sábado, 1 de setembro de 2012

Poetinha da Grande Arte





Poetinha da grande arte
   Tal e qual seu querido amigo Jayme Ovalle, também a ele, Vinicius, "Custou-lhe esforço sobre-humano/Chegar à última morada" - e muito se cansou a morte para, finalmente, o derrubar na banheira em que poetava nas horas boas e nas horas más.

  Na última viagem, Vinicius teve ainda o desencontro da bem querença acarinhada abespinhada até por gente amada que, naquela hora íntima, se chocou ao ver a actriz Camila Amado depositar um whisky sobre a laje do poeta. Foi coisa que aconteceu no cemitério São João Baptista, no Rio de Janeiro, era um inverno austral de 1980.

   Desregrado, hipocondríaco e cheio de graça, foi lírico, carioca da Gávea, vagabundo e apaixonado (casamentos: nove; mulheres: todas, pois que "Entre a mulher e eu alguma coisa existe/Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa/ De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida.") e ainda era diplomata quando adivinhou, 30 anos antes, em "A hora íntima", a sorte dos versos "Quem vai pagar o enterro e as flores/ Se eu me morrer de amores?/ Quem, dentre amigos, tão amigo / Para estar no caixão comigo?"
   Agora, acabaram de editar no Brasil uma colectânea de 27 CDs ("Como Dizia o Poeta", Editora Universal), com toda a Bossa Nova do poeta. Em 1956, Vinicius - tinha, então, 43 anos - arrancou o novo ritmo com António Carlos Jobim e, depois, impôs a sua presença musical com mais parceiros como Carlos Lyra, Baden Powell e Toquinho.

   O crítico Jomar de Brito identificou na Bossa Nova o repisar da modernidade lírica brasileira, datada da Semana de Arte Moderna de São Paulo em 1922. Nessas músicas ecoam, segundo ele, um lirismo da sensibilidade, intimista, algo irónico, em busca da poeticidade do quotidiano "por meio de uma linguagem de queixa e desabafo".

   Das noites de violão e voz rouca agarrou-se-lhe tanto à pele o jeito de "poetinha", com que o crismara um amigo de peito, que Chico Buarque e Toquinho teriam de começar o "Samba para Vinicius" com os versos "Poeta, poetinha, camarada..."

   Mas o poetinha nunca se esgotou na imagem algo gasta dos últimos anos de pandeiro e violão. Pela excelência da arte do soneto, Vinicius tinha de acabar em melodia - até porque a sua métrica, a rima e a imagística sempre tenderam à música. Por formação, o idealismo da juventude nunca foi verdadeiramente abandonado; tão pouco o cuidado posto na composição dos seus melhores poemas.

  Era traço que realçava, já em 1956, David Mourão-Ferreira, ao saudar a primeira edição da "Antologia Poética", publicada dois anos antes no Rio. Com a finura, erudição e bom-gosto que o caracterizavam, David Mourão-Ferreira identificava desde os poemas da primeira fase, que Vinicius dizia ser "transcendental, frequentemente mística", um poeta do amor em que "a infelicidade vem de dentro dele", herdeiro da tradição de exaltação da mulher do amor cortês, da espiritualização do desejo pelo desejo.

   Outro crítico e amigo, Otto Lara Resende, na linha dos que destacam as influências assumidas de Verlaine ou Lorca na poesia de Vinicius, realçava, também, como nos anos 40, na "época das baladas", Vinicius expressou uma consciência social, dando-se ao "sentimento da fecundidade da vida". Fica o exemplo da compaixão pelas prostitutas da "Balada do Mangue", 1942: "Pobres flores gnocócicas/Que à noite despetalais/ As vossas pétalas tóxicas". Soma-se-lhe a exaltação de "um homem pobre e esquecido" que tem o seu ponto alto n`"O Operário em Construção", publicado em 1956, e que, segundo o biógrafo José Castello, é então "a imagem disfarçada que o poeta tem de si mesmo".

   Foi pela mulher, "a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável", que Vinicius fugiu ao omnipresente temor da morte e da solidão através do "olhar mendigo da poesia". Carlos Drummond de Andrade sabia que da geração de Vinicius só o apaixonado de "Pátria Minha" ousaria viver a "vida de poeta" e pagar por isso.

   Quem juntar a música e a "Antologia Poética" tem o roteiro de quem viveu "numa paixão de tudo e de si mesmo".

"Antologia Poética", Vinicius de Moraes, 383 págs.
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2001

Netparque
21 Agosto 2001

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