Liu Xiaobo
Relembrando aos mais desatentos que comunismo não é palavra vã os líderes de Pequim reagiram como seria de esperar à atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo.
O problema para os comunistas de Pequim é que a China não se pode comportar como o regime militar da Birmânia que mantém Aung San Suu Kyi em prisão domiciliária ou os ayathollas do Irão que obrigaram ao exílio Shirin Ebadi.
Pequim tem demasiados interesses internacionais em jogo para poder adoptar uma atitude de confronto sistemático com os seus críticos no estrangeiro e o desrespeito pelos direitos humanos afecta outras áreas de contacto com o exterior, além de retirar credibilidade às declarações sobre a “ascensão pacífica”.
Do coro elogios a Liu e da chuva de críticas à censura chinesa dissidiram de forma igualmente prevísivel os comunistas portugueses que viram no Nobel de Liu “um golpe na credibilidade” do galardão e uma manobra “inseparável das pressões dos Estados Unidos à República Popular da China”.
Outro caso a assinalar tem a ver com o inefável teórico dos “valores asiáticos” Kishore Mahbubani que na véspera do anúncio do Nobel para Liu, quando ía alta nas bolsas das apostas a candidatura do preso de Jinzhou, advertiu desde logo que o Comité Nobel de Oslo reflecte a visão do mundo ocidental.
O académico e ex-diplomata de Singapura afirmou que tal viés explica que um líder que contribuiu para retirar 600 milhões de pessoas da pobreza como Deng Xiaoping não tenha recebido o Nobel.
No que respeita à Ásia o Nobel está reservado para dissidentes.
Pessoas respeitáveis como Suu Kyi ou o coreano Kim Dae Jung, mas, ainda assim, meros dissidentes, no entender de Mahbubani.
O racícionio tortuoso de Mahbubani deve ter agradado em Pequim, mas tem o senão de ignorar que Suu Kyi em 1991 era a vencedora de uma eleição popular anulada por uma junta militar e Kim Dae Jung foi premiado não apenas pela sua carreira de luta pelos direitos humanos, mas também e sobretudo pelos esforços “em prol da paz e reconciliação com a Coreia do Norte”.
No longínquo ano de 1974, quando a virtuosa China passava pela Revolução Cultural, o Nobel da Paz foi partilhado pelo irlandês Sean Mac Bride e Eisaku Sato, tendo o primeiro-ministro japonês sido escolhido pela promoção de uma política pacifista e de cooperação internacional, e no ano anterior Henry Kissinger e Lu Duc Tho tinham sido galardoados pela êxito na negociação de um cessar-fogo no Vietname.
Entre os galardoados asiáticos o Dalai Lama, em 1989, ano de Tiannamen, Ximenes Belo e Ramos-Horta, em 1996, e Shirin Ebadi, em 2003, enquadram-se na categoria “dissidentes” ou “independentistas subversivos”, mas quanto a Madre Teresa de Calcutá, albanesa de nascimento, mas consagrada em 1979 por obras de caridade na Índia, ou ao bengali Muhammad Yunnus e o Banco Grameen de micro-crédito, premiados em 2006, dificilmente a alegação do ideólogo dos “valores asiáticos” faz qualquer sentido.
O decano da Escola Lee Kuan Yew de Política Pública aventou uma linha de defesa fraudulenta, mas coerente com as alegadas idiosincracias asiáticas, que os propagandistas de Pequim nem sequer tentaram ainda explorar ficando-se pelas teses de uma cabala estrangeira desrespeitosa da honra chinesa.
Entre os sinólogos, no entanto, não foi perdido de vista que o Nobel de Liu Xiaobo poderá vir a ter uma influência crucial no debate das elites chinesas sobre reformas políticas.
Aos decisores políticos e económicos estrangeiros chegam ecos de experiências frustadas de votações com candidaturas diversas para delegados a congressos do Partido Comunista a nível distrital ou eleições directas para conselhos administrativos de aldeias.
As minudências dos debates teóricos sobre valores universais e mediação de interesses contraditórios versus valores específicos chineses de harmonia social num quadro hierárquico controlado pelo partido/estado já são, contudo, mais difíceis de apreciar.
Liu e outros promotores da Carta 08, como Zhang Zuhua ou Zhiang Qisheng, contribuíram para definir como objectivo político a atingir por via pacífica uma democracia constitucional que incorpore valores e práticas como eleições multipartidárias, salvaguarda dos direitos humanos e liberdades fundamentais de expressão, crença e associação, além de divisão e equílibrio entre poderes legislativo, executivo e judicial.
A Carta 08 representa, assim, um passo significativo para ultrapassar as limitações das discussões entre a intelectualidade chinesa sobre os modelos de “democracia socialista” que de uma forma ou de outra tentam perservar um papel liderante para o Partido Comunista.
Na tormentosa história da China moderna intelectuais acabaram por ver as suas propostas vanguardistas marcarem uma época.
Os nomes de Wang Tao, Kang Youwei, Cai Yuanpei, Sun Yatzen ou a menção a um dos primeiros comunistas chineses como Li Dazhao são exemplos que não escapam aos hierarcas de Pequim de como uma centelha pode incendiar a pradaria.
O risco de Liu Xiaobo vir juntar-se a esta lista é, pois, assinalável e a comoção e embaraço em Pequim perfeitamente compreensíveis.
DIVIDIR PELO YUAN
Os diferendos sobre política monetária estão ao rubro e um académico chinês teve o mérito de preto no branco explicitar publicamente uma possível estratégia de actuação para a China.
Um artigo de Wang Yong, professor de um instituto de Zhengzhou, província de Hennan, despertou as atenções. O académico defendeu que Pequim não deve permitir uma apreciação superior a 3 por cento do yuan este ano.
A melhor forma da China evitar a formação de uma coligação liderada por Washington para pressionar uma valorização perniciosa do yuan seria cavar uma clivagem entre a União Europeia, o Japão e os Estados Unidos.
Para tal a compra de obrigações japonesas de longo prazo, vendendo simultaneamente obrigações nipónicas de curto prazo, permitiria evitar a apreciação do iene temida por Tóquio e ganhar logo aqui um aliado.
Outra vertente passaria por aplicações para aliviar a crise de dívida soberana na União Europeia.
Neste particular a compra de títulos de dívida pública de Portugal, Grécia, Irlanda e Itália são, no entender, de Wang Yong, uma estratégia recomendável.
O artigo só surprendeu pela sua clareza e se por alguns momentos deu mais alguns momentos de satisfação ao atormentado ministro Teixeira dos Santos — por estranho que pareça ainda diz de entrevista em entrevista estar bem com a sua consciência — logo tudo caiu por terra ante os comentários da imprensa especializada chamando a atenção para alegadas práticas predatórias e mercantilistas de Pequim.
UM VELHO SUBVERSIVO EDITADO EM PEQUIM
Coisa estranha e subversiva será a próxima edição pela editora CITIC de Pequim de “Conversas comigo mesmo”.
É uma compilação de documentos conservados pela Fundação Nelson Mandela e tem como objectivo, segundo os organizadores, desmistificar a imagem do líder sul-africano.
É um propósito político bem claro para obviar a manipulações do legado de Mandela e incentivar a discussão sobre a história trágica e o futuro incerto da África do Sul.
Mandela sempre tentou resguardar a sua privacidade, mas neste livro surgem cartas e rascunhos da sua autobiografia inacabada que abordam questões muito pessoais e frequentemente dolorosas.
Um tópico fica bem patente: o reconhecimento de erros e falhas.
Mandela afirma ter sido um jovem que escondia as suas fraquezas adoptando uma atitude arrogante.
Surge como um líder político, preso em Robben Island, que se mostra preocupado com a imagem enganosa de que os outros o possam ver um santo.
Nunca fui um santo, escreveu Mandela na prisão.
Nem mesmo atendendo à velha definição de que um pecador é alguém tenta superar seus erros e defeitos, escreveu ainda para reforçar uma preocupação que foi aumentado ao longo de 27 anos de prisão.
Numa nota após um encontro em 1991 com Arthur Miller, um ano depois de sair da prisão, Mandela refere ter gostado da entrevista com o dramaturgo norte-americano.
Escreve que Arthur Miller como pessoa de valor e mérito se mostra naturalmente modesto e atento aos outros. Enfim, como se personificasse aquilo que Mandela considera essencial.
Também por isso Mandela afirma ter gostado de Isabel II. Encontrou uma rainha, que, além de todas as formalidades, se mostrou uma mulher franca, simples, divertida e com uma apreciação aguda das grandes questões.
Em suma, Mandela aos 92 anos dá a conhecer parte dos seus arquivos pessoais para deixar uma mensagem muito simples: nunca mitifiquem um líder político. Todos temos momentos de fraqueza, erro, angústia, medo e egoísmo.
Barack Obama assina o prefácio destas notas pessoais de Mandela, sublinhado a ideia de que o líder sul-africano nunca foi um santo, nunca quis ser visto como um santo, mas nem por isso deixa de ser uma das personalidades mais dignas e inspiradoras em tempos difíceis.
No ocaso de uma vida cheia Mandela ainda luta para deixar uma advertência: não mitifiquem os políticos, discutam tudo, atentam aos erros e fraquezas de quem lidera.
Isto dito por Nelson Mandela assume uma relevância que mais ninguém pode igualar e tem tanto de subversivo que ainda haverá quem se venha a arrepender de permitir que possa ser publicado em Pequim.
HOJEMACAU
14 Outubro 2010
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