quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Mugabe em estado de choque

Para Robert Mugabe o choque deste fim-de-semana foi bem maior do que a derrota no referendo constitucional de Fevereiro de 2000 e só a manipulação dos resultados eleitorais terá, muito provavelmente, permitido ao regime ganhar tempo para uma segunda volta.
 
 
O Movimento Democrático para a Mudança proclamou no domingo a vitória do seu candidato Morgan Tsvangirai para ganhar a iniciativa política e tentar limitar o recurso à fraude institucional.
Tsvangirai evitou, contudo, reivindicar vitória e, segundo fontes da oposição, entrou em contacto com círculos militares para negociar uma transição pacífica de poderes.
O presumível sucessor de Mugabe terá garantido imunidade para alguns dignitários do regime, mas, aparentemente, a oferta ainda não resultou num compromisso político.
As projecções da Zimbabwe Election Support Network, a única entidade independente a acompanhar o escrutínio, concluíram, por sua vez, pelo triunfo do principal candidato da oposição, mas sem maioria absoluta.
Num conclave na noite de domingo, as chefias militares e policiais e os líderes do partido governamental, a ZANU PF, decidiram, presumivelmente, optar pela realização dentro de três semanas de uma segunda volta das presidenciais em vez de assumirem uma posição de força e declararem o triunfo de Mugabe.
Fraude contida
O significativo recuo da ZANU PF, inclusivamente nos seus bastiões tradicionais das zonas rurais, foi razão suficiente para impedir uma declaração fraudulenta de vitória à primeira volta por parte de Mugabe que, face aos resultados oficiais parciais, terá, muito provavelmente, obtido menos votos do que o próprio partido governamental.
Para a votação de sábado procedeu-se à manipulação dos cadernos eleitorais e à distribuição de boletins de voto em excesso, seguindo os procedimentos para uma chapelada à imagem do ocorrido nas presidenciais de 2002 e nas legislativas de 2005.
Uma novidade, aceite pelo governo após pressões da África do Sul, marcou, no entanto, estas eleições: os resultados passaram a ser afixados pelas mesas eleitorais, dando oportunidade à oposição de provar deturpações do escrutínio pela Comissão Central Eleitoral em Harare.
À excepção da manipulação de escrutínios nas zonas rurais no norte do Zimbabué tornou-se impossível esconder o grande recuo eleitoral da ZANU PF.
A participação terá ficado abaixo dos 55 por cento registados nas presidenciais de 2002, que deram uma vitória com 56 por cento dos votos a Mugabe, e dos 48 por cento das legislativas de 2005 em que a ZANU PF obteve uma maioria parlamentar de dois terços.
Na segunda volta das presidenciais o regime terá de orquestrar uma mobilização em massa nas zonas rurais para evitar a vitória de Tsvangirai que poderá contar com os votos conseguidos pelo dissidente da ZANU PF, o antigo ministro das finanças Simba Makoni.
Se Mugabe conseguir manter a confiança dos líderes do exército e da polícia não é impossível que proclame vitória na segunda volta, recorrendo, se necessário, à intimidação generalizada como se verificou em 2002 e 2005, mas o descalabro de sábado ameaça reacender divisões nas hostes governamentais.
As divisões da elite
Em Dezembro de 2006 a conferência anual da ZANU PF não chegou a acordo sobre uma proposta de prolongamento do mandato presidencial de Mugabe até 2010 data em que seriam convocadas em simultâneo eleições presidenciais e legislativas.
Dois pesos pesados da ZANU PF pressionaram para obstar a um sexto mandato de Mugabe, mas as ambições do general Solomon Mujuru, marido da vice-presidente Joice Mujuru (que acaba de perder o seu lugar no parlamento), político com significativa base de poder na Maxonalândia Leste, e de Emmerson Mnangagwa, homem forte da província central de Midlands, acabaram frustradas pelos apoiantes do presidente.
Um compromisso anunciado no final de Março de 2007 resultou na convocação para este ano de eleições simultâneas para a presidência, a assembleia legislativa, o senado e órgãos municipais.
O mandato presidencial foi reduzido de seis para cinco anos, mas para a elite do Zimbabué a permanência de Mugabe na chefia do estado era condição essencial para assegurar a estabilidade do regime.
O compromisso entre as facções da ZANU PF foi agora posto em causa e cerrar fileiras em torno de Mugabe é uma opção arriscada, tanto mais que as chefias militares não estão certas da fidelidade de parte significativa dos seus subordinados.
O colapso da economia reflectiu-se no aumento da abstenção, no voto anti-governamental e contra Mugabe e, ainda que os protestos de rua tenham sido limitados e facilmente reprimidos nos últimos anos, as eleições deixaram a claro forte descontentamento que se reflecte necessariamente na eficácia das forças militares e policiais.
O facto relevante das disputas políticas não assumirem cariz étnico declarado – Mugabe e Tsvangiri são ambos da etnia maioritária shona – impede um cenário semelhante ao ocorrido no Quénia, em que kikuius, luos, kalenjins e demais etnias se envolveram em confrontos após as eleições presidenciais de Dezembro, mas não obsta a uma vaga de violência generalizada, sobretudo em cidades como Harare e Bulawayo.
Os interesses e a longa conivência da elite no poder com Mugabe, cimentada logo em 1983 nos massacres dos apoiantes da ZAPU de Joshua Nkomo entre a minoria ndebele no sul do Zimbabué, tornam muito difícil uma transição pacífica.
A oposição, com patrocínio da África do Sul, terá de oferecer garantias de imunidade a parte significativa dos actuais dirigentes de Harare para assegurar o reconhecimento de uma vitória à segunda volta e condições para formar governo.
Negociar imunidade para a elite que prosperou sob Mugabe será a grande questão que Tsvangirai vai enfrentar nas próximas semanas.



Jornal de Negócios
02 Abril 2008

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