Polir a imagem da oligarquia comunista chinesa é o objectivo do julgamento por assassínio de Gu Kailai - mulher de Bo Xilai, líder caído em desgraça em Abril - que começa quinta-feira em Hefei.
Gu e o seu assistente pessoal e guarda-costas Zhang Xiaojun são acusados de terem envenenado o empresário britânico Neil Heywood num hotel de Chongqing em Novembro de 2011.
O corpo do empresário foi cremado sem autópsia, sendo a morte oficialmente atribuída a intoxicação alcoólica, mas no início de Fevereiro a fuga do chefe da polícia de Chongqing, Wang Lijun, para o consulado norte-americano na vizinha cidade de Chengdu, capital da província de Sichuan, desencadeou o escândalo.
O consulado acabou cercado por forças policiais enviadas de Chongqing e o governo central teve de ordenar a sua retirada.
Wang, que começara a sua carreira ao serviço de Bo Xilai em 1992 na cidade portuária de Dalian no nordeste da China, só abandonou as instalações diplomáticas cerca de 24 depois partindo para Pequim sob escolta e para não mais prestar declarações públicas.
Enriquecer é glorioso!
Uma catadupa de acusações e insinuações surgiram nos media e na blogosfera acusando Bo Xilai e a mulher de envolvimento no assassinato do empresário inglês que desde a década de 90 servia de intermediário a negócios do casal que acumulara entretanto uma fortuna superior a 100 milhões de euros.
Bo Xilai vinha a promover desde 2007 como líder do partido em Chongqing - um município de 29 milhões de habitantes no sudoeste do país sob controlo directo do governo central - políticas ditas neomaoistas assentes em medidas de mobilização popular para alegado combate à corrupção e promoção de valores sociais igualitários pelo aparelho de estado.
Como filho de Bo Yibo, um dos líderes máximos das décadas de 80 e 90 do século XX, Bo Xilai tinha uma posição central entre os 25 membros da Comissão Política do partido pretendendo abertamente aceder aos escalões superiores do núcleo dirigente.
Bo Xilai surgia como um dos favoritos à promoção ao círculo máximo de nove dirigentes do Comité Permanente da Comissão Política a eleger pelo XVIII Congresso agendado para o final deste ano.
A queda de Bo foi abrupta: a 10 de Abril era anunciado que fora suspenso do Comité Central e da Comissão Política encontrando-se sob investigação por "graves violações da disciplina partidária".
A desdita de Bo abriu caminho para normalizar o processo de sucessão que consagrará Xi Jinping como líder do partido e do estado, a par de Li Keqiang como chefe do governo, mas lançou a mais crua luz sobre corrupção e abusos de poder ao mais alto nível.
Irremediavelmente condenada
Gu Kalai é julgada, por determinação do Supremo Tribunal, na capital de Anhui, uma província no leste da China apesar de ser acusada de um crime cometido em Chongqing e os seus advogados de defesa foram nomeados pelas autoridades de Hefei.
Declarações de "fontes oficiais" têm vindo a indicar que a ré confessou o crime cometido alegadamente para defender o filho que estuda em Harvard de ameaças do seu parceiro de negócios britânico.
As mesmas fontes indiciam que Gu - uma ex-advogada de sucesso - poderá não vir a responder em outros processos por "crimes económicos" caso escape a uma sentença de morte, mas, de facto, tudo dependerá da forma como se desenrolar o julgamento.
A queda em desgraça de Bo Xilai é irreversível e tal como noutras purgas do pós-maoismo - caso das defenestrações da Comissão Política de Chen Xitong e Chen Liangyu, líderes em Pequim e Xangai demitidos em 1995 e 2006 e condenados a penas de prisão - as denúncias de corrupção são instrumentalizadas para fins políticos.
A conjuntura, contudo, não é propícia a mais polémicas sobre abuso de dinheiros públicos tanto mais que o ministro dos caminhos de ferro, Liu Zhijun, demitido em Fevereiro do ano passado aguarda julgamento por actos de corrupção envolvendo centenas de milhões de euros, e se sucedem revelações sobre as fortunas acumuladas pelos membros da elite do partido e seus familiares.
As últimas listagens de fortunas do "Hurun Report" e do "Boston Consulting Group" recenseavam 106 bilionários e 310 mil famílias com activos superiores a um milhão de dólares.
Na China, um por cento da população detém 41,4% da riqueza nacional e o cartão do partido propicia os melhores negócios.
O julgamento de Gu Kailai tentará fazer a quadratura do círculo esbatendo o mais possível a corrupção, nepotismo e abusos de poder que caracterizam os tratos da elite pós-maoista na sua vertigem de acumulação de capital.
Jornal de Negócios
08 Agosto 2012
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=572331
Gu e o seu assistente pessoal e guarda-costas Zhang Xiaojun são acusados de terem envenenado o empresário britânico Neil Heywood num hotel de Chongqing em Novembro de 2011.
O corpo do empresário foi cremado sem autópsia, sendo a morte oficialmente atribuída a intoxicação alcoólica, mas no início de Fevereiro a fuga do chefe da polícia de Chongqing, Wang Lijun, para o consulado norte-americano na vizinha cidade de Chengdu, capital da província de Sichuan, desencadeou o escândalo.
O consulado acabou cercado por forças policiais enviadas de Chongqing e o governo central teve de ordenar a sua retirada.
Wang, que começara a sua carreira ao serviço de Bo Xilai em 1992 na cidade portuária de Dalian no nordeste da China, só abandonou as instalações diplomáticas cerca de 24 depois partindo para Pequim sob escolta e para não mais prestar declarações públicas.
Enriquecer é glorioso!
Uma catadupa de acusações e insinuações surgiram nos media e na blogosfera acusando Bo Xilai e a mulher de envolvimento no assassinato do empresário inglês que desde a década de 90 servia de intermediário a negócios do casal que acumulara entretanto uma fortuna superior a 100 milhões de euros.
Bo Xilai vinha a promover desde 2007 como líder do partido em Chongqing - um município de 29 milhões de habitantes no sudoeste do país sob controlo directo do governo central - políticas ditas neomaoistas assentes em medidas de mobilização popular para alegado combate à corrupção e promoção de valores sociais igualitários pelo aparelho de estado.
Como filho de Bo Yibo, um dos líderes máximos das décadas de 80 e 90 do século XX, Bo Xilai tinha uma posição central entre os 25 membros da Comissão Política do partido pretendendo abertamente aceder aos escalões superiores do núcleo dirigente.
Bo Xilai surgia como um dos favoritos à promoção ao círculo máximo de nove dirigentes do Comité Permanente da Comissão Política a eleger pelo XVIII Congresso agendado para o final deste ano.
A queda de Bo foi abrupta: a 10 de Abril era anunciado que fora suspenso do Comité Central e da Comissão Política encontrando-se sob investigação por "graves violações da disciplina partidária".
A desdita de Bo abriu caminho para normalizar o processo de sucessão que consagrará Xi Jinping como líder do partido e do estado, a par de Li Keqiang como chefe do governo, mas lançou a mais crua luz sobre corrupção e abusos de poder ao mais alto nível.
Irremediavelmente condenada
Gu Kalai é julgada, por determinação do Supremo Tribunal, na capital de Anhui, uma província no leste da China apesar de ser acusada de um crime cometido em Chongqing e os seus advogados de defesa foram nomeados pelas autoridades de Hefei.
Declarações de "fontes oficiais" têm vindo a indicar que a ré confessou o crime cometido alegadamente para defender o filho que estuda em Harvard de ameaças do seu parceiro de negócios britânico.
As mesmas fontes indiciam que Gu - uma ex-advogada de sucesso - poderá não vir a responder em outros processos por "crimes económicos" caso escape a uma sentença de morte, mas, de facto, tudo dependerá da forma como se desenrolar o julgamento.
A queda em desgraça de Bo Xilai é irreversível e tal como noutras purgas do pós-maoismo - caso das defenestrações da Comissão Política de Chen Xitong e Chen Liangyu, líderes em Pequim e Xangai demitidos em 1995 e 2006 e condenados a penas de prisão - as denúncias de corrupção são instrumentalizadas para fins políticos.
A conjuntura, contudo, não é propícia a mais polémicas sobre abuso de dinheiros públicos tanto mais que o ministro dos caminhos de ferro, Liu Zhijun, demitido em Fevereiro do ano passado aguarda julgamento por actos de corrupção envolvendo centenas de milhões de euros, e se sucedem revelações sobre as fortunas acumuladas pelos membros da elite do partido e seus familiares.
As últimas listagens de fortunas do "Hurun Report" e do "Boston Consulting Group" recenseavam 106 bilionários e 310 mil famílias com activos superiores a um milhão de dólares.
Na China, um por cento da população detém 41,4% da riqueza nacional e o cartão do partido propicia os melhores negócios.
O julgamento de Gu Kailai tentará fazer a quadratura do círculo esbatendo o mais possível a corrupção, nepotismo e abusos de poder que caracterizam os tratos da elite pós-maoista na sua vertigem de acumulação de capital.
Jornal de Negócios
08 Agosto 2012
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=572331
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