domingo, 19 de agosto de 2012

O previsível e o incerto

O estoiro da bolha imobiliária na China é um dos eventos mais previsíveis a curto prazo e a forma como as autoridades de Pequim conseguirem evitar repercussões negativas para a banca, a construção civil, as finanças locais e as bolsas de Xangai e Shenzhen marcará 2010 na China.
As últimas estatísticas disponíveis, relativas a Novembro, registavam um aumento de 5,7% nos preços do imobiliário nas 70 maiores cidades, depois de uma subida de 3,9% em Outubro, redundando na maior alta desde Julho de 2008.
Cortes nas linhas de crédito e medidas fiscais punitivas foram utilizadas na década passada para conter a especulação imobiliária em Xangai e Pequim, mas o custo revelou-se pesado. Presentemente, a bolha imobiliária afecta fortemente Shenzhen e a vizinha Região Administrativa Especial de Hong Kong, passa por locais improváveis como Ordos, na Mongólia Interior, e atinge ainda grandes cidades do interior, caso de Chongqing, Wuhan ou Chengdu, até urbes costeiras, como Tianjin.
Conter a inflação e seguir uma política fiscal pró-activa são objectivos proclamados pelo governo, mas as expectativas de valorização do yuan na segunda metade de 2010 ameaçam atrair fundos especulativos, como ocorreu há precisamente dois anos.
O mercantilismo chinês e outros riscos
Para além da provável subida de taxas de juro, Pequim mostra urgência em adoptar medidas para dinamizar o mercado interno e, à medida que se aproximarem as eleições de Novembro para o Congresso de Washington (em que muito irá depender do ritmo de criação de postos de trabalho nos Estados Unidos), terá de fazer frente às críticas crescentes contra o "mercantilismo" chinês, a que acaba de dar a sua caução com estrondo o Nobel da Economia Paul Krugman.
As controvérsias em torno do yuan subvalorizado e de um dólar a desvalorizar vão definir em grande parte as relações entre Pequim e Washington e acabarão por imbricar-se no feixe de crises latentes.
O tempo que a administração Obama ainda contava ter para gerir a crise nuclear militar iraniana ameaça escassear.
A crise de legitimidade do regime aberta pela fraude eleitoral de Junho inviabiliza concessões negociais por parte de Teerão, torna mais difícil concretizar a retirada do Iraque (onde persiste o impasse entre curdos, xiitas, sunitas e turcomenos em turno do estatuto de Kirkuk) e uma estratégia ocidental de contenção do Irão, ameaçando, por arrasto, a salvaguarda do Tratado de Não-Proliferação Nuclear.
À mais que provável incapacidade dos Estados Unidos e da NATO para estabilizarem o Afeganistão junta-se uma crise que ameaça a integridade do Paquistão, tal como sucedeu em 1971 com a secessão, apoiada pela Índia, do Bangladesh.
Nas zonas tribais pashtun vizinhas do Afeganistão, a autoridade do estado é posta em causa e igual situação se verifica no Baluchistão, que faz fronteira com o sudeste do Irão e o sudoeste do Afeganistão.
Uma estratégia concertada para conter as crises em Cabul e Islamabade, que, no caso paquistanês por via do diferendo sobre Caxemira envolve o risco de confronto com a Índia, não resultou até agora e à medida que a NATO falha no Afeganistão, mais se agravam os diferendos entre civis e militares num Paquistão assolado por atentados terroristas que leva parte significativa das forças armadas a procurar de novo apoios diplomáticos e militares na China.
Com crises de evolução tendencialmente negativa e esperando que a Coreia do Norte não levante novos problemas, a administração Obama dificilmente tem condições para enfrentar focos de instabilidade instalados (Somália, Iémen, em especial) com potencial de ameaças terroristas, e apresenta-se mal equipada para fazer frente a possíveis vendavais regionais como possa vir a ser a interdita sucessão de Mubarak no Egipto ou conflitos regionais na Nigéria.
O previsível agravamento da fome
A disfuncional economia russa, que poderá começar a recuperar de uma contracção do PIB na ordem dos 8,5% a 9% em 2009, continua presa às exportações de petróleo e gás natural e assolada pelo terrorismo e conflitos étnicos no norte de Cáucaso, pelo que enquanto se mantiver a dupla Putin-Medvedev sem contestação política significativa, o melhor que norte-americanos podem esperar são acordos para redução de armamentos estratégicos, enquanto a União Europeia prossegue as tentativas para diminuir a dependência energética face a Moscovo.
Previsível no palco europeu é a deriva anti-Turquia por parte de Bruxelas, que, desde logo incapaz de mediar o conflito no Chipre, se arrisca a ver os círculos dirigentes de Istambul abandonarem esforços inglórios de integração na União Europeia apostando cada vez mais na projecção do país no Cáucaso, Médio Oriente e Ásia Central. O custo estratégico da alienação da Turquia irá pesar nas próximas décadas.
As mudanças climáticas, com potencial para provocarem devastações imediatas nos mercados de bens alimentares, agravando a situação de subnutrição de um sexto da população mundial, podem ainda vir a revelar-se um dos grandes factores de destabilização em 2010.
Eventos imprevisíveis são sempre factor a ter em conta, mas só o agravamento dos feixes de crises com que se entra no novo ano é mais do que suficiente para considerar que as dificuldades de governação global se irão acentuar.
Da morosa reestruturação do FMI e Banco Mundial, às dificuldades negociais na Organização Mundial do Comércio, passando pela ausência de acordos vinculativos globais para enfrentar mudanças climáticas, até à adiada reforma do sistema da ONU e, em particular, do Conselho de Segurança, abundam os sinais de que a integração de potências emergentes num sistema internacional e em estruturas regionais capazes de evitar confrontos violentos será um processo tumultuoso que marcará, por certo, 2010.

Jornal de Negócios
06 Janeiro 2010

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