sábado, 1 de setembro de 2012

Akhmátova e Berlin: ninguém morre no mundo

    


   "Se eles matam os poetas é porque respeitam a poesia", asseverara, nos anos trinta, o perseguido Óssip Mandelstam a Anna Akhmátova.

   Muitos anos depois do assassínio do poeta, já perto do fim, a velha senhora haveria de lembrar, "falando de viés" como profetizara o seu protegido e admirado Iósif Bródski: "Toda uma geração passou por mim como através de uma sombra".

   Anna Andréievna, "a maior poeta (nunca gostou que lhe chamassem poetisa) da Rússia só comparável à infeliz e trágica Marina Tsvietáieva " rendeu-se ainda menina à poesia e, com o seu marido, Nikolai Gumiliov, foi um dos expoentes máximos do acmeísmo, um movimento que a partir de 1909 se propôs superar o simbolismo, por via do credo da simplicidade, concisão e perfeição das formas poéticas.

   Nascida perto de Odessa, em 1889, a vida de Akhmátova é a Rússia marcada pela desgraça.

   Em 1921, Gumiliov (de quem se separara em 1918, após oito anos de casamento) é fuzilado por alegada conspiração anti-soviética.

   O filho do casal, Lev Gumiliov (1912-1992), reconhecido durante a perestroika de Gorbatchov como um dos mais brilhantes e controversos etnólogos e historiadores do país, esteve preso e exilado de 1939 a 1945 e de 1949 a 1956, acabando de relações praticamente cortadas com a mãe.
  
   O historiador da arte Nikolai Punin, com quem foi casada de 1924 a 1937, seria preso em 1949 e morreria quatro anos depois num campo de concentração.

   O desgosto e morte amargurada de Aleksandr Blok, em 1921, cúmplice virtuoso de poesias ("Tudo morre no mundo: as mães e a juventude", no dizer de Jorge de Sena, que o traduziu e admirou "um dos versos mais extraordinários que já um poeta escreveu"), a deportação de Mandelstam morto na prisão, em 1938 ("Vivemos num país ora irreal e estranho", assim começa a sátira a Stalin que lhe selaria o destino), o exílio e suicídio de Tsietáieva, em 1941 ("Só resta a alma, nascida em qualquer parte"), o ostracismo de Pasternak ("O escuro da noite jorra sobre mim" ) que, em 1960, a precedeu seis anos na morte, sangraram-lhe o sentimento, mas nunca a impediram de correr pelo mundo em poesia, "fazendo milagres".

   1923 estava já condenada ao silêncio e ao martírio.

  Serão anos de cantos de amor e desgraça que culminaram num ciclo clássico: o "Requiem", iniciado em 1935, concluído em 1940, publicado na Rússia em 1989: "marido enterrado, filho na cadeia, orai por mim".

     Da poesia de Akhmátova, isolada e ignorada, apenas em 1940 viriam a surgir algumas publicações esporádicas.

     Em 1941, durante a ofensiva nazi contra Leningrado, foi evacuada para Tashkent, no Uzbequistão, e só no final da guerra regressou à cidade do seu coração; lugar onde, como tantas vezes recordava, assomava a cada pedra a maldição que Evdokia Lopukhiná, a mulher renegada por Pedro, O Grande, lançara sobre a capital imperial: "Seja vazio este lugar!".

  Mas, maldizendo a maldição da tzarina, as artes e as revoluções apossaram-se de Piter (desde sempre a designação popular para Sankt Peterburg, Petrogrado, Leningrado, a Petersburgo na versão portuguesa).

  Numa noite de Novembro do ano de 1945, um jovem académico de Oxford, destacado temporariamente para a embaixada britânica em Moscovo, acercou-se do antigo palácio dos Sheremetiev, A Casa da Fonte, e assomou ao quarto que Akhmátova partilhava numa habitação comunal.

  É esse encontro, "uma história de amor" e a sua deriva poética e política, que o romancista húngaro György Dalos reconstitui em "O Convidado do Futuro".



                                     Uma noite em Novembro

  Dois testemunhos estritamente pessoais evocam essa noite.
 
  O ensaio e memória de Isaiah Berlin, "Meetings with Russian Writers in 1945 and 1956", publicado em 1980 na "The New York Review of Books", e reimpresso na colectânea "Personal Impressions", Oxford University Press, estava já o historiador de ideias nascido em Riga, em 1909, consagrado como um dos mais influentes pensadores políticos do século.

    Outro, o "Poema Sem Herói", obra maior da literatura europeia.

    Testemunha Berlin que o poema que ouviu recitar naquela noite e que só foi terminado em 1962, após 22 anos de escrita e apuro, já então representava para Akhmátova "um memorial derradeiro à sua vida como poeta, ao passado da cidade "St Petersburg que era parte do seu ser, e, na forma de uma procissão carnavalesca de véspera de Epifania de personagens mascaradas en travesti, aos seus amigos, suas vidas, destinos e a ela própria."

   O próprio Berlin haveria, após aquela noite, de se metamorfosear numa "musa poética", na expressão de Dalos.

    Foi "a experiência mais memorável" da sua vida. O professor, de apenas 35 anos, viu-se tomado, sem erro por certo, como a personificação do que o Ocidente e a sua cultura tinham de melhor.
 
   Akhmátova evoca-o como "Homem, / nem melhor, nem pior do que os outros, / que não espalha o gelo letal / e há calor na sua mão./ Acaso " visita do futuro! --/ chegarás mesmo a minha casa/ virando à esquerda da ponte?"

  Três décadas passadas, o autor de "Quatro Ensaios sobre a Liberdade" admitiria que a poeta vira nele "um mensageiro do fim do mundo". Aquela noite seria o encontro de "duas personagens da história do mundo escolhidas pelo destino para dar início a um conflito cósmico".

  Akhmátova acreditava que o encontro com o "convidado do futuro" ("visita do futuro", na versão de Nina e Filipe Guerra) dera início à Guerra Fria e, em certo sentido, o seu sentimento trágico da vida (algo que sempre escapou a Berlin, racionalista céptico por definição) captou melhor a essência da barbárie stalinista do que o endoutrinamento liberal do professor de Oxford.

  A poeta temia o pior e, confirmando-se a sua "auto-imagem trágica de Cassandra", na expressão de Berlin, o pós-guerra na União Soviética saldou-se por uma nova vaga de repressão ideológica, de contornos nitidamente racistas e chauvinistas. Akhmátova e o seu infeliz parceiro de letras e desgraça, o escritor satírico Mikhail Zoshchenko, seriam, em 1946, alvo de uma violenta campanha de difamação que culminou num célebre processo de purga conduzido pelo ideólogo-mor do regime, Andrei Jdánov.

   A poeta, insultada como "freira e prostituta", resistiu e Zoshchenko ficou destroçado numa perseguição que, conforme escreve Dalos, revelava uma vez mais o stalinismo como "um despotismo arcaico" em que o ditador caprichava na perseguição pessoal.

   Akhmátova, tal como Pasternak, o cineasta Eisenstein, o compositor Shostakóvski, ou o romancista e dramaturgo Mihhail Bulgákov anos antes, foi apenas uma das vítimas do arbítrio do déspota, do totalitarismo e irredentismo ideológico do regime, que nesse pós-guerra tantos admiradores contou entre a intelectualidade europeia e norte-americana.

   Em Portugal, António José Saraiva, à época devoto incondicional do stalinismo ideológico, haveria, por exemplo, de elevar Jdánov a paradigma do gosto e da revolução das artes nas páginas da "Vértice".

  Abalado pela tragédia, Berlin só muitos anos depois viria a descobrir que a sua curta estada na Rússia, entre Setembro de 1945 e Janeiro de 1946, fora pretexto para acusações não só contra Pasternak e Akhmátova, mas também para processos, em 1950 e 1951, contra três irmãos do seu pai, residentes em Moscovo.

   Desses encontros no Inverno de 1945 com Akhmátova e, também, com Pasternak " que lhe falou de um romance que tinha em mente, algo "luminoso, elegante, harmonioso", o fatídico "Doutor Jivago" ", Berlin iria sublinhar que lhe "devolveram a pátria russa", de onde saíra em 1919 com apenas dez anos.





  No quarto miserável, onde Akhmátova guardava manuscritos e um célebre retrato que Modigliani lhe pintara em Paris antes da Primeira Guerra, Berlin deparou-se com "uma princesa no exílio, orgulhosa, infeliz".

    Nunca esqueceu a mulher que escreveu "A noite e a Rússia eterna permanecem em mim".

   Ela prestou-lhe a maior das homenagens: converteu-o, nas palavras da sua amiga Nadjeda Mandelstam, a viúva do poeta assassinado, "o protótipo do leitor do futuro, pois naquele maldito ano ninguém no nosso país tinha aprendido a ler como devia ser".
 
    Fez de Isaiah Berlin um testemunho que desse a ler a verdade dos tempos em que "a Rússia baixava o olhar seco, / torcia os braços e ia a direito, / diante de mim, para oriente", para o exílio e a morte que não existe nunca.



"O Convidado do Futuro", György Dalos, Ed. Temas e Debates, Lisboa, 2001

"Prosas Escolhidas e Poema sem Herói", Anna Akhmátova, 292 págs., Ed. Relógio D`Água, Lisboa, 2001

Netparque
21 Julho 2001

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