domingo, 19 de agosto de 2012

Obama: os dias que restam

Jornal de Negócios

Nos seus primeiros cem dias, Barack Obama geriu capazmente as expectativas, manteve taxas de aprovação acima dos 60%, na média do início da maior parte das presidências, e, sobretudo, à imagem de Franklin Roosevelt, em 1933, e de Ronald Reagan, em 1981, teve sucesso ao inverter uma imagem de pessimismo generalizado.

Este mês, 55% dos norte-americanos declaravam-se optimistas quanto ao futuro, segundo sondagem do Pew Center, ao passo que em Fevereiro apenas 7% encaravam sem pessimismo o que poderá vir a ser a América de Obama.

O desencanto com a administração de George W. Bush e os primeiros sinais de contenção da recessão explicam muito do êxito de Obama, ainda que se faça esperar uma real inversão de tendência por via do pacote de estímulos de 787 mil milhões de dólares e de um acordo no Congresso sobre o orçamento que poderá elevar o défice orçamental para níveis superiores a 10 % do PIB.


À espera que resulte
A eficácia do plano de saneamento dos activos tóxicos no sistema financeiro e as injecções de dinheiro do Banco Central para baixar ainda mais as taxas de juro reais estão envoltas nas maiores dúvidas e o desemprego continua a crescer atingindo os 8,5% em Abril, a pior taxa dos últimos 25 anos.

Tudo teria de correr demasiado bem para se confirmarem as previsões iniciais da administração democrata de que o desemprego seria contido nos 7% em 2010, com um défice orçamental na ordem dos 8%, mas, ainda assim, Obama persiste na estratégia de criação do que considera serem novos e sólidos fundamentos para a economia norte-americana.

O presidente referiu no passado dia 14 os cinco pilares fundamentais para uma economia sólida: regulação do sistema financeiro, reforma do sistema educativo, promoção do uso de fontes de energias e tecnologias não poluentes, alargamento do sistema de cuidados de saúde e redução dos gastos públicos não essenciais para reduzir o défice orçamental.

O aumento da dívida pública não permitirá concretizar todos estes objectivos e a discussão no Congresso do plano de reforma da saúde permitirá aferir a curto prazo a real margem de manobra do presidente.

Apesar da crise do sector automóvel, das controvérsias sobre a intervenção estatal no sector financeiro, Obama conseguiu até agora fazer passar uma imagem de dinamismo e eficácia ainda que muitas nuvens negras continuem a pairar sobre um cenário de retoma económica.


Amargos de boca
Os compromissos da administração democrata levaram já a fazer esquecer promessas proteccionistas feitas durante a campanha eleitoral e o exemplo mais claro está na forma como o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, deixou cair a acusação, feita em Janeiro, de que a China manipulava o yuan para obter vantagens comerciais.

O relatório semestral apresentado este mês pela administração ao Congresso sobre práticas económicas internacionais e cambiais limitava-se a referir que a China tem uma moeda subvalorizada, mas em valorização progressiva, e a saudar o pacote de estímulos económicos a dois anos de 590 mil milhões de dólares de Pequim.

Os embaraços surgidos na relação entre Washington e Pequim e o debate sobre o futuro problemático do dólar como moeda de referência marcam estes primeiros cem dias de Obama e deixam a claro as crescentes dificuldades dos Estados Unidos para imporem os seus pontos de vista.

A recusa da Alemanha em adoptar pacotes de estímulos e o aumento limitado das reservas do FMI, decidido na cimeira dos G20 em Londres, revelam não apenas diferenças de abordagem na política económica e financeira, mas, também, a constatação de que os problemas estruturais da economia norte-americana nunca serão resolvidos enquanto persistir, designadamente, uma quebra nas taxas de poupança responsável pelo aumento dos défices externos de Washington desde os anos 90.



Um presidente com quem alguns podem negociar
Obama rapidamente alterou a imagem internacional dos Estados Unidos com o anúncio de encerramento de Guantánamo, a recusa de práticas de tortura por parte da CIA e a declaração de intenções de empenhamento no combate ao aquecimento global.

Da fragilidade dos pressupostos em que assentam os planos de retirada progressiva do Iraque e de uma nova estratégia simultaneamente desenvolvimentista e anti-insurreição no Afeganistão saltaram à vista sobretudo as reticências de envolvimento de canadianos e aliados europeus na NATO, mas a proposta de reabrir negociações com a Rússia para redução de arsenais nucleares não foi menos ambígua.

Eventuais concessões limitadas nas áreas de defesa anti-balística não chegam para satisfazer Moscovo e o prosseguimento de programas de militarização do espaço por parte do Pentágono compromete irremediavelmente a intenção norte-americana de reduzir significativamente os arsenais nucleares aos olhos da Rússia e da China.

O presidente norte-americano, apesar de sublinhar a necessidade de reforçar o regime de não-proliferação revelou-se tão impotente quanto os seus antecessores para lidar com a Coreia do Norte, viu Teerão recusar propostas de negociações e continua a escutar o tique-taque do programa militar nuclear iraniano que terá um desfecho muito provavelmente violento durante a sua administração.

O conflito israelo-palestiniano mantém-se intratável e Obama já recebeu suficientes sinais de que eventuais concessões israelitas serão insuficientes para alentar qualquer ala moderada palestiniana e só serão consideradas a troco de cobertura para um ataque militar ao Irão. Um cenário tão negro quanto a crise angustiante do Paquistão.

Um dos maiores méritos de Obama foi o de não ter cometido publicamente, até agora, erros graves que comprometam a sua capacidade de negociação e ter sabido reservar-se o eventual recurso à força militar para enfrentar, muito em particular, a crise iraniana.

Com os objectivos estratégicos essenciais definidos, mesmo que dificilmente exequíveis na totalidade, sobretudo na frente económica, a administração democrata mostrou flexibilidade táctica e deixou pelos menos aberto o caminho para os outros 1361 dias que restam a Obama.



29 Abril 2009

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