Nos Estados Unidos um relatório do Congresso concluiu ser necessário, para garantir os fornecimentos ao sector de Defesa, retomar a mineração e processamento de metais raros para obviar ao actual monopólio chinês, mas as estimativas apontam para dez a quinze anos como o período mínimo para reconstituir o sector.
A incúria estratégica tem o seu preço.
Uma daquelas estatísticas que passaram em claro nos idos de Agosto referia isto: pela primeira vez a Agência Internacional de Energia assinalava que o consumo de petróleo superara no segundo trimestre de 2009 os tradicionais níveis recorde dos meses de Janeiro a Março.
Até agora o Inverno nas economias desenvolvidas do Hemisfério Norte justificava um consumo acrescido, mas, as importações crescentes de países em desenvolvimento como a China e o Brasil, no Hemisfério Sul, alteraram os padrões.
No caso da China as celebrações do Ano Novo, entre Janeiro e Fevereiro, levam a um abrandamento da actividade económica, mas, desta feita, os níveis de consumo de petróleo indiciam que as economias em desenvolvimento, sobretudo a chinesa, estão prestes a modificar um padrão tradicional.
Poderia ser coisa conjuntural de somenos importância, consequência da retracção económica a Ocidente, mas, contando com outras economias, como a indiana ou indonésia, que divergem dos padrões sazonais de consumo norte-americanos e europeus, alguma coisa está a mudar.
Em rigor está em causa até a lógica de velhas regras que obrigam, por exemplo, a ponderar evitar atacar o Irão durante o pico invernoso de consumo de petróleo no Hemisfério Norte.
ANGOLARES
O aumento do consumo doméstico de matérias-primas torna ainda mais premente para Pequim a garantia de que os fluxos de importações de petróleo não podem de forma alguma ficar dependentes de interesses alheios.
Um caso exemplar tem a ver com Angola.
Pequim tornou-se no maior parceiro comercial de Luanda desde 2006 e adquire 29% das exportações de petróleo angolano.
Angola, a caminho de superar a Nigéria como maior produtor africano, provavelmente dentro de quatro anos, é o segundo maior fornecedor de petróleo à China (15,5%) a seguir à Arábia Saudita (19,8%).
As linhas de crédito abertas por Pequim a Luanda superam os 14,5 mil milhões de dólares, uma superlativa aposta em África, mas os investimentos das empresas chinesas no sector petrolífero em Angola ainda claudicam ante interesses ocidentais da Chevron-Texaco, Total e BP.
A Sinopec adquiriu a sua primeira participação num bloco de exploração em 2004, mas as operações da petrolífera chinesa tem passado por dificuldades na relação com a Sonangol.
Luanda, no entanto, acaba de dar luz verde para a Sinopec concorrer à exploração de novos blocos que irão a leilão em 2011.
É a forma de ultrapassar a debilidade da participação chinesa na indústria petrolífera de Angola.
UM MONOPÓLIO CHINÊS
Uma questão estratégica mexe com os minerais raros.
A China controla 97 % da produção global e Pequim anunciou em Julho uma redução de 72% nas exportações de minerais raros até ao final do ano.
Japoneses e norte-americanos admitem apresentar queixa na Organização Mundial de Comércio, mas as autoridades chineses justificam a decisão por razões ambientais, valor estratégico e necessidades de consumo doméstico.
Essenciais para produtos de alta tecnologia civil e militar este conjunto de 17 minerais (disprósio, xenótimo, érbio, etc.) encontram-se em muitas regiões, do Brasil à África do Sul, concentrando-se os maiores depósitos na Mongólia Interior, Califórnia e Austrália Ocidental.
A exploração de minérios raros foi descurada a partir dos anos 90, sobretudo nos Estados Unidos, quando a China aumentou a produção esmagando a maior parte da concorrência.
Nos Estados Unidos um relatório do Congresso concluiu ser necessário, para garantir os fornecimentos ao sector de Defesa, retomar a mineração e processamento de metais raros para obviar ao actual monopólio chinês, mas as estimativas apontam para dez a quinze anos como o período mínimo para reconstituir o sector.
A incúria estratégica tem o seu preço.
ALEMÃO DE OLHO NA CHINA
Agrura de Verão tem sido coisa que veio para ficar.
As economias da Zona Euro andam arrimadas à expansão da Alemanha, mas a recuperação alemã assenta no sector exportador e depende cada vez mais das vendas à China.
Em Portugal não escasseou quem notasse que o próprio impulso das exportações nacionais para a Alemanha (aumentaram 7,9 % entre Janeiro e Maio em relação ao mesmo período de 2009), dada a anemia dos Estados Unidos, está, em última instância, dependente do acréscimo do consumo chinês.
Berlim continua a ter nos parceiros da União Europeia o seu principal mercado de exportação: dois terços dos 800 mil milhões de euros anuais de vendas ao estrangeiro ficam-se pela Europa comunitária.
As exportações alemãs para a China são, no entanto, a vertente mais dinâmica tendo aumentado cerca de 60 % este ano, mas é insustentável esperar que se mantenha este ritmo.
A Volskwagen vende na China um de cada quatro veículos que produz e já está a estudar formas de minimizar a previsível quebra de receitas que possa ocorrer se as vendas abrandarem no mercado chinês.
Empresas como a Siemens ou a BASF começam, por outra lado, a ver com inquietação crescente rivais chinesas em vias de se tornarem competidoras nas áreas de alta tecnologia.
Por enquanto, somam-se apenas indícios, mas histórias atrás de histórias acerca de inovações chinesas em certos sectores, tecnologia do vidro ou células solares, por exemplo, começam a gerar perplexidades sobre riscos futuros.
China concorrente e China compradora, estão, portanto, à vista e à légua.
PIZZA E PAUZINHOS
Há, também, coisa diferente, e não menos significativa.
A empresa espanhola Telepizza firmou acordo com investidores chineses para avançar a partir de Xangai, China afora.
A Telepizza tem 600 estabelecimentos em Espanha e mais de 400 no estrangeiro, metade dos quais na América Latina.
No ano passado 23 % da facturação de 500 milhões de euros foi assegurada pelas operações no estrangeiro e a China surge agora como grande aposta da empresa espanhola.
O montante do investimento para a joint-venture em partes iguais com a Christine de Xangai, a maior empresa chinesa de panificação e pastelaria, não foi revelado, mas a Telepizza está certa de que encontrará um modelo de êxito adaptado ao mercado da China antes de alargar operações a Macau, Hong Kong e Taiwan.
Quanto vale uma Telepizza ante a magnificência das grandes tradições da culinária chinesa?
HOJE MACAU
2 Setembro 2010
http://hojemacau.com.mo/?p=1802
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