A viagem à Índia de Cavaco Silva e de nutrida delegação empresarial vale bem a pena, sobretudo este ano, depois de Lisboa e Nova Delhi terem perdido tanto tempo em declarações de intenções falhadas e contenciosos que nem pouparam as comemorações da chegada de Vasco da Gama a Calecute.
O tempo é propício depois doutro ano se ter passado em que a Índia acusou Islamabade de cumplicidade em actos terroristas, reavivando o risco de nova guerra com o Paquistão, tal como em 1999 e em 2001, no que seria o quarto conflito militar desde a Partilha do Raj em 1947.
Os ventos correm de feição pois 2006 foi, também, o ano em que a Índia brilhou no Fórum de Davos, reforçou as relações económicas com o Irão, viu com agrado o triunfo de expatriados como Lakshmi Mittal ainda que bem mais importantes tenham sido os êxitos de empresas como a Tata Motors e a Infosys Technologies.
Pequim e Nova Delhi relançaram, igualmente, no preciso ano em que os Estados Unidos reconhecerem o estatuto de potência militar nuclear da Índia, a cooperação económica e resolveram os principais diferendos fronteiriços, que provocaram uma guerra em 1962.
A coligação liderada por Manmohan Singh chega assim a 2007 com uma considerável rede internacional de protecção – apesar dos imprevisíveis confrontos com o Paquistão, a crise iraniana, a destabilização crescente do Bangladesh e o recrudescer da guerra civil no Sri Lanka – que oferece boas perspectivas para sustentar o boom económico que desde o início da liberalização em 1991 tem possibilitado à Índia um crescimento anual na ordem dos sete por cento.
O crescimento pelo lado de dentro
O modelo indiano de desenvolvimento prosseguido na última década e meia tem assentado essencialmente na mobilização do capital privado interno tanto mais que o investimento directo estrangeiro representa menos de 1 por cento do Produto Interno Bruto, que está prestes a atingir os 930 mil milhões de dólares, sendo inclusivamente ultrapassado pelas remessas dos emigrantes.
A percentagem das trocas comerciais com o exterior já superou os 30 por cento do PIB, com as importações a ultrapassarem as exportações, mas o consumo interno é o motor da economia, equivalendo a mais de 60 por cento de toda a riqueza gerada no país.
A fraca criação de emprego, na ordem de um por cento ao ano, a par dos persistentes défices orçamentais, é a maior pecha do desenvolvimento indiano e o tão dinâmico sector das indústrias de serviços, cujas exportações representam mais de 30 por cento das vendas ao exterior (metade por via de produção de software), absorve no subsector das tecnologias de informação apenas 1,3 milhões dos 400 milhões de almas que constituem a força laboral do país.
Apesar de 70 por cento dos 1,13 mil milhões de indianos residirem em áreas rurais o contributo do sector agrícola para o PIB queda-se pelos 22 por cento e a indústria (27 por cento do PIB) revela-se incapaz de absorver mão-de-obra excedentária.
Uma política industrial ainda orientada para a promoção não-concorrencial de pequenas e médias empresas nacionais e leis laborais de protecção de emprego dos dez por cento de trabalhadores cobertos pelo sistema herdado dos anos 50 excluem do mercado de trabalho entre três a cinco por cento da população.
Ainda que os padrões de desigualdade social na Índia sejam inferiores aos registados na China ou no Brasil, o baixíssimo rendimento per capita anual de 830 dólares e a subsistência de 380 milhões de pessoas com menos de um dólar disponível por dia condenam o país a um longo e penoso calvário de miséria.
Os cerca de 250 milhões de indianos tidos como pertencentes às classes médias serão factor de inovação e promotores de novos padrões de consumo, mas a outra Índia é um travão ao desenvolvimento.
Um sistema partidário em que os dois grandes partidos – Congresso e Bharatiya Janata – estão condenados a coligações pulverizadas pelos interesses de forças regionais, uma burocracia omnipresente, infra-estruturas e serviços básicos inadequados são outras pechas da sociedade indiana que limitam sensivelmente as aspirações das elites de Nova Deli, Mumbai ou Chennai.
A democracia e outras vantagens
A Índia conta, contudo, com vantagens de maior que eventualmente lhe podem vir a garantir um futuro bem mais auspicioso do que o reservado ao único país que se lhe pode comparar em peso histórico e demográfico.
Em primeiro lugar, a Índia apresenta uma dinâmica demográfica mais favorável.
Em 2020, a idade média será de 29 anos, contra 37 anos na China e 45 anos na Europa Ocidental para termo de comparação.
A Índia, que ultrapassará antes de meados do século a massa humana da China, não se confrontará assim com o problema de sustentabilidade de uma população envelhecida, apesar de ter de resolver rapidamente a crescente quebra no rácio mulheres-homens provocada pelo infanticídio e aborto de bebés do sexo feminino.
Em segundo lugar, o descalabro ambiental que avassala a China está longe de se fazer sentir com semelhante acuidade na Índia (devido em parte ao menor crescimento industrial) que conta, ainda, com padrões de povoamento mais equilibrados.
Em terceiro lugar, a prevalência do inglês como língua veicular das elites e dos meios de negócios facilita grandemente a integração económica global da Índia, apesar da mediocridade do sistema de ensino público.
Finalmente, uma imprensa livre, tribunais independentes e um sistema democrático que ultrapassou o sobressalto da "Emergência" imposta por Indira Ghandi em 1975 e continua a resistir a confrontos religiosos, guerrilhas maoístas e separatistas, banditismo e níveis de corrupção inauditos em estados como Bihar ou conflitos de castas virulentos, representam, por si só, por maiores que sejam as suas insuficiências, um valor inestimável para o desenvolvimento da Índia.
Jornal de Negócios
10 Janeiro 2007
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