Primeiro foi o austero The Economist a asseverar que salários mais altos para os trabalhadores chineses são coisa boa para o Ocidente.
Se os rendimentos do trabalho aumentarem irão crescer o consumo doméstico e as importações e o relançamento global do emprego compensará o eventual aumento de custo nas importações da China.
Tudo o que possa contribuir para o escasso consumo doméstico chinês, que presentemente corresponde a apenas 36% do Produto Interno Bruto (PIB), é, também, bem vindo para Die Welt. O diário conservador alemão sublinha que o envelhecimento demográfico torna a Europa cada vez mais dependente da expansão do consumo em países como a China e a Índia.
Neste Agosto Le Monde saudou igualmente as reivindicações laborais na China e também no Bangladesh. Para o jornal parisiense uma alta salarial na Ásia contribuirá para travar a deslocalização de indústrias e serviços e criará novos consumidores para os produtos europeus.
MESMO QUE GANHE POR FORA
O consenso sobre a valia do consumidor chinês deu ainda maior relevância a um estudo da Fundação para o Estudo da Reforma Económica da China patrocinado pelo Crédit Suisse.
Os investigadores estimaram que o rendimento disponível não-declarado das famílias possa totalizar cerca de 9,3 triliões de yuans, ou seja 30 % do PIB de 2008. A Fundação de Pequim atribui, ainda, mais de 63% do rendimento não-declarado aos 10% mais ricos.
Uma chuva de comentários sublinhou desde logo dois aspectos: a desigualdade social, oleada pela corrupção, é muito superior ao estimado, colocando a China a par dos piores países da América do Sul, e, tinha de ser!, o potencial de consumo ultrapassa as expectativas mais animadores.
É GRANDE E VAI SER AINDA MAIOR
Tóquio reconheceu que entre Abril e Junho deste ano o PIB da China superou o do Japão: 1,337 triliões de dólares contra 1,288 triliões de dólares. Após ter ultrapassado a Alemanha em 2007, nos últimos trimestres de 2008 e 2009 o PIB nominal chinês superara o japonês, mas como no final do ano a economia da China tende a aquecer e Pequim não procede ao ajustamento de efeitos sazonais, os comentários foram mais contidos.
“China é a segunda economia mundial” e “China a caminho de alcançar os Estados Unidos” foram algumas das manchetes que tinham ignorado no final de Julho o vice-governador do banco central e responsável pelo reserva cambial de Pequim, Yi Gang, ao declarar que a economia chinesa era maior do que a japonesa.
Pequim subestima sistematicamente certos dados estatísticos, sobretudo do sector de serviços, e exclui Macau e Hong Kong da contabilidade nacional, pelo que não era descabida a declaração de Yi Gang.
TOMBA O SAMURAI
Bem pode o governo de Tóquio referir que, no primeiro semestre de 2010, a dimensão da economia japonesa ainda superava a chinesa.
Era maior a economia japonesa nos últimos anos (5,067 triliões de dólares do Japão vs. 4,909 triliões da China em 2009 para 14,256 triliões dos Estados Unidos), mas é pouco crível que no final de 2010 se mantenha a diferença verificada neste primeiro semestre: 2,578 triliões para o Japão e 2,532 triliões para a China.
A China poderá crescer este ano cerca de 9%, enquanto o Japão deverá ficar pelos 3%, e está, portanto, a um passo de se tornar na segunda maior economia mundial em preços de mercado expressos em dólares.
A ascensão da China vai a par do declínio do Japão.
Em 1968 o Japão arrebatava à Alemanha Federal o lugar de segunda economia mundial e em 1991 o seu PIB correspondia a 80% do norte-americano. O crash imobiliário e bolsista que se seguiu iniciou a lenta degradação da economia nipónica.
SEREIS VELHOS ANTES DE ENRIQUECER
Já em 2001 o PIB chinês superara o japonês em paridade de poder de compra e, presentemente, as estatísticas referem, segundo os mesmos indicadores, valores de 14,2 triliões de dólares para os Estados Unidos, 8,8 triliões para a China e 4,1 triliões para o Japão.
A China continua, no entanto, relegada numa base per capita para os escalões dos estados em vias de desenvolvimento: 3 620 dólares, ocupando o 124º lugar entre 213 países recenseados pelo Banco Mundial, em comparação com os 37 870 doláres do Japão ou os 47 240 dos Estados Unidos.
Depois, há o peso do atraso e das assimetrias regionais e o modelo de desenvolvimento iniciado nos anos 80 com as reformas de Deng Xiaoping (descolectivização da agricultura e aposta em sectores exportadores de baixa tecnologia com mão-de-obra intensiva) esgotou-se.
A degradação ambiental da China atingiu níveis insustentáveis de desflorestação, poluição industrial e escassez de água, enquanto o tão esperado incremento do consumo interno se confronta com uma rudimentar rede de assistência e segurança sociais.
As estatísticas oficiais contabilizam mais de 150 milhões de pessoas subsistindo com menos de 1 dólar/dia e os efeitos perversos da política de filho único, introduzida em 1978, vão começar a fazer-se sentir com um envelhecimento acelerado.
A faixa etária entre os 15 e 29 anos representará nas próximas duas décadas apenas 34% da população activa (entre 15 e 64 anos).
O grupo dos 50 aos 64 anos, que conta actualmente para 22% da força de trabalho, passará a equivaler a 32% da mão-de-obra, enquanto a faixa dos 30 a 49 anos continuará a reduzir-se.
As projecções da ONU cifram em meados da próxima década em 280 milhões o número de chineses com 65 anos ou mais, ou seja um em cada cinco habitantes.
UM ETERNO POTENCIAL
Por essa altura é provável que em termos nominais a China esteja em vias de se tornar na maior economia mundial, tal como acontecia antes da Revolução Industrial.
Tem um senão: será ainda um país relativamente pobre e a grande maioria dos seus velhos invejará a sorte de um vizinho ainda mais envelhecido, o Japão que contará com 30% de habitantes acima dos 65 anos.
E, com a China ao longe, ainda se falará do potencial do consumidor chinês.
HOJEMACAU
19 Agosto 2010
http://hojemacau.com.mo/?p=1081
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