As estatísticas revelaram-se confrangedoras e o terceiro trimestre consecutivo de crescimento económico japonês quedou-se por uma taxa de 0,4 % em ritmo anual, mas o que chamou a atenção foi o simbolismo de Tóquio reconhecer que entre Abril e Junho deste ano o PIB da China ultrapassou o do Japão.
Ao divulgar segunda-feira que o PIB nominal da China no segundo trimestre fora de 1,337 triliões de dólares contra 1,288 triliões de dólares do Japão o governo de Tóquio dourou a pílula referindo que no conjunto do primeiro semestre deste ano a dimensão da economia japonesa ainda se mostrava maior do que a chinesa e apenas inferior à dos Estados Unidos.
Depois de ter ultrapassado a Alemanha em 2007, já nos últimos trimestres de 2008 e 2009 o PIB nominal chinês superara o japonês, mas como no final do ano a economia da China tende a aquecer e Pequim não procede ao ajustamento de efeitos sazonais, não houve grande alvoroço.
Cai o Japão, sobe a China
Agora, ao contrário da reconhecida superior dimensão da economia japonesa nos últimos anos (5,067 triliões de dólares do Japão vs. 4,909 triliões da China em 2009 para 14,256 triliões dos Estados Unidos), é pouco crível que no final de 2010 se mantenha a diferença verificada neste primeiro semestre: 2,578 triliões para o Japão e 2,532 triliões para a China.
A China poderá crescer este ano cerca de 9%, enquanto o Japão deverá ficar pelos 3%, e está, portanto, a um passo de se tornar na segunda maior economia mundial em preços de mercado expressos em dólares e nem precisa de contabilizar dados de Hong Kong e de Macau.
A ascensão da China vai a par do declínio do Japão.
Em 1968 o Japão arrebatava à Alemanha Federal o lugar de segunda economia mundial e em 1991 o PIB nipónico correspondia a 80% do norte-americano.
O "crash" imobiliário e bolsista que se seguiu iniciou a lenta degradação da economia nipónica assolada pela deflação, uma dívida pública rondando os 200% do PIB, um consumo privado estagnado e dificuldades em recuperar o dinamismo exportador das indústrias electrónicas, de construção naval, automóvel e de equipamentos industriais.
Tóquio contabiliza, ainda, os efeitos da contracção demográfica, que deverá levar a população dos actuais 127 milhões de habitantes para 89 milhões em 2055, e particularmente deprimentes são as estimativas que chegam quanto a uma antiga colónia.
A Coreia do Sul poderá ultrapassar o rendimento "per capita" do Japão dentro de duas décadas, segundo projecção do IHS Global Insigth, mas, tal como no caso de outras estimativas e indicadores tudo isto só conta parte da história e o que suceder com a Coreia do Norte pode virar tudo do avesso.
Uma tendência de fundo é, contudo, certa: na segunda metade do século os dois países mais populosos, a China e a Índia, irão recuperar a posição de maiores economias mundiais que tinham perdido na sequência da Revolução Industrial.
Envelhecer antes de enriquecer
Já em 2001 o PIB chinês superara o japonês em termos de poder de paridade de compra, segundo o FMI, e, presentemente, as estatísticas do Banco Mundial referem, ainda nos mesmos termos, valores de 14,2 triliões de dólares para os Estados Unidos, 8,8 triliões para a China e 4,1 triliões para o Japão.
Desde então, no entanto, com a aceleração do consumo chinês de matérias-primas, crescimento das reservas de divisas e investimentos no estrangeiro a influência de Pequim na economia mundial aumentou significativamente.
A China continua, ainda assim, relegada numa base "per capita" para os escalões dos estados em vias de desenvolvimento: 3 620 dólares, ocupando o 124º lugar entre 213 países recenseados pelo Banco Mundial, em comparação com os 37.870 doláres do Japão ou os 47.240 dos Estados Unidos.
O peso do atraso e das assimetrias regionais levará décadas a ultrapassar.
O modelo de desenvolvimento iniciado nos anos 80 com as reformas de Deng Xiaoping (descolectivização da agricultura e aposta em sectores exportadores de baixa tecnologia com mão-de-obra intensiva) esgotou-se e a degradação ambiental da China atingiu níveis insustentáveis de desflorestação, poluição industrial e escassez de água.
O incremento do consumo interno, que caiu de 45% do PIB para 35% na última década, confronta-se com uma rudimentar rede de assistência e segurança sociais.
As estatísticas oficiais contabilizam mais de 150 milhões de pessoas subsistindo com menos de 1 dólar/dia, apesar de nos últimos trinta anos cerca de 300 milhões de chineses terem ultrapassado o limiar da pobreza.
O efeito perverso da política de filho único, introduzida em 1978, vai começar a fazer-se sentir com um envelhecimento acelerado e algumas das consequêcias notam-se já na quebra brusca dos efectivos da faixa etária entre os 15 e os 29 anos.
A faixa etária entre os 15 e 29 anos representará nas próximas duas décadas apenas 34% da população activa (entre 15 e 64 anos). O grupo dos 50 aos 64 anos, que conta actualmente para 22% da força de trabalho, passará a equivaler a 32% da mão-de-obra, enquanto a faixa dos 30 a 49 anos continuará a reduzir-se.
As projecções da ONU, na variante intermédia, cifram em meados da próxima década em 280 milhões o número de chineses com 65 anos ou mais, ou seja um em cada cinco habitantes.
Por essa altura é bem possível que em termos nominais a China seja a maior economia mundial, mas será ainda um país relativamente pobre e a grande maioria dos seus velhos invejará a sorte de um vizinho ainda mais envelhecido, o Japão que contará com 30% de habitantes acima dos 65 anos.
Jornal de Negócios
18 Agosto 2010
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