Desvaneceu-se aos primeiros ataques a convergência momentânea que possibilitou a cobertura legal da ONU para a intervenção na Líbia.
Vladimir Putin expressou em linguagem inflamada a condenação da ofensiva aérea comparando-a a uma cruzada, mas acabou por ser contraditado pelo presidente Dmitri Medvedev que classificou como insustentável a tirada do primeiro-ministro.
À ambiguidade de Moscovo, crítica da alegada desproporcionalidade da ofensiva aérea, juntaram-se as reservas de Nova Delhi e de Pequim com apelos a um cessar-fogo e ao termo dos bombardeamentos.
A União Africana expressou a sua oposição aos ataques e imediatamente surgiram reticências da Liga Árabe temerosa de se ver associada a uma intervenção liderada por potências militares ocidentais.
Com a excepção do Qatar os demais estados árabes rejeitaram participar em operações ofensivas contra a Líbia e à medida que surgirem as primeiras baixas civis confirmadas é de esperar um maior distanciamento por parte da Liga Árabe.
A vizinha Argélia critica o carácter não proporcional dos bombardeamentos que pretende ver suspensos e tal como a Tunísia e o Egipto teme os efeitos destabilizadores de uma guerra civil prolongada na Líbia.
Cacafonia aliada
Divergências políticas entre os membros da coligação militar impediram até agora os Estados Unidos de passarem o comando e coordenação das operações à NATO, um objectivo que se confronta, aliás, com objecções por parte da Turquia.
A liderança e coordenação das operações de imposição de uma zona de exclusão aérea e do bloqueio naval -- cuja duração é impossível de estimar - continua em aberto, sendo possível que o comando tenha de vir a ficar fora da alçada da NATO.
Declarações dos ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros de Londres admitindo atacar directamente o líder líbio levaram, por sua vez, os comandos militares britânicos e Washington a rejeitarem expressamente a eliminação física de Gadaffi e uma mudança de regime como objectivos da ofensiva aérea.
A França continua, entretanto, isolada no reconhecimento diplomático da junta de Benghazi, que a União Europeia se limita a aceitar como um interlocutor político, e a chefe da diplomacia espanhola deu a conhecer as suas reservas quanto à liderança e objectivos das forças rebeldes.
Trinidad Jiménez revelou domingo, um dia depois do começo dos bombardeamentos, ter tido um encontro sigiloso no Cairo a 12 de Março com representantes do Conselho Nacional de Transição Líbio (CNTL) em que recusou fornecimentos de armas aos rebeldes e manifestou dúvidas quanto ao real apoio popular às forças anti-Gadaffi fora da região da Cirenaica, tradicionalmente hostil ao regime de Tripoli.
Uma entidade dúbia
A apreensão quanto ao CNTL é justificada devido à forte presença de radicais islamitas no leste da Líbia e pelo cunho heteróclito da coligação anti-Gadaffi que agrega líderes tribais em ruptura com o coronel e dissidentes governamentais de última hora como o ex-ministro da Justiça, Mustafa Jalil.
Alguns lotes de armamento ligeiro chegaram a Benghazi através do Egipto, mas a concessão de apoio militar aos rebeldes viola os termos da resolução do Conselho de Segurança.
A resolução 1973 visa expressamente o estabelecimento imediato de um cessar-fogo, o fim da violência, de todos os ataques a civis e abusos contra não-combatentes.
Ao abrigo das sanções em vigor será igualmente problemático processar pagamentos à companhia de petróleo que o CNTL anunciou ter criado esta semana em Bengazhi.
A extracção de petróleo está praticamente paralisada e eventuais receitas que o CNTL venha a obter terão de ser alocadas a finalidades não-militares.
A intervenção militar, ao abrigo da autorização para adoptar todas as medidas necessárias de forma a proteger civis ou áreas povoadas por civis sob ameaça de ataque, susteve a ofensiva de Gadaffi na Cirenaica, mas sem intervenção de forças terrestres não conseguirá alterar a actual relação de forças.
Os embargos de armas, as sanções comerciais e financeiras acentuam o isolamento de Gadaffi, mas disponibilidades não quantificadas em dinheiro vivo além da posse de 143,8 toneladas de reservas de ouro, segundo dados do FMI, permitem sustentar uma guerra prolongada.
As reservas de ouro, no valor de 6,5 mil milhões de dólares a preços correntes, são um dos recursos mais facilmente transaccionáveis através do Chade e do Níger para aliviar os embargos e sanções.
Guerra tribal
O evoluir da revolta desde o seu início em meados de Fevereiro evidenciou igualmente o carácter visceralmente tribal dos alinhamentos políticos na Líbia.
Gadaffi continua a manter forte apoio entre alguns clãs da tribo Warfalla, os Hassoni alinham decididamente ao lado do coronel, bem como a Gadaffa e a Magariha (que partilhavam as chefias militares), enquanto no sul tuaregues e demais tribos de fidelidades incertas dominam os desertos.
A eliminação de Gadaffi através de um golpe palaciano ou por recurso ao assassínio poderia abrir caminho para conversações que conduzissem a um cessar-fogo, mas até essa possibilidade é duvidosa.
O extermínio do inimigo surge como o objectivo declarado das facções em confronto e a perspectiva de uma guerra civil prolongada é a hipótese mais séria.
Aumenta o risco das principais potências militares ocidentais acabarem por ter de assumir todos os custos da intervenção sem que seja claro o que venha a suceder no terreno.
Jornal de Negócios
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