domingo, 16 de setembro de 2012

A arrogância da oligarquia angolana



   A imprensa governamental de Luanda nunca se fez rogada nas críticas à real ou alegada conivência de políticos e jornalistas portugueses com inimigos do regime ou meros críticos do estado de coisas em Angola.

   Agora tem vindo a subir de tom nas críticas, enquanto por cá se faz de conta que não se passa nada.

   Mas passa e à medida que aumentam os investimentos angolanos em Portugal os círculos governamentais de Luanda exigem abertamente declarações indiscutíveis de apoio ao regime.

   Basta este exemplo.

   Um editorial do muito oficial Jornal de Angola denunciava a 6 de Março de 2011 ameaças reais à paz e estabilidade no país que marcha rumo à democracia e ao progresso.

("A Palavra do Director", de José Ribeiro pode ser lida aqui

    Lamentava o director José Ribeiro, condenando "os insaciáveis da desgraça", que nenhum país ocidental tivesse manifestado solidariedade ao governo de Luanda.

   Acusava um político do partido do governo de Lisboa de insultar o Presidente José Eduardo dos Santos e vaticinar a queda do presidente angolano.

  Deplorava o Jornal de Angola que ninguém na cena política portuguesa se tivesse demarcado e condenado graves incitações ao golpismo contra o governo de Luanda.

  Diz taxativo o jornal governamental que os angolanos são atacados e insultados. 

  Pior ainda: Portugal e outros países ocidentais que se dizem amigos, mergulham num silêncio sepulcral face a esta falta de respeito.

  Tudo um sinal de que há muita gente que não esconde estar preparada para aproveitar o menor sinal de fraqueza dos angolanos.

  Afinal muitos dos que se dizem amigos estão ansiosos pelo mais pequeno fracasso.

  Todo este arrazoado do director do Jornal de Angola por causa de apelos a uma manifestação em Luanda contra o governo.

  É claro como água que em Luanda se exige da parte do governo português, da oposição portuguesa, de todos os portugueses, declarações inabaláveis de apoio ao regime. Menos que isso é visto como um insulto.

 Está a claro a arrogância da elite que enriqueceu com os diamantes e o petróleo.  

TSF / O Mundo num Minuto
07 Março 2011

Terrorismo Olímpico





    Há sete anos, Tony Blair regozijava-se com a atribuição a Londres dos Jogos da XXX Olimpíada, mas na manhã seguinte, 7 de Julho, quatro bombistas suicidas atacavam o sistema de transportes da capital provocando 52 mortos e mais de 700 feridos.

   Nestes Jogos de Verão paira sobre Londres o espectro dos atentados perpetrados por três islamistas de origem paquistanesa e jamaicana, com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos, e criados em Inglaterra.

   Da Conspiração da Pólvora, de 1605, para fazer explodir a Casa dos Lordes e matar o rei Jaime I, aos ataques do IRA Provisório, entre 1973 e 1997, Londres tem uma longa história de atribulações terroristas e retaliações governamentais, mas estas Olimpíadas batem recordes de preocupações securitárias.

   A magnitude dos atentados da Al Qaeda contra os Estados Unidos, em 2001, acarretou o reforço de medidas de segurança e legislação securitária e nos Jogos Olímpicos de Atenas e Pequim, ainda que sob regimes políticos diversos, os custos de protecção de pessoas e bens dispararam.

   Nas Olimpíadas gregas a factura de segurança terá rondado 1,24 mil milhões de euros e em Londres essas despesas deverão duplicar, correspondendo a 15% ou 20% dos custos totais.

   A candidatura de Londres foi apresentada como um projecto de baixo custo (2,37 mil milhões de libras/3,02 mil milhões de euros), capaz de reabilitar zonas degradadas do "East End", e destinado a projectar uma imagem de cidade aberta e inovadora.

   Os custos para o erário público ascendem, no entanto, a 11 mil milhões de libras, segundo apurou uma comissão parlamentar, sendo altamente duvidoso um retorno positivo deste investimento.

   Além do previsível congestionamento do sistema de transportes público e da circulação rodoviária, ferroviária e aérea, o terrorismo representa a principal ameaça a "Londres 2012", de acordo com a estimativa oficial de riscos que contempla ainda actos de violência ligados ao crime organizado ou a extremistas britânicos, alterações da ordem pública, acidentes e desastres naturais.

    A hipermediatização dos Jogos Olímpicos, em crescendo desde as emissões televisivas de Roma em 1960 para 21 países, transforma o evento num pólo de atracção para acções de propaganda oficial e contra-propaganda, actos de protesto pacífico e atentados terroristas.

   O historial terrorista das Olimpíadas resume-se, contudo, ao assassinato de onze atletas e treinadores israelitas por um comando palestiniano do "Setembro Negro" em Munique, em 1972, e à morte de dois espectadores em Atlanta, em 1996, na explosão de uma bomba colocada por um extremista de direita em protesto contra o "socialismo global".

   O "Comité Olímpico Internacional", por sua vez, só a partir de 2004 passou a subscrever apólices de seguro contra o cancelamento parcial ou total dos eventos desportivos devido a actos de terrorismo.

   Os Jogos de Londres vão decorrer sob o risco de atentado terrorista "muito provável", na terminologia oficial, a que acresce o alojamento de participantes e a realização de grande número de eventos desportivos numa zona do leste da cidade caracterizada por altas taxas de criminalidade.

   Os exercícios com mísseis anti-aéreos em parques, nos terraços e telhados de edifícios públicos e residenciais foram apenas um dos mais perturbantes episódios das vastas medidas de segurança em curso e evidenciam o temor a atentados.

   De "lobos solitários" de extrema-direita a acções coordenadas por organizações islamitas terroristas da Somália, Iémen ou Paquistão a lista de potenciais atacantes é extensa, mas o maior risco advém do confronto entre Israel e o Irão.

   Após o atentado na semana passada em Burgas, que provocou a morte a cinco turistas israelitas e a um motorista búlgaro, a polícia de Nova Iorque fez chegar aos "media" um estudo indicando que os "Guardas Revolucionários" do Irão ou seus agentes teriam estado envolvidos em nove tentativas de ataques a alvos judeus na Bulgária, Tailândia, Índia, Quénia, Geórgia, Arzebeijão e Chipre.

   O porta-voz do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu acusou, por seu turno, agentes iranianos e do "Hizballah" libanês de envolvimento directo em 20 ataques terroristas contra israelitas no estrangeiro ocorridos no último ano.

   Qualquer atentado em Londres que possa ser atribuído, justificadamente ou não, a agentes a soldo de Teerão será um passo mais no caminho da guerra aberta entre Israel e o Irão com inevitável envolvimento norte-americano.


  
Jornal de Negócios
25 Julho 2012

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Uma temporada no Inferno



   Há uma aviltante e insultuosa falta de atenção ao detalhe quando os cortes nas remunerações do funcionalismo público abrem caminho a uma redução generalizada dos salários, mas as subvenções mensais vitalícias de antigos detentores de cargos políticos quedam intocadas.

   É uma opção ofensiva porque toda e qualquer justificação política, moral e técnica de um orçamento em regime democrático tem de atender a regras mínimas de equidade dos cidadãos e contribuintes.

   É um erro crasso porque ao privilegiar alguns elementos da elite política descredibiliza por associação negativa instituições essenciais à democracia representativa.

                                       Questão de princípio

   É irrelevante que o montante das subvenções vitalícias de ex-deputados, antigos membros do governo, juízes do Tribunal Constitucional que não tenham sido magistrados de carreira, Presidentes da República ou primeiros-ministros, mal ultrapasse os 10 milhões de euros.

   "Dar o exemplo" é elemento essencial de uma estratégia para tentar gerar consensos mínimos quanto à aceitação de penosas medidas de austeridade e os presentes e pretéritos detentores dos principais cargos decisórios não podem descartar responsabilidades nesta matéria.

  Num País onde a eficácia, probidade e boa-fé do Estado deixam muito a desejar, a mínima suspeita de privilégio injustificado ou desproporcionado propicia indignações e repulsas dificilmente encaixáveis pelo sistema político.

   Para o caldo da cultura de protesto convergem factores díspares, mas todos eles relevam da alienação face à situação vigente que nunca cessa de se degradar.

                                   Degradação do Estado

   Cargos de alta exigência de qualificações na administração política revelam-se cada vez menos atraentes e acentua-se o desprestígio do desempenho de grande número de funções públicas ao mesmo tempo que se degrada a qualidade e imagem dos quadros partidários que monopolizam a quase totalidade da representação política.

   As medidas penalizadoras do funcionalismo público foram imediatamente contestados por representantes dos sectores mais qualificados, nomeadamente entre o professorado académico, invocando precisamente critérios de mérito e competitividade numa abruptamente estancada progressão nas carreiras.

   O nojo face à política confundida com o político cada vez mais suspeito de conivência com interesses obscuros de cliques partidárias ou do grande capital vai fazendo, assim, o seu caminho.

    Carências de financiamento e pessoal limitam o exercício de funções de soberania e de garantias fundamentais que o estado deve aos cidadãos em matéria de segurança, educação, saúde e subsistência, enquanto a recessão económica agrava desigualdades sociais.

   Nem cumpre função útil, nem se dá ao respeito, são, pois, duas pechas assacadas ao Estado.

   Em Portugal, tal como em diversos países mais afectados pela crise económico-financeira, a frustação de expectativas de promoção social alimentadas ao longo da última década gera raivas e desgostos que atravessam gerações.

                                       A angústia da contestação

   O protesto é com frequência difuso e as convergências de activistas políticos e manifestantes de ocasião efémeras, como mostraram as manifestações portuguesas da "geração à rasca", em Março, ou dos "indignados" da "Puerta del Sol" madrilena.

    Um revivalismo anarquista e libertário é manifesto, noutros casos, como ocorre, por exemplo, no "Occupy Wall Street", uma contestação que praticamente nada tem em comum com os protestos estudantis no Chile contra um sistema de ensino vincadamente elitista.

   Reivindicações de índole corporativa enquadradas por estruturas sindicais, como sucedeu com os professores portugueses, assumem características mais tradicionais, visando objectivos palpáveis na carteira e no exercício da profissão.

   A manifestação ou a greve em defesa de determinadas prerrogativas ao tornar-se repetitiva, obsessiva na ausência de alternativas, conforme se vem assistindo na Grécia, podem ainda degenerar num ritual de violência contida e impotência política.

   Muitas vezes o protesto anti-sistema, omnipresente nos "media", é prova de desorientação face a uma reorganização global em que desaparecem postos de trabalho em países ocidentais perdedores numa nova repartição de poder a favor de economias em expansão na China, Índia ou Brasil.

                                         A culpa insepulta

    À ansiedade ante riscos que não se anteviam junta-se o desespero provocado pela degradação das condições de vida na ressaca de uma crise financeira de causas incompreensíveis e pela qual ninguém é castigado.

    Crises que são vistas essencialmente como resultado de actos vis e irresponsáveis de especuladores impenitentes exigem punições exemplares que não se vislumbram.

   Da não-criação de emprego nos Estados Unidos à tormenta do euro, passando pela derrocada da banca islandesa, o que sobressai é a ambivalência e ausência de credibilidade da maioria dos decisores políticos, financeiros e empresariais que aventam sucessivos, contraditórios e infrutíferos programas de ultrapassagem das crises.

   Cada vez que um alto responsável político, como Barack Obama ou Mario Draghi, afirma compreender a frustração contra a banca e o mundo da finança, sem propor algo de coerente para resolver as causas do protesto, reduz ainda mais a sua legitimidade.

                                      A vida não é um festim

   Um clima de desorientação e angústia é diferente de uma situação pré-revolucionária em que certos grupos e classes sociais enquadrados politicamente ganham força para investir contra poderes que dão sinais de fraqueza e falta de convicção.

    Hoje em dia, na Grécia insolvente ou num Portugal recessivo abundam desorientação e angústia e a falta de tacto político, de mero bom senso, que exaspera e confrange, em nada contribui para dissipar um justificado cepticismo quanto ao futuro.

   Há muito que o reequilíbrio orçamental ou as expectativas de crescimento económico estão cativas de dinâmicas e decisões que ultrapassam as elites, a Administração Pública ou os trabalhadores do sector privado de países condenados à irrelevância.

   Por cá, diz-se que há vida para além do défice e da austeridade, mas, para muitos, tudo isto mais se assemelha a uma temporada no Inferno.



PS
   Veio o Governo garantir ao fim da tarde de terça-feira que as subvenções de antigos detentores de cargos políticos serão alvo dos devidos cortes em prol da solidariedade "no âmbito do artº 19 do projecto de Lei OE-2012. O Governo proporá a devida clarificação do texto em sede de trabalhos na especialidade."
    O detalhe confrangedor é que tal clarificação só surgiu depois da denúncia pública do privilégio.


Jornal de Negócios
19 Outubro 2011

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A quinta dimensão da guerra






   Uma campanha de condicionamento do eleitorado e de decisores aliados e inimigos da Casa Branca tem vindo a promover fugas concertadas de informação sobre acções dos seus serviços secretos que, por definição, não devem ser objecto de discussão pública.

   No intuito de reforçar a imagem de Obama como presidente sem pejo em recorrer à força, altos responsáveis da administração civil e militar reforçaram este ano os esforços para elucidar a alegada eficácia e acerto de duas vertentes essenciais da estratégia de segurança dos Estados Unidos.

   O programa de assassinato de suspeitos de terrorismo com recurso a veículos aéreos não-tripulados e operações ofensivas de guerra digital são apresentados como um legado da administração Bush que Obama desenvolveu e alargou com claro êxito.

   Deixando na sombra programas de militarização do espaço -- outra dimensão vital que na segunda metade do século XX veio ampliar as tradicionais frentes de combate terrestres, marítimas e aéreas – a Casa Branca centrou mais recentemente os seus esforços de propaganda e desinformação na guerra cibernética.

   Para contenção de danos, intimidação e desorientação de adversários os EUA assumiram oficiosamente a responsabilidade pelo lançamento do vírus "Stuxnet" desenvolvido a partir de 2006 em parceria com Israel.

   O sucesso do programa que atacou, aparentemente a partir de 2008, as centrifugadoras da central de Natanz teria alegadamente atrasado o programa nuclear iraniano por um período de 18 a 24 meses.

   Outras informações indiciam, contudo, que Teerão recuperou rapidamente dos danos acelerando o programa de enriquecimento de urânio.

   A propagação do vírus no espaço digital, no Verão de 2010, levou à identificação do seu código e abriu a porta a eventuais usos por organizações terroristas ou criminosas.

   A complexidade do "Stuxnet", concebido para provocar avarias a componentes específicos de um sistema computorizado de controlo de processos industriais, levou os especialistas a concluírem tratar-se de um projecto da responsabilidade de um estado.

   No final de Maio, tornou-se entretanto pública a existência de um novo programa de complexidade ainda maior que só poderia ser desenvolvido por um estado ou por raras empresas especializadas de grande dimensão.

   O "Flame" visa a espionagem por controlo remoto directo e destruição de dados e estará activo há pelo menos dois anos em computadores de instituições da indústria petrolífera do Irão.

    O vírus foi igualmente referenciado noutros países, de Israel à Hungria, passando pelos Estados Unidos, Sudão ou Reino Unido, e a sua origem e controladores não foram identificados.

    O programa poderá ter sido activado a partir de 2008 e apresenta tal complexidade que o seu desenvolvimento teria necessariamente de implicar centros especializados de países como a Alemanha, Reino Unido, Japão, Taiwan, China ou Rússia, apesar das suspeitas recaírem sobre os Estados Unidos e Israel.

    Desta feita, apesar de algumas fugas de informação desencontradas apontarem nesse sentido, Washington não assumiu oficiosamente a responsabilidade pela difusão de um vírus com um código relativamente fácil de copiar por especialistas em informática e cuja proliferação pode ter efeitos altamente funestos.

   O facto de o Irão – que requeriu assistência à "União Internacional de Telecomunicações", agência especializada da ONU, para identificar o "Flame" – ter sido alvo dos principais ataques dá credibilidade às suspeitas de que os EUA estão envolvidos.

    O acerto da discussão pública dos méritos estratégicos e operacionais de acções secretas ofensivas no espaço digital – independentemente das suas vertentes de desinformação – é muito duvidoso.

   As vantagens políticas e eleitorais que Obama possa retirar de acções de propaganda sobre vertentes clandestinas de acções letais e de ataques a sistemas informáticos são irrelevantes perante as percepções que se possam vir a criar acerca do activismo militar cibernético dos EUA.

   A dimensão digital da guerra tem vindo a aumentar desde a invasão do Iraque, em 2003, até ao conflito russo-georgiano de 2008, passando por operações promovidas por organizações terroristas e hackers ao serviço de diversos estados, e levanta questões de difícil resolução.

   O risco de ataques em cascata a sistemas computorizados de infra-estruturas civis a nível nacional e internacional é elevadíssimo, a identificação atempada do atacante impossível, a definição de agressão é vaga, os termos de retaliação estão indefinidos e faltam tratados internacionais sobre a codificação da dimensão digital da guerra.

   Nas areias movediças da guerra digital é má política assumir acções ofensivas que se deveriam manter "sub rosa" até porque arruina as vantagens da ambiguidade estratégica, prejudica negociações diplomáticas e inquina irremediavelmente a confiança entre estados.





Jornal de Negócios
05 Junho 2012

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Timor: matai-vos uns aos outros

East Timorese gangs throw rocks with sling shots (photo: by Paula Bronstein /Getty Images)
 
 
 
   Uma cultura de violência, a intransigência do herói e do clã que não perdoam insultos, são constantes da história de Timor-Leste que se agravaram desde os tempos da guerra civil de 1975 e só pioraram no clima de brutalidade da ocupação indonésia.

   Após a independência, em Maio de 2002, bandos de jovens e ex-guerrilheiros continuaram a alimentar confrontos.

  No início de Dezembro de 2002 motins em Díli provocaram dois mortos e o primeiro-ministro Mari Alkatiri viu a sua casa incendiada.

   Há dois anos uma revolta nas forças armadas e na polícia, com forte carga de confronto entre grupos étnicos das regiões ocidentais e orientais de Timor-Leste, acabou com qualquer arremedo de autoridade do novo estado. 

   Desde então Timor-Leste ficou irremediavelmente sob tutela de segurança de forças internacionais e tornou-se um dos territórios mais problemáticos para a Austrália no arco de crises da área de influência de Canberra que se estende da Papua Nova Guiné até às ilhas Salomão.

                                    Um arremedo de Estado

   O exército timorense está reduzido a 715 homens (2/3 oriundos das províncias orientais de Baucau, Lautém e Viqueque) e a polícia, marcadamente corrupta, brutal e inoperante, conta com 3 207 efectivos.

   Um milhar de soldados australianos e cerca de 1 600 polícias da ONU são a rede de segurança que evita o reacender de conflitos generalizados. 

   A Igreja Católica ganhara influência e peso político em mais de duas décadas de ocupação, mas terminou envolvida nas lutas partidárias (e aqui se extraviou de alguma forma D. Basílio do Nascimento, bispo de Baucau, bem menos convulsivo do que o atormentado, intransigente e heróico D. Ximenes Belo) e assim se perdeu a capacidade de mediação e moderação de conflitos entre timorenses que os sacerdotes tinham assumido depois de 1975.

   Xanana Gusmão e Ramos-Horta entraram em rota de colisão com a Fretilin de Mari Alkatiri e tornou-se impossível qualquer acordo para a edificação de uma administração pública, a criação de um sistema judicial independente e a adopção de uma política de desenvolvimento minimamente consensual.

   As divergências entre os líderes partidários levaram a que a Fretilin não reconhecesse legitimidade ao governo que Xanana Gusmão formou em Agosto e impediram que Alfredo Reinado fosse presente à justiça, com Ramos-Horta a contestar inclusivamente decisões do estrito foro judicial.

   Entre trocas de acusações sobre manipulações de desertores e revoltosos – a Fretilin  afirma que a crise do primeiro semestre de 2006 só deflagrou depois de tentativas infrutíferas de forças estrangeiras para levarem as chefias das forças armadas a derrubar Alkatiri – sobrou ainda o descrédito da capacidade de dissuasão e imposição da ordem de soldados e polícias, australianos, portugueses e neozelandeses.

  O resto resume-se a mais um momento de desordem em que bandos armados se lançaram num ajuste de contas, dizendo-se traídos e tentando um golpe furibundo de contornos obscuros.

   Por cá pode parecer violência alucinada, mas acontece numa terra onde cem mil refugiados subsistem por conta da caridade alheia e o grito de revolta do guerreiro faz valer a honra do clã e, no caso de Reinado, a bravata e o desafio ao malai (estrangeiro) aziago e torpe.
  
                      Acumulai dólares que os pobres vos contemplam

    Em 2006 o PIB de Timor-Leste cifrava-se em 365 milhões de dólares, segundo estimativa do Banco Mundial que registava um crescimento negativo nesse ano de 1,6 por cento.

   Desde a independência não se registou qualquer incremento nos rendimentos da população, apesar da inflação nos centros urbanos de Díli e Baucau ter superado os 10 por cento no ano passado.

   O rendimento anual per capita ronda os 750 dólares e metade da população, que já ultrapassa um milhão de almas, subsiste com menos de um dólar por dia.

   A taxa de fertilidade de 7,8 por cento aponta para que a população triplique até 2050 e é praticamente nula a criação de emprego.

   O sector formal da economia cria apenas 400 empregos para os 15 mil jovens que entram anualmente no mercado de trabalho, de acordo com o Banco Mundial.

   O desemprego entre os jovens – metade dos timorenses tem menos de 18 anos – é, consequentemente, superior a 50 por cento, atingindo níveis ainda mais elevados em Díli e Baucau.

  O Fundo Petrolífero acumulava a 31 de Dezembro de 2007 2 mil milhões de dólares e este montante aumenta à média de 100 milhões de dólares por mês.

   No último ano fiscal, entre Junho de 2006 e Junho de 2007, 260,07 milhões de dólares foram transferidos do Fundo Petrolífero, mas a Autoridade Bancária e de Pagamentos chegou ao final deste período com 248 milhões de dólares disponíveis para aplicações em projectos governamentais por utilizar.

   A incapacidade de o governo planear e executar o orçamento (cifra-se em apenas 348,1 milhões de dólares – 237,6 milhões de euros – para o ano fiscal de 2008) redunda em excedentes financeiros em contraponto às carências de investimentos em infra-estruturas e serviços.

   Neste quadro de insuficiências estruturais a ajuda externa, caso dos 60 milhões de euros (cerca de 81,6 milhões de dólares) previstos por Portugal entre 2007 e 2010, metade dos quais para os sectores da Justiça e Educação, depois dos 381 milhões de euros (cerca de 519 milhões de dólares) disponibilizados por Lisboa entre 1999 e 2006, assume uma importância relativa ante a incapacidade do estado timorense mobilizar recursos disponíveis.

   O resto é a luta política pela criação de sistemas de patrocínios que sustentem clientelas num estado que arrisca assumir as características mais negativas de um regime sustentado pelas receitas de hidrocarbonetos, relegando o grosso da população para uma economia de autosubsistência agrícola e pobreza generalizada.       
  
                                     O novo mandamento       

   Nas igrejas de Timor ouve-se muito a exortação de Cristo aos apóstolos, conforme reza o Evangelho segundo São João: “Dou-vos um novo mandamento: que vos amais uns aos outros; que vos amais como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.”

   Por certo que o mandamento cristão é universalmente vilipendiado, mas no caso de Timor acresce ter muito pouco a ver com os valores guerreiros e de identificação aos clãs típicos das culturas tradicionais da metade oriental da ilha.

   O catolicismo, por outro lado, arreigou-se durante a ocupação indonésia como uma religião de desafio e resistência aos “javardos”, tal como eram denominados os javaneses.

   À violência, ao arbítrio e à corrupção a maioria dos timorenses respondeu com o desrespeito total pela legitimidade das instituições, com excepção da igreja católica.

   As convulsões de 1999, o colapso económico, o desmantelamento das estruturas administrativas e a impunidade dos responsáveis por actos de violência geraram ainda maior contestação a todas as formas de autoridade.

   Os inquéritos sociológicos realizados em Timor-Leste, especialmente a jovens, constatam a exasperação provocada por expectativas defraudadas e, muito em particular, pelas bosok (mentiras) de líderes políticos que terão traído o povo kiik (a arraia-miúda).

   O resultado é a alienação face ao estado e o desregramento da violência.
Entre os deserdados da guerrilha, os jovens revoltados e os marginalizados vai crescendo a prevalência do mandamento da força.



Jornal de Negócios
14 Fevereiro 2008

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O pacote chinês

 
 
   O pacote de relançamento económico de 4 biliões de yuans (456 mil milhões de euros) anunciado domingo em Pequim visa evitar que o crescimento económico chinês caia abaixo de 8%, mas dificilmente conseguirá criar os 24 milhões de postos de trabalho necessários para absorver a mão-de-obra que todos os anos entra para o mercado laboral.
 
   O plano de alocação de verbas para os próximos dois anos, equivalente a cerca de 15% do PIB, privilegia a construção social, infra-estruturas em áreas rurais e o sector de transportes, além de contemplar um aumento das compras de cereais pelo estado para obviar à depreciação de preços e cortes fiscais para aquisições de bens de investimento.

   Apenas cerca de 1,5 biliões de yuans representam de facto verbas adicionais dado que os restantes investimentos estavam já previstos, como era o caso de um bilião de yuans para reconstrução das áreas devastadas no sudoeste da China pelo terramoto de Maio, enquanto as medidas de apoio aos sectores agrícolas e às indústrias exportadores já tinham sido já anunciadas.

   Os investimentos no sector da habitação, infra-estruturas e transportes só farão sentir os seus efeitos no final do próximo ano, mas opções de política fiscal e monetária em aberto para Pequim poderão contribuir para conter o abrandamento económico.

                                  O difícil aumento do consumo

   O Banco Central reduziu três vezes desde Setembro a taxa de juro de referência para empréstimos a 12 meses que se cifra presentemente em 6,66%.

   A queda da taxa de inflação para 4,6% em Setembro e 4% em Outubro (o nível mais baixo em 17 meses) possibilita novos cortes de juros e o levantamento de limites ao crédito bancário, cujo aumento não tem excedido os 12% ao ano, contribuirá para financiar novos investimentos.

   Uma alteração do regime de IVA para estimular o consumo de particulares e o investimento de empresas em bens de capital será ainda anunciada até ao final do ano.

   O consumo doméstico, inferior a 55% do PIB chinês, dificilmente aumentará sem que o estado garanta uma rede de assistência social e protecção ao desemprego, extremamente difícil de concretizar num país onde 300 milhões de pessoas subsistem com menos de 1 dólar/dia em termos de Paridade de Poder de Compra, de acordo com estimativas do Banco Mundial de 2007.

   O crescimento económico desacelerou pelo quinto trimestre consecutivo e caiu para 9% no terceiro trimestre de 2008, o nível mais baixo dos últimos cinco anos.

  O FMI, que previra uma taxa de crescimento de 9,7 % para 2008, depois de 11,9% em 2007, reduziu a sua estimativa para 8,5 %.

   A quebra nas exportações tenderá, no entanto, a reduzir as previsões, pois, segundo o Banco Central, as vendas ao estrangeiro que contribuíram para 21,5 % do crescimento em 2007, representaram apenas 4,9% no primeiro semestre deste ano.

   A decisão de suster a valorização do yuan desde Julho não conseguiu evitar uma forte contracção nas exportações de têxteis e brinquedos devido à diminuição da procura internacional, sobretudo nos Estados Unidos.

O crescimento de apenas 19,2% das exportações em Outubro, o mais baixo dos últimos quatro meses, foi alcançado graças a indústrias com menor componente de trabalho intensivo o que agrava a situação do mercado de trabalho.

                                            O risco do desemprego

   A taxa oficial de desemprego atingia 9,5% no ano passado e os investimentos em infra-estruturas que, de acordo com as estatísticas oficiais, registaram uma média anual de crescimento de 20% desde a década de 1980, quando se iniciaram as reformas económicas de Deng Xiaoping, não conseguiram até agora absorver os excedentes de mão-de-obra rural.

   O investimento doméstico terá contribuído para 4% ou 6% do crescimento económico médio de 10% das últimas três décadas, mas não integrou no mercado formal de trabalho cerca de 150 milhões de trabalhadores migrantes excedentários na economia rural.

   O pacote de relançamento económico é, consequentemente, um reformular das medidas previstas no plano quinquenal 2006-2010 para obviar à crescente desigualdade e conflitualidade sociais, sendo axiomático em Pequim que um crescimento abaixo dos 8% fará disparar o desemprego para níveis socialmente incomportáveis.

   Reduzir a dependência do comércio externo, superar a subalternidade tecnológica (menos de 1/5 das exportações são classificadas como produtos de alta tecnologia) e diminuir assimetrias regionais e sociais eram os objectivos expressos no plano quinquenal que admitia ser insustentável o modelo de desenvolvimento seguido desde os anos 80.

    O reforço de medidas de assistência social obrigará o governo de Pequim a abandonar o seu objectivo de manter o défice orçamental em 1,1% do PIB e elevará a dívida pública, estimada oficialmente em apenas 20% do PIB, para níveis muito mais altos.

   É o custo da estabilidade social e um imperativo para o regime de Pequim.



Jornal de Negócios
12 Novembro 2008

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O preço do risco geopolítico



Rawalpindi, 27 Dezembro 2007


   O petróleo voltou a subir nos mercados de Nova Iorque e Londres na sequência do assassinato de Benazir Bhutto, das incursões militares turcas no Curdistão iraquiano e da quebra nas reservas de crude e produtos destilados norte-americanos, mas a maioria dos analistas prevê uma diminuição de preços para este ano.

   Apesar da Goldman Sachs admitir que o crude ultrapasse os 110 dólares até ao final de 2008 e a PVM Oil Associates, a maior empresa mundial de corretagem de petróleo, considerar possível uma variação entre os 50 e os 130 dólares, o grosso das previsões aponta para valores dos 60 a 80 dólares.

   A especulação agravada pela queda do dólar, as incertezas dos mercados financeiros e, sobretudo, os riscos geopolíticos são os principais imponderáveis destas previsões.

                                   O custo de um atentado

   O ataque suicida que custou a vida a Benazir Bhutto é um caso exemplar da imponderabilidade do risco político.

   A instabilidade política e os altos níveis de violência terrorista fazem do Paquistão um caso extremo de estado perigoso, agravando-se a situação pela ameaça de descontrolo numa escalada militar com a Índia, tal como ocorreu em 2002, e de proliferação clandestina ou desvio de armamento e tecnologias nucleares como fez prova a rede de tráfico montada por Abdul Khan a partir do final dos anos 70.

   Ainda que o agravamento da violência interna com consequências imediatas de destabilização no Afeganistão e em Caxemira fosse uma probabilidade admitida, a morte de Benazir foi o último prego no caixão das tentativas de mediação dos Estados Unidos na crise paquistanesa.

   Falhada a tentativa de concertação política entre Pervez Musharraf e o Partido do Povo, um feudo familiar dos Bhutto, a administração norte-americana vê-se sem alternativas viáveis para evitar um agravamento da situação num país estratégico no derradeiro ano de George W. Bush.

   Sem solução política à vista para a crise iraquiana e incapaz de mediar o conflito israelo-palestiniano, a diplomacia norte-americana entra em 2008 à mercê de todos os imponderáveis no grande arco de crises que vai do Líbano ao Bangladesh.

   O único elemento capaz de alimentar algum optimismo passa pelo afastamento da hipótese de acção militar unilateral norte-americana a curto prazo contra o Irão, mas qualquer golpe terrorista bem sucedido no Egipto ou na Arábia Saudita pode precipitar crises em cascada.

   A política externa, precisamente a área onde ainda resta a Bush significativa capacidade de acção, acaba por se ver condicionada pelo fracasso de todas as suas estratégias de gestão de conflitos promovidas no Médio Oriente, no centro e no sul da Ásia após os atentados de 11 de Setembro de 2001.

                    Os Estados Unidos à mercê dos acontecimentos

   Este fracasso patente no Afeganistão, no Iraque e cada vez mais ameaçador no Paquistão, fragiliza em excesso a posição norte-americana e deixa um legado confrangedor para o sucessor ou sucessora de Bush na Casa Branca.

   Os principais candidatos presidenciais democratas e republicanos tão pouco apresentaram até agora alternativas políticas capazes de deslindar saídas para os impasses com que se confronta Bush.

   Os Jogos Olímpicos de Pequim são factor apaziguador para uma conciliação pontual de interesses entre a China e os Estados Unidos em questões delicadas como a neutralização nuclear da Coreia do Norte e Taiwan, mas não implicam uma partilha de objectivos noutros diferendos como seja, por exemplo, a imposição de mais sanções financeiras e comerciais ao Irão.

   Os limites de concertação com Moscovo ficaram patentes nas desinteligências de 2007 e este ano a independência do Kosovo alimentará nova ronda de litígios com uma Rússia que vincará ainda mais o estatuto de grande potência numa fase de necessária afirmação externa de Putin ao enveredar por uma experiência de poder partilhado no Kremlin.

   Outras crises a mobilizarem necessariamente as atenções da diplomacia norte-americana – Corno de África, Darfur, Cuba – e em que poderá contar com o apoio dos aliados europeus terão, em princípio, prioridade secundária face aos perigos que se vislumbram do Médio Oriente ao sul da Ásia.

   À espera da sucessão de Bush todos os parceiros e adversários dos Estados Unidos ponderarão, sobretudo, as vantagens e desvantagens que as respostas da Casa Branca às crises em curso – e demais eventos inesperados - possam representar para marcar posição face à próxima administração e será nessa base que irão decidir as posições a tomar.

   O maior risco geopolítico de 2008, a somar-se às incertezas financeiras, é, precisamente, a extrema vulnerabilidade dos Estados Unidos no Médio Oriente, na Ásia Central e no subcontinente indiano a eventos incontroláveis, ainda que mais ou menos previsíveis, depois do fracasso de todas as estratégias pós 11 de Setembro.

   Este risco geopolítico é por demais elevado e impossível de contabilizar e será ele que irá marcar este ano de 2008.


Jornal de Negócios
03 Janeiro 2008

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