domingo, 2 de setembro de 2012

Obama: a retórica da posse




   No discurso de tomada de posse, Barack Obama vai ter de transmitir uma ideia de optimismo em tempos difíceis, sublinhar a urgência do empenhamento do Congresso para ultrapassar a crise, apelar à unidade dos norte-americanos em torno de ideais de liberdade e igualdade de oportunidades e realçar a vontade dos Estados Unidos para cooperar com outras nações em prol da segurança mundial.
 
   Na melhor tradição da retórica política norte-americana, Obama poderá partir do princípio enunciado por Thomas Paine em 1776, na hora da revolta pela independência, de que “a causa da América é, em grande medida, a causa de toda a humanidade”.

   A relevância da unidade nacional, com a invocação religiosa e o transcender de divisões raciais, tem um marco incontornável e exemplar no segundo discurso de tomada de posse de Abraham Lincoln, em Março de 1865.

   Lincoln concluiu o seu discurso com uma tirada justamente célebre (“Sem rancor para com ninguém, com caridade para com todos, com firmeza no direito que Deus nos dá para vermos o que está certo...), num apelo para “sarar as feridas da nação” após quatro anos de Guerra Civil.
Um mês depois terminava a guerra e Lincoln era assassinado.

O exemplo de Roosevelt

   A gestão das expectativas obrigará, no entanto, Obama a retomar, uma vez mais, os temas desenvolvidos por Franklin Roosevelt ao tomar posse em 1933 em plena Depressão, num misto de reconhecimento da amplitude da crise, de urgência, confiança nas virtudes do sistema constitucional e esperança.

   Obama terá de sublinhar, à imagem de Roosevelt, que só cumpre “temer o próprio medo” e apontar alguns objectivos imediatos para a sua administração.
   O seu antecessor democrata sintetizou, na tomada de posse, as grandes linhas do que viria a ser o programa dos “Cem Dias”: criar trabalho e reorganizar a economia, obstando ao “retorno dos males da velha ordem” através da “supervisão estrita de todas as actividades da banca, do crédito e investimento” e pondo fim à “especulação com dinheiro alheio”.

   A segurança, “a sobrevivência e o triunfo da liberdade” têm na alocução de John Kennedy, em 1961, o modelo para frisar os tópicos fundamentais – “pagaremos qualquer preço, carregaremos qualquer fardo, enfrentaremos qualquer provação” – e, sobretudo, uma referência fundamental para Obama: “Nunca negociemos por medo, e nunca tenhamos medo de negociar.”

   Ao quadragésimo quarto presidente cumpre romper na alocução inaugural com abusos de direitos humanos, condenar a tortura, reiterar o primado das garantias constitucionais – evocar, como Martin Luther King, mas à escala global, a “nota promissória” assinada pelos Pais Fundadores, o compromisso dos “direitos inalienáveis da vida, liberdade e busca da felicidade” – e expressar claramente a sua confiança na cooperação internacional, designadamente no combate ao aquecimento global.

   Obama procurará inspirar os norte-americanos, como fez durante a campanha eleitoral, a interrogarem-se sobre o que “será bom para o país que as minhas crianças irão herdar” para poder destacar uma mensagem de esperança e mudança.

Ímpeto político e crises em todas as frentes
   Todos estes tópicos estarão presentes a 20 de Janeiro e o objectivo do discurso da tomada de posse passa por galvanizar a opinião pública, não atemorizar os mercados e criar expectativas de cooperação com os principais aliados e parceiros internacionais.

   A retórica de Obama no Capitólio é o primeiro passo no esforço para levar o Congresso a aprovar o seu programa de reforma fiscal e relançamento económico que, segundo as estimativas da sua própria equipa, almeja, na melhor das hipóteses, a conter o desemprego nos 7% em 2010, tendo como ponto de partida um défice orçamental que atinge os 8% do PIB.
   O pacote de 675 mil milhões a 775 mil milhões de dólares para os próximos dois anos aventado por Obama é, apesar do risco de descontrolo orçamental, tido por insuficiente por muitos democratas para relançar a economia.

   Na melhor das hipóteses, em Fevereiro, o Congresso aprovará um plano de emergência e no cálculo de representantes e senadores estarão os efeitos prováveis da iniciativa que se farão sentir em 2010, ano eleitoral.

  As primeiras semanas de Obama começam, assim, por uma negociação difícil. A revisão das regras de aplicação da segunda tranche de 350 mil milhões de dólares do pacote de resgate financeiro Paulson, visando agora apoiar pequenos bancos e empresas e particulares insolventes no crédito imobiliário, deverá ser aceite pelo Congresso, mas a negociação do programa de relançamento poderá condicionar grandemente a administração Obama.

   Se, na frente económica e financeira, as promessas dos primeiros meses arriscam ficar aquém da esperança, na área internacional, as perspectivas são ainda mais negras.

   Decretar o fecho de Guantanamo terá imensa importância simbólica, mas as soluções jurídicas demorarão meses e terão de contar com a boa vontade dos aliados.

   O Irão e o conflito israelo-palestiniano, outras duas prioridades imediatas apontadas por Obama, nada aventam de bom para iniciativas diplomáticas a cargo de Hillary Clinton e ameaçam mesmo devastar a curtíssimo prazo o eventual capital de simpatia ou alienar o benefício da dúvida que possa existir.
  Assoberbado de crises, Obama tem, para já, de arrancar pela força da retórica na eloquência do seu discurso de tomada de posse.


Jornal de Negócios
14 Janeiro 2009

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