O incerto triunfo da NATO na guerra civil líbia tem altos custos políticos e levanta reticências quanto à futura cobertura legal por parte das Nações Unidas de intervenções militares com alegadas intenções de protecção humanitária.
A resolução do Conselho de Segurança de 17 de Março, autorizando a adopção de "todas as medidas necessárias" à "protecção de civis", acabou por servir de pretexto à NATO para desencadear uma campanha contra Gadaffi que tentava esmagar a revolta que ganhara força em meados de Fevereiro.
O cadastro e isolamento diplomático do coronel, mitigado apenas por apoios de estados africanos ou de países como a Venezuela, as ameaças de chacina dos insurrectos proclamadas em Tripoli criaram condições para facilitar uma acção militar.
Guerra civil e interesses
A imposição de zonas de interdição aérea e o bloqueio naval para impedir fornecimentos de armas e a chegada de mercenários foram acompanhadas a partir do início dos bombardeamentos, a 19 de Março, de ataques visando destruir equipamentos militares e centros de controlo e comando do regime.
A não-oposição da China, Rússia, Índia e Brasil, além da incongruente abstenção da Alemanha, que valera a luz verde do Conselho de Segurança, interditando, no entanto, a presença no terreno de "qualquer tipo de força de ocupação estrangeira", cedo se transformou numa contestação política a que se juntou a África do Sul, enquanto a maior parte dos estados da Liga Árabe condenava Gadaffi.
Duas razões eram subjacentes à intervenção da NATO na óptica dos estados contestários: impor a sua tutela política num país de interesse estratégico pelas suas vendas de petróleo e gás natural à União Europeia e obviar a riscos de emigração clandestina essencialmente da África subsahariana.
O pretexto humanitário servira interesses diversos, como aliás é de regra, mas a partir de agora consensos ou ausência de vetos no Conselho de Segurança serão muito mais difíceis de conseguir em casos de guerra civil.
A NATO foi e é um dos principais actores numa guerra civil alheia, sem ter em conta interesses de outras grandes potências.
Mesmo num caso de interesse estratégico limitado, envolvendo uma liderança excêntrica genericamente desprezada pelas principais potências, as divergências de apreciação assinalam um previsível bloqueio à cobertura pela ONU de próximas intervenções militares em áreas onde estejam em disputa hegemonias políticas.
Nem massacres, nem arrebatamentos
Os bombardeamentos permitiram deter a contra-ofensiva do coronel, mas a falta de preparação e descoordenação da heteróclita frente de revoltosos de Benghazi pouco mais possibilitaram numa primeira fase do que consolidar as linhas de fractura entre as facções em conflito.
Por altura das primeiras infiltrações de forças especiais foram notícia sobretudo fracassos como a detenção no início de Março por revoltosos de oito elementos das SAS e do MI6 britânicos nos arredores de Benghazi.
A crescente entrada em acção de agentes da NATO e estados aliados, como a Jordânia ou Qatar, contribuiu, por fim, para um melhor entendimento da situação no terreno e posterior armamento, treino e coordenação de acções com os opositores ao coronel.
Embargos, sanções financeiras e comerciais debilitaram progressivamente Gadaffi, os ataques da NATO eliminaram a sua marinha e força aérea, reduziram a capacidade de abastecimento e movimentação de tropas e equipamentos e a entrada de mercenários, oriundos sobretudo do Chade.
Massacres de populações civis foram evitados em boa parte pela intervenção da NATO e graças à aliança firmada com o "Conselho Nacional de Transição" (CNT) - criado no final de Fevereiro em Benghazi por dissidentes do regime, opositores seculares e islamitas - que se comprometeu a restringir acções de retaliação contra os inimigos.
Mais de um milhão de refugiados - cerca de metade líbios e os demais trabalhadores estrangeiros - conseguiram abrigo na Tunísia e Egipto e mesmo a sorte de outros 240 mil desalojados internos foi, até agora, menos cruel do que o habitual em guerras civis por via da consolidação de zonas de segurança.
Estes aspectos positivos do entendimento entre a NATO e o CNT, o reduzido número de vítimas civis dos bombardeamentos, e a impossibilidade de uma negociação entre Gadaffi e os opositores depois de rompidas as alianças tribais levaram alguns estados da aliança militar renitentes numa primeira fase a apoiar o esforço militar, caso da Turquia, a acabarem por não contestar publicamente a intervenção.
Do impasse à ofensiva
A falta de coordenação inicial das operações, lideradas pela França e Grã-Bretanha, a precaução de Washington em evitar assumir o comando da ofensiva num conflito tido como fora de uma área de vital interesse estratégico, foram deixando a claro divergências tácticas e a cada vez maior assimetria entre as capacidades das principais potências militares da Europa Ocidental e os Estados Unidos.
Chegado o início de Agosto a Noruega retirava os seus caças F16 das missões ofensivas na Líbia, o impasse militar acentuava-se, as contratações de mercenários anti-Gadaffi no Qatar e nos Emirados Árabes Unidos revelavam-se incómodas e as disputas e ajustes de contas entre os opositores de Gadaffi levavam ao assassínio de um dos principais comandantes militares do CNT.
Mais de 7 500 ataques, segundo dados oficiais da NATO, tinham, contudo, reduzido substancialmente a operacionalidade das forças de Gadaffi e Julho marcara um crescente reconhecimento diplomático do CNT, uma entidade de valor político e respeitabilidade incerta, presidida por Abdel Jalil, um dissidente do regime, mas promovida a alternativa frentista de âmbito nacional.
A sereia do Ramadão
Para potenciar os efeitos do equipamento e treino de unidades no leste e ocidente da Líbia, a melhoria da coordenação de operações entre a NATO e forças anti-Gadaffi, e a erosão dos centros de controlo e comando de Tripoli, faltava, no entanto, fechar o cerco da capital.
A conquista de Zawayia na semana passada, na sequência de uma ofensiva de forças berberes oriundas das Montanhas Nafusa, a ocidente de Tripoli, fechou o cerco à capital, cortando abastecimentos de combustível e as principais rotas de acesso à Tunísia.
A partir daí a luta pelo controlo de Tripoli, a operação "Sereia" no mês do Ramadão, passava a marcar a fase final da guerra de movimento convencional, mesmo que cidades costeiras como Syrte, região natal de Gadaffi, ou Sabha, na zona desértica do sudoeste da Líbia, além de clãs da tribos Warfalla ou Magarha, continuem fiéis ao coronel.
A vitória será de todas as milícias e brigadas das tribos, cidades e regiões líbias que se mobilizaram na revolta e que agora irão entrar em confronto, mas em termos de grande política a NATO soma aqui um triunfo incerto.
Morto, cativo ou foragido, Gadaffi irá atormentar pelos tempos mais próximos os estrategos da intervenção da NATO na Líbia que estão irremediavelmente enleados nos conflitos que irão prosseguir após a conquista de Tripoli.
Jornal de Negócios
24 Agosto 2011
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