quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Relaxado ao braço secular



Tribunal de Maiorca, Fevereiro 2012

   O protocolo obriga a tratá-lo por Excelentíssimo senhor, mas, contra o Duque consorte de Palma de Maiorca, contra o genro de Juan Carlos, somam-se tantas suspeitas de corrupção que hoje mesmo a casa real espanhola acabou por o afastar de todos os actos oficiais. 

  O excelentíssimo senhor don Iñaki Urdangarín, esposo da infanta Cristina de Bórbon, está a ser investigado por desvio de dinheiros públicos e outros actos de corrupção.

   Isto é, negócios escuros de uma fundação sem fins lucrativos a que presidia o antigo campeão de andebol e os pormenores conhecidos são altamente comprometedores. 

   Inãki será formalmente acusado em breve e o chefe da casa real teve de reconhecer esta segunda-feira que o comportamento do duque não parece exemplar.

   De facto, assim é.

   Entretanto, o Palácio da Zarzuela aproveitou para anunciar que ainda este mês irá a divulgar os gastos da casa real, algo que sempre fora recusado.

 Sabe-se apenas que a dotação da casa real dos Bórbon é superior a 8 milhões de euros por ano, ignora-se como o dinheiro seja gasto.

  Temos aqui um tardio esforço de transparência em clima de austeridade.

  Que a família real pretenda dar logo agora este exemplo só demonstra a gravidade do escândalo de corrupção do Duque de Palma de Maiorca.

   A comunicação social espanhola sempre foi mais do que cautelosa e em regra omissa quanto a alegadas amizades femininas menos correctas por parte de Juan Carlos, ignorou abusos de ricos amigos do rei, alinhou na promoção repentina de uma jornalista divorciada quando o príncipe Felipe a escolheu para futura rainha.

  Sempre houve esse tacto de poupar o monarca e por extensão outros membros da família real a questões embaraçosas. 

   Tal atitude, como que a separar o essencial de alguns pecadilhos de somenos, explica-se porque a larga maioria dos espanhóis reconhece ao seu monarca um mérito inestimável na transição para a democracia.

   A restauração da monarquia rimou com democracia e fez-se pela seriedade e graças ao bom senso de Juan Carlos.

   Qualquer republicano em Espanha, ou em Portugal, país que muito prezam Juan Carlos e a rainha Sofia, reconhece o papel histórico do monarca. 

  Mas se a pessoa do rei não está em causa, nem sequer o valor do herdeiro, o principe Felipe, já a monarquia como instituição não faz consenso.

  Juan Carlos melhor do que ninguém tem consciência disso e assim não pode permitir que um grande escândalo ponha em causa a monarquia.

  Face ao escândalo o rei não pode mostrar complâncencia ante o marido da filha, o pai de três netos e de uma neta. 

  Foi irremediavelmente condenado pela Casa Real e agora os tribunais que o julgem.

   O Duque foi relaxado ao braço secular da justiça, como se dizia noutros tempos.

O Mundo num Minuto / TSF
12 Novembro 2011

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