domingo, 19 de agosto de 2012

O "Irão terrorista"

Atiyah Al Rahman


   Depois de acabar com Bin Laden, em Maio, a Casa Branca riscou da lista dos terroristas mais procurados o principal chefe operacional da Al Qaeda, Atiyah Al Rahman, que terá sido morto no noroeste do Paquistão a 22 de Agosto.

   Um míssil disparado por um avião não-tripulado no norte do Waziristão eliminou, de acordo com informações oficiais norte-americanas, o líbio que nos últimos meses, antes de Bin Laden ser abatido em Abbottabad, conspirara com o líder da Al Qaeda para desencadear novos atentados nos Estados Unidos.

   Al Rahman, que já fora dado como morto em Outubro do ano passado, tinha a cabeça a prémio por um milhão de dólares, era, segundo Washington, o comandante das forças da Al Qaeda nas áreas tribais do Paquistão e uma figura chave nos contactos com os jihadistas do Magrebe, no Iémen e demais núcleos ligados à organização.

   O homem que passara a número dois da Al Qaeda liderada pelo egípcio Aiman Al Zawahiri era, portanto, o mais proeminente responsável pela coordenação de operações e contactos nos círculos jidahistas.

                                         O canal iraniano

   Uma declaração emitida a 28 de Julho pelo Departamento do Tesouro de Washington nomeara, também, Al Rahman como um dos seis elementos de uma rede terrorista que operaria ao abrigo de "um acordo entre a Al Qaeda e o governo do Irão".

   A nota do governo norte-americano indicava, ainda, que Al Rahman fora designado, em data não especificada, por Bin Laden como "representante da Al Qaeda no Irão", uma posição que, alegadamente, lhe permitia entrar e sair da República Islâmica com autorização de Teerão.

   A Al Qaeda teria através deste acordo com Teerão garantido "um canal privilegiado" para fazer transitar "dinheiro, agentes de apoio e operacionais do Médio Oriente para o sul da Ásia".

   O Departamento do Tesouro arrestava consequentemente bens sob jurisdição norte-americana dos jihadistas e proibia contactos comerciais ou financeiros com todos os seis membros da Al Qaeda em trato com o Irão.

   O sírio Ezedin Abdel Aziz Khalil, sedeado no Irão, seria o chefe da rede - ainda que Al Rahman fosse alegadamente o representante não-residente junto dos iranianos - que abrangia jihadistas no Kuwait, Qatar e Paquistão.

   Nenhum iraniano era identificado no comunicado que, de acordo com o subsecretário David Cohen, com o pelouro da "intelligence" sobre terrorismo e finanças, esclarecia "o apoio sem paralelo do Irão ao terrorismo".

   O subscretário de Barack Obama declarava taxativamente que "o Irão é, actualmente, o principal estado apoiante do terrorismo".

                                        Atavismos políticos

   Dez anos passados sobre os atentados da Al Qaeda nos Estados Unidos a retórica que serviu a George W. Bush como um dos pretextos para justificar a invasão do Iraque ressurge sob a Administração Obama.

   O Irão é, agora, o estado tido como patrono da Al Qaeda numa altura em que Teerão, aparentemente em vias de recuperar dos danos provocados no ano passado pelo vírus informático "Stuxnet", tem vindo a aumentar a capacidade de produção de urânio enriquecido passível de utilização militar.

   A conjuntura económica e financeira não se apresenta propícia a uma eventual operação norte-americana contra o Irão, as previstas retiradas de efectivos militares do Iraque e do Afeganistão desaconselham hostilizar directamente Teerão, mas à entrada de um ano eleitoral é previsível que as tiradas contra os inimigos dos Estados Unidos subam de tom.

   Divergências de apreciação sobre os riscos do programa nuclear militar do Irão ou ameaças de redes terroristas são expressas abertamente por responsáveis da administração democrática e neste caso do alegado acordo Al Qaeda-Teerão podem redundar numa escalada retórica de consequências políticas dificilmente controláveis.

                                            Inimigos e expedientes

   Os líderes xiitas do Irão encontram-se num pólo religioso rigorosamente oposto aos safalistas sunitas da Al Qaeda.

   Teerão opõs-se aos taliban sunitas e de etnia pashtun do Afeganistão desde meados da década de 90 e, tal como Washington ou Nova Deli, apoiou em 2001 a "Aliança do Norte" na luta contra os homens do mullah Omar e Bin Laden.

   Alguns dirigentes da Al Qaeda, caso do egípcio Saif Al Abdel, terão, presumivelmente, encontrado abrigo no Irão após a queda dos taliban.

   As autoridades de Teerão restringiram as suas actividades ou colocaram pessoas ligadas a Bin Laden sob prisão domiciliária, segundo informações admitidas inclusivamente pelos serviços de informações norte-americanos, para as utilizarem em eventuais trocas de prisioneiros.

   A extradição para o Irão dos guerrilheiros "Mujaedin e-Khalq" baseados no Iraque e anteriormente apoiados por Saddam Hussein foi, por exemplo, um dos objectivos frustrados de negociações entre Teerão e Washington em que elementos da Al Qaeda serviriam como moeda de troca.

   Independentemente de contactos e conivências em operações de tráfico clandestino de armas, informações e financiamentos, os objectivos estratégicos de Teerão nada têm em comum com a Al Qaeda excepto no que possa vir a fazer valer os interesses iranianos ou prejudicar inimigos em comum sem dano de maior para o Irão.

                                             Os cadastrados

   Qualquer apoio ou condescendência de Teerão em relação à Al Qaeda, que sob a liderança do jordano Abu Al Zarqawi entre 2004 e 2006 lançou uma campanha de massacre dos xiitas no Iraque, só pode ser encarada como um expediente táctico.

   Quando Obama permite declarações peremptórias acusando Teerão de cumplicidade no planeamento de actos terroristas contra os Estados Unidos aumenta o risco de uma escalada retórica e propagandística face a um estado hostil que acabará por restringir as opções da Casa Branca.

   Pouco ou nada recomenda o regime iraniano, mas, tendo em conta o cadastro da administração Bush na justificação infundada de uma intervenção militar contra o Iraque, que, aliás, poderia ser considerada por outras razões e sobretudo conduzida de forma diferente, o mínimo a esperar de Obama era um pouco mais de sensatez ao permitir que um subsecretário arrisque a tirada do "Irão terrorista".

Jornal de Negócios
31 Agosto 2011

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