sábado, 1 de setembro de 2012

Harold Bloom: o doutoramento do grande gnóstico em Portugal




   Harold Bloom nasceu em 1930, em Nova Iorque, numa família de emigrantes judeus ortodoxos russos radicada no Bronx.

   Depois de completar os estudos académicos nas universidades de Cornell e Yale, Bloom passou a ensinar, em 1955, no Departamento de Inglês em Yale, onde, depois de 22 anos de querelas estéticas e doutrinárias, acabou por criar um Departamento à sua própria medida: o Departamento de Humanidades.   
   Desde 1988 acumula, ainda, uma cátedra " Berg Professor of English " na Universidade de Nova Iorque.

   Na primeira fase da sua carreira, Bloom dedicou-se ao estudo dos poetas do romantismo inglês e irlandês. "Shelley`s Mythmaking", publicado em 1959, foi o primeiro de uma longa série de estudos que, passando pela crítica ao formalismo de T. S. Eliot e da Nova Crítica, culminaria na tese de que a poesia romântica representa uma recusa heróica dos constrangimentos da matéria e do tempo, cabendo à imaginação poética ocidental pós-iluminista preencher o vazio instalado entre o mundo da percepção sensorial e as intuições ou categorias abstractas do intelecto.

   Na sua primeira fase, a teorização de Bloom, influenciada pelo magistério do crítico canadiano Northrop Frye, integra-se " tal como os trabalhos de Harry Levin, Frederic Jameson ou o desconstrucionismo de Paul De Man " no movimento de contestação da Nova Crítica, mas o professor de Yale cedo seguiu o seu próprio caminho.

    A publicação, em 1973, de "The Anxiety of Influence" ("A Angústia da Influência", Cotovia, Lisboa, 1991) marca o início da segunda fase da obra de Bloom e do seu período de maior influência académica.

    O paradigma romântico definido por Bloom é a base para uma teoria da poesia (destinada a abarcar, posteriormente, toda a actividade criadora) que vê na relação de interpretação deliberadamente errada ("misreading") das obras dos antecessores a chave para a compreensão da grande arte.

    Todo o poeta ocidental tem de se haver com os antecessores e negá-los para sustentar uma interpretação mais forte e criativa que afirme a sua própria originalidade. A poesia é, para Bloom, o campo de eleição da ânsia de transfiguração e imortalidade.

   "A Map of Misreading" (1975), "Kaballah and Criticism" (1975), "Figures of Capable Imagination" (1976), "Poetry and Repression" (1976) alargam de tal forma a definição das técnicas, dos tropos, do jogo da intertextualidade em que "o significado de um poema só pode ser outro poema", que do outro lado do Atlântico acabou por chegar a Yale o lamento do crítico Christopher Ricks, quando este concluiu tudo indicar que "Bloom tinha uma ideia, agora a ideia apoderou-se dele".

   A estética bloomiana transfigura-se sobretudo a partir da publicação do seu único romance, "The Flight from Lucifer: A Gnostic Fantasy"(1979) e do estudo "Agon: Toward a Theory of Revisionism" (1982) numa conversão ao gnosticismo que visa superar o naturalismo e transcender a história.

   A veia gnóstica levará Bloom a considerar em "The American Religion" (1992) que o essencial da tradição religiosa dos Estados Unidos é de cunho gnóstico e não protestante; uma fé sincrética muito diferente do cristianismo europeu assente num processo intelectual, individualista e elitista de reconhecimento mútuo do eu e de um Deus escondido e distante.

   Ignorando rituais e códigos morais, Bloom não hesitou em afirmar que em terras da América Adventistas do Sétimo Dia, Testemunhas de Jeová e cultos afro-americanos, são prova da omnipresença do gnosticimo: "um conhecimento de um eu incriado, através de si próprio, ou um eu-dentro-do-eu, em que este conhecimento conduz à liberdade."

   A interpretação de Bloom deixou transidos sociólogos, historiadores e teólogos, mas o gnóstico de Yale manteve-se imperturbável na defesa da sua tese.

   Em "Omens of Millenium - The Gnosis of Angels, Dreams, and Resurrection" (1996), Bloom chega a considerar que os messianismos da passagem do milénio, os cultos dos anjos, as visões além-da-morte física, são fragmentos à deriva na cultura de massas de tradições gnósticas e xamânicas.

   É ainda o gnosticismo e a sombra de Shakespeare que definem uma das interpretações mais controversas de Bloom: "The Book of J", os comentários publicados, em 1990, às traduções do poeta David Rosenberg dos cinco primeiros livros da Torah e do Antigo Testamento. Aí, Bloom deixa de lado "dois mil e quinhentos anos de interpretação deliberadamente errada" para defender que os textos são obra de uma mulher imensamente sofisticada da corte salomónica, uma criadora da estatura de um Homero ou Cervantes.

   Bloom admite, fiel à sua teoria da criação literária, ter elaborado "uma ficção ou uma metáfora" daquela que defende ser a autora dos textos fundadores da tradição ocidental.

   "The Western Canon: The Books and School of the Ages" (1994) ("O Cânone Ocidental", Temas e Debates, Lisboa, 1998) é a tentativa de Bloom resgatar o que considera ser a autonomia irredutível do estético da afronta culturalista redutora da arte aos seus condicionamentos de classe, etnia, género, ideologia.

   Para Bloom, "a consciência introspectiva, livre na sua autocontemplação", é a condição necessária ao Cânone e Shakespeare e Dante são o fiel da criação literária: "ultrapassam todos os escritores ocidentais em acuidade cognitiva, energia linguística e poder de invenção".

   Contra o que qualifica de Escola do Ressentimento " pseudo-marxistas, pseudo-feministas, afrocentristas, feministas, seguidoresde Derrida, Foucalt, Lacan multiculturalistas et tutti quanti ", Bloom lista obras e autores por critérios que definem a verdadeira grandeza espiritual e estética.

   Confinar uma obra literária ao estatuto de "documento social" é, para Bloom, o último avatar da polémica entre "moralismo platónico e ciência social aristotélica".

Shakespeare, "o mais original dos escritores", é o verdadeiro patrono do "Cânone" em que estudos sobre 26 escritores " de Chaucer a Dante, de Tolstoi a Kafka, de Cervantes a Emerson " tidos por significativos definem o essencial do património literário do Ocidente.

   O best-seller de Bloom inclui em apêndices uma lista de autores e obras canónicas nascida para alimentar a polémica: do "Gilgamesh" sumeriano à "Relíquia" de Eça de Queirós, as escolhas consensuais alternam com as ausências mais abusivas.

   A idiossincrasia de Bloom exasperou os críticos, que nunca cessaram de lhe apontar as incoerências. Mesmo no universo literário norte-americano, foi difícil compreender porque é que nove romances de Philip Roth são canonizados e uma autora como Mary MacCarthy é deixada de lado, enquanto departamentos de literatura mundo fora acumulavam agravos e abusos contra Bloom.

   "Shakespeare: The Invention of the Human" (1998) é a súmula natural das teses românticas de Bloom, na sequência do "Cânone". Bloom defende que Shakespeare "inventou a personalidade humana tal como a conhecemos e avaliamos". Personagens como Hamlet, Falstaff, Cleópatra ou Otelo contêm a modernidade, tudo e todos.

   "A Arte por si só é Natureza", dizia Shakespeare " e Bloom subscreve, acrescentando que, no seu entender, em matéria de crítica, um outro ramo da floresta literária, "o eu é o único método".

   No "Cânone Ocidental", Bloom afirma que a estética é "uma questão individual e não social", e que a esperança alimentada pela leitura resume-se ao "alargar uma existência solitária". A sua última obra, "How to Read and Why", lançada no ano passado, é o elogio da paixão da leitura que redescobre o eu profundo e a irredutibilidade do estético às ideologias.

   Um dos santos patronos da cruzada de Bloom e um dos seus escritores mais admirados é Italo Calvino. Bloom aprecia, em particular, "Le Città Invisible" (1990) (As Cidades Invisíveis, Teorema, Lisboa, 1996), considerando-a um manifesto de como e porquê ler.

   Bloom vê no Marco Polo de Calvino um escritor em diálogo com Kublai Kan, o leitor; e nos seus diálogos uma alegoria da relação entre a escrita e a leitura. O professor gnóstico recomenda que se cultive Calvino, talvez porque escapar ao inferno dos vivos, como conclui o Marco Polo d`"As Cidades Invisíveis", exige risco, "atenção e aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar".

Agenda:

    Harold Bloom estará na terça-feira, 22 de Maio 2001, na apresentação do número 6 da revista "Portuguese Literary & Cultural Studies", dedicado a José Saramago.

   O autor da "História do Cerco de Lisboa", considerado por Bloom "um dos maiores e mais inovadores" romancistas vivos, participa na sessão a realizar na sede da Fundação Luso-Americana, em Lisboa, pelas 18h00.

   A 23 de Maio, às 16h00, Harold Bloom pronuncia uma conferência na Faculdade de Letras de Lisboa e, no dia seguinte, fará uma alocução na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto.

   No domingo, 27 de Maio, às 10h30, José Saramago pronunciará o elogio de Harold Bloom na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra. É aí que se concretizará a cerimónia de Doutoramento Honoris Causa, proposta pelo Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

   No Auditório da Reitoria, às 18h00, o crítico norteamericano fará a conferência inaugural do IV Encontro Internacional de Poetas.

   Harold Bloom assistirá, ainda, no dia 28 de Maio, às 18h30, no Hotel Roma, em Lisboa, ao lançamento da tradução portuguesa da sua última obra "How to Read and Why" ("Como ler e porquê?"), publicada pela Editorial Caminho.

Netparque
22 Maio 2001

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