domingo, 2 de setembro de 2012

Obama: a arrancada

 
 
 
 
   A economia impõe-se como a prioridade das prioridades, mas na frente internacional é já neste primeiro dia de acção executiva que a administração Obama arrisca ganhar ou alienar apoios.
   
   Na agenda presidencial desta quarta-feira consta um encontro com chefias militares para definir os termos de retirada do contingente militar do Iraque e reforçar efectivos no Afeganistão, a nomeação de um enviado especial para o Médio Oriente, além do anunciado encerramento do campo de detenção em Guantánamo.

   Uma reorientação política de fundo implica descartar a "guerra ao terror", que confundia procedimentos tácticos com objectivos estratégicos, por uma definição mais precisa de objectivos.

Ambiguidade e declaração de intenções

   O primeiro imenso problema de Obama envolve a ambiguidade necessária em qualquer declaração de intenções que não se compadece com a urgência de algumas tomadas de posição implicando, necessariamente, reiterar, na sequência de George Bush, o apoio a um estado palestiniano independente, com o inconveniente de ter de precisar desde já um empenhamento que depende do desfecho das eleições israelitas de 10 de Fevereiro.

   Rever estratégia obriga, ainda, a recalibrar o discurso de intenções que terá de encontrar um meio-termo entre a ideia de democratização e a conveniência de acomodação com as autocracias instaladas no Médio Oriente.

   O meio-termo irá desiludir e criar expectativas e temores que, no entanto, serão sempre configurados por duas questões: a segurança do estado de Israel e a garantia dos abastecimentos de petróleo.

   Das primeiras declarações sairão indícios sobre a questão essencial: em que termos será possível um equilíbrio estratégico a partir do momento em que o Irão se dotar de uma capacidade dissuasiva nuclear.

   Está longe de se ter por adquirido que Washington não possa vir a aceitar o cenário de um Irão nuclear desde que garanta a Israel e a estados árabes aliados uma protecção (sempre dúbia, como cumpre nestas matérias) de retaliação imediata em caso de agressão por parte de Teerão.

   Uma das incógnitas passa pela posição de Israel, que poderá com governos de coligação matricialmente de centro esquerda ou centro direita aceitar ou não tal compromisso, e da real possibilidade doutros estados do Golfo Pérsico, do Egipto e da Turquia, virem a dotar-se de arsenais nucleares.

O nó górdio

   A questão do programa nuclear militar do Irão surge como o nó górdio da política Obama no Médio Oriente e condiciona todas as iniciativas para estabilização do Iraque, do Afeganistão e do Paquistão.

   O conflito israelo-palestiniano surge no imediato como uma das prioridades, apesar das expectativas de resultados positivos serem praticamente nulas. O relançamento das negociações entre Israel e a Síria é uma via alternativa mais prometedora, mas, também neste caso, a política a seguir em relação a Teerão condiciona a atitude de Damasco para aceitar uma mediação norte-americana.

   Os termos em que a administração Obama tentará mediar o confronto israelo-palestiniana ficaram claras a partir do momento em que foi aventada a nomeação do antigo líder da maioria democrata no Senado, George Mitchell, para enviado especial.

   O relatório que Mitchell elaborou em 2000 a pedido de Bill Clinton sobre o conflito concluía que só o congelamento da expansão dos colonatos judaicos na Cisjordânia e a repressão de grupos terroristas por parte da Autoridade Palestiniana poderia abrir o rumo a negociações frutíferas.

   Seja Mitchell ou outra pessoa a assumir a responsabilidade directa pela mediação de Washington a administração Obama partirá destes pressupostos tentar relançar negociações que, apesar de pouco prometedoras, poderão, no entanto, gerar algum capital diplomático para enfrentar a questão nuclear iraniana.
Jornal de Negócios
21 Janeiro 2009

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