"Átomos pela Paz" assim se chamava o programa lançado por Dwight Eisenhower no final de 1953 para apaziguar temores ante a estratégia nuclear norte-americana no dealbar da Guerra Fria.
Do discurso presidencial na ONU, que reiterou a capacidade de retaliação devastadora dos Estados Unidos, ficou uma promessa de mobilização e partilha de recursos para a exploração pacífica planetária da energia atómica.
A "Agência Internacional de Energia Atómica" (AIEA) foi criada em 1957 na sequência da iniciativa de Eisenhower, mas o programa de promoção da indústria nuclear civil teve ainda o efeito perverso de facilitar projectos militares clandestinos em países como Israel, Índia, Paquistão ou a África do Sul.
Uma indústria aquém das promessas
Petróleo e carvão baratos limitaram a expansão da indústria até ao final dos anos 60. Objectivos de redução da dependência energética do estrangeiro através do recurso ao nuclear tiveram sorte diversa nos Estados Unidos, França, Alemanha Federal e Japão, enquanto a União Soviética, apesar de auto-suficiente em hidrocarbonetos, prosseguia a expansão do seu sector civil.
O petróleo persistiu, no entanto, como fonte quase exclusiva de combustível para meios de transporte.
O desastre de Three Mile Island, em 1979, na Pensilvânia, cancelou novos projectos nos Estados Unidos, mas a retracção do sector foi provocada sobretudo por custos acrescidos de construção, atrasos na conclusão de projectos, falhas de segurança e variações nos preços de outras fontes de energia.
Chernobil em 1986 acentuou essa tendência global que só começou a ser contrariada na última década à medida que aumentaram as necessidades energéticas de países como a China ou a Índia e a busca de fontes de energia capazes de obviar ao aquecimento global.
Presentemente estão em construção 62 reactores e 158 em fase de projecto e é de esperar que a revisão de normas de segurança implique custos financeiros acrescidos e atrasos.
A China (27 reactores em construção e 50 previstos) e a Índia (5 em curso e 18 em projecto), países com crescentes carências de energia, sendo que no subcontinente 40% da população não dispõe de abastecimento regular de electricidade, destacam-se na opção nuclear.
Independentemente dos custos que possam implicar revisões por imperativos de segurança Nova Delhi e Pequim afirmam-se dispostas a manter a aposta no nuclear, mas a situação é menos clara em países como a Indonésia ou Bangladesh ( dois reactores em projecto em ambos os casos) em que alto risco sísmico e de inundações levantam problemas de difícil resolução.
Derrapagens e atrasos
Os atrasos de construção e derrapagens orçamentais que sempre afligiram uma indústria matricialmente dependente de subsídios estatais continuam, por sua vez, a fazer-se sentir.
O exemplo mais gritante surge com os reactores de terceira geração de água pressurizada desenvolvidos por firmas francesas e alemãs.
Os dois reactores em construção em Olkiluoto, Finlândia, e em Flamanville, França, registam atrasos e custos acrescidos.
No caso de Olkiluoto a construção iniciou-se no Verão de 2005, tinha um custo estimado de 3,7 mil milhões de euros, prazo de entrada em funcionamento em 2009 e uma capacidade de produção de 1600 MWe.
A última previsão aponta para a entrada em funcionamento do reactor em 2013 e os custos adicionais superam os 2,7 mil milhões de euros.
Nuclear e crise ambiental
A possibilidade da indústria nuclear (14% da produção total de electricidade) contribuir para uma diminuição célere do aquecimento global confronta-se com dois problemas fundamentais: elevados custos de construção, sobretudo se comparados com estações de última geração abastecidas a gás natural, e prazos dilatados de construção (uma média de 15 anos entre decisão política e conclusão de obra, segundo a AIEA).
O crise ambiental traduz-se na necessidade de reduzir em 25% as emissões de gases com efeito de estufa nesta década e em 80% até 2050, enquanto as projecções apontam, por exemplo, para uma duplicação em 2030 do consumo global de electricidade.
Uma projecção minimalista, de 2008, da "Agência Internacional de Energia" admitia que a produção de electricidade gerada pela indústria nuclear poderia atingir os 475 GWe em 2030, pressupondo a construção de 4,5 reactores por ano.
Nesse cenário a contribuição do nuclear diminuiria para 11% da produção global de energia.
Uma revisão desta projecção em baixa é a partir de agora a hipótese mais provável.
Reactores em funcionamento não contribuem com emissões de dióxido de carbono para o aquecimento global, mas as vantagens comparativas do nuclear em relação a fontes de energia fósseis (sobretudo gás natural) ou renováveis (eólica, geotérmica, solar, biocombustíveis, etc.) continuam a ser contestadas.
A eventualidade de novos sistemas de armazenamento e distribuição de electricidade se tornarem técnica e economicamente viáveis a médio prazo joga igualmente contra a indústria nuclear.
O nuclear sempre foi diferente
Questões de sempre como o uso do nuclear civil para fins militares, riscos de segurança ante desastres naturais, acidentes, avarias ou terrorismo, além de deficiências na supervisão do sector e da problemática gestão de resíduos radioactivos continuam a suscitar preocupação.
Todas as indústrias apresentam riscos e a exploração petrolífera e mineira provocaram um rol de vítimas mortais e desastres ambientais sem comparação com o sector nuclear civil.
A diferença essencial é que a percepção do nuclear surge inevitavelmente associada aos cogumelos atómicos de Hiroxima e Nagasaqui e os "átomos pela paz" nunca dissiparam os temores ante um poder superlativo e incontrolável.
A catástrofe nos reactores de Fukushima, com suas insuficiências de segurança ante um devastador terramoto e maremoto, são o último sinal de uma síndrome nuclear.
Jornal de Negócios
A "Agência Internacional de Energia Atómica" (AIEA) foi criada em 1957 na sequência da iniciativa de Eisenhower, mas o programa de promoção da indústria nuclear civil teve ainda o efeito perverso de facilitar projectos militares clandestinos em países como Israel, Índia, Paquistão ou a África do Sul.
Uma indústria aquém das promessas
Petróleo e carvão baratos limitaram a expansão da indústria até ao final dos anos 60. Objectivos de redução da dependência energética do estrangeiro através do recurso ao nuclear tiveram sorte diversa nos Estados Unidos, França, Alemanha Federal e Japão, enquanto a União Soviética, apesar de auto-suficiente em hidrocarbonetos, prosseguia a expansão do seu sector civil.
O petróleo persistiu, no entanto, como fonte quase exclusiva de combustível para meios de transporte.
O desastre de Three Mile Island, em 1979, na Pensilvânia, cancelou novos projectos nos Estados Unidos, mas a retracção do sector foi provocada sobretudo por custos acrescidos de construção, atrasos na conclusão de projectos, falhas de segurança e variações nos preços de outras fontes de energia.
Chernobil em 1986 acentuou essa tendência global que só começou a ser contrariada na última década à medida que aumentaram as necessidades energéticas de países como a China ou a Índia e a busca de fontes de energia capazes de obviar ao aquecimento global.
Presentemente estão em construção 62 reactores e 158 em fase de projecto e é de esperar que a revisão de normas de segurança implique custos financeiros acrescidos e atrasos.
A China (27 reactores em construção e 50 previstos) e a Índia (5 em curso e 18 em projecto), países com crescentes carências de energia, sendo que no subcontinente 40% da população não dispõe de abastecimento regular de electricidade, destacam-se na opção nuclear.
Independentemente dos custos que possam implicar revisões por imperativos de segurança Nova Delhi e Pequim afirmam-se dispostas a manter a aposta no nuclear, mas a situação é menos clara em países como a Indonésia ou Bangladesh ( dois reactores em projecto em ambos os casos) em que alto risco sísmico e de inundações levantam problemas de difícil resolução.
Derrapagens e atrasos
Os atrasos de construção e derrapagens orçamentais que sempre afligiram uma indústria matricialmente dependente de subsídios estatais continuam, por sua vez, a fazer-se sentir.
O exemplo mais gritante surge com os reactores de terceira geração de água pressurizada desenvolvidos por firmas francesas e alemãs.
Os dois reactores em construção em Olkiluoto, Finlândia, e em Flamanville, França, registam atrasos e custos acrescidos.
No caso de Olkiluoto a construção iniciou-se no Verão de 2005, tinha um custo estimado de 3,7 mil milhões de euros, prazo de entrada em funcionamento em 2009 e uma capacidade de produção de 1600 MWe.
A última previsão aponta para a entrada em funcionamento do reactor em 2013 e os custos adicionais superam os 2,7 mil milhões de euros.
Nuclear e crise ambiental
A possibilidade da indústria nuclear (14% da produção total de electricidade) contribuir para uma diminuição célere do aquecimento global confronta-se com dois problemas fundamentais: elevados custos de construção, sobretudo se comparados com estações de última geração abastecidas a gás natural, e prazos dilatados de construção (uma média de 15 anos entre decisão política e conclusão de obra, segundo a AIEA).
O crise ambiental traduz-se na necessidade de reduzir em 25% as emissões de gases com efeito de estufa nesta década e em 80% até 2050, enquanto as projecções apontam, por exemplo, para uma duplicação em 2030 do consumo global de electricidade.
Uma projecção minimalista, de 2008, da "Agência Internacional de Energia" admitia que a produção de electricidade gerada pela indústria nuclear poderia atingir os 475 GWe em 2030, pressupondo a construção de 4,5 reactores por ano.
Nesse cenário a contribuição do nuclear diminuiria para 11% da produção global de energia.
Uma revisão desta projecção em baixa é a partir de agora a hipótese mais provável.
Reactores em funcionamento não contribuem com emissões de dióxido de carbono para o aquecimento global, mas as vantagens comparativas do nuclear em relação a fontes de energia fósseis (sobretudo gás natural) ou renováveis (eólica, geotérmica, solar, biocombustíveis, etc.) continuam a ser contestadas.
A eventualidade de novos sistemas de armazenamento e distribuição de electricidade se tornarem técnica e economicamente viáveis a médio prazo joga igualmente contra a indústria nuclear.
O nuclear sempre foi diferente
Questões de sempre como o uso do nuclear civil para fins militares, riscos de segurança ante desastres naturais, acidentes, avarias ou terrorismo, além de deficiências na supervisão do sector e da problemática gestão de resíduos radioactivos continuam a suscitar preocupação.
Todas as indústrias apresentam riscos e a exploração petrolífera e mineira provocaram um rol de vítimas mortais e desastres ambientais sem comparação com o sector nuclear civil.
A diferença essencial é que a percepção do nuclear surge inevitavelmente associada aos cogumelos atómicos de Hiroxima e Nagasaqui e os "átomos pela paz" nunca dissiparam os temores ante um poder superlativo e incontrolável.
A catástrofe nos reactores de Fukushima, com suas insuficiências de segurança ante um devastador terramoto e maremoto, são o último sinal de uma síndrome nuclear.
Jornal de Negócios
16 Março 2011
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