domingo, 19 de agosto de 2012

Os suicidas entusiastas

A data a constar na certidão de óbito é o que mais importa quanto à bancarrota grega, mas paira no ar a confusão quanto à execução das dívidas e consequências políticas do abandono do euro.

O colapso do sistema de alternância partidária entre conservadores e socialistas pôs a claro a ausência de condições políticas para prosseguir programas de redução acelerada do défice orçamental e dívida pública com efeitos altamente recessivos.

Os termos dos acordos com a troika não poderão ser cumpridos por nenhum executivo de Atenas num contexto que favorece formações radicais excluídas das prebendas do poder do estado e as eleições de Junho não irão alterar esta realidade.

O Verão da bancarrota

As recentes derrotas dos democratas-cristãos alemães em eleições estaduais reforçaram a oposição social-democrata que exige a consagração em adenda ao pacto fiscal de Angela Merkel de políticas de estímulo ao crescimento e atrasam a entrada em vigor do "Mecanismo Europeu de Estabilidade".

Os 740 mil milhões de euros disponíveis para estabilizar a eurozona e, sobretudo, a intervenção do BCE no mercado secundário de obrigações e na concessão de financiamento à banca, são os instrumentos fundamentais para tentar absorver as ondas de choque da bancarrota de Atenas.

Poucas alternativas já restam para atrasar a bancarrota e o governo de gestão de Atenas cumpriu terça-feira a sua parte honrando o pagamento de 436 milhões de euros em obrigações que ficaram fora do acordo de Março de reestruturação de dívida pública.

Em Julho o FMI, por imperativos estatutários, terá de ponderar formalmente o corte do financiamento a Atenas por incumprimento dos acordos de resgate e, precisamente na altura em que a crise grega atingirá o auge, o Chipre, à beira da bancarrota, assumirá a presidência semestral da UE.

A exaltação nacionalista

A ronda cipriota - após um turno dinamarquês sem história e antes da rodada irlandesa - será um bom exemplo das incongruências institucionais europeias que mantêm presidencias rotativas reduzidas essencialmente à apresentação de iniciativas políticas ou legislativas sem garantias de continuidade ou aplicação prática.

A presidência cipriota - a representação da comunidade grega da ilha dividida desde 1974 - propiciará novos confrontos diplomáticos entre a UE e Ancara e é de temer que qualquer governo que se venha a formar em Atenas não se exima de assumir atitudes intratáveis que a situação, aliás, propicia.

A Turquia espera que Hollande não siga o exemplo de Nicolas Sarkozy que em 2007 congelou unilateralmente cinco dos 35 capítulos em negociação desde 2004 – no total a discussão de 19 capítulos está suspensa –, mas o governo de Recep Erdogan continua a recusar o acesso à parte que controla de Chipre de navios e aviões com pavilhão cipriota grego.

Desde a entrada de Chipre na UE em 2004, para contrabalançar a integração de estados ex-comunistas, não se registaram avanços nas negociações para reunificação e a descoberta de depósitos de hidrocarbonetos em águas terrritoriais cipriotas deu origem a novas disputas.

A radicalização nacionalista na Grécia em nada contribuirá para a resolução do diferendo de Chipre e, muito provavelmente, irá piorar as relações entre Atenas e Ancara.

Perturbação estratégica

Um governo grego com preponderância de nacionalistas radicais será um factor de destabilização acrescida nos Balcãs e no confronto com a Turquia tenderá a apoiar sistematicamente estados em oposição a Ancara, como, por exemplo, a Arménia ou Israel.

A Grécia conta com 400 mil a 700 mil imigrantes ilegais e não tem conseguido conter a entrada de clandestinos através da fronteira com a Turquia, apesar da UE ter concedido 304 milhões de euros desde 2007 para programas de controlo migratório.

A "Forex", a agência de controlo de fronteiras da UE, contabilizou 55 mil entradas ilegais em 2011 e espera um aumento para este ano o que irá tornar ainda mais difícil a aplicação do acordo de Schengen.

A imigração clandestina, factor de acentuada perturbação social na Grécia, galvaniza radicais de direita e esquerda e alimenta uma exaltação nacionalista que prejudicará relações de vizinhaça, designadamente com a Albânia.

A oposição da Grécia à entrada da Macedónia na UE e na NATO, exigindo a mudança de nome oficial da antiga república jugoslava devido a alegadas pretensões territoriais de Skopje sobre os territórios conquistados pela Grécia em 1912, continuará, ainda, como factor de perturbação diplomática.

Uma Grécia, com um estatuto político de segunda ordem na UE após a saída do euro, vai tornar-se num factor de instabilidade regional.

Jornal de Negócios
16 Maio 2012

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