Sarrazin quebrou um pacto de obfuscação que nunca poderia durar por muito mais tempo à medida que a oposição de Berlim à integração da Turquia na União Europeia se torna mais vivaz.
O presidente da Alemanha, Christian Wulff, tem em mãos a demissão de um dos directores-executivos do Banco Central por violar o código de ética e prejudicar a imagem pública da instituição.
A demissão foi pedida pelos demais cinco membros da direcção e apoiada pela chanceler Angela Merkel, depois de Thilo Sarrazin ter lançado um livro tido por xenófobo e proferido declarações racistas.
A oposição social-democrata, que apoiara a nomeação do antigo senador de Berlim para o Bundesbank, abriu, entretanto, um processo para expulsão do seu militante.
Os embaraços que Sarrazin vinha causando ao Bundesbank desde que tomara posse em Maio de 2009, aprovado pela Câmara Alta do Parlamento que tem direito a escolher três membros da direcção, passaram das marcas com a publicação de "A Alemanha Autodestrói-se" e subsequentes entrevistas.
Sarrazin irá contestar nos tribunais a eventual demissão e o caso poderá arrastar-se até Outubro de 2011 quando Jean-Claude Trichet terminar o mandato à frente do Banco Central Europeu.
A candidatura do presidente do Bundesbank, Axel Weber, à presidência do BCE, arrisca ser prejudicada por um processo sobre a legalidade da demissão de um director-executivo por exercício de liberdade de opinião.
Sarrazin representa um caso muito diferente de anteriores demissões no Bundesbank que ocorreram por divergências políticas com o governo ou devido a escândalos financeiros de ordem pessoal.
Um professor tipicamente idiota
As teses de Sarrazin são um caso de inanidade intelectual e indignidade moral, mas abordam sérios problemas.
Afirma Sarrazin que a política de imigração das décadas de 60 e 70 foi "um erro gigantesco" e, em consequência, a Alemanha confronta-se com o crescimento acelerado de uma classe desqualificada de origem estrangeira.
Os imigrantes de mais baixos níveis educacionais - turcos, árabes e africanos - reproduzem-se a ritmo superior às demais comunidades e, como "a inteligência é 50% a 80% hereditária", o potencial intelectual da nação decai irremediavelmente.
Acresce que imigrantes muçulmanos relutantes à integração no mercado de trabalho representam um encargo para o estado em prestações sociais, gerando despesas sem contrapartidas económicas.
Sarrazin teme que seus netos e bisnetos tenham de viver num país maioritariamente muçulmano em que o ritmo de vida seja marcado pelos chamamentos dos muezzin.
Numa entrevista Sarrazin veio ainda afirmar que as suas teses sobre identidade genética e hereditariedade intelectual eram comprovadas por estudos que demonstravam a existência de genes únicos partilhados por judeus e bascos.
O espírito universal não come kebab
Sendo um caso típico da idiotia professoral que tanta desgraça já trouxe à Alemanha e ao mundo, Sarrazin mistifica questões relevantes.
O porquê das qualificações educacionais de imigrantes e filhos de imigrantes (cerca de 18 % da população) estarem a par da média nacional em matéria de requisitos para acesso ao ensino superior, mas de quase 10 % não terem concluído os estudos secundários, contra 1,5 % dos restantes cidadãos de origem alemã, fica reduzido à inferioridade intelectual geneticamente determinada de uns quantos.
A dinâmica demográfica alemã - envelhecimento acelerado e uma quebra de 12 milhões em relação aos actuais 82 milhões de habitantes até 2050, mesmo com a entrada de 150 a 200 mil imigrantes/ano - reduz-se a um requisitório contra a ameaça muçulmana e uma política de contratação de trabalhadores estrangeiros que aparentemente surgiu do nada.
Cerca de 3 milhões de pessoas oriundas da Turquia (turcos e curdos confundidos) e uns quantos 300 mil árabes surgem como a maior das ameaças ao património intelectual alemão.
Sarrazin enumera as desproporcionadamente altas taxas de crime e níveis de desemprego das minorias funestas que raramente contraem matrimónio com alemães.
O professor acaba, como seria de esperar num monomaníaco, por deturpar alguns dados, em particular nas questões de segurança.
O caso mais óbvio tem a ver com a incidência de crimes em Berlim onde se contam cerca de 3,5 milhões de habitantes e mais de 250 mil residentes de origem turca.
Sarrazin afirma que 20 % dos crimes violentos são cometidos por adolescentes turcos e árabes, mas em 2009, período em questão, os números indicam que os suspeitos de origem turca ou árabe somavam 8,7 % do total.
O especialista de finanças constata, no entanto, problemas de fundo nas dificuldades e/ou relutância à integração de determinadas minorias não-cristãs e sublinha a insustentabilidade do modelo de prestações sociais e sistema de reformas, temas de que as elites alemãs tendem a evitar, mas que parte significativa da população considera ameaçadores para a integridade nacional.
Friedrich Hegel, uma inteligência superior da Alemanha, vislumbrou certa vez o espírito universal a cavalo ao contemplar a entrada de Napoleão na cidade de Jena nos idos de 1806.
Sarrazin entrevê, ao contrário do filósofo que celebrava um equívoco triunfo da liberdade, o definhamento do mundo nos genes estúpidos dos turcos que comem döner kebab pelas ruas de Berlim.
Como é possível ser turco
Afora a reputação do Bundesbank e a capacidade de gestão de crises do seu presidente, para além dos equívocos que geram as regras de nomeação dos directores sem passarem por uma aprovação formal nas duas câmaras do parlamento, o que mais aflige é um Sarrazin dar voz a temores muito presentes na Alemanha.
A integração de imigrantes turcos foi prejudicada pela lei de nacionalidade que só a partir de 2000 facilitou a adopção da nacionalidade a residentes de longo prazo e seus descendentes.
Só um terço dos imigrantes turcos (cidadãos não-comunitários não têm direito a dupla-nacionalidade) se naturalizou o que revela a alienação de comunidades cujo nível educacional é baixo: um terço não completou o ensino secundário, 16% dependem de subsídios sociais e a sua taxa de desemprego é superior ao dobro da média nacional.
Sarrazin quebrou um pacto de obfuscação que, aliás, nunca poderia durar por muito mais tempo à medida que a oposição de Berlim à integração da Turquia na União Europeia se torna mais vivaz.
As justificações políticas tendem a confundir-se com a perservação de uma União Europeia laica ou de matriz cristã e em qualquer caso incapaz de incorporar um país com mais de 70 milhões de turcos predominantemente muçulmanos sunis e alevis.
O debate adiado
A extrema-direita alemã é minoritária e dispersa, com maior presença nos estados da antiga Alemanha Democrática, e ainda não conseguiu potencializar a nível nacional os medos que alimentam tendências xenófobas e racistas, sobretudo anti-turcas e anti-muçulmanas, que as sondagens revelam vivazes por todo o país.
Ao contrário da Hungria, da Bélgica, Holanda, Aústria ou França, os principais partidos alemães contiveram até agora o crescimento, mesmo esporádico, de movimentos de extrema-direita.
Nunca faltaram tiradas de populismo racista entre políticos democratas-cristãos e os social-democratas, tal como os ex-comunistas do Partido de Esquerda, albergam bom número de xenófobos.
O caso Sarrazin abre uma polémica adiada pela reticência dos partidos alemães em discutirem as questões de integração de imigrantes muçulmanos.
Jornal de NegóciosA demissão foi pedida pelos demais cinco membros da direcção e apoiada pela chanceler Angela Merkel, depois de Thilo Sarrazin ter lançado um livro tido por xenófobo e proferido declarações racistas.
A oposição social-democrata, que apoiara a nomeação do antigo senador de Berlim para o Bundesbank, abriu, entretanto, um processo para expulsão do seu militante.
Os embaraços que Sarrazin vinha causando ao Bundesbank desde que tomara posse em Maio de 2009, aprovado pela Câmara Alta do Parlamento que tem direito a escolher três membros da direcção, passaram das marcas com a publicação de "A Alemanha Autodestrói-se" e subsequentes entrevistas.
Sarrazin irá contestar nos tribunais a eventual demissão e o caso poderá arrastar-se até Outubro de 2011 quando Jean-Claude Trichet terminar o mandato à frente do Banco Central Europeu.
A candidatura do presidente do Bundesbank, Axel Weber, à presidência do BCE, arrisca ser prejudicada por um processo sobre a legalidade da demissão de um director-executivo por exercício de liberdade de opinião.
Sarrazin representa um caso muito diferente de anteriores demissões no Bundesbank que ocorreram por divergências políticas com o governo ou devido a escândalos financeiros de ordem pessoal.
Um professor tipicamente idiota
As teses de Sarrazin são um caso de inanidade intelectual e indignidade moral, mas abordam sérios problemas.
Afirma Sarrazin que a política de imigração das décadas de 60 e 70 foi "um erro gigantesco" e, em consequência, a Alemanha confronta-se com o crescimento acelerado de uma classe desqualificada de origem estrangeira.
Os imigrantes de mais baixos níveis educacionais - turcos, árabes e africanos - reproduzem-se a ritmo superior às demais comunidades e, como "a inteligência é 50% a 80% hereditária", o potencial intelectual da nação decai irremediavelmente.
Acresce que imigrantes muçulmanos relutantes à integração no mercado de trabalho representam um encargo para o estado em prestações sociais, gerando despesas sem contrapartidas económicas.
Sarrazin teme que seus netos e bisnetos tenham de viver num país maioritariamente muçulmano em que o ritmo de vida seja marcado pelos chamamentos dos muezzin.
Numa entrevista Sarrazin veio ainda afirmar que as suas teses sobre identidade genética e hereditariedade intelectual eram comprovadas por estudos que demonstravam a existência de genes únicos partilhados por judeus e bascos.
O espírito universal não come kebab
Sendo um caso típico da idiotia professoral que tanta desgraça já trouxe à Alemanha e ao mundo, Sarrazin mistifica questões relevantes.
O porquê das qualificações educacionais de imigrantes e filhos de imigrantes (cerca de 18 % da população) estarem a par da média nacional em matéria de requisitos para acesso ao ensino superior, mas de quase 10 % não terem concluído os estudos secundários, contra 1,5 % dos restantes cidadãos de origem alemã, fica reduzido à inferioridade intelectual geneticamente determinada de uns quantos.
A dinâmica demográfica alemã - envelhecimento acelerado e uma quebra de 12 milhões em relação aos actuais 82 milhões de habitantes até 2050, mesmo com a entrada de 150 a 200 mil imigrantes/ano - reduz-se a um requisitório contra a ameaça muçulmana e uma política de contratação de trabalhadores estrangeiros que aparentemente surgiu do nada.
Cerca de 3 milhões de pessoas oriundas da Turquia (turcos e curdos confundidos) e uns quantos 300 mil árabes surgem como a maior das ameaças ao património intelectual alemão.
Sarrazin enumera as desproporcionadamente altas taxas de crime e níveis de desemprego das minorias funestas que raramente contraem matrimónio com alemães.
O professor acaba, como seria de esperar num monomaníaco, por deturpar alguns dados, em particular nas questões de segurança.
O caso mais óbvio tem a ver com a incidência de crimes em Berlim onde se contam cerca de 3,5 milhões de habitantes e mais de 250 mil residentes de origem turca.
Sarrazin afirma que 20 % dos crimes violentos são cometidos por adolescentes turcos e árabes, mas em 2009, período em questão, os números indicam que os suspeitos de origem turca ou árabe somavam 8,7 % do total.
O especialista de finanças constata, no entanto, problemas de fundo nas dificuldades e/ou relutância à integração de determinadas minorias não-cristãs e sublinha a insustentabilidade do modelo de prestações sociais e sistema de reformas, temas de que as elites alemãs tendem a evitar, mas que parte significativa da população considera ameaçadores para a integridade nacional.
Friedrich Hegel, uma inteligência superior da Alemanha, vislumbrou certa vez o espírito universal a cavalo ao contemplar a entrada de Napoleão na cidade de Jena nos idos de 1806.
Sarrazin entrevê, ao contrário do filósofo que celebrava um equívoco triunfo da liberdade, o definhamento do mundo nos genes estúpidos dos turcos que comem döner kebab pelas ruas de Berlim.
Como é possível ser turco
Afora a reputação do Bundesbank e a capacidade de gestão de crises do seu presidente, para além dos equívocos que geram as regras de nomeação dos directores sem passarem por uma aprovação formal nas duas câmaras do parlamento, o que mais aflige é um Sarrazin dar voz a temores muito presentes na Alemanha.
A integração de imigrantes turcos foi prejudicada pela lei de nacionalidade que só a partir de 2000 facilitou a adopção da nacionalidade a residentes de longo prazo e seus descendentes.
Só um terço dos imigrantes turcos (cidadãos não-comunitários não têm direito a dupla-nacionalidade) se naturalizou o que revela a alienação de comunidades cujo nível educacional é baixo: um terço não completou o ensino secundário, 16% dependem de subsídios sociais e a sua taxa de desemprego é superior ao dobro da média nacional.
Sarrazin quebrou um pacto de obfuscação que, aliás, nunca poderia durar por muito mais tempo à medida que a oposição de Berlim à integração da Turquia na União Europeia se torna mais vivaz.
As justificações políticas tendem a confundir-se com a perservação de uma União Europeia laica ou de matriz cristã e em qualquer caso incapaz de incorporar um país com mais de 70 milhões de turcos predominantemente muçulmanos sunis e alevis.
O debate adiado
A extrema-direita alemã é minoritária e dispersa, com maior presença nos estados da antiga Alemanha Democrática, e ainda não conseguiu potencializar a nível nacional os medos que alimentam tendências xenófobas e racistas, sobretudo anti-turcas e anti-muçulmanas, que as sondagens revelam vivazes por todo o país.
Ao contrário da Hungria, da Bélgica, Holanda, Aústria ou França, os principais partidos alemães contiveram até agora o crescimento, mesmo esporádico, de movimentos de extrema-direita.
Nunca faltaram tiradas de populismo racista entre políticos democratas-cristãos e os social-democratas, tal como os ex-comunistas do Partido de Esquerda, albergam bom número de xenófobos.
O caso Sarrazin abre uma polémica adiada pela reticência dos partidos alemães em discutirem as questões de integração de imigrantes muçulmanos.
08 Setembro 2010
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