domingo, 19 de agosto de 2012
Estimada baronesa
Caríssima cidadã,
Henry Kissinger ficaria perplexo se ainda mandasse ao saber que teria agora uma baronesa, tendência violeta-socialista, na agenda telefónica europeia e maior surpresa evitaria revelar por cauta diplomacia ao confrontar-se com sua declaração de putativa competência.
Disse a baronesa Catherine Ashton estar convencida de que os meses e anos que se aproximam irão demonstrar que é "a melhor pessoa" para chefiar a diplomacia europeia, pois, no imediato, a virtude da sua estatura ficou exarada na confiança depositada por 27 chefes de estado e de governo.
Falta de inteligência e astúcia política é o que salta logo à vista neste "deixam-me lá mostrar que não vou fazer de tonta" e, por isso, foi logo emboscada por diplomatas espanhóis.
Tudo, como obrigam as regras, num "off" diplomático em alta voz muito política sobre competências.
Por coisa da baronesa ser impreparada e neófita e, no entanto, vir a arcar com maiores responsabilidades do que veteranos como Javier Solana e a austríaca Benita Ferrero-Waldner (a política externa, os subsídios, sanções, o mundo inteiro por atacado) num cargo que obriga a gerir ainda o complicativo e novel corpo diplomático da UE, acertar o que sejam poderes de iniciativa e representação com os presidentes da Comissão e do Conselho e os 27 notáveis que tanta confiança demonstraram em si.
Pare, escute e olhe Tendo isso em conta, permita-me cara baronesa Ashotn of Upholland, seu título desde os idos de 1999 por graça de Tony Blair e idiossincrasias institucionais do Reino Unido, exarar algum cepticismo sobre suas virtudes no vasto mundo.
A baronesa chegou a Comissária do Comércio da Comissão Barroso quando Gordon Brown, em apuros domésticos, teve de negociar o retorno ao governo de Londres em Outubro do ano passado do controverso Peter Mandelson depois de quatro anos passados em Bruxelas por parte desse dilecto político trabalhista.
Mandelson, vate sem par do New Labour, voltou a Londres e também foi nobilitado.
À baronesa, até por ter conseguido chegar a liderar a Câmara dos Lordes e distinguir-se ao levar os seus pares a passarem no Verão de 2008 o Tratado de Lisboa, calhou-lhe, então, em sorte rumar a Bruxelas.
Ainda que nunca tenha tido de se apresentar a uma eleição para cargo público, já não falta quem tenha posto a correr (o "spin", sempre o "spin") que, por via de alegadas qualidades intelectuais e políticas, a baronesa é uma líder nata capaz de em menos de um ano crismar acordos comerciais com a Coreia do Sul e acertar os termos de importação de bananas da América Latina face às objecções doutros exportadores de África, nas Caraíbas e no Pacífico.
Pouco importa, estimada baronesa, pois o seu CV, ainda que deixe a desejar, indicia ser política de carreira e sortuda nos patronos, e permite presumir que, como mulher inteligente, já se tenha apercebido de que ninguém levou a sua nomeação a sério em Teerão, Pequim, Moscovo, Tóquio, Brasília. Por vezes, em Washington são mais corteses, mas nem aí é de fiar.
De resto, baronesa, não existe política externa europeia e dificilmente será a cidadã Catherine Ashton a definir tal coisa.
Não é para levar a sério A 1 de Dezembro, a baronesa entrará em funções, logo a seguir conhecerá a desordem de negociar com a Ucrânia, e, por via dos acordos entre socialistas e conservadores no Parlamento Europeu, será confirmada na vice-presidência da Comissão Europeia em meados de Fevereiro.
O olear das rodas e o embalo dos patronos irão garantir-lhe o mínimo dos mínimos, mas, apesar de chegar a alto cargo, à boleia do que resta do empenhamento britânico em matérias de defesa e à escuta atenta que Washigton ainda reserva a Londres, talvez as primícias quedem aquém do desejado.
É tudo imponderável daqui para frente, mas nada do que a baronesa praticou até agora permite pensar que advenha portento e iniciativa política.
Todos sempre nos enganamos e, sobretudo, é risco imenso, quando auguramos, em casa própria, sermos "a melhor pessoa" para a equívoca diplomacia dos 27.
Excelência não é título nobiliárquico, mas, sim, apuro de intelecto e acção, e a baronesa tem em agenda coisa imensa contra a qual nunca se confrontou.
Face aos mutantes exterminadores
Cortesia do "Financial Times", ficámos a saber, entretanto, que a Baronesa dos 27 é fã da série de ficção científica Dr Who.
Vislumbra a baronesa no seu gabinete, por oferta do marido, garante o "Financial Times", um Dalek, mutante extraterrrestre do Dr Who, exterminador implacável, impiedoso, que, afinal, pouco diferente será doutros monstros que a esperam nas esquinas da política.
E, por tudo isto e mais coisas, é de lembrar a si, baronesa, deste canto, coisa antiga de liberal anglófilo como poucos.
Do português Almeida Garrett, que fez, aliás, seu exílio nas ilhas do outro lado da Mancha, ficaram ditos destes:
"Foge cão que te fazem barão. Mas para onde se me fazem visconde?"
Se tudo correr mal, salvo seja baronesa, teremos sempre Garrett e a senhora saltará, subirá, e nós por cá nada teremos a dizer.
P.S. - Por questões que a baronesa certamente entenderá, omitimos qualquer referência ao belga dos haiku para limitar a coisa a matéria séria.
Jornal de Negócios
25 Novembro 2009
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