domingo, 19 de agosto de 2012

A sina dos cristãos do Egipto



O ano começou sangrento com um atentado suicida numa igreja em Alexandria a 1 de Janeiro que causou a morte de 23 coptas, sucedendo-se desde então ataques a templos e confrontos entre cristãos e muçulmanos no Egipto.

A triste sina dos cristãos do Egipto atingiu o clímax na mortandade de domingo, no Cairo, quando manifestantes coptas, protestando contra a passividade da Junta Militar e do governo ante as violências anti-cristãs, se envolveram numa sangrenta batalha campal com militares.

A brutalidade da repressão das unidades militares contra mais de dez mil manifestantes coptas, os apelos na televisão estatal à retaliação contra a violência de "cristãos enfurecidos", as contraditórias versões oficiais sobre a responsabilidade pelos incidentes que provocaram mais de duas dezenas de mortes e três centenas de feridos, alimentam as piores suspeitas de uma minoria discriminada.

As minorias ancestrais
A ancestral comunidade cristã do Nilo teme que o seu destino siga os passos dos maronitas do Líbano - grandes derrotados da guerra civil dos anos 70 e 80 que marcou a ascensão política e demográfica dos xiitas - ou do cristãos do Iraque, onde boa parte dos fiéis das igrejas caldeias e assírias, cerca de 3% da população, fugiu às violências subsequentes ao derrube de Saddam Hussein.

No caso do Líbano, ainda que as diversas denominações cristãs possam representar entre 30% a 40% dos pouco mais de 4 milhões de habitantes (não existem dados fidedignos na ausência de um recenseamento desde 1932), o sentimento de perda de influência é notório.

No único estado levantino surgido da partilha do império otomano no final da I Guerra Mundial em que cristãos - maronitas, gregos e arménios ortodoxos e católicos - mantinham uma posição de poder ímpar as novas relações de força saídas das guerras civis libanesas conduziram irreversivelmente a uma subalternização do bloco político-religioso cristão.

Na vizinha Síria nada de bom aguarda, por sua vez, os cristãos ortodoxos gregos e católicos.
Os cristãos, sensivelmente 10% dos 22 milhões de sírios, firmaram com a minoria alauíta (uma variante heterodoxa xiita que tem idêntico peso demográfico) uma aliança de interesses ante a maioria sunita que é agora refém do destino do regime do clã de Bashar al Assad.

Nos territórios da Palestina, na Jordânia e em Israel as minorias cristãs não ultrapassam os 3% das respectivas populações, mas a contracção demográfica caracteriza estas comunidades que em situação de extrema instabilidade acatam a predominância dos interesses políticos conflituosos de muçulmanos e judeus.

Os coptas desprotegidos
O Egipto alberga a maior comunidade cristã no Levante e a influência e protecção política que os coptas gozavam durante o regime de Hosni Mubarak foi posta em causa.

Cerca de 10% dos 84 milhões de egípcios seguem os ritos da Igreja Copta Ortodoxa, do papa Shenouda III de Alexandria, e outros 250 mil são fiéis da Igreja Copta Católica em união com o Vaticano, liderada pelo patriarca de Alexandria Antonius Naguib.

A discriminação sempre se fez sentir, designadamente na obrigatoriedade de autorizações governamentais para construção e remodelação de templos, e o terrorismo salafista dos anos 80 e 90 fustigou os coptas, sobretudo nas zonas rurais do sul do Egipto com maior concentração cristã e onde as suas elites têm presença vincada nas actividades económicas.

Um enquistamento da comunidade copta na preservação de valores identitários religiosos, sob tutela de um clero muito conservador, acentuou-se em resposta à crescente força do islamismo, representado sobretudo pelos "Irmãos Muçulmanos".

O regime de Mubarak, mais ainda do que o seu antecessor Anwar Sadat, era, no entanto, uma salvaguarda de última instância ante ameaças de radicalismo de matriz muçulmana quanto mais não fosse para usar os coptas como contrapeso político consoante as conveniências.

Sem surpresa, o papa Shenouda III manteve o apoio a Mubarak até as chefias militares optarem por afastar o presidente para conter os protestos populares em que participaram igualmente coptas dos grandes centros urbanos.

Condenados a sofrer
A luta de interesses e a competição partidária pós-Mubarak, em que sobressaem em força organizativa e influência ideológica os "Irmãos Muçulmanos", colocaram irremediavelmente os coptas numa posição delicada.

Os coptas do Egipto são uma minoria religiosa sem aliados à vista ou patronos potenciais.
Um estatuto de comunidade religiosa subordinada - com autonomia interna no direito de família, mas sem direito de proselitismo, por exemplo - é o destino reservado aos coptas pelas tendências islamitas mais relevantes no Egipto.

Garantias de pluralismo e equidade serão afastadas a partir do momento em que o princípio da "xaria" (lei islâmica) como fonte principal da legislação começar a ser aplicado na prática num clima hostil ao secularismo.

A Junta Militar ao definir um arrastado processo para escolha de legisladores responsáveis pela elaboração de uma constituição que terá de ser sujeita a referendo antes da realização de eleições presidenciais incrementou a contestação política.

Mais dois anos de tutela militar são excessivos no entender da maior parte das forças políticas que se opuseram a Mubarak e um governo provisório prestes a esgotar as reservas em divisas estrangeiras carece de legitimidade ou capacidade para negociar a repartição de recursos do estado.

Exasperação, radicalização, busca de bodes expiatórios, confronto e desilusão são o previsível destino de muitos egípcios numa fase em que movimentos liberais e secularistas se mostram impotentes para opor-se às pretensões da Junta Militar ou ao ímpeto islamita.

A minoria copta, sem patronos interessados no seu apoio, nomeadamente entre as chefias militares, impossibilitada de formar partidos confessionais e firmar alianças com outros grupos que arrisquem afrontar abertamente o predomínio das tendências islamistas, está condenada a sofrer.



Jornal de Negócios
12 Outubro 2011

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