Mostrar mensagens com a etiqueta Coreia do Sul. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Coreia do Sul. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Hipertensão nuclear




 
   A retórica de guerra na península coreana vai ter um impacto económico e financeiro na Europa que é perigosamente subestimado.

   A nova ronda de ameaças por parte de Pyongyang tem como pretexto imediato as manobras militares anuais das forças sul-coreanas e norte-americanas que Washington não pode deixar de realizar para fazer prova das suas garantias de segurança na península e em todas as regiões asiáticas onde se faz sentir o incremento da capacidade de projecção de força de Pequim.

   A adopção de mais sanções económicas e financeiras pela ONU após a realização do terceiro teste nuclear norte-coreano em Fevereiro e a necessidade do jovem Kim Jong-un, chegado ao poder em Dezembro de 2011, consolidar uma imagem de força entre os militares na tradição dinástica do avô Kim Il-sung e do pai Kim Jong-il, contam igualmente como factores agravantes da presente crise.

    Testar a nova presidente em Seul, Park Geun-ye - filha do antigo ditador militar Park Ghung-hee - eleita em Dezembro, é outra vertente da estratégia da liderança norte-coreana que se mostra cada vez perplexa ante os sinais que chegam do sul.

  Desde o início da democratização no Coreia do Sul no final dos anos 80 a política dos sucessivos presidentes tem variado entre a adopção de uma linha intransigente ante a ditadura nortenha e propostas de apaziguamento.

   O antigo dissidente Kim Dae-jung, depois de eleito chefe de estado em Dezembro de 1997, lançou a chamada política do "sol que brilha" inspirando-se nas longínquas fábulas do grego Esopo.

   O soprar de um vento forte nunca levará um homem desconfiado a largar o seu manto de abrigo, mas o sol que brilha acabará por convencê-lo a gozar o calor e desta fábula se partiu para uma tentativa de cooperação e criação de confiança mútua com a paranóica ditadura de Pyongyang herdeira de um complexo de taras das piores tradições racistas e nacionalistas coreanas, além de perversões ideológicas confucianas e stalinistas.

  A rápida expansão da economia sul-coreana que a partir da década de 70 deixou para trás o vizinho do norte, o colapso soviético, as reformas económicas na China, a crise de abastecimentos dos anos 90 desencadeando uma fome que vitimou mais de um milhão de norte-coreanos, davam algum sentido a esta inédita tentativa de aproximação desde o final das hostilidades em 1953.

  Um factor deitou por terra a iniciativa numa altura em que o cepticismo sobre a eventualidade da reunificação da península já predominava entre a maioria dos 50 milhões de sul-coreanos, sobretudo cidadãos com menos de 40 anos que rejeitam uma política de confronto, mas se desinteressam da sorte da população a norte, temendo os elevados custos da absorção de 24 milhões de compatriotas.

  Kim Jong-il nunca perdera de vista que só a posse de armas nucleares poderia evitar que os Estados Unidos voltassem a considerar a possibilidade do uso de bombas atómicas contra Pyongyang tal como o general Douglas MacArthur propusera ante o avanço das tropas norte-coreanas e chinesas durante a guerra iniciada em 1950 por Kim Il-sung para descontento do presidente Harry Truman que acabou por demitir o herói da Guerra do Pacífico em Abril de 1951.

   A ameaça nuclear de MacArthur, o bombardeamento arrasador do Norte da península, o arriscado exercício de manipulação das divergências entre os patronos chineses e russos, acentuaram os traços paranóicos da beligerância de Pyongyang e tiveram um papel essencial no desenvolvimento de um projecto militar nuclear, com cumplicidade da rede clandestina do paquistanês Abdul Khan, que culminou no teste de 2006.

  Desde então a Coreia do Norte é invulnerável a ameaças militares porque dispõe de capacidade de retaliação contra a Coreia do Sul e o Japão, sendo a diminuta dimensão do arsenal irrelevante ante a sua potencial e insuportável capacidade destrutiva.

   Tal como Israel, Índia e Paquistão, a Coreia do Norte ignorou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e tornou-se uma potência intratável que, apesar de depender da China para fornecimentos de combustível e alimentos, joga por sua própria conta exigindo que Washington assine um tratado de paz pondo termo ao estado técnico de guerra, retirando tropas e arsenais da península, provendo ajuda gratuita económica e financeira, além de garantias de segurança.

   O risco de escalada não é de subestimar porque, por exemplo, a presidente Park não pode arriscar oferecer uma imagem de inibição e temor de uso da força militar conforme sucedeu ao seu antecessor Lee Myung-bak na sequência do bombardeamento pelo Norte da ilha de Yeonpyeong em Novembro de 2010, e Kim III mal chegado aos trinta anos ainda tem de puxar lustro aos galões militares.

   A questão maior, contudo, nem se joga na península coreana, onde China, Rússia e Japão têm, também, todo o interesse em evitar um conflito militar, mas sim no Médio Oriente.

   A invulnerabilidade da Coreia do Norte é precisamente o estatuto a que aspira o Irão e esta nova vaga de ameaças no extremo-oriente é um baço vislumbre do que poderá acontecer de pior se Teerão concretizar a obtenção de armamento nuclear.

  Por vontade de ignorar as piores opções possíveis subestima-se o efeito altamente negativo que a retórica de guerra no extremo-oriente tem vindo a causar sobre outra intratável crise no Médio Oriente.

   Seja dentro em breve ou passe ainda mais um ano ou dois nem Israel, nem os Estados Unidos podem permitir-se acabar encurralados num impasse similar ao que ocorre na península coreana.

  Isso implica, em última análise, o uso da força militar e vai ter consequências muito negativas na Europa.

  Neste caso vale o "de te fabula narratur" com que o romano Horácio advertiu incautos alheios às consequências de tramas tenebrosas que lá longe os envolvem e arrastam.

  Este transe coreano fala de nós e vai custar-nos caro.


Jornal de Negócios
3 Abril 2013

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/joao_carlos_barradas/detalhe/hipertensao_nuclear.html

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Nenhuma nação é uma ilha




    Na iminência de uma eleição que poderá custar cara ao “Partido Democrático do Japão” (PDJ) o governo de Yoshihiko Noda optou por nacionalizar três ilhas do arquipélago de Senkaku na posse de um empresário nipónico, abrindo o mais virulento confronto com a China desde a normalização das relações diplomáticas em 1972.

   A soberania nipónica sobre estas cinco ilhas e três rochedos é contestada pela China, que denomina o arquipélago Diaoyu, além de Taiwan, tendo o diferendo propiciado diversos incidentes desde os anos 90.

   Uma proposta de subscrição pública para a municipalidade de Tóquio adquirir as ilhas, administradas pela prefeitura de Okinawa, foi lançada este ano pelo governador da capital, Shintaro Ishihara, um nacionalista de direita proponente do reforço das capacidades militares do Japão.

                              Duas guerras e o mar imenso


   O arquipélago desabitado está na posse de Tóquio desde a vitória japonesa sobre a China na guerra de 1894-95 que viu Pequim perder Taiwan e o controlo da Coreia.

   A partir de 1945 as ilhas ficaram sob administração dos Estados Unidos que as reverteram para o Japão em 1971, tendo os sucessivos governos de Tóquio impedido até agora a presença no arquipélago de cidadãos nipónicos sem autorização oficial.


 

   O PDJ, no poder desde 2009, tem, no entanto, sido alvo de críticas pela oposição de centro-direita do “Partido Liberal-Democrático” por complacência e fraqueza ante as pretensões chinesas.

   Em Setembro de 2010 a detenção da tripulação de um arrastão chinês ao colidir em águas do arquipélago com dois navios-patrulha nipónicos provocou uma grave crise diplomática -- coincidente com uma disputa sobre exportações de minérios raros da China para o Japão – cuja resolução deixou na maioria da opinião pública nipónica a ideia de que PDJ não soubera assumir uma posição de força.

    O recente reavivar de disputas com a Coreia do Sul quanto a indemnizações de guerra e a soberania sobre as ilhotas e rochedos de Dokdo/Takeshima, controladas por Seul desde 1952, contribuiu, juntamente com a campanha de Ishihara e o temor de perdas eleitorais, para a decisão de Noda de comprar as três ilhas de Senkaku por 2,05 mil milhões de ienes (19,87 milhões de euros).

   A nacionalização de 11 de Setembro, uma semana antes do aniversário do início da invasão da China pelo Japão em 1931, foi pretexto para mais uma vaga de manifestações anti-nipónicas que, até ao momento, as autoridades de Pequim têm controlado em função dos seus interesses tal como aconteceu com os protestos depois do bombardeamento pela NATO da embaixada chinesa em Belgrado em 1999.


   O confronto sino-japonês surge, por sinal, num momento pouco auspicioso para Pequim em que a consagração de novos dirigentes no Congresso do Partido Comunista se vê abalada por graves escândalos de corrupção, abuso de poder e diferendos sobre estratégia económica.

                        Dinâmicas de confronto


   A imbricação entre a segunda maior economia do mundo (a China desde 2010) e a terceira maior economia conterá o conflito, malgrado o risco de uma escalada a curto prazo por via de provocações e desafios de parte a parte, mas não resolverá a questão de fundo.

   A China é o principal parceiro comercial do Japão, representando 21% das suas trocas comerciais e investimentos superiores a 83 mil milhões de dólares desde 1996.

   O Japão é, por sua vez, o quarto destino das exportações da China, e as trocas entre os dois estados equivalem a 9% do total da balança comercial de Pequim.

   As dinâmicas de poder são, contudo, pouco propícias a entendimentos a médio prazo.

   Antes do dobrar da metade do século o Japão encontrar-se-á em retracção demográfica aparentemente irreversível e a China terá uma população activa em redução acelerada ainda antes de o rendimento médio per capita ultrapassar os níveis próprios de um país em vias de desenvolvimento.

   As disputas pelo controlo de rotas marítimas e a projecção de poder militar, confundem-se com conflitos por recursos piscícolas, jazidas de petróleo e gás natural e estendem-se por uma vasta área em que a China reivindica direitos soberanos.

   O Mar do Sul da China é palco de acrimónia insolúvel entre a China, Vietname, Taiwan, Filipinas, Brunei e Malásia e -- tal como outros confrontos envolvendo Tóquio, Pequim e Seul – envolve, além de mitos nacionais, amargas memórias de guerras desencadeadas pelo Japão a partir do final do século XIX.

   O conflito entre a Rússia e o Japão sobre as Curilas cabe numa categoria diferente de diferendos sobre apropriações territorias no rescaldo da derrota do Império japonês em 1945, mas condiciona qualquer governo em Tóquio obrigando a não ceder nas disputas com a China ou a Coreia do Sul por questão de princípio.

   O sistema de alianças centrado em Washington acaba, finalmente, por envolver os Estados Unidos em todos os conflitos regionais.

   As disputas sobre ilhas, ilhotas e rochedos nos mares asiáticos do Pacífico são sinais de problemas que se avolumam.

Jornal de Negócios
18 Setembro 2012

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A Coreia do Norte sobe a parada


   O Paquistão efectuou em Maio de 1998 a sua primeira série de testes nucleares.

   Seguiram-se três anos de sanções e, em 2004, o principal responsável do programa paquistanês Abdul Khan era obrigado a confessar publicamente que uma rede clandestina sob sua direcção traficava informação e materiais para países envolvidos em projectos nucleares militares.
   A Líbia, o Irão e a Coreia do Norte contavam-se entre os principais clientes da rede de Abdul Khan e Pyongyang chegou mesmo a adquirir centrifugadores do tipo P2 para enriquecimento de urânio, segundo revelou o general Pervez Musharraf nas suas memórias recém-publicadas.

   A nuclearização militar do Paquistão, na sequência do teste realizado pela Índia em 1974, foi o caso mais grave de fracasso do Tratado de Não-Proliferação desde a sua adopção em 1968.
 
   Nem Nova Delhi, nem Islamabade são signatários do Tratado e, por duas ocasiões, em 1999 e em 2002, os dois estados estiveram perto de recorrer aos seus arsenais nucleares.
 
   Israel, que iniciou com auxílio da França na década de cinquenta um programa militar nuclear, concluído com êxito nos anos sessenta, encontra-se, igualmente, fora do Tratado.

  A Coreia do Norte, que em 2003 abandonou o Tratado acaba, por sua vez, de tornar-se a nona potência militar nuclear do planeta.

   No acervo positivo das últimas décadas podem, no entanto, contar-se a renúncia de estados como a África do Sul, o Brasil e a Líbia aos seus projectos militares nucleares, bem como a desnuclearização das antigas repúblicas soviéticas mediante acordos estabelecidos por iniciativa de Moscovo e Washington.

   Aos riscos de proliferação estatal junta-se a ameaça terrorista patente no tráfico ilegal de materiais radioactivos passíveis de uso para fabrico de "bombas sujas". A Agência Internacional de Energia Atómica registou desde 2002 mais de 300 casos de tráfico ilegal de materiais radioactivos, sobretudo na Europa.

   As perspectivas de imposição de uma proibição total de testes nucleares são remotas. Potências nucleares, como, por exemplo, os Estados Unidos, recusam tal alternativa invocando a necessidade de modernização dos seus arsenais.

                                        A última cartada

   O ensaio nuclear norte-coreano foi de dimensão diminuta. As estimativas vão de uma quilotonelada a 15 quilotoneladas.

  Trata-se de uma potência em todo o caso inferior à explosão que arrasou Hiroxima em 1945 e abaixo do nível dos primeiros ensaios nucleares indiano e paquistanês.
 
   As capacidades da Coreia do Norte armar mísseis com engenhos nucleares são, aparentemente, ainda pouco significativas, mas seria um erro subestimar a determinação de Pyongyang que conseguiu concretizar o objectivo estabelecido nos anos cinquenta de se dotar de meios militares nucleares.
 
   A Coreia do Norte contou, inicialmente, com o apoio reticente de Moscovo e, posteriormente, de Pequim, mas, além do contributo paquistanês, as fases finais do projecto assentaram nos seus próprios recursos humanos e tecnológicos.
 
   Nunca Kim Il Sung, nem o seu sucessor Kim Jong Il perderam de vista que só armas nucleares poderiam evitar que os Estados Unidos voltassem a considerar a possibilidade de optar pelo uso de bombas atómicas contra o regime de Pyongyang, tal como o general Douglas MacArthur propôs no final de 1950 para deter o avanço das tropas norte-coreanas e chinesas.
 
   A partir do momento em que passou a dispor de urânio e plutónio com qualidade suficiente para dotar-se de um pequeno arsenal nuclear o regime de Kim Jong Il tem-se por invulnerável a um ataque militar, tanto mais que os 20 milhões de habitantes de Seul estão ao alcance das suas forças de artilharia e os mísseis da classe No-Dong têm capacidade para flagelar todo o sul da península e alcançar o Japão.
 
   O objectivo aparente de Pyongyang, falhadas as iniciativas negociais da administração Clinton e a estratégia de recusa de conservações directas de George W. Bush, visa obrigar os Estados Unidos a assinarem um acordo de paz que ponha termo ao estado técnico de guerra que prevalece desde o final das hostilidades em 1953, retirando as suas tropas e arsenais da península, provendo ajuda económica e financeira, além de garantias de segurança.
 
   Nenhuma administração norte-americana alguma vez aceitará tais condições e se Washington falhou o desiderato de impedir a nuclearização da Coreia do Norte pode, pelo menos, considerar que a última cartada de Kim Jong Il isolou ainda mais o país e provou que a campanha iniciada o ano passado para desarticular a vasta rede norte-coreana de lavagem de dinheiro – nomeadamente através de bancos em Macau –, tráfico de droga e cigarros afectou significativamente o regime, mas não a ponto de pôr em causa a sua sobrevivência.
 
    A partir de agora Pyongyang já não tem mais cartas para jogar salvo a provocação militar que será intolerável para todos os estados vizinhos.
  
  A possibilidade de Pyongyang aumentar as suas receitas através de vendas de tecnologia militar é limitada e a ameaça de tráfico de materiais radioactivos ou nucleares para grupos terroristas mostra-se, ainda que real, pouco racional porque provocaria retaliações capazes de aniquilar o regime que visa, sobretudo, a sua autoperpetuação.

                                 Um novo imperativo para a China

   O regime de Kim Jong Il é essencialmente vulnerável a sanções que a China possa vir a aplicar já que Pequim fornece mais de 70 por cento do combustível e um terço dos alimentos consumidos pela Coreia do Norte.

   Para a China, a aplicação de sanções implica o risco de Pyongyang enveredar por provocações militares intoleráveis, agravando ainda mais os riscos de militarização nuclear do Japão ou da Coreia do Sul, ou de causar o colapso do estado norte-coreano.
  
   Ambas as alternativas são negativas para Pequim que, presentemente, não dispõe de influência para propiciar qualquer tipo de golpe político ou militar em Pyongyang.
 
   A capacidade de resistência do regime de Kim Jong Il à avalanche de desastres (secas, inundações, fomes) que causou mais de dois milhões de mortos na última década não augura, também, viabilidade às sanções internacionais que vieram a ser adoptadas se Pequim mantiver um nível mínimo de abastecimentos para permitir a subsistência do estado norte-coreano.
 
   Em Seul reina, também, o consenso de que o colapso brusco do regime norte-coreano apresenta riscos económicos e de segurança intoleráveis.
 
   O Irão e a necessidade de preservar a capacidade de dissuasão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear são os factores que obrigam, no entanto, à adopção de medidas de contenção da Coreia do Norte.

    Se tal como aconteceu com o Paquistão, a Coreia do Norte conseguir nos próximos anos ser aceite como potência nuclear o Tratado está condenado e o regime iraniano terá excelentes perspectivas de êxito para o seu programa militar.
  
  Kim Jong Il cometeu, contudo, um erro clássico.

  Ao realizar um teste nuclear precisamente no dia em que o Comité Central do Partido Comunista chinês iniciava o seu plenário o líder norte-coreano fez perder a face ao presidente Hu Jintao.
 
   É algo de intolerável para a cultura política chinesa e levará certamente a China a repensar as alternativas de que dispõe para derrubar o "Querido Líder", preservando, no entanto, a Coreia do Norte como entidade estatal autónoma.
 
   Talvez aqui possa surgir uma oportunidade para ultrapassar o impasse se Pequim conseguir articular um acordo com os Estados Unidos que terão de propiciar garantias de segurança aos eventuais sucessores de Kim Jong Il.



Jornal de Negócios
11 Outubro 2006


http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=283666

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O apertar da tarraxa




   O bloqueio ocidental do Irão ficou completo com a entrada em vigor este mês das sanções da UE interditando o seguro de transporte de crude e a aquisição de petróleo a Teerão.

  Obrigar o Irão a renunciar a um programa nuclear passível de uso militar é objectivo da UE e de Washington, tal como das sanções decretadas pela ONU, mas após o fracasso das negociações entre Teerão e os membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha, é pouco crível que estas pressões venham a surtir efeito.

   A semana começou, entretanto, com exercícios militares iranianos e lançamento de mísseis "Shahab" de longo alcance (1300 Km) e ameaças de parlamentares de Teerão de eventual bloqueio do estreito de Ormuz a navios que transportem crude para países que apliquem sanções.

   A um nível mais prosaico o governo de Teerão anunciou a suspensão de aumentos de preços de produtos alimentares, água e energia, no âmbito de um programa a cinco anos de eliminação de subsídios iniciado em Dezembro de 2010, enquanto o Banco Central referia dispor de 150 mil milhões de dólares em divisas para fazer frente à ofensiva ocidental.

   Ante a iminência de novas sanções a quebra na produção e exportações de petróleo já se tinha feito sentir.

   Os 3,3 milhões de barris/dia extraídos em Maio reduziram-se para 2,95 milhões em Junho, de acordo com estimativas da "Reuteurs", prevendo a "Agência Internacional de Energia" que o Irão venha produzir menos 1 milhão de barris/dia no segundo semestre deste ano.

   Neste cenário a Arábia Saudita mantém altos níveis de extracção e o Iraque ultrapassou o Irão, tornando-se no segundo maior produtor da OPEP que, em Junho, extraiu 1,63 milhões de barris/dia acima do tecto de 30 milhões acordado entre os 12 estados, ainda que o crude tenha caído de 130 USD em Março para menos de 90 USD no mês passado.

   Para Teerão à perda do mercado da UE, que representava 18% das exportações, vêm juntar-se reduções nas aquisições da Coreia do Sul, Japão, Índia e China.

   A prazo a China e a Índia não prescindirão do crude iraniano para evitar uma excessiva dependência das monarquias do Golfo sujeita a garantia em última instância de defesa e segurança por parte dos Estados Unidos.

   Nesta fase, contudo, Pequim e Nova Delhi salvaguardam os seus interesses a troco de concessões e descontos nas compras de petróleo que Teerão terá de acomodar para reduzir prejuízos.

   Vendas através de empresas de fachada, o recurso a troca directa, pagamentos em ouro ou divisas distintas do dólar e do euro, não compensarão as perdas num sector que representa 80% das exportações e metade das receitas do orçamento do Irão.

   Teerão não conta com indústrias que evitem o recurso a importações significativas de artigos de consumo corrente e bens de capital, confronta-se com a desvalorização do rial (perda em relação ao dólar superior a 50% num ano) e uma taxa oficial de inflação anual que, em Maio, atingiu os 22,2%.

   O Irão corre o risco -- apesar de a dívida pública rondar apenas 9% do PIB – da deterioração dos saldos positivos do orçamento e da balança de pagamentos provocar uma espiral inflacionista e uma contracção económica superior aos 1% previstos para este ano e aos 0,7% estimados para 2013 pelo "Banco Mundial".

   O regime tem resistido às sanções que os Estados Unidos começaram a impor desde 1992 para conter o programa militar nuclear, posteriormente acompanhadas de restrições aprovadas pela ONU e ampliadas por estados aliados de Washington.

   O boicote comercial, económico e financeiro falhou até agora os seus objectivos políticos e nada indica que os decisores políticos iranianos não estejam dispostos a arrostar com os custos do desafio a velhos inimigos.

   As sanções internacionais criaram sérias dificuldades à prossecução de programas de desenvolvimento de armas de destruição maciça no Iraque e na Líbia, mas, do ponto de vista preponderante no Irão, os exemplos de Saddam Hussein, Gaddafi e da Coreia do Norte, no pólo oposto, provam que um estado em confronto com Washington só garante alguma imunidade perante um ataque militar se dispuser de meios de retaliação.

   O apertar da tarraxa surge numa altura em que Teerão aposta que um ataque israelita seja contido por Washington, aguardando, de resto, pelos resultados das eleições de Novembro para a Casa Branca antes de eventualmente optar por novas tácticas para protelar concessões.

   O bloqueio económico, comercial e financeiro dos Estados Unidos e da União Europeia é mais uma frente de combate num conflito que caminha para um confronto letal.

Jornal de Negócios
04 Julho 2012

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=565975

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O alvoroço com a China


   As estatísticas revelaram-se confrangedoras e o terceiro trimestre consecutivo de crescimento económico japonês quedou-se por uma taxa de 0,4 % em ritmo anual, mas o que chamou a atenção foi o simbolismo de Tóquio reconhecer que entre Abril e Junho deste ano o PIB da China ultrapassou o do Japão.

   Ao divulgar segunda-feira que o PIB nominal da China no segundo trimestre fora de 1,337 triliões de dólares contra 1,288 triliões de dólares do Japão o governo de Tóquio dourou a pílula referindo que no conjunto do primeiro semestre deste ano a dimensão da economia japonesa ainda se mostrava maior do que a chinesa e apenas inferior à dos Estados Unidos.

   Depois de ter ultrapassado a Alemanha em 2007, já nos últimos trimestres de 2008 e 2009 o PIB nominal chinês superara o japonês, mas como no final do ano a economia da China tende a aquecer e Pequim não procede ao ajustamento de efeitos sazonais, não houve grande alvoroço.

                                Cai o Japão, sobe a China

   Agora, ao contrário da reconhecida superior dimensão da economia japonesa nos últimos anos (5,067 triliões de dólares do Japão vs. 4,909 triliões da China em 2009 para 14,256 triliões dos Estados Unidos), é pouco crível que no final de 2010 se mantenha a diferença verificada neste primeiro semestre: 2,578 triliões para o Japão e 2,532 triliões para a China.

   A China poderá crescer este ano cerca de 9%, enquanto o Japão deverá ficar pelos 3%, e está, portanto, a um passo de se tornar na segunda maior economia mundial em preços de mercado expressos em dólares e nem precisa de contabilizar dados de Hong Kong e de Macau.

   A ascensão da China vai a par do declínio do Japão.

   Em 1968 o Japão arrebatava à Alemanha Federal o lugar de segunda economia mundial e em 1991 o PIB nipónico correspondia a 80% do norte-americano.

   O "crash" imobiliário e bolsista que se seguiu iniciou a lenta degradação da economia nipónica assolada pela deflação, uma dívida pública rondando os 200% do PIB, um consumo privado estagnado e dificuldades em recuperar o dinamismo exportador das indústrias electrónicas, de construção naval, automóvel e de equipamentos industriais.

   Tóquio contabiliza, ainda, os efeitos da contracção demográfica, que deverá levar a população dos actuais 127 milhões de habitantes para 89 milhões em 2055, e particularmente deprimentes são as estimativas que chegam quanto a uma antiga colónia.

   A Coreia do Sul poderá ultrapassar o rendimento "per capita" do Japão dentro de duas décadas, segundo projecção do IHS Global Insigth, mas, tal como no caso de outras estimativas e indicadores tudo isto só conta parte da história e o que suceder com a Coreia do Norte pode virar tudo do avesso.

   Uma tendência de fundo é, contudo, certa: na segunda metade do século os dois países mais populosos, a China e a Índia, irão recuperar a posição de maiores economias mundiais que tinham perdido na sequência da Revolução Industrial.

                                 Envelhecer antes de enriquecer

   Já em 2001 o PIB chinês superara o japonês em termos de poder de paridade de compra, segundo o FMI, e, presentemente, as estatísticas do Banco Mundial referem, ainda nos mesmos termos, valores de 14,2 triliões de dólares para os Estados Unidos, 8,8 triliões para a China e 4,1 triliões para o Japão.

   Desde então, no entanto, com a aceleração do consumo chinês de matérias-primas, crescimento das reservas de divisas e investimentos no estrangeiro a influência de Pequim na economia mundial aumentou significativamente.

   A China continua, ainda assim, relegada numa base "per capita" para os escalões dos estados em vias de desenvolvimento: 3 620 dólares, ocupando o 124º lugar entre 213 países recenseados pelo Banco Mundial, em comparação com os 37.870 doláres do Japão ou os 47.240 dos Estados Unidos.

   O peso do atraso e das assimetrias regionais levará décadas a ultrapassar.

   O modelo de desenvolvimento iniciado nos anos 80 com as reformas de Deng Xiaoping (descolectivização da agricultura e aposta em sectores exportadores de baixa tecnologia com mão-de-obra intensiva) esgotou-se e a degradação ambiental da China atingiu níveis insustentáveis de desflorestação, poluição industrial e escassez de água.

   O incremento do consumo interno, que caiu de 45% do PIB para 35% na última década, confronta-se com uma rudimentar rede de assistência e segurança sociais.

   As estatísticas oficiais contabilizam mais de 150 milhões de pessoas subsistindo com menos de 1 dólar/dia, apesar de nos últimos trinta anos cerca de 300 milhões de chineses terem ultrapassado o limiar da pobreza.

   O efeito perverso da política de filho único, introduzida em 1978, vai começar a fazer-se sentir com um envelhecimento acelerado e algumas das consequêcias notam-se já na quebra brusca dos efectivos da faixa etária entre os 15 e os 29 anos.

   A faixa etária entre os 15 e 29 anos representará nas próximas duas décadas apenas 34% da população activa (entre 15 e 64 anos). O grupo dos 50 aos 64 anos, que conta actualmente para 22% da força de trabalho, passará a equivaler a 32% da mão-de-obra, enquanto a faixa dos 30 a 49 anos continuará a reduzir-se.

   As projecções da ONU, na variante intermédia, cifram em meados da próxima década em 280 milhões o número de chineses com 65 anos ou mais, ou seja um em cada cinco habitantes.

   Por essa altura é bem possível que em termos nominais a China seja a maior economia mundial, mas será ainda um país relativamente pobre e a grande maioria dos seus velhos invejará a sorte de um vizinho ainda mais envelhecido, o Japão que contará com 30% de habitantes acima dos 65 anos.

Jornal de Negócios
18 Agosto 2010

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=439679