Nesta cara ferida de Silvio Berlusconi podem ver-se as mágoas de duas Itálias da história recente.
Uma mancha no rosto ensanguentado é chaga de ódios e confrontos sem quartel.
Evoca a Itália violenta e amarga do terrorismo de extrema-esquerda e extrema-direita da década de setenta, os anos de chumbo, e uma senda de ódios que, agora, recrudesce.
Depois, vislumbra-se, também, naquela face violentada outra imagem que se desvanece.
Um vislumbre doutra Itália mais gentil que queria esquecer o fascismo naqueles tempos em que a Igreja e o Partido comunista dominavam a política do pós-guerra.
As ganas de Don Camillo e Peppone
Essa Itália, sem Mafia à vista, era a aldeia que inventou o escritor Giovannino Guareschi.
Uma aldeia do Vale do Po, lá no norte, onde o padre Don Camillo, afrontava às turras o comunista Peppone.
Dois inimigos irreconciliáveis, dois corações de ouro, que, no íntimo, até se respeitavam, e, sobretudo, amavam a sua terra.
Uma fantasia deliciosa que passou aos filmes em que Fernandel protagonizava o irascível Don Camillo e Gino Cervi era Peppone, o crente da foice e do martelo.
Toda essa fantasia se foi e a Itália de hoje está rachada ao meio.
Críticos dos abusos de Bersloscuni afirmam que o primeiro-ministro multimilionário é o principal culpado pelo clima de intolerância e ódios da política italiana.
Os sucessivos ataques à magistratura por parte de um primeiro-ministro alvo de processos judiciais por fraude e corrupção levaram mesmo o antigo juiz Antonio de Pietro, líder do Partido dos Valores, a classificar Berlusconi como o principal instigador da violência.
Apoiantes e aliados de Berloscuni acusam, por sua vez, as posições de incitamento ao ódio e Il Giornale, propriedade do primeiro-ministro, considerou o ataque como "violência constitucional".
A agressão ao presidente do conselho de ministros resultaria, assim, de uma campanha de difamações e ataques pessoais.
É uma atmosfera inquinada e os ódios estão à flor da pele, mais do que os défices orçamentais e a alarmante dívida pública.
Nos comentários da comunicação social, na internet, multiplicam-se acusações, recriminações, graçolas despropositadas.
E, no entanto, sobra ainda qualquer coisa nesta Itália em transe da gentileza idílica do mundo de Don Camillo e Peppone.
Um homem digno
É o caso do pai do homem que atacou Berlusconi.
Na sua casa, em Milão, esse pai foi claro e singelo.
Disse o senhor Alessandro Tartaglia que o filho sofre de problemas psiquiátricos, afirmou que a família vota à esquerda e discute política em casa, mas, reiterou que não se cultivam ódios pessoais pelo que lamenta tudo o que aconteceu e se manifesta consternado pela agressão ao chefe do governo.
O senhor Tartaglia foi dos primeiros a telefonar para o hospital onde Berlusconi está internado para apresentar a suas desculpas.
O senhor Tartaglia pediu desculpas pessoais, está constrangido, preocupado com o seu filho que aos 42 anos e visivelmente perturbado anda a dizer à polícia ter atacado Berlusconi por não suportar o primeiro-ministro ainda que se mostre arrependido.
Nesta Itália em transe, em que tudo gira em torno das idiossincrasias políticas, familiares e empresariais de Berlusconi, o pai Tartaglia é quem mais lembra outro mundo gentil e idílico.
É o senhor Tartaglia quem evoca o melhor da velha aldeia de Don Camillo e Peppone.
Pena que o senhor Alessandro Tartaglia quase pareça um homem só, solitário, mas, pelo que diz, aparenta ser uma pessoa bem digna das melhores tradições do liberalismo italiano que nunca admitiu nem ses nem mas na hora de se opor à violência.
Jornal de Negócios
16 Dezembro 2009
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