sexta-feira, 28 de junho de 2013

Dilma e o crime hediondo



   À imagem de Lula da Silva, quando em 2006 viu ameaçada a reeleição pelo escândalo do "Mensalão", Dilma Rousseff vem a um ano das presidenciais propor a convocação de um "plebiscito popular" para reformar o sistema político.

   A presidente, procurando o apoio de governadores e prefeitos de capitais, adiantou, em linguagem pouco precisa, que a consulta visaria autorizar "um processo constituinte específico".

   Só o Congresso pode convocar um plebiscito e, desde logo, Dilma está cativa dos aliados do "Partido do Movimento Democrático Brasileiro", nomeadamente do seu vice-presidente Michel Temer e dos líderes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara dos Deputados, Henrique Alves.

  A oposição, em especial o "Partido da Social Democracia Brasileira", os "Democratas" e a "Mobilização Democrática", criticam Dilma por pretender usurpar competências do Congresso e acusam a presidente de demagogia ao avançar com pactos de regime em áreas económicas, sociais e de justiça sem prévia discussão.

   A reforma reentrou no debate oficialista e oposicionista a partir do momento em que manifestações em São Paulo a 13 de Junho contra aumentos de tarifas de transporte (área de tutela estadual) foram reprimidas de forma torpe e brutal pela polícia e se agigantaram num amorfo e incoerente movimento de constestação à política e aos partidos.

                          Antes que o verme roa as frias carnes

   Expectativas defraudadas da emergente classe média e temores que restrições orçamentais motivadas pela contracção do crescimento económico e alta inflacionária – em particular o défice orçamental equivalente a 2,9% do PIB e uma inflação acima dos 6,5% definidos como tecto para 2013 pelo Banco Central – contam-se entre os motivos difusos que alimentam os protestos.

  A injustiça social que deficientes, medíocres ou péssimos serviços públicos, em particular transportes e saúde, e a elevada carga fiscal (36% do PIB) representam numa altura em que o Brasil aposta em desmesurados investimentos de prestígio pelo Mundial de Futebol e os Jogos Olímpicos ficaram a claro num momento preciso e muito tradicional do calendário político usado para aumentos de tarifas: um ano após as eleições municipais e locais e um ano antes das presidenciais.

  A velha tradição despudorada do paulista Ademar de Barros, que vicejou corrupto dos anos 30 até ao advento da ditadura militar na década de 60, do "rouba, mas faz", já quadra mal.

  A corrupção implica que o que se faz, faz-se mal e muito mais caro à conta do erário público.

  A evidência surge no descontrolo orçamental das obras para o Mundial de Futebol em que materiais de segunda ordem, mão-de-obra desqualificada, estudos mal concebidos, e favorecimentos pessoais e empresariais, carregam uma factura já de si excessiva e injustificada ante as assimetrias sociais do Brasil.

                                      A magna corrupção

  Face a uma questão, ignorada por muitos, apesar de alertas diversos (vide nesta coluna; por exemplo: "Dilma e o rodízio de ministros, 2 de Novembro de 2011) surgem facções do "Partido dos Trabalhadores", incluindo sectores apostados na governamentalização do Ministério Público, a aplaudir a proposta da presidente em tipicar a corrupção com dolo, sob forma consumada ou tentada, em "crime hediondo", tal como sucede com o homicídio, o genocídio ou o estrupo.

   A corrupção é mais do que crime de peculiar gravidade; é estruturante do sistema político do Brasil e essencial para sustento de clientelas.

   Dilma apresenta, neste particular, um cadastro pesadíssimo, por conivência e associação política com malfeitores diversos desde que entrou para o governo em 2002, por mais que pretenda ignorar o óbvio e será incapaz de promover qualquer reforma significativa.

   Erenice Guerra, secretária-executiva da Casa Civil, ou seja, a assessora principal para coordenação do governo, parceira política de Dilma desde 2003, viu-se obrigada a apresentar a demissão em Setembro de 2010 por suspeitas de corrupção e acabou com processo arquivado dois anos depois.

   A chegada de Lula ao Palácio da Alvorada trouxe para a área do poder grupos tradicionalmente excluídos dos centros de decisão.

  A integração do "Partido dos Trabalhadores" num quadro político clientelar e pulverizado pela presença de mais de duas dezenas de partidos no Congresso e um sistema federal em que os desequilíbrios de peso relativo entre os 26 estados são característica marcante acabou por alargar a viciação nepotista e corrupta.

   O esquema ilícito de canalização de fundos para compra de votos no Congresso, o "Mensalão", denunciado em Setembro de 2004 e que um ano depois custaria a chefia da Casa Civil a José Dirceu, substituído por Dilma, foi um momento paradigmático de despudor e sinal de adesão plena de velhos contestatários à desmesura da política como expressão dos interesses mais díspares e inconfessáveis.

                                            A contestação

   A incorporação de novos sectores e suas reivindicações está a dar-se a ritmo irregular e, por vezes, extravasa das normas de integração tacitamente assumidas.

   Surpresas foram propiciadas, por exemplo, em 2010 pelo movimento "Ficha Limpa" visando a interdição de políticos condenados por crimes graves e pelo forte apoio de crentes evangélicos a Marina Silva que obteve 19% dos votos na primeira volta das presidenciais em Outubro do mesmo ano.

   Prestes a fechar-se um ciclo expansionista da economia, promovido pelo "Plano Real" que Fernando Henrique Cardoso lançou em meados de 1993, a repartição de recursos e investimentos para obviar a desigualdades sociais e garantir competitividade implica novas opções políticas.

   Os tumultos e a desordem, a baderna nas ruas e na política, são sinal de repúdio pelo crime hediondo em que viceja a política brasileira.

Jornal de Negócios
26 de Junho 2013

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/detalhe/dilma_e_o_crime_hediondo.html

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Guerras por procuração





   Armar a contragosto facções rebeldes para forçar Bashar al Assad a negociar um cessar-fogo e um acordo político que pacifique a Síria é um erro táctico a que Obama se conformou para aplacar pressões intervencionistas em Washington e que acabará por agudizar a guerra civil.

   Só o fornecimento de grandes quantidades de armas, incluindo mísseis anti-aéreos, poderia reforçar significativamente a capacidade militar do "Exército Livre Sírio" sob o comando de Salim Idriss, o general sunita que desertou há um ano e em que Washington aposta.

   Financiar e armar com parcimónia é ineficaz, acarreta custos políticos desproporcionados e mesmo assim o treino de combatentes e o controlo da distribuição de armas obrigará a uma maior presença no terreno de assessores militares e agentes secretos norte-americanos, britânicos e franceses.

   O desvio de armamento para forças indesejáveis aos olhos das potências ocidentais e da Turquia, mas apoiadas pela Arábia Saudita e o Qatar, é inevitável tanto mais que frentes islamitas radicais como "Ahrar al Sham" combatem em aliança ora com outros grupos islamitas do "Exército Livre Sírio", ora com os jihadistas da "Jahabat al Nusra".

   A criação de zonas seguras, sob o pretexto de protecção humanitária, pressupõe a imposição unilateral de zonas de exclusão aérea no Norte, a partir da Turquia, e no Sul, com bases na Jordânia, que darão pretexto à Rússia e ao Irão para aumentar as vendas de armas a Damasco.

   Zonas de exclusão aéreas implicam confrontos directos com forças governamentais muito para além das áreas destinadas a protecção e acarretam riscos de escalada militar regional e internacional.

  A alegada utilização pontual de armas químicas pelas forças fiéis a al Assad, pretexto em Washington, Paris e Londres para apoio militar directo a grupos da oposição, continua, entretanto, a gerar polémica.

   As divergências patentes na cimeira do G8 tornam claro que o confronto com russos e chineses no Conselho de Segurança dificultará uma eventual operação internacional com apoio da ONU caso se revele necessário intervir para neutralizar arsenais de armas químicas.

   Múltiplas e antagónicas forças integram frentes de oposição não-jihadistas – "Coligação Nacional", "Conselho Nacional", "Comité Nacional de Coordenação", "Exército Livre" – sem que ao terceiro ano de guerra tenham acordado um programa político mínimo para negociação com al Assad ou como plataforma de transição no caso de renúncia ou morte do líder alauíta.

   Num país ameaçado pela partilha territorial a entrada em combate ao lado das forças governamentais do "Hizballah" libanês acentuou o cunho étnico-religioso do conflito, seguindo-se a ruptura entre Damasco e o Cairo com o presidente Al Nusri a dar corpo a apelos de líderes dos "Irmãos Muçulmanos" para a criação de uma frente alargada sunita contra os apoiantes xiitas do herético regime alauíta.

   Os recentes ganhos das tropas de al Assad – a captura de Al Qusair consolidou o domínio dos acessos ao Líbano e às regiões costeiras – indiciam novas ofensivas governamentais para controlo das principais cidades, sobretudo de Aleppo, remetendo os opositores para regiões do Norte e Leste do país.

   Um pacto informal de não-agressão com as milícias curdas no nordeste permitirá, eventualmente, neutralizar mais uma ameaça ao regime que conseguiu estancar deserções militares e mobilizar novos contigentes de combate, ante grupos oposicionistas com desigual capacidade de combate e que carecem de coordenação.

   O ascendente militar de al Assad vai a par do temor pelas depredações e ameaças de grupos salafistas jihadistas que é cada vez maior entre as minorias cristã, druza, ismaialita, curda, e motivo de apreensão para muitos sunitas.

   A guerra civil síria é um conflito generalizado em que clivagens políticas são fortemente marcadas pelas identidades étnico-religiosas e vê agora acentuar-se o confronto por procuração.

   Sunitas anti-al Assad, salafistas do universo da jihad, potências ocidentais em busca de aliados ou clientes, confrontam-se com iranianos e russos, ante a não-interferência interessada de Israel apostada na debilitação de um estado rival e a crítica de chineses, indianos ou brasileiros ao unilateralismo intervencionista de Washington.

   Armar a contragosto facções rebeldes para forçar Bashar al Assad a negociar um cessar-fogo e um acordo político que pacifique a Síria é um erro táctico a que Obama se conformou para aplacar pressões intervencionistas em Washington e que acabará por agudizar a guerra civil.

   Só o fornecimento de grandes quantidades de armas, incluindo mísseis anti-aéreos, poderia reforçar significativamente a capacidade militar do "Exército Livre Sírio" sob o comando de Salim Idriss, o general sunita que desertou há um ano e em que Washington aposta.

   Financiar e armar com parcimónia é ineficaz, acarreta custos políticos desproporcionados e mesmo assim o treino de combatentes e o controlo da distribuição de armas obrigará a uma maior presença no terreno de assessores militares e agentes secretos norte-americanos, britânicos e franceses.

  O desvio de armamento para forças indesejáveis aos olhos das potências ocidentais e da Turquia, mas apoiadas pela Arábia Saudita e o Qatar, é inevitável tanto mais que frentes islamitas radicais como "Ahrar al Sham" combatem em aliança ora com outros grupos islamitas do "Exército Livre Sírio", ora com os jihadistas da "Jahabat al Nusra".

   A criação de zonas seguras, sob o pretexto de protecção humanitária, pressupõe a imposição unilateral de zonas de exclusão aérea no Norte, a partir da Turquia, e no Sul, com bases na Jordânia, que darão pretexto à Rússia e ao Irão para aumentar as vendas de armas a Damasco.

  Zonas de exclusão aéreas implicam confrontos directos com forças governamentais muito para além das áreas destinadas a protecção e acarretam riscos de escalada militar regional e internacional.

  A alegada utilização pontual de armas químicas pelas forças fiéis a al Assad, pretexto em Washington, Paris e Londres para apoio militar directo a grupos da oposição, continua, entretanto, a gerar polémica.

  As divergências patentes na cimeira do G8 tornam claro que o confronto com russos e chineses no Conselho de Segurança dificultará uma eventual operação internacional com apoio da ONU caso se revele necessário intervir para neutralizar arsenais de armas químicas.

  Múltiplas e antagónicas forças integram frentes de oposição não-jihadistas – "Coligação Nacional", "Conselho Nacional", "Comité Nacional de Coordenação", "Exército Livre" – sem que ao terceiro ano de guerra tenham acordado um programa político mínimo para negociação com al Assad ou como plataforma de transição no caso de renúncia ou morte do líder alauíta.

  Num país ameaçado pela partilha territorial a entrada em combate ao lado das forças governamentais do "Hizballah" libanês acentuou o cunho étnico-religioso do conflito, seguindo-se a ruptura entre Damasco e o Cairo com o presidente Al Nusri a dar corpo a apelos de líderes dos "Irmãos Muçulmanos" para a criação de uma frente alargada sunita contra os apoiantes xiitas do herético regime alauíta.

  Os recentes ganhos das tropas de al Assad – a captura de Al Qusair consolidou o domínio dos acessos ao Líbano e às regiões costeiras – indiciam novas ofensivas governamentais para controlo das principais cidades, sobretudo de Aleppo, remetendo os opositores para regiões do Norte e Leste do país.

   Um pacto informal de não-agressão com as milícias curdas no nordeste permitirá, eventualmente, neutralizar mais uma ameaça ao regime que conseguiu estancar deserções militares e mobilizar novos contigentes de combate, ante grupos oposicionistas com desigual capacidade de combate e que carecem de coordenação.

   O ascendente militar de al Assad vai a par do temor pelas depredações e ameaças de grupos salafistas jihadistas que é cada vez maior entre as minorias cristã, druza, ismaialita, curda, e motivo de apreensão para muitos sunitas.

   A guerra civil síria é um conflito generalizado em que clivagens políticas são fortemente marcadas pelas identidades étnico-religiosas e vê agora acentuar-se o confronto por procuração.

   Sunitas anti-al Assad, salafistas do universo da jihad, potências ocidentais em busca de aliados ou clientes, confrontam-se com iranianos e russos, ante a não-interferência interessada de Israel apostada na debilitação de um estado rival e a crítica de chineses, indianos ou brasileiros ao unilateralismo intervencionista de Washington.

Jornal de Negócios
19 Junho 2013
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quinta-feira, 13 de junho de 2013

Obama e a escuta sem fronteiras





     "Não é sem motivo que, nos últimos tempos, se diz um pouco por toda a parte que seja quem for que exerça ascendente sobre o Palácio dos Sonhos deterá as chaves do Estado."

Ismail Kadaré, "O Palácio dos Sonhos"


   Era uma vez um sultão que queria classificar e examinar a totalidade dos sonhos dos súbditos em busca de sinais divinos capazes de esconjurarem o mal, evitarem a desgraça e propiciarem até novas ideias.

  Esta quimera d’ "O Palácio dos Sonhos", pesadelo do romancista Ismail Kadaré na Albânia comunista dos anos 80, alastra, agora, vivaz na incessante recolha de dados engendrada pela "National Security Agency" (NSA) norte-americana.

  Os programas de monitorização de comunicações telefónicas e no ciberespaço, denunciados por um jovem técnico informático ex-funcionário da CIA e empregado por uma companhia contratada pela NSA, assentam no princípio de que quanto mais exaustiva a base de dados disponível tanto maior a possibilidade de detectar indícios de conjuras.

  A vigilância electrónica da actividade de organizações estatais e civis, empresas, associações e indivíduos segue a mesma regra e provê informação privilegiada de natureza política, militar, científica, económica e financeira.

  Depois do 11 de Setembro a recolha e análise computarizadas de comunicações cresceram desmesuradamente nos Estados Unidos, assumindo um pendor cada vez mais intrusivo, enquanto as decisões tomadas pela Casa Branca ou comissões do Congresso são mantidas em segredo.

  A expansão da actividade das agências empenhadas na vigilância electrónica, sobretudo da NSA, a subcontratação de empresas privadas, o aumento de pessoas com acesso a dados classificados e o afrouxamento de procedimentos de segurança tiveram o contraponto em espectaculares fugas de informação levadas a cabo por técnicos confinados a modestos escalões.

  Em 2010, o soldado Bradley Manning passou material embaraçoso, mas aquém da classificação "top secret" para "Wikileaks" e, desta feita, surge Edward Snowden num acto muito mais gravoso de denúncia do "Big Brother", punível pela legislação do seu país, que pretende definir como "objecção de consciência".

                                        Segredos e garantias

   "Google", "Microsoft" ou "Facebook" de uma forma ou de outra conformam-se aos ditames do "Foreign Intelligence Surveillance Act", revisto em 2008, que as obriga a cooperar na recolha de informação sobre cidadãos estrangeiros que alegadamente representem uma ameaça de segurança.

   Sendo sigilosos os procedimentos técnicos, são igualmente secretas as decisões do tribunal especial em Washington que julga pedidos de instituições governamentais e eventuais objecções das empresas.

   A vigilância electrónica de comunicações telefónicas nos Estados Unidos, excluindo, em princípio o teor das conversas requerendo autorização judicial, é feita, por seu turno, noutro enquadramento legal que, em última análise, exclui salvaguardas para cidadãos, empresas e entidades estrangeiras.

  O pacto de cooperação da NSA com o Canadá, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia – e, eventualmente, acordos secretos com outros estados – permite contornar limitações legais quanto à vigilância de cidadãos norte-americanos e vale o mesmo para os demais parceiros em relação aos seus concidadãos.

   Dada a prevalência de empresas norte-americanas na economia digital e no sector de comunicações todos os utentes dos seus serviços têm razões acrescidas para duvidar das garantias de privacidade que lhes sejam apresentadas.

   No emaranhado de interesses contraditórios das diversas entidades colectoras de informação e dos departamentos e agências que definem e implementam políticas nos Estados Unidos todo e qualquer dado confidencial sobre aliado ou adversário está sujeito a ser utilizado não apenas na prevenção e combate ao terrorismo, mas, ainda, para fins inconfessáveis de concorrência comercial ou espionagem industrial.

                                   Do alto do panóptico

  Washington abusa da vantagem tecnológica e económica, mas apenas dá mostra do que será a prática a que outros estados com importantes empresas informáticas e de telecomunicações não hesitarão igualmente a recorrer.

  Porque o mundo é uma selva, a União Europeia, que conta com estados prevaricadores na matéria, nas negociações para um acordo comercial com Washington terá de exigir maiores e mais precisas garantias sobre privacidade de comunicações e dados digitais.

  Obama e os seus, na senda de Bush, almejando o topo de um imenso panóptico, tendem à escuta sem fronteiras e olvidam que há mais mundo.

Jornal de Negócios
12 de Junho 2013

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sábado, 1 de junho de 2013

O paciente argentino




"Veja"


  A patologia ciclotímica da economia e política argentinas algo terá que ver com a inaudita proliferação de psicólogos, psicoterapeutas e psicanalistas pelas bandas do Rio del Plata e as celebrações de uma década de kirchenismo aparentam ter agravado as taras da nação.

   Aquando da sua eleição presidencial em 25 de Maio de 2003, Néstor Kirchner prometeu um peronismo de estilo novo e a alta das matérias-primas – com a soja à cabeça – ajudou a superar a crise e bancarrota de 2001-2002 legadas pelo radical Fernando de la Rúa.

  O governador da província de Santa Cruz instrumentalizou a seu favor a administração pública – a exemplo de outros avatares do "justicialismo" como Carlos Menem, presidente de 1989 a 1999 –, levou da Patagónia para Buenos Aires a panóplia tradicional de fiéis e, sobretudo, a intransigência no recurso aos poderes do estado para esmagar, neutralizar ou seduzir rivais e opositores.

  No mandato de Néstor as receitas das exportações agropecuárias permitiram reduzir a dívida externa (138% do PIB em 2003; presentemente 40%) de um país irradiado dos mercados desde Dezembro de 2001 graças ao recurso às reservas em divisas do Banco Central.

  Néstor e sua mulher Cristina, que lhe sucedeu em 2007, acabaram inevitavelmente por comprometer a independência do Banco Central e, apesar das reestruturações da dívida, compromissos pendentes somam 23 230 milhões de dólares.

  Processos pendentes em tribunais dos Estados Unidos mantêm o estado argentino refém de fundos de investimento que recusam aceitar perdas aceites por outros credores em 2005 e 2010.

  Ao esfumar-se o excedente comercial, o executivo de Cristina impôs em 2011 controlos cambiais numa altura em que a Argentina se via obrigada pela primeira vez a importar petróleo e gás desde a privatização da "Yacimientos Petrolíferos Fiscales" (YPF) no início da década de 90.

  Ao abrir esta semana, o câmbio oficial de venda do dólar era de 5,27 pesos e no mercado paralelo atingia os 8,95, enquanto detentores de cartões de crédito exploravam as vantagens de compensadoras aquisições em dólares no estrangeiro apesar das taxas em vigor.

  O fim-de-semana da festa da década de kirchenismo deu em ressaca na segunda-feira quando foi anunciado que a "Câmara de Comércio Internacional" de Paris decidira que a YPF teria de pagar por quebra de contratos em 2009 para fornecimento de gás 1 400 milhões de dólares a empresas brasileiras.

  A nacionalização em Abril do ano passado de 51% da YPF, em prejuízo da "Repsol" espanhola que exige receber como compensação 8 mil milhões de euros, surgiu como um corolário de diversos confrontos sociais que escaparam ao controlo dos Kirchner ainda antes da morte do marido de Cristina em 2010.

  Quando Cristina foi reeleita em 2011 eram já irremediáveis os efeitos nefastos do confronto com os próceres do sector agropecuário, taxado pelo governo a partir de 2008 a níveis considerados incomportáveis pelos produtores argentinos, que degenerou noutro conflito contra os "media" críticos da presidente.

   Desde então acentuou-se o controlo de nomeações de juízes e de responsáveis do Banco Central, a manipulação descarada das estatísticas económicas dos organismos do estado denunciada inclusivamente pelo FMI.

  As estimativas oficiais de taxas de inflação estão na ordem dos 10%, ao passo que entidades independentes referem valores rondando 24%, e tamanha discrepância com efeitos nas negociações salariais acabou por levar à ruptura com os sindicatos tradicionalmente apoiantes dos sucessivos avatares do "justicialismo" do eterno general Juan Perón que se finou em 1974.

  A legislação dirigida contra o grupo de media "Clarín", opositor declarado da presidente, ainda aguarda decisão do Supremo Tribunal e, é, por seu turno, sinal de prepotências políticas que alienaram os tradicionais apoios sindicais do "justicialismo".

  Na linha da frente "justicialista" anti-Cristina para as eleições legislativas de Outubro encontram-se figuras como Roberto Lavagna – antigo ministro da economia de Néstor – e Hugo Moyano – líder da "Confederação Geral do Trabalho" e inimigo declarado da presidente nos últimos anos.

  Ainda assim, face às fragilidades das oposições, incluindo radicais e progressistas, a senhora da "Casa Rosada", o palácio presidencial de Buenos Aires, continuará provavelmente a ditar os termos da compita política.

  Nada indica que psicanalistas, psicoterapeutas e psicólogos do Rio del Plata venham a perder pacientes.


Jornal de Negócios, 29 Maio 2012

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domingo, 26 de maio de 2013

Uma compra de emergência





   Na mesma semana em que um porta-aviões norte-americano testava com êxito a descolagem de um caça furtivo não-tripulado, o governo francês anunciava ter obtido do Pentágono autorização para a compra urgente de veículos aéreos não-tripulados num manifesto exemplo da inferioridade tecnológica militar europeia.

   A descolagem de 13 de Maio ao largo da Virgínia, a que se seguirão testes de aterragem em porta-aviões, marca um assinalável avanço técnico para dotar a Marinha dos Estados Unidos de capacidade de reconhecimento e ataque com veículos aéreos não-tripulados de longo alcance.

   O caça "X-47B", desenvolvido pela "Northrop Grumman", conta com dispositivos para escapar ou dificultar em extremo a detecção por radar – ao contrário dos "Predator" e "Reaper" em uso no Afeganistão, Paquistão e Iémen – e dispõe de uma autonomia de 2 mil milhas naúticas.

  O veículo pode ser utilizado para reconhecimento e ataque e, a confirmar-se o seu potencial operacional, permitirá reduzir a vulnerabilidade da Marinha norte-americana a mísseis anti-navios de médio alcance.

   Apesar dos óbices de uma crescente dependência de veículos aéreos não-tripulados e de robots em meio terrestre e aquático para acções de reconhecimento e combate, a superioridade tecnológica dos Estados Unidos apresenta presentemente inegáveis vantagens militares e políticas.

   Veículos "Predator" norte-americanos baseados em Niamey, no Níger, fazem reconhecimento do terreno para as tropas francesas e africanas mobilizadas para a campanha militar no Mali.

   Paris apenas dispõe no teatro de guerra de dois aparelhos "Harfang", da série entrada ao serviço em 2008 a partir de modelo israelita, com um raio de acção de mil quilómetros e velocidade máxima de 207 km/hora que, conforme reconheceu na semana passada o ministro da Defesa, Jean-Yves Le Drian, não dão resposta às necessidades operacionais.

   Le Drian, segundo revelou o jornal "Le Monde", obteve recentemente luz verde do Pentágono, aguardando autorização do Congresso de Washington, para compra de dois "Reaper MQ-9" para missões de reconhecimento no Mali, podendo Paris vir a adquirir até sete aparelhos num montante de 300 milhões de euros.

  Os aparelhos, fabricados pela "General Atomics", atingem uma velocidade máxima de 483 km/hora, cobrem um raio de acção de 5 925 quilómetros, sendo a altitude operacional de 15 240 metros pretendendo Paris que entrem ao serviço no Mali até final deste ano.

  O ministro francês reconheceu a urgência da aquisição, referindo que só os Estados Unidos e Israel surgem como potenciais fornecedores de veículos aéreos militares não-tripulados, e apelou à cooperação europeia na área da defesa.

   O panorama apresenta-se, no entanto, desolador.

  Projectos de desenvolvimento de veículos aéreos não-tripulados foram lançados pela "BAE" britânica e a "Dassault" francesa, por um lado, e o consórcio paneuropeu "EADS", por outro, com vista a dispor de um modelo próprio até ao final da década.

  Ao contrário da aviação civil em que a "Airbus" se revelou um rival à altura da "Boeing" a partir da década de 70, na área militar a concorrência entre empresas francesas, britânicas, alemãs, espanholas e italianas tem vindo a dificultar a concretização de projectos comuns.

  O atraso no desenvolvimento de veículos aéreos não-tripulados, tal como de caças, é sintomático da falta de meios da "Agência Europeia de Defesa" e, sobretudo, da escassa importância que os governos europeus atribuem à entidade que criaram em 2004 para cooperação das indústrias militares.

  As urgências políticas e bélicas, acentuadas pelas crises no Maghreb e noutras regiões de África para onde estados europeus se vêem obrigados a mobilizar forças militares, enquanto os Estados Unidos se reservam um papel essencialmente de apoio logístico e operacional, põem a nu a fragilidade das capacidades bélicas de países com ambições de projecção de força como a França ou a Grã-Bretanha.

   Desfasamento e atraso tecnológico reduzem a margem de manobra dos estados europeus e paradoxalmente podem até reforçar tendências do outro lado de Atlântico para um recurso desproporcionado à guerra por controlo remoto.

   Por maiores vantagens que ofereça a guerra à distância os conflitos obrigam irremediavelmente à presença militar e à negociação política no terreno.

  Que o digam as tropas franceses e nigerianas que ainda estão longe de conseguir controlar Kidal, no leste do Mali, de neutralizar grupos islamitas e negociar com milícias e partidos tuareges, bambara, fula e songhai para concretizarem uma eleição presidencial em Julho como primeiro passo para a busca de uma pacificação política.

Jornal de Negócios
22 de Maio 2013

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/joao_carlos_barradas/detalhe/uma_compra_de_emergencia.html


quarta-feira, 15 de maio de 2013

O abuso "Bloomberg"




  Soam a falso as desculpas apresentadas pela "Bloomberg LP" depois de revogar o acesso dos jornalistas da empresa a informação confidencial de clientes dos seus serviços financeiros imediatamente após ter sido confrontada com uma queixa da "Goldman Sachs".

  A "Bloomberg" afirma ter retirado em Abril o privilégio que permitia aos jornalistas acederem a informação sobre o histórico dos terminais, incluindo funções utilizadas, solicitações de apoio técnico e respectivas transcrições, além de fluxo de mensagens, segundo o director-executivo da empresa Daniel Doctoroff. 

  Os destinatários e conteúdo das mensagens, a identificação de acções ou obrigações, por exemplo, não seriam, contudo, acessíveis aos jornalistas que podiam obter endereços de e-mail ou números de telefone dos utentes dos mais de 135 mil terminais ao que alega a "Bloomberg".

  A alteração de privilégios informáticos dos jornalistas da "Bloomberg", também partilhada por pessoal do sector de marketing e vendas, foi comunicada num memo interno na passada sexta-feira em que Doctoroff admitia o erro de permitir a repórteres o acesso parcial a dados confidenciais dos clientes.

  A queixa da "Goldman Sachs" fora noticiada nesse dia pelo tablóide "New York Post" e, segundo informações posteriores, teria sido motivada por uma repórter da "Bloomberg" inquirir junto da delegação em Hong Kong sobre o estatuto e paradeiro de determinado sócio do banco revelando ter conhecimento do histórico do seu terminal.

  Apesar da confidencialidade ser de regra no sector, rapidamente surgiram mais notícias de suspeitas de outros clientes de peso, designadamente por parte do "JPMorgan Chase", sobre os procedimentos utilizados pelos jornalistas da "Bloomberg".

   No caso do "JPMorgan Chase" os repórteres teriam, alegadamente, tido acesso a informação privilegiada ao investigarem em 2012 as perdas no montante de 2 mil milhões de dólares do corretor Bruno Iksil na delegação de Londres.

   Já em 2011 a "UBS" questionara eventual acesso irregular a dados sobre utilização de terminais por parte de jornalistas da "Bloomberg" que investigavam o corretor Kweku Adoboli por suspeita de fraude na perda de 2 mil milhões de dólares em investimentos.

   As suspeitas e apreensões dos clientes dos terminais da "Bloomberg", de bancos centrais a ministérios passando por investidores públicos e privados, resultaram numa série de pedidos de informação sobre eventuais riscos de quebra de confidencialidade.

  A divulgação acidental de mais de 10 mil mensagens trocadas entre corretores no âmbito de testes acordados com um cliente da "Bloomberg", noticiada esta terça-feira pelo "Financial Times", apesar de não ter relação directa com os privilégios informáticos que a empresa concedia aos seus jornalistas, veio turvar ainda mais as águas.

  A "Bloomberg" começou a oferecer informação económico-financeira em 1982, conta presentemente com mais de 15 mil funcionários, e a sua quota de mercado ronda os 30%, tendo facturado 7,9 mil milhões de dólares em 2012.

  Ao contrário de concorrentes como a "Thomson Reuters" ou a "Dow Jones", a "Bloomberg" depois de ter iniciado serviços noticiosos em 1990 optou por permitir o acesso de jornalistas a informação privilegiada gerada pelos serviços financeiros e de negócios, a principal fonte de receitas da empresa.

  Matthew Winkler, editor-chefe da "Bloomberg News", veio a público admitir tratar-se de um "erro indesculpável", mas o mal está feito e os mais de 2400 jornalistas da empresa, que produzem informação de altíssima qualidade, vão pagar pelos abusos em que foram coniventes.

  A investigação sobre a gigantesca rede de negócios urdida pela elite comunista chinesa ("Revolution to Riches") que a "Bloomberg News" divulgou no final do ano passado é um exemplo de jornalismo de primeira água que contou com todas as vantagens do acesso a muito informação propiciada pelos terminais dos serviços económico-financeiros.

  Inquéritos que estão a ser levados a cabo em todo o mundo sobre a forma como jornalistas da "Bloomberg" obtiveram determinadas informações irão confirmar pontualmente as óbvias facilidades de que gozaram ao acederem a dados tidos por confidenciais.

  A integridade dos dados e a confidencialidade sobre a utilização que os clientes fazem dos serviços da "Bloomberg" foram postos em causa pela própria empresa.

  Gestores, responsáveis dos diversos serviços da "Bloomberg" e os jornalistas da casa foram todos coniventes nestes actos de abuso.


Jornal de Negócios
15 de Maio 2013
http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/detalhe/o_abuso_bloomberg.html

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Massacres em catadupa





   A entrada em combate na Síria das milícias xiitas do "Hizballah" libanês ao lado das forças de Bashar al Assad acaba de marcar o momento em que o conflito étnico-religioso entrou numa fase irreversível de guerra total.

  Os militantes do "Hizballah" desde o fim-de-semana que lutam com as forças governamentais em Al Qusair, uma cidade a menos de 20 quilómetros da fronteira libanesa nas mãos de combatentes sunitas nominalmente fiéis ao "Exército Livre da Síria".

  A luta por Al Qusair visa o controlo do acesso à fronteira nordeste do Líbano e a Tartus e Latakia, províncias costeiras onde predomina a minoria alauíta de al Assad e palco de recentes massacres de alegados opositores sunitas.

  O alastrar das violências a Tartus e Latakia é sinal de que os alauítas -- grupo étnico-religioso seguidor de uma variante esotérica do xiismo, representando cerca de 10% da população -- pretendem garantir um bastião seguro no caso do clã al Assad perder o controlo da capital e de Aleppo, a maior cidade do país.

   O "Hizballah", aliado político de Damasco e Teerão, tem vindo a denunciar os massacres de que têm sido alvo xiitas e alauítas em Al Qusair e ao intervir nos combates assume uma clara solidariedade étnico-religiosa que ultrapassa a tradicional aliança política com Damasco e Teerão.

   O risco do "Hizballah" se envolver irremediavelmente na guerra civil síria arrasta, por sua vez, a maioria da comunidade xiita libanesa para nova situação de confronto com os seus conterrâneos sunitas, druzos e cristãos.

   No terceiro ano de guerra a radicalização acentua-se igualmente entre os sunitas -- mais de 70% da população --, alienando cristãos, druzos, ismaelitas e curdos, comunidades que cada vez mais alimentam o fluxo de refugiados em busca da ajuda dos correlegionários nos países vizinhos.

                                     O temor das minorias

   As minorias mostram-se temerosas do peso esmagador das facções islamitas ligadas aos "Irmãos Muçulmanos" e da crescente influência de organizações salafistas jihadistas como a "Jahabat al Nusra" ("Frente para a Vitória do Povo Sírio") capazes de virem a replicar as violências ocorridas no vizinho Iraque.

  O sistema de patrocínio imposto pelos alauítas a partir dos anos 60 e envolvendo as minorias e parte da burguesia sunita, além de tribos de filiação sunita como os Hadidyn ou os Shammar, foi destruído pela guerra.

   Só os curdos podem considerar uma remota possibilidade de autonomia territorial no nordeste da Síria, apesar de a comunidade estar profundamente dividida entre o "Partido da União Democrática", ligado ao "Partido dos Trabalhadores do Curdistão" -- inimigo número um de Ancara -- e o "Conselho Nacional Curdo", uma coligação apoiada pelo governo regional do Curdistão iraquiano.

   No campo sunita as centenas de milícias nominalmente agregadas no "Exército Livre da Síria" não acatam de facto orientações políticas da heteróclita "Coligação Nacional Síria", presidida a prazo pelo sunita Mouaz Al Kathib, o que retira eficácia ao apoio diplomático e militar de norte-americanos, britânicos, franceses ou turcos.

   O fracasso de uma frente unitária, multiétnica e plurireligiosa da oposição é agravado pelo apoio financeiro do Qatar e da Arábia Saudita a grupos islamitas com o objectivo de derrubar al Assad e fazer claudicar o único aliado regional do Irão.

                                  Veleidades estrangeiras

  Os ataques israelitas revelam, por sua vez, a limitadíssima capacidade de influência externa numa guerra civil que se arrastará até à capitulação ou extermínio dos alauítas às mãos de milícias sunitas.

   Depois, será a vez das facções vencedoras medirem forças e, consciente de que terá de aproveitar esta oportunidade em que a desagregação do estado sírio impede uma retaliação convencional, Telavive limita-se a precaver enquanto possível a transferência de armamento sírio e iraniano para o "Hizballah".

  Israel terá, contudo, de conter as suas intervenções militares e limitá-las a casos extremos de transferências de armas convencionais ou químicas para o "Hizballah" ou grupos terroristas de forma a evitar que o conflito alastre a partir da fronteira sul do Líbano.

   As polémicas sobre eventual recurso pontual a armas químicas por parte de forças governamentais ou grupos rebeldes irão prosseguir dada a impossibilidade de inspecção conclusiva no terreno por especialistas da ONU.

   Os diferendos estratégicos entre Washington, Moscovo, Pequim e Nova Delhi condicionarão, ainda, uma eventual intervenção militar para salvaguarda dos arsenais de armas químicas que implicará inicialmente o envio para grande número de localidades na Síria de dezenas de milhares de soldados (75 mil homens, num cenário posto a circular pelo Pentágono) e centenas de especialistas.

  Capitulação por exaustão e acantonamento nas montanhas da costa do Mediterrâneo ante ameaça de extermínio e remoção forçada de populações é o destino dos alauítas.

  Refúgio junto de comunidades congéneres nos países vizinhos ou aceitação de estatuto subordinado ou automonia muito limitada é o que se vislumbra para as minorias ante a expectativa de uma vitória sunita que obrigará a um acerto de contas entre jihadistas, salafistas, islamitas conservadores e as quase extintas facções secularistas árabes.


Jornal de Negócios
8 de Maio 2013
http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/joao_carlos_barradas/detalhe/massacres_em_catadupa.html