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A guerra civil na Líbia, ao romperem-se as solidariedades tribais que sustentavam o regime de Gadaffi, é o mais repentino e inesperado desenlace da vaga de revoltas e protestos que abalam a maior parte do mundo árabe.
A guerra civil na Líbia, ao romperem-se as solidariedades tribais que sustentavam o regime de Gadaffi, é o mais repentino e inesperado desenlace da vaga de revoltas e protestos que abalam a maior parte do mundo árabe.
O coronel optou por reprimir sem peias a contestação em Benghazi, centro da velha Cirenaica - a região leste da Líbia tradicionalmente reticente ao domínio de Gadaffi -, mas um erro de cálculo quanto às relações de força precipitou uma reacção imprevista.
O primeiro sinal de uma irremediável ruptura dos consensos ocorreu na noite de domingo quando líderes de uma das principais tribos, Warfala, denunciaram a ilegitimidade da repressão e, então, o sistema de alianças que dava corpo ao aparelho de estado desfez-se em facções rivais.
O dinheiro deixou de comprar fidelidades a partir do momento em que a honra das tribos em conflito ficou em causa.
Na cultura política tribal da Líbia as afrontas lavam-se em sangue.
A guerra civil entre grupos de interesses baseados em facções tribais que partilhavam poderes do estado foi assim a consequência inevitável do desmoronamento do consenso que Gadaffi conseguira gerir durante quatro décadas.
A honra das tribos
Na origem da revolta contra Gadaffi podem considerar-se os efeitos negativos de tomada de decisões arbitrárias em círculo cada vez mais restrito, a desigual partilha dos proventos petrolíferos em prejuízo das regiões leste da Líbia e o desemprego estrutural de cerca de 30% da força de trabalho, afectando essencialmente os jovens - sensivelmente cerca de 60% dos líbios tem menos de 30 anos.
O país conta ainda com grande número de imigrantes clandestinos (entre 500 mil a 700 mil), milhão a milhão e meio de residentes legais e ilegais oriundos do Egipto e mais de 100 mil trabalhadores especializados estrangeiros, sobretudo da Ásia do Sul, mas toda esta mão-de-obra não chega a entrar em concorrência directa com a potencial força de trabalho líbia.
Para a população líbia uma dezena de grandes tribos definem as fidelidades e os sistemas de patrocínio.
As cisões a que se assiste nas forças armadas evidenciam, por exemplo, linhas de fractura entre sobretudo os clãs das tribos Gadaffa (a tribo do coronel) e Magariha que detinham os principais postos de comando.
Ao fim de uma semana de revoltas, Gadaffi perdera o controlo da Cirenaica, onde são influentes as correntes islamitas, e grassava uma repressão particularmente violenta em Tripoli.
O alastramento da guerra civil deixa antever combates de rua com uso de armamento pesado e bombardeamentos pela aviação e marinha das cidades onde se concentra 90% da população.
O saber de Ibn Khaldun
A tese de Ibn Khaldun, uma das mentes mais brilhantes que o Maghreb viu nascer nos idos do século XIV, de que a corrupção do poder e da riqueza dissolve a prazo a capacidade de atracção e liderança dos grupos dominantes prova uma vez mais o seu valor.
O que Ibn Khaldun escreveu sobre a dinâmica da formação, exclusivismo e dissolução de coesões sociais, a "asabiyah", ainda hoje explica muito do acontece na Líbia e, num sentido mais lato, por todo o mundo árabe.
Consensos e coesões sociais de alcance mais ou menos limitado (caso do clã Tikrit de Saddam Hussein entre os sunitas iraquianos, por exemplo) foram-se dissolvendo à medida que os exclusivismos de poder se acentuavam e regimes autocráticos - formalmente monárquicos ou republicanos - se revelavam incapazes de oferecer alternativas de integração e promoção a novas gerações.
O "boom" demográfico no mundo árabe teve o auge na década de 1960, com sete filhos por mulher, e tem vindo a declinar.
Em 2008 registavam-se apenas três filhos por mulher, mas grande número de países enfrenta agora as consequências do crescimento demográfico e da urbanização.
Nenhuma das economias árabes foi capaz, entretanto, de criar oportunidades de emprego para a geração (sensivelmente metade da população do Norte de África e Médio Oriente tem menos de 25 anos) que foi chegando ao mercado de trabalho e em certos países, como é o caso do Egipto, a expansão de medíocres sistemas de ensino redundou numa frustração de expectativas.
Porquê agora?
A nível ideológico a falência do pan-arabismo secularista e, posteriormente, do extremismo islamita como alternativas políticas levou a um vazio doutrinário em que a única evidência é, precisamente, a carência de legitimidade dos poderes instituídos.
Sistemas que excluíam dos centros de decisão grupos cada vez mais vastos, incluindo em muitos casos camadas jovens com níveis educacionais superiores aos dos seus progenitores, geraram impasses políticos em que a cleptocracia e arrogância de poderes autocráticos alimentavam rancor e revolta.
Apesar da capacidade de certos regimes, caso da Arábia Saudita ou das monarquias do Golfo, distribuírem proventos do petróleo, tensões confessionais e sociais (como a discriminação da maioria xiita na Bahrein) acabaram por galvanizar e mobilizar grupos sociais cada vez mais abrangentes que arriscaram testar a solidez e determinação de sucessivos regimes.
Baixos níveis de alfabetização ou de acesso à internet (mesmo rondando apenas 15% da população no Egipto, mas com implicações mais latas em termos de actividade empresarial) não impediram uma capacidade acrescida de mobilização de minorias activistas, potenciada por cadeias de televisão como "Al Jazeera", que supreenderam regimes calejados na censura trivial do panfleto e publicações clandestinas.
Protestos, revoltas e agora uma guerra civil são a série de eventos subversivos que revelam o fracasso comum de "asabiyah" que se pretendiam perenes.
A tenda de Gadaffi já ardeu e mais revoltas estão prestes a estalar da Jordânia a Marrocos.
Jornal de Negócios
23 Fevereiro 2011
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=469963
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