 por cento entre os candidatos de origem árabe com idênticos atributos académicos.

   O programa, adoptado em 2000, para construir em vinte anos 400 mil habitações sociais em 742 comunas com menos de 5 por cento de residências para famílias de recursos escassos ainda nem começou a ser cumprido por um terço das edilidades.

   A ênfase em acções repressivas, negligenciando a actuação da polícia de proximidade, iniciativa tomada há três anos por Sarkozy, retirou eficácia à acção das autoridades nas zonas sob controlo de gangs.

    A «discriminação positiva» advogada pelo ministro do Interior e a concessão do direito de voto a estrangeiros não-oriundos da União Europeia residentes em França há dez anos são contestadas à direita.

    A maior parte da sociedade francesa rejeita e discrimina de forma consistente e determinada os estrangeiros que pela aparência ou actos não partilham os valores dominantes.
  
   As culturas de gueto odeiam a República, desprezam as normas de civilidade, a canalha consume-se na violência pela violência e os bandos traficam.
 
   Não há qualquer reivindicação de ordem ideológica na actual vaga de violência, mas, a prazo, alguns grupos radicais muçulmanos vão encontrar aqui terreno fértil para a prédica integrista.
  
   As reformas que a França terá de trilhar passam pela repressão sistemática da violência das subculturas e dos bandos criminosos dos guetos, mas, sobretudo, pela integração no mercado de trabalho e no sistema escolar dos deserdados dos subúrbios.

   Não é desiderato que se alcance sequer numa geração.




Jornal de Negócios
09 Novembro 2005

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domingo, 2 de setembro de 2012

O desafio turco

 
 
   Muito para além do desafio de sábado*, a Turquia persistirá como uma das questões mais intratáveis com que se defrontam Portugal e os seus parceiros europeus. As negociações sobre a eventual adesão da Turquia à União Europeia começaram em Outubro de 2005, mas até agora apenas foi aberta a discussão de seis dos 35 capítulos do processo formal.
 
   Este mês poderá iniciar-se a análise dos “dossiers” de propriedade intelectual e direito das sociedades, mas a negociação de outros oito capítulos continua suspensa desde o final de 2006, devido à recusa de Ancara em abrir portos e aeroportos ao comércio com Chipre.

   Ao contrário das agruras turcas, a Croácia que iniciou também em 2005 as suas negociações com Bruxelas tem, pelo contrário, a expectativa de formalizar a adesão dentro de dois, ou no máximo, três anos.

   Os bloqueios nas negociações da UE com a Turquia estão patentes nos debates sobre revisão da Constituição francesa.

A oposição total da França

   Os deputados franceses aprovaram na semana passada uma emenda constitucional que obriga à convocação obrigatória de um referendo para a entrada de qualquer estado que represente mais de cinco por cento da população da União Europeia, ou seja, países com mais de 25 milhões de habitantes.

   Na mira ficam de imediato a Turquia (presentemente com 71 milhões de habitantes), mas também a Ucrânia (46 milhões) e até a Argélia ou Marrocos, como declarou um dos proponentes da emenda.

   Caiu assim por terra uma proposta do presidente Nicolas Sarkozy que visava eliminar o referendo obrigatório a futuras adesões à União Europeia (excepção feita à Croácia), introduzido pelo seu antecessor Jacques Chirac, em 2005, nas vésperas da votação da malograda Constituição Europeia.

    Sarkozy queria ter margem de manobra para que futuras adesões pudessem ser aprovadas por via de referendo ou através de voto parlamentar, mas uma revolta de deputados do seu partido, a União para um Movimento Popular, obrigou a esta solução de compromisso.

   Agora, caso a emenda não venha a conseguir uma maioria de 2/3 da Assembleia Nacional e do Senado na votação agendada para Julho, permanecerá em vigor a disposição de referendo obrigatório para qualquer novo alargamento da União Europeia após a entrada da Croácia.

    Sarkozy opõe-se à adesão da Turquia, mas queria espaço negocial para outros casos, em particular a desejada entrada na União Europeia de países dos Balcãs como a Macedónia, a Sérvia, a Bósnia-Herzegovina, o Montenegro, e, posteriormente, a Albânia, além do problemático Kosovo.

   Toda a negociação será sempre mais difícil no caso da adesão da Turquia, ou futuramente da Ucrânia, passar por referendo em França, onde, tal como na Alemanha, na Áustria ou na Grécia, maiorias consistentes do eleitorado se pronunciam sucessivamente contra a eventual entrada turca na União.

   Para fechar em absoluto as portas à Turquia, a direita francesa acabou também por dificultar futuras negociações com os estados balcânicos e a Ucrânia.

O desconcerto negocial

   Na Turquia, uma sondagem realizada em Maio indicava que 62 % do eleitorado apoiava a adesão, enquanto 27% se manifestava contra, mantendo-se, provavelmente, a percepção maioritária detectada em anteriores inquéritos de que a União Europeia seria a principal beneficiária da entrada do país no bloco.  

   Apesar das taxas de aprovação terem caído dos picos de 2/3 registados antes da abertura formal das negociações para mínimos de 30 por cento em 2006, o apoio do eleitorado turco à adesão volta a ser muito alto.

   Umas razões para tal apoio numa conjuntura negocial negativa pode encontrar-se nos temores criados pela grave crise política que avassalará a Turquia na eventualidade provável de o Tribunal Constitucional de Ancara interditar o Partido da Justiça e Desenvolvimento do primeiro-ministro Tayyip Erdogan e do presidente Abdullah Gul, tal como aconteceu à organização antecessora islamita em 2001.

   A percepção de que o processo negocial com a União Europeia promove a democratização e estabilidade política será possivelmente uma das explicações para o retorno de uma vaga de apoio à adesão por parte do eleitorado turco, apesar de a próxima presidência francesa apontar para mais um ponto baixo nas relações com Bruxelas.

   Tendo nos 27 o seu principal mercado (56% das exportações e 41% das importações) e na Europa o destino migratório por excelência (com mais de três milhões de emigrantes na Alemanha), a Turquia encontra-se vinculada à União Europeia, mas a real possibilidade de uma adesão, desejada para 2013 pelos governantes de Ancara, é cada vez mais remota.

    Do estatuto das minorias, à polémica laicidade/islamismo, passando pela democraticidade das instituições e o contencioso de Chipre, os problemas e temores (sobretudo religiosos e demográficos) levantados pela eventual entrada da Turquia na União aparentam pôr em causa as vantagens da integração de um estado de maioria muçulmana com uma posição estratégica no Médio Oriente e no Mar Negro.

   A margem de manobra negocial de Bruxelas e Ancara está muito constrangida pela oposição declarada da direita francesa à entrada de Turquia na União que acaba de demonstrar, mais uma vez, a impossibilidade prática de concretizar a adesão na próxima década.

   Ainda antes do grupo de reflexão liderado por Felipe González apresentar ao Conselho Europeu de Junho de 2010 o seu relatório sobre os desafios e prioridades da União para as próximas duas décadas o bloqueio na questão essencial do alargamento europeu à Turquia é já uma realidade.

    As negociações terão de enveredar por uma rota formal em que está em discussão a integração da Turquia, mas, na prática, deverão servir para definir os termos de uma parceira especial que minimize os efeitos negativos da recusa de uma adesão formal de Ancara.

* Referência à partida Portugal-Turquia (2-0) de 8 de Junho, em Genebra, da Fase de Grupos do Europeu de Futebol


Jornal de Negócios
04 Junho 2008

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A vida para além do PIB

Stanley Park, Vancouver


   Um indicador demasiado imperfeito como o Produto Interno Bruto (PIB) deve ser revisto para incorporar actividades económicas além dos sectores públicos e privados e levar em conta a sustentabilidade ambiental e social.

   Este princípio sustenta as propostas apresentadas esta semana pela comissão encarregada em Fevereiro de 2008 por Nicolas Sarkozy de estudar os limites do PIB como indicador de desempenho económico e progresso social.

   O relatório, entre cujos autores se contam os Nobel da Economia Joseph Stiglitz e Amartya Sen, sugere diversos instrumentos para medição do bem-estar social e será utilizado pela França para rever o seu sistema estatístico nacional e promover a discussão de novos indicadores aceitáveis por organismos internacionais como o FMI ou a OCDE.

Rever o PIB
   O PIB continuará a ser o indicador por excelência da actividade económica, mas a medição dos rendimentos reais e de consumo das unidades familiares deverá fornecer indicações mais precisas sobre o bem-estar material das populações em função dos patrimónios efectivos (activos e passivos individuais) e a repartição da riqueza.

   Destacar o rendimento médio, dividindo a população em duas partes iguais, o sector que supera esse rendimento e o grupo que não o atinge, será, por seu turno, melhor indicador do que o mero crescimento do PIB per capita.

   Na revisão do cálculo do PIB é sugerido considerar prestações sociais como serviços de saúde e educação e actividades não-mercantis como, por exemplo, trabalho doméstico não-assalariado e actividade filantrópica, em detrimento de operações financeiras tidas como prestação de serviços e não produtos finais.

   O aumento da importância das tecnologias de comunicação como bens de capital é, noutra vertente, um facto que os autores assinalam para sublinhar o maior relevo que deve ser dado à depreciação e abates ao activo, tradicionalmente considerados nos cálculos de Produto Nacional Líquido que em certas situações poderá crescer a ritmos cada vez mais baixos do que o PIB, conforme sucedeu nos Estados Unidos entre 1985 e 2007.

Sustentabilidade e crescimento
   Desgaste e obsolescência de bens são factores de medição difícil, mas ainda mais relevante será a quantificação da utilização de recursos naturais finitos e a degradação do meio ambiente, sobretudo a partir do momento em que está a ser usada toda a produção sustentável do planeta.

   Desde 1986, altura em que a população mundial atingiu os cinco mil milhões, entrámos numa fase de sobreexploração de recursos naturais finitos a par da produção acelerada de resíduos, designadamente gases com efeito de estufa, responsável por significativas alterações climáticas.

   Os diversos índices utilizados para apurar a sustentabilidade ecológica e social terão, consequentemente, de ser referenciados não apenas a nível nacional, mas em termos de equilíbrio planetário e uma das passagens do relatório destaca que só a adopção de tecnologias não-poluentes ou fortemente redutoras de poluição por parte de estados industrializados pode assegurar a sustentabilidade do crescimento de países menos desenvolvidos.

   Ao aplicar noções mais alargadas de bem-estar social e sustentabilidade perde sentido a dicotomia entre crescimento do PIB e protecção ambiental na medida em que eventuais reduções na produção de bens e serviços podem resultar em melhores condições ecológicas que, globalmente consideradas, significam menos assimetrias sociais e qualidade de vida sustentável.

   Para a mensuração de níveis de bem-estar subjectivo e objectivo, incorporando expectativas diferenciadas, o relatório Stiglitz não só assinala a relevância dos tempos de lazer, valoração do emprego e outras formas de trabalho, como ainda a boa governação ou risco de vitimização por actividades criminosas.

   A proposta de revisão das estimativas de desempenho económico e progresso social da comissão Stiglitz, além das sugestões que apresenta para redefinição do PIB, tem, ainda, a grande vantagem de analisar diversos índices utilizados pelo Banco Mundial ou as Nações Unidas, e apresentar outros indicadores capazes de no futuro virem a ser integrados num conjunto normalizado de estatísticas sobre níveis de produção, qualidade de vida e sustentabilidade.

Alguns dos documentos de trabalho e relatórios encontram-se disponíveis em:
http://www.stiglitz-sen-fitoussi.fr/fr/index.htm


 

16 Setembro 2009
Jornal de Negócios

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Escândalo político - curso intensivo



   Por cá, por enquanto, não chegámos a tanto, mas em Paris o presidente da república acusa um ex-primeiro-ministro de conspirar para o caluniar com documentos falsos, ainda que o processo passe por uma acusação do ministério público sobre "cumplicidade em denúncia caluniosa", "abuso de confiança" e "utilização de documentos falsos".

   Dominique de Villepin arrisca até cinco anos de prisão e uma multa de 45 mil euros se o julgamento que começou esta semana der como provado que foi cúmplice com outros quatro acusados de envolvimento numa escabrosa cabala datada dos idos de 2004, quando a sua rivalidade com Nicolas Sarkozy estava ao rubro.

   Villepin chefiava então a diplomacia francesa e era o favorito do presidente. Jacques Chirac suportava a contra-gosto Sarkozy, seu ministro do interior, desde que este apoiara, em 1994, a candidatura ao Eliseu de Édouard Balladur.

                                          Uma lista suspeita

   O vice-presidente da European Aeronautic Defence and Space Company, Jean-Louis Gregorian, envolvido em disputas com outros dirigentes da empresa, aproveitou ou inspirou na ocasião a falsificação de documentos sobre um velho escândalo: as comissões e luvas pagas pela venda de fragatas francesas a Taiwan no longínquo ano de 1991.

   O escândalo das fragatas fez época, contribuiu para a derrocada do governo nacionalista de Taipé e gerou inquéritos diversos sempre limitados pela invocação do segredo de estado em França.

   No rescaldo 13 pessoas foram presas em Taipé, três envolvidos suicidaram-se em circunstâncias dúbias e um oficial da marinha de Taiwan foi assassinado por desconhecidos, mas em França as investigações revelaram-se inconclusivas.

  Sobrou, no entanto, o apuro de que mais de 450 milhões de euros tinham sido pagos a intermediários desconhecidos.

   No início de 2004 chegou às mãos de Villepin, por cortesia de Gregorian, uma lista com nomes de alegados beneficiários das luvas das fragatas. Tudo gente da alta roda, da actriz Laetitia Casta ao traficante de armas Arkady Gaydamak, passando pelo antigo presidente da Thomson Alain Gomez e políticos como Dominique Strauss-Kahn e Laurent Fabius, que alegadamente figurava num rol da sociedade financeira do Luxemburgo Clearstream.

   Sarkozy era um dos visados e Villepin incumbiu um antigo responsável dos serviços secretos, o general Phillippe Rondot, de abrir uma investigação ao mesmo tempo que fazia chegar à praça pública através de bem calculadas fugas de informação os nomes dos alegados abusadores do escândalo das fragatas.

   A lista era uma falsificação, e um tortuoso inquérito da procuradoria acabou por acusar Villepin de ter ordenado investigações e fugas de informação, tendo conhecimento de se tratarem de documentos falsos, para comprometer Sarkozy com o intuito de conseguir a nomeação a candidato presidencial pela "União Para Um Movimento Popular" na eleição de 2007.

                                       O açougue e o matador

   Em Janeiro de 2006, quando era ainda ministro do Interior, Sarkozy constituiu-se em parte civil e fez saber de forma lapidar que queria ver pendurados num gancho de talhante os responsáveis pelas calúnias.

    Alegações diversas indiciam, por seu turno, que Sarkozy estava a par da manobra de Villepin, mas jogou no contra-ataque aproveitando-se da situação para passar por vítima e comprometer o então primeiro-ministro.

   Na Grand Chambre do Palácio da Justiça, onde Maria Antonieta foi condenada à guilhotina em 1793, o julgamento assume todas as características de um processo político e Villepin defende-se, dizendo que agiu de boa-fé e negando qualquer envolvimento nas falsificações.

   O rival de Sarkozy contesta ainda que um presidente em exercício se possa apresentar como queixoso dado que como chefe de estado preside ao Supremo Conselho da Magistratura, além de gozar de imunidade.

   Sarkozy afirma, por sua vez, que, tal como outros 40 queixosos no processo, tem direito ao bom-nome e que não está acima, nem abaixo da lei.

  O processo Clearstream, pode, em boa verdade, ser tido como um curso para alunos avançados em matéria de calúnia e manobra de baixa política e bem merece ser esmiuçado em Portugal pelos estados maiores partidários, Governo e Presidente, além, naturalmente, de humoristas inspirados.

Jornal de Negócios
23 Setembro 2009

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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Merkel emenda a mão

 


  O apoio de Merkel à campanha eleitoral de Sarkozy, declarado ainda antes do presidente anunciar publicamente a recandidatura ao Eliseu, ilustra o temor de que uma eventual vitória do socialista François Hollande possa pôr em causa o plano de disciplina fiscal e orçamental da chanceler.

   Angela Merkel sofreu um desaire político ao ver-se obrigada a apoiar a candidatura de Joachim Gauck a presidente da Alemanha, mas mal maior a poderá atingir a curto prazo caso Nicolas Sarkozy falhe a reeleição.

   A chanceler cedeu depois de se revelarem vãs as possibilidade de se candidatarem personalidades como os presidentes do Tribunal Constitucional, Andreas Vosskuhle, e do Parlamento Federal, Norbert Lammert, e, sem alternativas, teve de curvar-se ante o homem a quem negara a presidência.

   Os liberais tinham cedido em Junho de 2010 à imposição por Merkel de Christian Wulff, um vice--presidente da CDU que se veio a revelar indigno do cargo presidencial, para salvaguardar a coligação.

   Apesar de terem sido cilindrados nas eleições estaduais do ano passado, os liberais sabiam que a chanceler não podia romper a coligação em plena crise do euro e, apostando num candidato com grande popularidade, alinharam com social--democratas e verdes a favor de Gauck deixando Merkel encurralada.

   A chefe do governo de Berlim emendou a mão e engoliu em seco, mas já não poderá fazer o mesmo quanto à sua estratégia europeia.

                                 Felizes com a chanceler

   As derrotas e perdas de votantes nas sete eleições estaduais de 2011 por parte dos partidos da coligação governamental prejudicaram especialmente os liberais de Philipp Rösler, enquanto Merkel manteve uma imagem positiva.

   O desempenho pessoal da chanceler é aprovado por cerca de 60% do eleitorado, de acordo com sondagem do canal televisivo ARD.

   A CDU/CSU soma intenções de voto próximas dos 40%, cerca de 10% acima do SPD, os Verdes quedam-se perto dos 15%, mas os liberais arrriscam nem sequer conseguir atingir os 5% de votos necessárias para obter representação parlamentar nas próximas eleições federais de Setembro de 2013, segundo dados do "Barómetro Político" da cadeia de televisão ZDF.

   As sondagens alemãs revelam, por outro lado, uma maioria rondando os 70% dos inquiridos contra a concessão de mais créditos de emergência à Grécia, enquanto percentagens similares de eleitores manifestam agrado pela forma como Berlim tem liderado os esforços de contenção da crise da eurozona.

   Transversal às simpatias partidárias sobressai a recusa em permitir transferências financeiras ou emissão de obrigações europeias que impliquem custos para os contribuintes alemães.

   O inalienável direito de veto do parlamento de Berlim em questões orçamentais é, igualmente, apoiada pelos inquiridos.

   A margem de manobra de Merkel é, portanto, muito limitada e os apoios com que conta estão dependentes da manutenção de um clima económico favorável, designadamente a altíssima taxa de emprego.

                             A ameaça que vem de França

   Austeridade anti-inflacionária para redução de défices de orçamentos e balanças de pagamentos, corroborada por compromissos legais por parte dos estados da eurozona e escrutínio supra-nacional, é estratégia que, independentemente de desacordos conjunturais sobre custos de eventual bancarrota grega, reúne de momento o acordo entre decisores alemães e faz o seu caminho na opinião pública.

   A formação de um núcleo à parte na zona euro de estados com economias exportadoras competitivas, défices orçamentais e dívidas públicas e privadas sustentáveis, e, consequentemente, altas notações de crédito, é assumido com naturalidade pelo eleitorado alemão.

   Merkel poderá continuar a encetar bruscas reviravoltas como já sucedeu no ano passado com o apoio à introdução de um salário mínimo nacional ou a renúncia à energia nuclear até 2022, mas para conseguir um terceiro mandato consecutivo, a sua estratégia de hegemonização política da eurozona terá de ser bem sucedida.

   O apoio de Merkel à campanha eleitoral de Sarkozy, declarado ainda antes do presidente anunciar publicamente a recandidatura ao Eliseu, ilustra o temor de que uma eventual vitória do socialista François Hollande possa pôr em causa o plano de disciplina fiscal e orçamental da chanceler.

   Um socialista de ideias heterodoxas e equívocas sobre despesa pública, apostado em estratégias de crescimento insustentáveis, é visto por Merkel como ameaça maior.

   Se Hollande chegar ao Eliseu Merkel perde o seu principal parceiro político e de imediato terá de pensar em equilíbrios paneuropeus bem mais complexas do que a governação em Berlim em coligação com os social-democratas entre 2005 e 2009 ou a opção pelos liberais desde então.

  Então, sim, a chanceler terá mesmo de emendar a mão.


Jornal de Negócios
22 Fevereiro 2012

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