Os principais partidos espanhóis chegarem a um raro consenso: esta não é a altura certa para rever o estatuto da monarquia.
Conservadores, socialistas, nacionalistas catalães admitem colmatar as graves omissões da constituição e da restante legislação quanto a matérias tão elementares quanto os termos da renúncia ou abdicação do monarca.
A constituição foi aprovada há 34 anos e até agora nem sequer as funções do herdeiro ou a eventual obrigação do monarca de informar o governo sobre as suas deslocações privadas, nem isso sequer foi legislado.
A Casa Real sempre preferiu este vazio para ter maior latitude de manobra.
Só que é impossível manter estas ambiguidades e omissões numa altura em que a figura do rei Juan Carlos entrou em queda livre.
Apesar de não faltarem vozes críticas a exigir desculpas oficiais e imediatas da parte do rei, a maior parte dos partidos considera que promulgar leis a quente é má política.
Só que é preciso fazer qualquer coisa: pior seria continuar a deixar correr o marfim até porque o escândalo da caçada real no Botswana abriu as portas a uma avalanche de críticas e segredos de polichinelo sobre Juan Carlos e os Borbón.
Soube-se hoje que o safari foi prenda de Mohamed Eyad Kayali, um milionário saudita de origem síria radicado em Espanha, velho amigo do rei e facilitador de grandes negócios.
Mais lenha para lembrar que as amizades do rei na alta roda da finança e dos negócios são por vezes muito inconvenientes e comprometedoras.
Na comunicação social espanhola também caiu mal que o rei tenha ido matar elefantes com a amante alemã, Corinna zu Sayn-Wittgenstein, senhora habitualmente deixada na sombra, enquanto a rainha Sofia celebrava a Páscoa Ortodoxa na sua Grécia natal.
A rainha também não fez rogada a mostar o seu desprezo e desagrado. A sua primeira visita ao hospital nem 15 minutos demorou.
O reconhecimento do papel fundamental de Juan Carlos na democratização da Espanha ainda vai salvaguardando a instituição, mesmo neste ano desgraçado em que o genro de Juan Carlos, Iñaki Urdangarin está a ser julgado por fraude e desvio de dinheiros públicos.
O comportamento público até agora exemplar do herdeiro, o princípe Felipe, tem sido igualmente um factor de estabilidade, mas as consequências desta machada no prestígio da monarquia ainda estão por avaliar.
Aos 74 anos, com a Espanha esganada pela crise, Juan Carlos bate fundo.
Não se soube dar ao respeito e isso é fatal para uma cabeça coroada.
O mundo num minuto / TSF
18 Abril 2012
http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspx?content_id=917506&audio_id=2427051
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