Presidente Comissão Europeia 1973-1977
Nem sequer ter o número de telefone de quem mandasse, para ligar a impor as suas razões quando lhe diziam que a Comunidade Económica Europeia seria uma entidade política a ter em conta, era coisa que exasperava Henry Kissinger nos seus tempos como secretário de Estado de Richard Nixon e Gerald Ford.
Ficou desses anos, entre os idos de 1973 e 1977, a sempre invocada interrogação sobre qual o número telefónico da Europa tão apócrifa que, por sinal, o próprio Kissinger dizia nem se lembrar ao certo de ter dito tal coisa.
Kissinger veio a admitir, faz dois anos, que a conturbada questão telefónica ainda que apócrifa acabara afinal por se revelar uma tirada reveladora doutros tempos em que a Comissão Europeia pesava pouco e era presidida pelo esquecido gaulista corso François-Xavier Ortoli.
Os 27 eram então 9 Estados longe das coesões que Jacques Delors viria a promover potencializando o eixo Paris-Berlim.
Questões de peso
Agora, com o Tratado de Lisboa, outra secretária de Estado em Washington ainda não encontrará sequer um código de telefone europeu (apenas 27 indicativos), mas terá na agenda os números, além dos de chefes de Estado e governo de Londres a Roma, do presidente da Comissão, doutro presidente do Conselho Europeu, do Alto Representante para a Política Externa, que também será vice-presidente da Comisão Europeia, e, ainda, do presidente do Parlamento Europeu.
Tanto número é um dos argumentos para que o presidente do Conselho seja, efectivamente, uma personalidade revelante, mas os equívocos equilíbrios do novo arranjo institucional vão ser postos à prova com as nomeação de políticos que, convém não esquecê-lo, terão em conta desde logo possíveis reconduções pela própria natureza das relações de poder.
Tony Blair, com o argumento impecável do seu ex-protegido e actual chefe da diplomacia britânica David Milliband de que é homem com prestígio suficiente para ser ouvido em Washington, Moscovo ou Pequim - apesar do Iraque e do improfícuo interregno como mediador internacional no vespeiro israelo-palestiniano - surge como um candidato irrevogável aos dois anos e meio de presidente da Comissão.
Pouco consensual, o ex-primeiro-ministro de Londres é rejeitado pela própria oposição conservadora britânica, que com toda a probabilidade chegará ao poder no próximo ano, e em alternativa um democrata-cristão como o holandês Jan Peter Balkenende ou um social-democrata como o finlandês Paavo Lipponen são hipóteses a considerar.
Um exercício de equilibrismo
Todos os eventuais candidatos serão avaliados pelos equilíbrios a definir entre famílias políticas e blocos regionais o que exclui à partida um presidente proveniente de um país do sul da Europa.
A nomeação de uma mulher apresentaria a vantagem de reforçar a vertente de representatividade democrática, conforme alega a diplomacia sueca, mas, tirando a ex-presidente irlandesa Mary Robison, nenhuma personalidade parece ter condições políticas para ocupar o cargo.
A liberal sueca Cecilia Malmström ou a ex-presidente da Letónia Vaira Vike-Freiberga apresentam, no entanto, credenciais suficientes para chefiar a diplomacia europeia ainda que o facto do dinamarquês Anders Rasmussen liderar a NATO possa servir de objecção a candidaturas nórdicas como seria ainda o caso doutro finlandês, o actual comissário para o alargamento Olli Rehn.
Na óptica, defendida pelo governo polaco, por exemplo, uma interpretação minimalista das possíveis competências e, sobretudo, capacidade de iniciativa do presidente do Conselho, obriga a um esforço de consensos sem liderança de destaque, passe a contradição dos termos, que levaria à opção por personalidades como o burocrático e mui-federalista primeiro-ministro do Luxemburgo Jean-Claude Junker, de centro-direita.
Um democrata-cristão austríaco, Wolfang Schüssel, é outra solução em carteira para os adeptos de uma gestão cautelosa e arredia a exuberâncias políticas, enquanto Estados como a Holanda, Bélgica e Luxemburgo propõem um presidente que seja oriundo de um país que integre simultaneamente a Zona Euro e o espaço Schengen, excluindo expressamente a candidatura de Blair.
Para pesos-médios de Portugal à Polónia e outros países que eventualmente entre os 27 se mostrem mais preocupados com equilíbrios entre presidente do Conselho, Alto Representante para a Política Externa e Segurança Comum, além do relacionamento complexo com a Comissão Barroso, a negociação em curso está demasiado inquinada.
Há demasiadas condicionantes a ter em conta e a nova arquitectura institucional desfavorece os países mais pequenos.
Independentemente das capacidades de negociação e persuasão dos futuros presidente do Conselho e chefe da diplomacia de Bruxelas, todos têm presente que serão as pessoas escolhidos quem dará efectivamente corpo e peso político aos novos cargos.
São dois cargos que obrigam a pensar uma estratégia única que tem a ver com a imagem e capacidade de intervenção externa da União Europeia e simultaneamente com a coesão e equilíbrios institucionais.
Líderes fracos ou protagonismo excessivo arriscam deriva ou confronto e arriscam acabar mal.
Jornal de Negócios
29 Outubro 2009
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