domingo, 26 de maio de 2013

Uma compra de emergência





   Na mesma semana em que um porta-aviões norte-americano testava com êxito a descolagem de um caça furtivo não-tripulado, o governo francês anunciava ter obtido do Pentágono autorização para a compra urgente de veículos aéreos não-tripulados num manifesto exemplo da inferioridade tecnológica militar europeia.

   A descolagem de 13 de Maio ao largo da Virgínia, a que se seguirão testes de aterragem em porta-aviões, marca um assinalável avanço técnico para dotar a Marinha dos Estados Unidos de capacidade de reconhecimento e ataque com veículos aéreos não-tripulados de longo alcance.

   O caça "X-47B", desenvolvido pela "Northrop Grumman", conta com dispositivos para escapar ou dificultar em extremo a detecção por radar – ao contrário dos "Predator" e "Reaper" em uso no Afeganistão, Paquistão e Iémen – e dispõe de uma autonomia de 2 mil milhas naúticas.

  O veículo pode ser utilizado para reconhecimento e ataque e, a confirmar-se o seu potencial operacional, permitirá reduzir a vulnerabilidade da Marinha norte-americana a mísseis anti-navios de médio alcance.

   Apesar dos óbices de uma crescente dependência de veículos aéreos não-tripulados e de robots em meio terrestre e aquático para acções de reconhecimento e combate, a superioridade tecnológica dos Estados Unidos apresenta presentemente inegáveis vantagens militares e políticas.

   Veículos "Predator" norte-americanos baseados em Niamey, no Níger, fazem reconhecimento do terreno para as tropas francesas e africanas mobilizadas para a campanha militar no Mali.

   Paris apenas dispõe no teatro de guerra de dois aparelhos "Harfang", da série entrada ao serviço em 2008 a partir de modelo israelita, com um raio de acção de mil quilómetros e velocidade máxima de 207 km/hora que, conforme reconheceu na semana passada o ministro da Defesa, Jean-Yves Le Drian, não dão resposta às necessidades operacionais.

   Le Drian, segundo revelou o jornal "Le Monde", obteve recentemente luz verde do Pentágono, aguardando autorização do Congresso de Washington, para compra de dois "Reaper MQ-9" para missões de reconhecimento no Mali, podendo Paris vir a adquirir até sete aparelhos num montante de 300 milhões de euros.

  Os aparelhos, fabricados pela "General Atomics", atingem uma velocidade máxima de 483 km/hora, cobrem um raio de acção de 5 925 quilómetros, sendo a altitude operacional de 15 240 metros pretendendo Paris que entrem ao serviço no Mali até final deste ano.

  O ministro francês reconheceu a urgência da aquisição, referindo que só os Estados Unidos e Israel surgem como potenciais fornecedores de veículos aéreos militares não-tripulados, e apelou à cooperação europeia na área da defesa.

   O panorama apresenta-se, no entanto, desolador.

  Projectos de desenvolvimento de veículos aéreos não-tripulados foram lançados pela "BAE" britânica e a "Dassault" francesa, por um lado, e o consórcio paneuropeu "EADS", por outro, com vista a dispor de um modelo próprio até ao final da década.

  Ao contrário da aviação civil em que a "Airbus" se revelou um rival à altura da "Boeing" a partir da década de 70, na área militar a concorrência entre empresas francesas, britânicas, alemãs, espanholas e italianas tem vindo a dificultar a concretização de projectos comuns.

  O atraso no desenvolvimento de veículos aéreos não-tripulados, tal como de caças, é sintomático da falta de meios da "Agência Europeia de Defesa" e, sobretudo, da escassa importância que os governos europeus atribuem à entidade que criaram em 2004 para cooperação das indústrias militares.

  As urgências políticas e bélicas, acentuadas pelas crises no Maghreb e noutras regiões de África para onde estados europeus se vêem obrigados a mobilizar forças militares, enquanto os Estados Unidos se reservam um papel essencialmente de apoio logístico e operacional, põem a nu a fragilidade das capacidades bélicas de países com ambições de projecção de força como a França ou a Grã-Bretanha.

   Desfasamento e atraso tecnológico reduzem a margem de manobra dos estados europeus e paradoxalmente podem até reforçar tendências do outro lado de Atlântico para um recurso desproporcionado à guerra por controlo remoto.

   Por maiores vantagens que ofereça a guerra à distância os conflitos obrigam irremediavelmente à presença militar e à negociação política no terreno.

  Que o digam as tropas franceses e nigerianas que ainda estão longe de conseguir controlar Kidal, no leste do Mali, de neutralizar grupos islamitas e negociar com milícias e partidos tuareges, bambara, fula e songhai para concretizarem uma eleição presidencial em Julho como primeiro passo para a busca de uma pacificação política.

Jornal de Negócios
22 de Maio 2013

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/joao_carlos_barradas/detalhe/uma_compra_de_emergencia.html


quarta-feira, 15 de maio de 2013

O abuso "Bloomberg"




  Soam a falso as desculpas apresentadas pela "Bloomberg LP" depois de revogar o acesso dos jornalistas da empresa a informação confidencial de clientes dos seus serviços financeiros imediatamente após ter sido confrontada com uma queixa da "Goldman Sachs".

  A "Bloomberg" afirma ter retirado em Abril o privilégio que permitia aos jornalistas acederem a informação sobre o histórico dos terminais, incluindo funções utilizadas, solicitações de apoio técnico e respectivas transcrições, além de fluxo de mensagens, segundo o director-executivo da empresa Daniel Doctoroff. 

  Os destinatários e conteúdo das mensagens, a identificação de acções ou obrigações, por exemplo, não seriam, contudo, acessíveis aos jornalistas que podiam obter endereços de e-mail ou números de telefone dos utentes dos mais de 135 mil terminais ao que alega a "Bloomberg".

  A alteração de privilégios informáticos dos jornalistas da "Bloomberg", também partilhada por pessoal do sector de marketing e vendas, foi comunicada num memo interno na passada sexta-feira em que Doctoroff admitia o erro de permitir a repórteres o acesso parcial a dados confidenciais dos clientes.

  A queixa da "Goldman Sachs" fora noticiada nesse dia pelo tablóide "New York Post" e, segundo informações posteriores, teria sido motivada por uma repórter da "Bloomberg" inquirir junto da delegação em Hong Kong sobre o estatuto e paradeiro de determinado sócio do banco revelando ter conhecimento do histórico do seu terminal.

  Apesar da confidencialidade ser de regra no sector, rapidamente surgiram mais notícias de suspeitas de outros clientes de peso, designadamente por parte do "JPMorgan Chase", sobre os procedimentos utilizados pelos jornalistas da "Bloomberg".

   No caso do "JPMorgan Chase" os repórteres teriam, alegadamente, tido acesso a informação privilegiada ao investigarem em 2012 as perdas no montante de 2 mil milhões de dólares do corretor Bruno Iksil na delegação de Londres.

   Já em 2011 a "UBS" questionara eventual acesso irregular a dados sobre utilização de terminais por parte de jornalistas da "Bloomberg" que investigavam o corretor Kweku Adoboli por suspeita de fraude na perda de 2 mil milhões de dólares em investimentos.

   As suspeitas e apreensões dos clientes dos terminais da "Bloomberg", de bancos centrais a ministérios passando por investidores públicos e privados, resultaram numa série de pedidos de informação sobre eventuais riscos de quebra de confidencialidade.

  A divulgação acidental de mais de 10 mil mensagens trocadas entre corretores no âmbito de testes acordados com um cliente da "Bloomberg", noticiada esta terça-feira pelo "Financial Times", apesar de não ter relação directa com os privilégios informáticos que a empresa concedia aos seus jornalistas, veio turvar ainda mais as águas.

  A "Bloomberg" começou a oferecer informação económico-financeira em 1982, conta presentemente com mais de 15 mil funcionários, e a sua quota de mercado ronda os 30%, tendo facturado 7,9 mil milhões de dólares em 2012.

  Ao contrário de concorrentes como a "Thomson Reuters" ou a "Dow Jones", a "Bloomberg" depois de ter iniciado serviços noticiosos em 1990 optou por permitir o acesso de jornalistas a informação privilegiada gerada pelos serviços financeiros e de negócios, a principal fonte de receitas da empresa.

  Matthew Winkler, editor-chefe da "Bloomberg News", veio a público admitir tratar-se de um "erro indesculpável", mas o mal está feito e os mais de 2400 jornalistas da empresa, que produzem informação de altíssima qualidade, vão pagar pelos abusos em que foram coniventes.

  A investigação sobre a gigantesca rede de negócios urdida pela elite comunista chinesa ("Revolution to Riches") que a "Bloomberg News" divulgou no final do ano passado é um exemplo de jornalismo de primeira água que contou com todas as vantagens do acesso a muito informação propiciada pelos terminais dos serviços económico-financeiros.

  Inquéritos que estão a ser levados a cabo em todo o mundo sobre a forma como jornalistas da "Bloomberg" obtiveram determinadas informações irão confirmar pontualmente as óbvias facilidades de que gozaram ao acederem a dados tidos por confidenciais.

  A integridade dos dados e a confidencialidade sobre a utilização que os clientes fazem dos serviços da "Bloomberg" foram postos em causa pela própria empresa.

  Gestores, responsáveis dos diversos serviços da "Bloomberg" e os jornalistas da casa foram todos coniventes nestes actos de abuso.


Jornal de Negócios
15 de Maio 2013
http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/detalhe/o_abuso_bloomberg.html

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Massacres em catadupa





   A entrada em combate na Síria das milícias xiitas do "Hizballah" libanês ao lado das forças de Bashar al Assad acaba de marcar o momento em que o conflito étnico-religioso entrou numa fase irreversível de guerra total.

  Os militantes do "Hizballah" desde o fim-de-semana que lutam com as forças governamentais em Al Qusair, uma cidade a menos de 20 quilómetros da fronteira libanesa nas mãos de combatentes sunitas nominalmente fiéis ao "Exército Livre da Síria".

  A luta por Al Qusair visa o controlo do acesso à fronteira nordeste do Líbano e a Tartus e Latakia, províncias costeiras onde predomina a minoria alauíta de al Assad e palco de recentes massacres de alegados opositores sunitas.

  O alastrar das violências a Tartus e Latakia é sinal de que os alauítas -- grupo étnico-religioso seguidor de uma variante esotérica do xiismo, representando cerca de 10% da população -- pretendem garantir um bastião seguro no caso do clã al Assad perder o controlo da capital e de Aleppo, a maior cidade do país.

   O "Hizballah", aliado político de Damasco e Teerão, tem vindo a denunciar os massacres de que têm sido alvo xiitas e alauítas em Al Qusair e ao intervir nos combates assume uma clara solidariedade étnico-religiosa que ultrapassa a tradicional aliança política com Damasco e Teerão.

   O risco do "Hizballah" se envolver irremediavelmente na guerra civil síria arrasta, por sua vez, a maioria da comunidade xiita libanesa para nova situação de confronto com os seus conterrâneos sunitas, druzos e cristãos.

   No terceiro ano de guerra a radicalização acentua-se igualmente entre os sunitas -- mais de 70% da população --, alienando cristãos, druzos, ismaelitas e curdos, comunidades que cada vez mais alimentam o fluxo de refugiados em busca da ajuda dos correlegionários nos países vizinhos.

                                     O temor das minorias

   As minorias mostram-se temerosas do peso esmagador das facções islamitas ligadas aos "Irmãos Muçulmanos" e da crescente influência de organizações salafistas jihadistas como a "Jahabat al Nusra" ("Frente para a Vitória do Povo Sírio") capazes de virem a replicar as violências ocorridas no vizinho Iraque.

  O sistema de patrocínio imposto pelos alauítas a partir dos anos 60 e envolvendo as minorias e parte da burguesia sunita, além de tribos de filiação sunita como os Hadidyn ou os Shammar, foi destruído pela guerra.

   Só os curdos podem considerar uma remota possibilidade de autonomia territorial no nordeste da Síria, apesar de a comunidade estar profundamente dividida entre o "Partido da União Democrática", ligado ao "Partido dos Trabalhadores do Curdistão" -- inimigo número um de Ancara -- e o "Conselho Nacional Curdo", uma coligação apoiada pelo governo regional do Curdistão iraquiano.

   No campo sunita as centenas de milícias nominalmente agregadas no "Exército Livre da Síria" não acatam de facto orientações políticas da heteróclita "Coligação Nacional Síria", presidida a prazo pelo sunita Mouaz Al Kathib, o que retira eficácia ao apoio diplomático e militar de norte-americanos, britânicos, franceses ou turcos.

   O fracasso de uma frente unitária, multiétnica e plurireligiosa da oposição é agravado pelo apoio financeiro do Qatar e da Arábia Saudita a grupos islamitas com o objectivo de derrubar al Assad e fazer claudicar o único aliado regional do Irão.

                                  Veleidades estrangeiras

  Os ataques israelitas revelam, por sua vez, a limitadíssima capacidade de influência externa numa guerra civil que se arrastará até à capitulação ou extermínio dos alauítas às mãos de milícias sunitas.

   Depois, será a vez das facções vencedoras medirem forças e, consciente de que terá de aproveitar esta oportunidade em que a desagregação do estado sírio impede uma retaliação convencional, Telavive limita-se a precaver enquanto possível a transferência de armamento sírio e iraniano para o "Hizballah".

  Israel terá, contudo, de conter as suas intervenções militares e limitá-las a casos extremos de transferências de armas convencionais ou químicas para o "Hizballah" ou grupos terroristas de forma a evitar que o conflito alastre a partir da fronteira sul do Líbano.

   As polémicas sobre eventual recurso pontual a armas químicas por parte de forças governamentais ou grupos rebeldes irão prosseguir dada a impossibilidade de inspecção conclusiva no terreno por especialistas da ONU.

   Os diferendos estratégicos entre Washington, Moscovo, Pequim e Nova Delhi condicionarão, ainda, uma eventual intervenção militar para salvaguarda dos arsenais de armas químicas que implicará inicialmente o envio para grande número de localidades na Síria de dezenas de milhares de soldados (75 mil homens, num cenário posto a circular pelo Pentágono) e centenas de especialistas.

  Capitulação por exaustão e acantonamento nas montanhas da costa do Mediterrâneo ante ameaça de extermínio e remoção forçada de populações é o destino dos alauítas.

  Refúgio junto de comunidades congéneres nos países vizinhos ou aceitação de estatuto subordinado ou automonia muito limitada é o que se vislumbra para as minorias ante a expectativa de uma vitória sunita que obrigará a um acerto de contas entre jihadistas, salafistas, islamitas conservadores e as quase extintas facções secularistas árabes.


Jornal de Negócios
8 de Maio 2013
http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/joao_carlos_barradas/detalhe/massacres_em_catadupa.html

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O terrorista do lado




Boston
15 de Abril 2013
   A radicalização terrorista de jovens de origem estrangeira e aparentemente adaptados aos usos e costumes norte-americanos é motivo de grande perplexidade para a maior parte da opinião pública dos Estados Unidos.

  A violência em Boston, contudo, está longe de ser caso único envolvendo cidadãos nascidos ou naturalizados norte-americanos e convertidos ao islamismo salafista e a tácticas terroristas.

   Anwar al-Alwalaki – filhos de iemenitas e nascido no Novo México – tornou-se ideólogo da "Al Qaeda na Península Arábica" até ser abatido por um míssil no Iémen em 2011, e Nidal Malik Hassan – nado e criado por emigrantes palestinianos na Virginia – major psiquiatra e responsável pela morte de 13 pessoas na base de Fort Hood, no Texas, em 2009, tipificam a radicalização terrorista salafista.

  A ideologia dos intransigentes do retorno ao califado e ao rigorismo dos primeiros seguidores do Profeta motivou outros actos terroristas nos Estados Unidos no pós 11 de Setembro envolvendo cidadãos naturalizados como, por exemplo, as conjuras fracassadas dos irmãos de origem paquistanesa Sheheryar e Raees Qazir, detidos em Miami, em 2012.

  Os irmãos Tsarnaev enquadram-se num padrão diferente à semelhança de Suleiman Talovitch, muçulmano nascido na Bósnia-Herzegovina em 1988, naturalizado em 2005 e, por motivação incerta, assassino de cinco pessoas num centro comercial em Salt Lake City, em 2007.

  Os matadores de Boston, filhos de uma avar do Daguestão e de um tchetcheno, tiveram um percurso atormentado do Quirguistão até à chegada a Massachusetts em 2002.

  Tamerlan (homónimo de Tamerlão o imperador turco-mongol do final do século XIV-início do século XV), nascido em 1986, evidenciou dificuldades de integração e a partir de 2008 deu sinais de interesse crescente pela religião islâmica e de radicalismo de orientação salafista.

   A sua estada de seis meses no Daguestão em 2012 e as suspeitas dos serviços de informações e segurança russos de eventual conluio com separatistas tchetchenos ou grupos extremistas do norte do Cáucaso têm contornos pouco claros.

   Tamerlão foi, no entanto, notoriamente o cabecilha de um acto de punição de increús e/ou de vingança contra quem lhe frustou aspirações ao reconhecimento e glória.

  Os meses de Tamerlão pelo norte do Cáucaso – a mais corrupta e violenta região russa com uma arreigadíssima tradição de resistência a invasores estrangeiros e centenários ódios clânicos, tribais, religiosos e nacionalistas – terão contribuído para a radicalização terrorista.

  O culto tradicional da honra e da vingança, a voragem do autosacrifício salafista – factores muito marcantes entre os tchechenos e os avar na convulsiva história do Cáucaso – podem ter alimentado ideias de violência a Tamerlão num imaginário onde se misturaria a mágoa pela discriminação como muçulmano, as atrocidades no Iraque ou Afeganistão por culpas americanas, massacres na Síria ou qualquer outro motivo de despeito.

  O "post mortem" ideológico de um terrorista à solta num país onde armas e violência são desvario quotidiano, é incerto, mas, por certo, politicamente separatistas tchetchenos e salafistas caucasianos nada têm que os leve presentemente a pretender hostilizar os Estados Unidos.

  A propaganda do Kremlin e muitos analistas russos sérios e independentes reiteraram, aliás, as denúncias de complacência de Washington ante os extremismos que campeiam no flanco sul da Rússia, ainda que a pista de uma eventual cumplicidade de salafistas terroristas tchetchenos no atentado não seja crível.

  A influência de Tamerlão sobre Dzhokhar (nascido em 1993 e baptizado com o nome do líder tchetcheno Dzhokhar Dudaiev, primeiro presidente da república separatista em 1991, morto por um míssil em 1996) aparenta tratar-se de um caso clássico de preponderância levando à radicalização do mais jovem por obediência e deferência ante um mentor modelar.

  Os Tsarnaev representam, igualmente, um dos pesadelos maiores dos serviços de informação e forças de segurança: terroristas sem vínculos organizacionais e logísticos a organizações que, por putativa inspiração ou justificação, se lançam em actos de violência de cunho mais ou menos amadorístico, mas potencialmente letais.

  Em regra, só as redes comunitárias e de vizinhança estão em condições de detectar e apenas em certas situações extremas mutações comportamentais que indiciem a possibilidade de eventuais comportamentos perigosos.

  A relação de confiança entre as autoridades repressivas do estado e o comum das gentes ou líderes comunitários, sobretudo, de etnogrupos ou filiações religiosas minoritárias, é muito difícil de conseguir, pode, naturalmente, nem sempre ser isenta de motivações ínvias, e exige persistência.

  Na Grã-Bretanha e no Canadá, conforme aparenta ser o caso da detenção dos suspeitos de conspiração para um ataque na ligação ferroviária Toronto-Nova Iorque, a investigação foi propiciada por um alerta/denúncia de um responsável religioso da comunidade islâmica de Toronto.

  Custa a admitir, mas o terrorista do lado pode ser ou não oriundo de uma região onde campeiem ódios e violências, inspirar-se em extremismos religiosos, nacionalistas, raciais ou étnicos, ou aparentar ser uma rapariga ou rapaz, sobretudo um rapaz, bem comportado que, de repente, mata e destrói.

  Para o recurso à violência indiscriminada contra civis ou, por vezes, alvos militares ou administrativos, nunca faltaram pretextos, motivações e desvarios, mas a motivação ideológica na opção por tácticas terroristas é fundamental.

  Nestes tempos em que o carácter espectacular de um atentado é tanto mais amplo quanto maior a cobertura noticiosa e a difusão em redes sociais o risco do ataque solitário aumentou ainda que seja diferente da táctica terrorista de organizações nacionalistas ou religiosas com estratégias relativamente bem definidas.


Jornal de Negócios
24 de Abril 2013

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/joao_carlos_barradas/detalhe/o_terrorista_do_lado.html

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Do euro ao ressentimento






   Os pressupostos em que assentou a União Europeia após a derrocada comunista no continente e a reunificação alemã estão a esboroar-se e a acrimónia entre alemães e gregos por indemnizações de guerra augura polémicas ainda mais virulentas.

   O euro, com que François Mitterrand pretendeu conter a Alemanha reunificada garantindo a hegemonia do duopólio político de Paris e Berlim e que Helmut Kohl impôs sem contemplações democráticas aos seus conterrâneos, degenerou num factor divisivo entre os estados da moeda única, alienando, ainda, demais parceiros comunitários.

   A actual prepoderância económica, financeira e política de Berlim vai ao arrepio dos equilíbrios do pós-guerra, sustentados militarmente pelas garantias de defesa norte-americanas ante o Pacto de Varsóvia.

   A crise de uma união monetária imperfeita e sem contraponto político gera crescentes ressentimentos que reabrem memórias dos ódios das grandes guerras europeias do século XX.

   A integração alemã no bloco ocidental passou a partir de 1948 pelo Plano Marshal, que abriu caminho para a entrada de Bona na "Comunidade Europeia do Carvão e do Aço" em 1952, e culminou no rearmamento da República Federal com a adesão à NATO em 1955, seis anos após a criação da aliança militar.

                                       Perdão à Alemanha

   O perdão de dívidas contraídas pela Alemanha após a I Guerra Mundial, inspirado por Washington, ficou consagrado no "Acordo de Londres" de 1953, reduzindo em cerca de metade para 15 mil milhões de marcos os compromissos de Bona a pagar num prazo superior a 30 anos.

   A Alemanha reunificada pagou, assim, em 3 de Outubro de 2010 a derradeira "tranche" de 94 milhões de dólares relativa a obrigações emitidas entre 1924 e 1930 e adquiridas sobretudo por investidores norte-americanos.

   Fechava-se um ciclo iniciado com a lógica punitiva do "Tratado de Versalhes" de 1919 que condenara Berlim a indemnizações rondando 269 mil milhões de marcos-ouro, o equivalente a 96 mil toneladas de ouro.

   Sucessivos incumprimentos pela República de Weimar obrigaram a um acordo em 1929 baixando a dívida de Berlim para 112 mil milhões de marcos-ouro a pagar a 59 anos.

   O acordo acabara suspenso em 1931 por incumprimento de Berlim e quando Hitler chegou ao poder em 1933 rejeitou todas as indemnizações de guerra e o pagamento das obrigações emitidas.

                                        O rancor da Grécia

   O acordo e perdão que cobriu dívidas das duas guerras foi ratificado por Atenas que, em 1946, na "Conferência de Paz de Paris" aceitara indemnizações diminutas por parte da RFA no montante de 45 milhões de dólares a valores de 1938.

   Bona pagou ainda 115 milhões de marcos (58 milhões de euros) em 1960 no âmbito de outro acordo com Atenas que, do ponto de vista da RFA, pôs termo a pedidos de indemnizações individuais de vítimas da ocupação nazi.

   Apesar disso mais processos particulares de indemnizações foram encetados, estando em apreciação no "Tribunal Internacional de Justiça" de Haia um pedido de indemnização de 37,5 milhões de euros aos herdeiros das 218 vítimas do massacre nazi de civis na cidade de Distomo em Junho de 1944.

   Os "empréstimos de guerra" compulsivos que os nazis extorquiram à Grécia durante a ocupação entre 1941 e 1944, não cobertos pelo "Acordo de Londres", são, igualmente, matéria polémica.

   A Grécia foi um dos países mais flagelados pela ocupação alemã, italiana e búlgara, tendo sofrido mais de 300 mil mortos, uma perda de 4,5% da população, percentagem só superada no conflito europeu pela própria Alemanha e Aústria, União Soviética, Letónia, Lituânia, Polónia, Hungria e Jugoslávia.

   A guerra civil de 1946-1949 colocou Atenas firmemente no bloco anti-comunista, mas as memórias da ocupação e o rancor nunca se desvaneceram completamente.

   O entendimento com Bona foi sempre questão de relação estado a estado, apesar da emigração grega para a Alemanha e o intercâmbio económico aproximarem cada vez mais os dois países.

   A queda da Junta Militar, que governara Atenas entre 1967 e 1974, não alterou substancialmente a situação.

   Conservadores e socialistas pactuaram um estado clientelar, integrando os derrotados na guerra civil, que desde a entrada da Grécia na CEE em 1981 gozou e abusou de financiamentos comunitários, escusando-se a hostilizar a Alemanha, mas ao eclodir a crise de 2009 o panorama alterou-se.

   Logo em Fevereiro de 2010 o vice-primeiro-ministro Theodoros Pangalos acusou a Alemanha de não ter devolvido o ouro roubado pelos nazis ao Banco Central da Grécia, afirmando que a questão teria de ser resolvida.

  Acusações similares foram-se sucedendo à esquerda e à direita, evocando verbas na ordem dos 160 mil milhões de euros, à medida que na Alemanha crescia a hostilidade contra o "estado vígaro ateniense" e a irresponsabilidade financeira helénica.

  O governo de Antonis Samaras, entretanto, deixou este mês vir a público um relatório que encomendara sobre dívidas de guerra alemãs em Dezembro de 2012, seis meses depois do líder conservador formar governo com apoio dos socialistas e da esquerda democrática.

  O relatório apurou alegadas responsabilidades alemãs por dívidas de guerra e indemnizações ao estado e particulares no montante de 162 mil milhões de euros, cerca de 80% do actual PIB da Grécia.

   A polémica não vai ficar por aqui, apesar de a capacidade negocial do actual executivo de Atenas ser diminuta, e alastrará pela Europa.

  Os interditos, as memórias reprimidas de conflitos, que permitiram negociar pacificamente em quase toda a Europa, com a excepção particularmente sangrenta da Jugoslávia, acordos de cooperação e integração económica e política, começam a dar lugar a polémicas reavivando velhos ódios e temores.

  Nada de bom sairá daqui.




Jornal de Negócios
17 de Abril 2013

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/detalhe/do_euro_ao_ressentimento.html

terça-feira, 16 de abril de 2013

Media, governo e administração em Timor-Leste


Photo: a aldeia global
Foto Carlos Narciso

Exmo. Senhor Presidente do Parlamento Nacional, Vicente      Guterres,
Exmo. Senhor Dr. Mari Alkatiri,
Exmos. Senhoras e Senhores Oradores,
Exmos. Participantes e Convidados,

  Informação é poder. Produzir informação credível, divulgá-la com eficácia junto de públicos-alvo bem definidos é uma componente essencial da política de comunicação de todos os governos. É fundamental para qualquer orgão de soberania, instituição do estado e entidade da administração pública.

  Dito isto, vou abordar sucintamente algumas questões fundamentais do que creio devam ser as prioridades da política de informação do estado timorense para o exterior.

  Não me cabe naturalmente a mim indicar quais as políticas a seguir. Isso é, obviamente, matéria soberana da República Democrática de Timor-Leste.

  Acompanho há muito as questões de Timor e sei quanto vos custou ganhar essa soberania de estado independente que naturalmente tanto prezam.

  Noutros tempos bem difíceis para Timor discuti com toda a liberdade questões ligadas à luta pela independência, à viabilidade de um estado soberano. Isso nem sempre era bem compreendido.

  Tentei relatar com o máximo rigor e objectividade eventos e processos políticos, comentei, louvando ou criticando, opções tomadas por altura de 1999, e depois de concretizada a independência.

  Muito aprendi em discussões com timorenses, indonésios, australianos e pessoas de tantas outras nacionalidade. Nessas conversas por vezes, diga-se em abono da verdade, muito nos exaltávamos por razões ideológicas, opções tácticas, ou qualquer outro apaixonante tópico.

  Em todas essas trocas de argumentos acabava inevitavelmente por sobressair a importância da política de informação.

  Creio que na resistência interna e externa os dirigentes e militantes independentistas timorenses, bem como quem os apoiava ou combatia, sempre tiveram isso presente.

  Lembro-me claramente da importância que lhe dava, por exemplo, o saudoso Padre Xico.

  Um querido amigo com quem me cruzei em Macau.

  Faço questão de o evocar em homenagem a gente conhecida ou que no anonimato tanto ajudou a criar condições para termos conversas como esta, aqui e agora.


  Francisco Maria Fernandes, um coração grande que nunca esqueceu a sua Lacló natal, era incansável e exemplar.

  Jogava com as emoções e sabia, igualmente, apresentar argumentos bem sustentados.

  Tinha atenção ao rigor, mas também acabava por confessar entre amigos que, por vezes, muito raras vezes -- dizia ele com um sorriso maroto -- e só mesmo em casos extremos, tinha exagerado ou omitido certas coisas menos felizes que podiam prejudicar o povo timorense por amor a uma causa maior.

  O padre Xico tinha fé em Deus e paixão por Timor. Era impossível o mais céptico ou irónico dos jornalistas zangar-se com ele por causa daqueles pecados de omissões e exageros que só podiam ser coisa pouca, coisa muito pouca, como ele dizia.

  Todos o respeitavam porque o Padre Xico também sabia escutar críticas, esforçava-se por compreender as dúvidas dos outros, muito meditava sobre as suas próprias dúvidas.

  E é por isso que venho aqui chamar a atenção para alguns tópicos com a mesma liberdade com que o faria se estivesse a falar com o Padre Xico.

  Primeiro, visto de fora, visto de Portugal onde trabalho, não tenho a certeza de que aquilo que penso serem as prioridades informativas da República Democrática estejam a ser devidamente concretizadas.

  Por princípio, uma vez definidas as grandes linhas da política externa, a mensagem a transmitir deve ser coerente. Não varia em função do destinatário ao sublinhar os grandes objectivos estratégicos, mas tem de ser adaptada.

  É preciso ter em conta quais os aspectos a destacar ao ter como receptor da nossa mensagem determinado destinário, ao dialogar com certos interlocutores.

  Consideremos, então, os principais alvos da política externa timorense.

  Comecemos pela Associação das Nações do Sudeste Asiático. A ASEAN, para usar o acrónimo inglês, a língua veicular da região.

  É uma entidade congregando estados com interesses, níveis de desenvolvimento e sistemas políticos bastante díspares a que Timor aspira aderir o mais depressa possível.

  Neste caso não sei se foi utilizado eficazmente o argumento de que a adesão poderá contribuir precisamente para ajudar a ultrapassar carências materiais e humanas que limitam a capacidade para uma plena integração.

  Sei que este argumento tem falhas, tenho a certeza de que não convencerá muito político em Singapura, mas ainda assim apresenta algumas virtualidades.

  Contudo, noto com preocupação que há, em geral, algum vitimismo no discurso diplomático timorense e no caso da ASEAN a culpa seria de Singapura.

  Isto é, queixam-se frequentemente de serem vítimas de pressões alheias ou prejudicados por interesses ignobéis.

  Podem ter razão por vezes, mas não esqueçam que neste mundo tudo é conflito de interesses.

  Timor também tem interesses próprios que podem colidir com os de outros estados. Não há inocentes.

  É mais eficaz em certos contextos assumir divergências de interesses ou de apreciações, sublinhando a disponibilidade para o diálogo e a busca de consensos.

  Pelo que vou percebendo da cobertura noticiosa na Malásia ou na Indonésia, por exemplo, creio que estão bem encaminhados os interesses de Timor.

  Quando concretizarem a adesão vão, contudo, precisar de ter muito cuidado para não falharem compromissos por falta de recursos humanos e materiais.

  O escrutínio dos media regionais vai acentuar-se e não sei se dispõem, por exemplo, de pessoal com domínio correcto do inglês para servir de interlocutor aos jornalistas estrangeiros.

  Tentar esconder insuficiências ou acusar os outros de paternalismo ou arrogância é contraproducente, isso vos garanto.

  Como é que vão assumir óbvias insuficiências? Como é que vão explicar a lógica da vossa estratégia de desenvolvimento social e económico no contexto da ASEAN? Conseguem avançar com calendários realistas para concretizarem certos compromissos?
É bom que tenham isso rapidamente esclarecido.

  Olhando a leste não percebo bem que importância estão a dar à relação com estados da Melanésia, da Papuásia-Nova Guiné às Fiji e Vanuatu.

  Qual é o tema principal: a cooperação e interesse mútuo em prol da estabilidade interna de cada estado? Basta pensar no que por cá se passou em 2006 ou das intervenções militares nas Fiji para perceber o delicado da questão.

  Convergências quanto a projectos de desenvolvimento sustentado e gestão de ajudas externas? É isso que está na mesa? Política ambiental?

  Naturalmente algumas vezes os compromissos e promessas timorenses na área melanésia podem entrar conflito com interesses da Austrália e da Nova Zelândia e ainda da Indonésia.

  Então, como é que hieraquizam prioridades ou ponderam superar potenciais conflitos?

  Para os dois grandes vizinhos desenvolvidos, a Austrália e a Nova Zelândia, a lógica informativa terá, também, de ser bem afinada, muito direccionada, e desde logo dou-vos conta de uma grande perplexidade pessoal.

  No contexto internacional os media australianos são a principal e melhor fonte de informação sobre Timor. Contudo, é muito frequente ouvir-se por cá que determinados órgãos de informação australianos estão ao serviço de certos interesses inconfessáveis ou bem identificados, etc., etc.

  Mesmo que achem que isso seja verdade, ignorando que esses mesmos media são em regra de alto nível e influentes, não aconselho que sigam por aí.

  Desde logo estão a evidenciar uma ideia conspirativa e manipulatória do que sejam os media.

  A seguir façam este exercício. Nomeiem um ou uma jornalista timorense de reputação internacional. Agora identifiquem os principais dez jornalistas australianos que contam por esse mundo fora.

  Se ainda não estiverem convencidos o caso complica-se.

  As grandes agências internacionais de informação usam o jornalismo australiano, seguido do indonésio, como fonte sobre Timor até porque os media timorenses são muito incipientes, virados para assuntos domésticos e expressam-se essencialmente em tétum, uma língua muito respeitável, mas sem difusão internacional.

  Isso, aliás, leva a que o estado timorense aspire a dispor de um meio com certa projecção capaz de noticiar aspectos geralmente menosprezados das realidades locais e posições políticas próprias.

  Criar uma agência noticiosa costuma ser a resposta óbvia para esse anseio.

  Há, no entanto, um risco tremendo: se essa agência se tornar num órgão sem independência, subordinado a interesses partidários e pessoais, não terá qualquer credibilidade.

  Será um desperdício de dinheiro, uma feira de vaidades, uma mancha para o bom nome de um regime democrático.

  Quem tem responsabilidades políticas ou administrativas em Timor deve evitar essas tentações nos contactos com os media, sejam eles timorenses ou estrangeiros.

  O princípio a seguir para uma boa interacção com os media é sempre igual: seja o mais rigoroso possível, omita o menos possível.

  Fuja à tentação de manipular porque frequentemente não funciona e só o deixa mal visto.

  É certo que a mentira e as omissões resultam muitas vezes no curto prazo, mas acabará por ser desmascarado.

  Não hostilize, ignore ou subestime os jornalistas que o abordam.

  Cultive em particular, ou seja, discuta abertamente com os poucos jornalistas e especialistas das mais diversas áreas, que vão seguindo com alguma continuidade e conhecimento a actualidade de Timor.

  Medite sobre o facto de certas mensagens não passarem.

  Por vezes pode não ser por deficiência de comunicação ou por esbarrar contra interesses instalados.

  Vou dar um exemplo e é natural que não gostem de ouvir isto.

  Digo-vos que, pelo menos na Europa, ninguém que conte na área da energia considera credível o projecto de processamento de gás natural na costa sul de Timor.

  Não é por a Woodside ter recursos para influenciar ou manipular jornalistas, gestores, académicos ou políticos menos honestos. Não. É porque o projecto é tido como não sustentável economicamente. Neste caso já não é uma questão de comunicação. É uma questão de análise e decisão política e económica.

  De qualquer forma, deixando agora de lado esta importante matéria, vamos partir do princípio de que foi definida uma estratégia, desejavelmente correcta, por decisores legitimados democráticamente, e pensar bem na mensagem que se deseja transmitir e nos meios para o fazer.

  O que nos traz de novo a uma geografia de comunicação.

  Espero que Timor, ou, já agora, experimentem dizer Díli que dá outro peso, tenha uma política de comunicação bem articulada no que toca à Indonésia.

  Falo da política estado a estado. Disputas, divergências até por causa de um passado tão doloroso, exigências de reparações, são incontornáveis.

  A reconciliação estado a estado, o esquecimento doloroso no seio das próprias nações, é, contudo, feita também à custa de perfeitamente compreensíveis e justas exigências de justiça.

  O mal, o abuso, o terror, é questão que estará sempre presente, mas a forma como Díli e Jacarta ultrapassaram traumas tão vivos dá razão para ter esperança que alguma coisa possa mudar de facto.

  Lembro-me de como Pramoedya Ananta Toer me advertiu uma vez, em Jacarta, pouco antes do referendo de 1999, fumando kreteks uns atrás dos outros, que seria de temer o pior do género humano em coisas de política.

  Fora assim na ilha de Buru; assim fora nos contrafortes do Matabian.



  Pak Pram, era um escritor superior, assumidamente controverso em questões políticas, mas com uma sensibilidade que imediamente o levava a compreender quando o conheci pessoalmente em 1999 que pelas bandas de Timor estava em jogo qualquer coisa de fundamental.

   Lembro Pak Pram para sublinhar que aqui joga a vosso favor o conhecimento do bahasa indonesia, a militância democrática no arquipélago, e a memória de certos horrores da História.

  Mudando de paragens é altura de referir que na área de expressão portuguesa certas prioridades são óbvias.

  Temos a cooperação para a divulgação da língua portuguesa, um imperativo constitucional da República Democrática, para qual é fundamental sobretudo o empenho de portugueses e brasileiros.

  Portugal tem ainda maiores obrigações porque é ex-potência colonizadora e membro da União Europeia e o Brasil pela sua importância indiscutível não se pode eximir de responsabilidades.

  Toda uma série de razões culturais, económicas e políticas fazem de Moçambique, Angola, São Tomé e Princípe e Cabo Verde parceiros de eleição, mas é necesário descobrir como adequar a mensagem a cada país e potencializar as relações.

  No caso do deplorável estado falhado da Guiné-Bissau é já Timor que, na medida do possível, tenta ajudar.

  A política de protecção das línguas nacionais em Moçambique e Angola, a par da utilização da língua administrativa nacional, apresenta aspectos de muito interesse para Timor, por exemplo.

  Noutras vertentes os serviços de comunicação do estado timorense têm a obrigação de facultar informação fidedigna a países dadores, seja o Japão ou a Noruega, e a organizações internacionais.

  Por vezes podem até recorrer a agências de comunicação para campanhas pontuais, mas melhor será se dispuserem de recursos minímos permanentes para dar resposta aos media.

  Desnecessário será dizer que Macau facilita ainda o contacto com a China, uma potência que tem vindo a alargar a sua rede de interesses. O vasto mundo da China está muito para além de Macau, mas o que importa é que face a Pequim, bem como ante os Estados Unidos, importa definir especificamente o que se pretende.

  Vale o mesmo para as agências especializadas das Nações Unidas e organizações não-governamentais estrangeiras e nacionais vitais para projectos de desenvolvimento.

  Por todas estas razões não é conveniente que o aparelho de estado timorense continue excessivamente dependente de organizações de voluntariado como a ETAN, que, sublinhe-se, realizou e realiza um notável trabalho, para produzir e fazer circular informação.

  O meritório serviço de difusão destas organizações ou de entidades religiosas não exime o estado das suas obrigações de facultar directamente ou através da media informação aos cidadãos da República Democrática, às comunidades timorenses em Portugal ou na Austrália, a jornalistas estrangeiros, a outros estados e instituições internacionais.

  Apesar da turbulência do pós-independência Timor-Leste ainda conta com um grande capital de simpatia, mas não se deixem levar pela autocomplacência.

  Têm pouca gente qualificada no aparelho de estado para produzir e elaborar informação que frequentemente exige grande rigor técnico.

  Os media timorenses, públicos ou privados, estão ainda no início do caminho para, a pouco e pouco, cumprirem funções de escrutínio, crítica, ou divulgação de informação útil.

  As vossas elites são muito escassas, sensivelmente metade da população subsiste abaixo da linha de pobreza, o crescimento demográfio anual é excessivamente elevado atingindo os 2,9%.

  Portanto, tudo é difícil e a comunicação com o exterior, que é o assunto em que tenho particular competência para falar, ressente-se disso.

  Os quadros timorenses que possam intermediar com o estrangeiro dominam sobretudo o bahasa, poucos, demasiado poucos, o português e o inglês.

  Nem sequer sei se existe algum levantamento sobre as capacidades linguísticas, escritas e faladas, da administração timorense e nos media.

  Persiste uma grande dependência da cooperação internacional estatal ou não-governamental.

  Esta escassez de pessoal, as infraestruturas de comunicação extremamente deficientes ou quase inexistentes em boa parte do país, obrigam a um esforço tremendo para definir prioridades e não desperdiçar os escassos recursos disponíveis.

  À míngua de gente qualificada pode, ainda, vir a ocorrer um fenómeno altamente negativo e que, de repente, inquina tudo.

  Falo da promiscuidade, da rotação acelerada, do hoje ajuda-me tu que amanhã pago eu o favor, enfim, das transferências de quadros das estruturas de comunicação do estado para empresas privadas, com retorno garantido e vice versa.

  Esse vai e vem entre sectores públicos e privados, mesmo quando sujeito a legislação rigorosa, dá azo a imensos abusos e alimenta as piores suspeitas.

  Em Portugal, digo-o francamente, confrontamo-nos com uma realidade confrangedora nessa matéria.

  Fico por aqui e não lamento ter essencialmente destacado problemas, insuficiências, dúvidas, perplexidades, apesar de se ver por aí imensa coisa boa.

  Haja alguém! É para isso que os amigos servem, ensinou-me o padre Xico.

  Na torna-viagem, dizia ele, de tanta discussão talvez algo de bom venha à luz do dia.

  Espero bem que sim.

 Obrigado.

Comunicação ao Seminário de Comunicação: "Interacção com os Media"
Díli, Salão do Ministério dos Negócios Estrangeiros
23 de Março de 2013

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Um genocídio como outro qualquer



   Pastores cuvales
   Deserto do Namibe, 1935-1939
   Foto Helmano Costa, ICCT 


Quem pouco fala não diz nem bem nem mal e o morto no caixão não tem voz activa.
"Ondula, Savana Branca" (1982)
 Ruy Duarte de Carvalho

   A batida do cabo-de-guerra Abel de Abreu Sotto-Maior à tribo cuvale começou nos finais de 1940 e, em Fevereiro do ano que sobreveio, estes pastores do sul de Angola estavam subjugados, seu gado disperso, e mais de três mil homens, mulheres e crianças cativos da autoridade portuguesa na última investida de pacificação antes de outra revolta, desta vez fatal, deflagrar bem a norte em 1961.

   Ainda assim, umas centenas de mortes descontadas à savana, melhor foi a sorte dos cuvales do que a dos seus patrícios hereros chacinados às ordens do governador Heinrich Goering na colónia alemã do Sudoeste Africano nos anos de devastação que se arrastaram de1904 a 1908.

  A chacina desencadeada pelo pai de Hermann Goering, o futuro marechal do Reich hitleriano, consta dos anais dos extermínios por ordem estatal que actualmente se enquadram no cadastro de genocídios.

   Só em Janeiro de 2004 o governo de Berlim lamentou oficialmente "um passado infeliz", mas a Alemanha continua a contestar o pagamento de indemnizações aos descendentes dos quase cem mil chacinados.

  O processo judicial aberto nos Estados Unidos em 2001 continua o seu curso.

  A memória dum massacre é um espectro sempre presente. Paira sobre savanas e desertos e tão cedo também não deixará de assombrar as montanhas dos Balcãs por mais que o finjam ignorar as chancelarias.   
  
                                Genocídio na letra da lei

   Do genocídio como conceito e letra de lei sabe-se que tudo deve à persistência do jurista judeu polaco Raphael Lemkin.

  Inicialmente chocado com o massacre dos arménios na Turquia durante a I Guerra Mundial e dos assírios às mãos de árabes e curdos no norte do Iraque em 1993, Lemkin acabaria, desgraça do destino, por teorizar a chacina de judeus desencadeada pelos nazis como acto de genocídio.

  Na lógica de Lemkin, a destruição dos fundamentos da vida de uma entidade nacional seria equivalente a um genocídio, mas o que passou para a "Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio", adoptada pelas Nações Unidas em 1948 e em vigor desde 1951, foi a tipificação de qualquer acto cometido com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso.

  Os termos restritos da Convenção englobam os actos, considerando apenas estes grupos, de matar e causar lesão grave à integridade física ou mental de pessoas.

   Acresce o impor intencionalmente condições de existência capazes de ocasionar a destruição física total ou parcial do grupo estigmatizado.

  A adopção de medidas destinadas a  impedir nascimentos no seio do grupo destinado à matança e a transferência forçada de crianças para outra entidade constam, ainda, na definição da ONU como prática de genocídio.

                                         "Et tu quoque" 

  Nesses lapidares ditos latinos do "até tu" também que assombram o Ocidente coube agora à atormentada Sérvia escapar ao pior, mas a Bósnia multiétnica do passado não reviverá apesar das quimeras de políticos e diplomatas.

  A mais alta instância judicial das Nações Unidas, o Tribunal Internacional de Justiça, absolveu, na segunda-feira, o estado sérvio da prática de genocídio na guerra da Bósnia Herzegovina.

  A crer nos dados mais elaborados em data, por parte do Cento de Pesquisa de Documentação de Sarajevo, a guerra de 1992-95 saldou-se em cerca de 100 mil mortes, sendo 66 por cento das vítimas muçulmanas, 25 por cento sérvias e quase 8 por cento croatas. 

  O tribunal de Haia considerou, no entanto, que a Sérvia não cumpriu com a obrigação legal de evitar genocídio no caso particular do massacre de 8 mil muçulmanos em Srebrenica em Julho de 1995.

  O estado sérvio, à altura presidido por Slobodan Milosevic, foi, assim, exonerado de cumplicidade no crime de Srebrenica. Nem neste caso foi possível provar a intenção genocidária.

  Temos, portanto, um crime, mas não se vislumbra um estado culpado.

  A culpa fica por conta das milícias sérvias da Bósnia lideradas por Radovan Karadzic e Ratko Mladic, a monte desde Julho de 1995 data em que o Tribunal Penal Internacional para a Antiga Jugoslávia ordenou a sua detenção.

  Neste particular, a decisão da mais alta instância judicial da ONU considera a Sérvia culpada de não cooperação com o Tribunal Penal Internacional para a Antiga Jugoslávia por não ter extraditado Ratko Mladic acusado de genocídio.

  A decisão, que é definitiva, determina, ainda, que a Sérvia, estado sucessor da antiga República Federal Jugoslava que incluiu até o ano passado o Montenegro, não tem de pagar indemnizações monetárias à Bósnia-Herzegovina que apresentou a queixa em 1993.

  O Tribunal Internacional de Justiça julga desde 1946 exclusivamente disputas entre estados e as suas deliberações não têm carácter vinculativo.

                            A quimera depois do genocídio                                       

   Obviamente, a chacina em massa é prática velha como o mundo e vai muito para além da mera letra da Convenção da ONU, mas esta decisão judicial levanta questões delicadas, aumentado desde já a pressão sobre Belgrado para a captura de Mladic que durante muito tempo se refugiou em território sérvio e cujo paradeiro é agora incerto.

  A NATO que vai para 12 anos tenta capturar Karadzic na Bósnia também não sai muito bem vista e a oferta feita em 2006 a Belgrado para integrar a Parceria para a Paz, continua a fazer pouco sentido enquanto a Sérvia não cumprir as suas obrigações legais de plena cooperação com o Tribunal Penal Internacional.

  Em rigor a situação criada pelas forças nacionalistas na Sérvia condena o país a uma situação comparável à do Sudão de Omar al Bashir que recusa terminantemente entregar à justiça internacional suspeitos de crimes de guerra e contra a humanidade no Darfur.

  A União Europeia, assoberbada com a questão do Kosovo, não pode, por sua vez, ignorar mais este engulho diplomático nas negociações com Belgrado para um eventual acordo de estabilização e associação.

   Os acordos assinados em 1995 em Dayton estão ainda longe de estar cumpridos na Bósnia onde cresce a contestação sérvia à partilha de soberania com croatas e muçulmanos.

  Milorad Dodik, o primeiro-ministro sérvio, exige a realização de um referendo que permita à República Sérvia desvincular-se do estado bósnio à semelhança das aspirações independentistas dos albaneses do Kosovo.

   A imposição de uma presidência rotativa e de um governo central sobrepostos às estruturas separadas da Federação Croata e Muçulmana e da República Sérvia, apesar da criação de um sistema judicial e alfandegário comuns e de estruturas policias e de defesa unificadas, revela-se por demais artificial e dificilmente sobreviverá à dinâmica criada pela separação do Kosovo.

   O modelo imposto pelos Estados Unidos e a União Europeia à Bósnia-Herzegovina é impraticável, contraditório com o apoio de Washington e de países como a Alemanha ou a Grã-Bretanha às reivindicações de independência do Kosovo, e, consequentemente, melhor seria assumir a partilha territorial.

   O genocídio resumido ao massacre de 8 mil homens e rapazes em Sarajevo agasta muçulmanos e também croatas e, para maior humilhação, o veredicto de Haia foi conhecido precisamente no dia em que o ministro da Defesa da Holanda, Henk Kamp, condecorava em Assen, pelos seus feitos numa "missão extraordinariamente difícil", militares do batalhão que em Julho de 1995 assistiu impotente ao massacre.    

   Deixar os mortos ter voz activa e não tentar impor a coexistência de gentes que, presentemente, têm ainda muita dor e ressentimento a separá-las é um imperativo moral e político.


Jornal de Negócios
1 de Março 2007

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/detalhe/um_genocidio_como_outro_qualquer.html