domingo, 2 de setembro de 2012

Outra promessa de reforma no Japão

 Yukio Hatoyama


   Depois da "década perdida" e das reformas inacabadas do primeiro-ministro Juinichiro Koizumi, entre 2001 e 2006, o Japão está prestes a entrar num novo ciclo político que porá termo à hegemonia do Partido Liberal-Democrático (PLD).

   O Partido Democrático do Japão (PDJ) vai, com toda a probabilidade, liderar o governo de Tóquio após as eleições de 30 de Agosto para a Câmara Baixa do Parlamento nipónico (Dieta), prometendo reformar o sistema político e relançar a economia.

   A perda do controlo da Câmara Alta da Dieta em Julho de 2007 e a sucessão, entre escândalos e desavenças das facções do PLD, de três chefes de governo notoriamente incapazes foram o dobre de finados num cenário de agravamento das desigualdades sociais e perda de competitividade a que se juntou, por fim, a crise financeira e económica mundial, que resultou na pior recessão do pós-guerra no Japão.

                                       Ganhar credibilidade

   Às portas do poder, o PDJ tem passado os últimos meses a tentar ganhar respeitabilidade como partido governamental.

  O controverso Ichiro Ozawa demitiu-se da presidência do PDJ a favor de Yukio Hatoyama em Maio devido a um escândalo de corrupção, mas, ainda assim, é um dos cabeças-de-lista em Tóquio e figura de proa na campanha eleitoral.

   Fundado em 1998 por dissidentes do PLD e agregando, ainda, social-democratas, socialistas, sindicalistas e centristas de várias tendências, o PDJ é um partido heteróclito e a sua linha política tem sofrido revisões significativas.

   Apesar de continuar a afirmar a necessidade de reorientar a aliança de defesa com os Estados Unidos numa base igualitária, o PDJ abandonou as reticências à missão logística da marinha japonesa no Índico para apoio ao esforço de guerra no Afeganistão e admite agora a comparticipação financeira de Tóquio na reorganização da rede de bases militares norte-americanas no arquipélago.

  O PDJ ainda critica a concentração em Okinawa de 70% dos 37 mil militares dos Estados Unidos estacionados no arquipélago, considerando que devem ser redistribuídos por outras regiões, mas passou a aceitar a comparticipação financeira de Tóquio na transferência de 8 mil fuzileiros norte-americanos para Guam.

  A instalação de armas nucleares norte-americanas ou a sua passagem pelo arquipélago sem consulta prévia ao governo de Tóquio, ao abrigo de um acordo secreto paralelo ao Tratado de Segurança Mútua de 1960, também já não é terminantemente repudiada pelo PDJ.

  Hatoyama afirma estar disposto a negociar com Washington a eventual revisão do princípio dos "Três Nãos", adoptado numa resolução da Dieta de 1971, que exclui a posse, produção ou introdução no Japão de armas nucleares.

   O PDJ concorda igualmente com as sanções em vigor contra a Coreia do Norte, as missões de patrulha da marinha japonesa nas costas da Somália e admite maior flexibilidade nas negociações com a Rússia sobre o Sul da cadeia das Curilhas anexadas por Moscovo no final da Guerra do Pacífico, mas reafirma a soberania japonesa sobre as quatro ilhas em disputa.

   Além de aceitar o compromisso de reduzir em 25% em 2020 as emissões de gases com efeito de estufa em relação aos níveis de 1990, em vez dos 8% propostos pelo actual governo, o PDJ apresenta-se sobretudo como um garante da continuidade na política externa.

                             Disciplinar o Estado, reforçar o governo

   Disciplinar a burocracia do estado e descentralizar poderes é uma das grandes promessas eleitorais do PDJ.

   Hatoyama afirma que cumpre pôr cobro ao sistema preservo que caracterizou cinco décadas de governação em que as facções do PLD interferiam na actividade do executivo e a burocracia definia e controlava orçamentos à revelia do parlamento.

   O PDJ propõe-se impedir que, uma vez referendado o executivo e o orçamento pela Dieta, facções do partido governamental vetem de facto as decisões do poder executivo.

   Na prática trata-se de incorporar no governo os principais dirigentes do partido, evitando que os chefes de facções ganhem peso no parlamento e em órgãos de decisão informais.

   O PDJ pretende impor a neutralidade do funcionalismo público e a sua subordinação ao governo através da nomeação de mais de uma centena de supervisores da Dieta para os principais organismo de estado, além de reforçar o papel das chefias políticas dos ministérios na elaboração e gestão do orçamento.

   A par desta centralização da decisão política à custa da burocracia de estado, o PDJ defende a descentralização de poderes, incluindo gestão orçamental, para os municípios e órgãos de governo local.

   Para um partido pouco coeso e sem experiência de governo, tamanha reforma, que implica a neutralização do alto funcionalismo público a par da sua subordinação a directivas de um governo partidário, remetendo, ainda, os parlamentares do PDJ a um papel de mero suporte político, parece de difícil concretização, mas é parte integral da própria estratégia económica e financeira.

                                  Limitações orçamentais

   Hatoyama considera ser possível recuperar mais de 100 mil milhões de dólares gastos de forma espúria num orçamento que atinge os 2.172 triliões de dólares e reorientar essa verba para programas de reforma da segurança social, apoio às famílias, consumidores, e ao sector agrícola reduzido a 3 milhões de pessoas - 70% na faixa etária a partir dos 60 anos - para estimular o consumo interno numa economia demasiado dependente das exportações.

  A reforma do sistema de reformas e a garantia de uma pensão mínima universal de 70 mil ienes (515 euros) é uma das prioridades num país em que 21,5% da população atingiu a faixa etária a partir dos 65 anos.

  As projecções apontam para uma redução da população dos actuais 127 milhões para 89 milhões em 2055 e o PDJ não contempla o recurso a mão-de-obra imigrante, apesar de pouco mais de 2,5 milhões de estrangeiros viverem no arquipélago.

   O PDJ visa financiar a reforma do sistema de pensões através do imposto sobre o consumo, cuja revisão dos actuais 5% para valores mais elevados considera não ser possível efectuar nos próximos quatro anos.

   Tal como no caso de apoios às famílias com filhos menores de 15 anos, da eliminação de portagens em auto-estradas, ou da redução dos impostos sobre os lucros para pequenas e médias empresas, de 18% para 11%, o PDJ confronta-se com problemas de financiamento que não serão superados pela prometida redução de deduções fiscais para os rendimentos mais altos.

  O défice orçamental ronda os 7% do PIB e para o presidente do PDJ só após a estabilização da economia será possível apontar objectivos quantitativos para a sua redução.

                                           Uma retoma lenta
    Os 264 mil milhões de dólares em programas de estímulo à economia (cerca de 2% do PIB) injectados desde o Outono de 2008 tardam a relançar o consumo interno, e o desemprego deverá ultrapassar no final do ano o recorde de 5,5% registado em Abril de 2003.

  O partido, com apoio da esquerda, defende um aumento do salário mínimo e a garantia de igualdade salarial para trabalhadores temporários.

  A reforma laboral de Koizumi de 2004 acelerou as desigualdades de remunerações e presentemente trabalhadores a prazo ou a tempo parcial representam um 1/3 da mão-de-obra com remunerações em média 40% inferiores à do pessoal do quadro.

  Esta remuneração diferenciada da força de trabalho foi um dos factores que permitiram às empresas evitarem maiores perdas de competitividade, apesar de o Japão ter caído para nono lugar em termos mundiais.

  O PDJ contará com apoio eleitoral e político para rever o sistema de remunerações, ainda que muitas empresas possam repercutir aumentos de custos sobre fornecedores ou reduzir pessoal, mas confrontar-se-á com forte resistência por parte das associações patronais.

  As dificuldades da retoma económica, após a contracção de 3,5% do PIB no ano fiscal terminado em Março, são outro factor inibidor de reformas a curto prazo.

  Apesar do declínio das exportações em Junho (menos 35,7% em relação ao mês homólogo do ano anterior) ter diminuído cerca de 5% comparado com a quebra das vendas ao exterior de Maio, apenas as grandes empresas beneficiaram destes resultados.

  A dívida pública supera os 180% do PIB, o pior índice na OCDE, e, salvo um aumento nas emissões de títulos do tesouro, tradicionalmente subscritos na quase totalidade pelos particulares e a banca japoneses, o PDJ terá grandes dificuldades em financiar as suas promessas.

  Um novo ciclo político vai começar no Japão caso o PDJ venha a conseguir maioria para formar governo sem necessidade de alianças comprometedoras, mas muitas das reformas dificilmente serão concretizadas.

Jornal de Negócios
29 Julho 2009

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=380070

A eleição de 30 de Julho de 2009 resultou em 308 mandatos para o PDJ e 119 para o PLD na Câmara de Representantes. (Nota de Setembro 2012)

No Afeganistão até que a morte nos separe

   O casamento de conveniência entre Hamid Karzai e os seus patronos ocidentais passará quinta-feira por mais um transe difícil com uma eleição presidencial aquém dos interesses e objectivos dos países que se encontram militarmente envolvidos no Afeganistão.
   As ofensivas lançadas esta Primavera pelos militares dos Estados Unidos e da NATO estão longe de cumprir o objectivo de desalojar os taliban de vastas áreas rurais do Sul e do Leste do país.

   A diminuição do recurso a ataques aéreos não evitou o aumento do número de vítimas civis e as baixas das forças ocidentais, sobretudo norte-americanas e britânicas, cresce sem que tenha sido conseguido um controlo efectivo das regiões mais densamente povoadas do Sul e do Leste, e tão pouco a pacificação das províncias centrais.

  O exército afegão, 88 mil homens, e as forças da polícia nacional, 82 mil efectivos, não preenchem os requisitos para garantir a segurança dos principais centros urbanos, e projectos essenciais de reconstrução de infra-estruturas, como a rede de estradas ligando as maiores cidades, sofrem atrasos e danos consideráveis face às ameaças da guerrilha e do banditismo, mesmo em regiões tidas por seguras no Norte do Afeganistão. Praticamente metade do país é tida por insegura e os atentados terroristas não poupam a própria capital.

   Os mais de 100 mil militares da NATO e seus aliados (entre eles 62 mil norte-americanos), além de 43 mil homens de forças de segurança privadas, não estão a conseguir criar áreas seguras que permitam o estabelecimento de uma administração civil e militar afegã e a nova opção de ataque às redes de tráfico de drogas revela-se incapaz de pôr cobro ao principal negócio do país que movimenta mais de 4 mil milhões de dólares anualmente.

Karzai e os seus


  A administração do presidente Karzai degenerou nos últimos quatro anos numa rede de patrocínios, envolvendo potentados locais em acordos com o governo de Cabul, oleada pela corrupção e desvio de fundos da assistência internacional (cerca de 63 mil milhões de dólares investidos até hoje), sem que mais de 40% dos 30 milhões de afegãos consiga escapar A eleição presidencial e a votação para os conselhos das 34 províncias de Afeganistão surgem como um teste à viabilidade do esforço de guerra internacional, aos programas de reconstrução e à legitimidade das administrações provinciais e central. Os indicadores são tendencialmente negativos.

  Karzai para assegurar a reeleição, que poderá exigir uma segunda volta em Outubro, forjou alianças com líderes tribais como Jan Mohammand e Gul Sherzai para alargar a sua base de apoio tradicional entre as tribos pashtun (40% da população). Os dois candidatos a vice-presidentes, Mohammad Fahim, um tadjique, e Karim Khalil, um xiita hazara, cobrem um espectro de alianças com as duas principais minorias étnicas, a que se junta o contributo do uzbeque Rashid Dostum.

  O peso destes líderes, de cadastros confrangedores para os patronos ocidentais, augura a persistência de poderes locais e respectivos grupos armados em detrimento do governo central que se centra na figura do presidente.

Uma eleição no fio da navalha


  Um indicador seguro do real estado de coisas passa pela participação eleitoral num processo que, pela primeira vez, é organizado exclusivamente pelas autoridades afegãs, ainda que financiado por doadores internacionais.

  Nas presidenciais de Outubro de 2004, antes do recrudescimento da guerrilha taliban, registaram-se cerca de 10 milhões de eleitores e Karzai obteve 4,3 milhões dos 8,1 milhões de votos expressos, vencendo em 21 províncias.

  Para a votação de quinta-feira - que exclui mais de 800 mil refugiados no Irão e milhão e meio de deslocados no Paquistão -, o número de recenseados atinge os 16,6 milhões, 35% dos quais mulheres. Como a inscrição nos cadernos eleitorais é efectuada voluntariamente e, quase sempre, por homens que declaram o número de mulheres maiores de 18 anos a seu cargo sem verificação das declarações, é elevado o número de eleitores-fantasma e omnipresente a eventualidade de fraude. Só a análise dos resultados oficiais, com divulgação prevista para 17 de Setembro, permitirá apurar os níveis de real participação e de fraude eleitoral.

  Ao invés do que aconteceu em 2004, os taliban tentam desta vez impedir a votação e o primeiro e mais óbvio sinal da força da guerrilha terá a ver com o número de locais de voto que venham a funcionar. Na véspera da votação, a Comissão Eleitoral de Cabul previa que cerca de 10% dos 7 mil centros de votação, sobretudo no Sul do país, não conseguissem reunir condições de segurança.

  As eleições correm o risco de vir a dar uma nova vida a uma administração ineficaz, corrupta e disfuncional, assente na partilha de poderes com senhores da guerra e líderes tribais, que em nada facilitará um esforço de guerra ocidental capaz de conter os taliban ou grupos islamitas como a Hizb-e-Islami, de Gulbuddin Hekmatyar. 

Jornal de Negócios
19 Agosto 2009

Armas, poluição e muitos milhões

  

   Depois da China amargurar os Estados Unidos com reiteradas reticências quanto ao futuro do dólar como moeda de reserva internacional, esta semana foi a vez da Índia evidenciar a capacidade cada vez mais limitada dos Estados Unidos para fazerem vingar as suas opções estratégicas.

   Hillary Clinton conseguiu em Nova Delhi firmar acordos sobre defesa e cooperação nuclear civil a contento dos parceiros indianos e de empresas norte-americanas, mas fracassou na área ambiental e da não proliferação.

   A Índia comprometeu-se a não transferir ou revender a países terceiros equipamentos e tecnologias militares adquiridas aos Estados Unidos, nos termos da Lei de Controlo de Exportação de Armamentos, aprovada em Washington em 1996, abrindo assim o mercado indiano às firmas norte-americanas.

                                          Caças e contratos
    No âmbito do programa de modernização militar de Nova Delhi, orçado em 30 mil milhões de dólares para os próximos cinco anos, as empresas norte-americanas Lockheed Martin e Boeing entram de imediato na corrida para a venda de caças.

    Nova Delhi disponibilizou 11 mil milhões de dólares para adquirir 126 caças de última geração e conta já com ofertas de venda de aparelhos Mig 35 por parte da Rússia, Rafale, propostos pela Dassault francesa, Saab JAS 39 Gripen suecos, e Thyphoon do euroconsórcio britânico-alemão-espanhol-italiano.

    Para os exportadores de armamento norte-americanos e europeus o aumento de 23% nas despesas militares (não incluindo pensões, custos do programa militar nuclear, despesas correntes do Ministério da Defesa e Guarda Costeira) consagrado no orçamento apresentado este mês pelo governo de Manmohan Singh é uma oportunidade a não perder para entrarem num mercado que é dominado pela Rússia (70% das aquisições de equipamento indianas), seguida por Israel.

   Outro acordo desta semana permitirá ainda a venda à Índia de componentes para satélites civis, à semelhança do compromisso existente entre Washington e Pequim.

   Eventuais contratos para lançamento por parte da Índia de satélites comerciais norte-americanos ou de terceiros países com equipamentos de firmas dos Estados Unidos ficaram ainda salvaguardados.

    A Índia consagra agora 2,35% do PIB à Defesa - que compara com 5% do Paquistão e 7% da China - e a modernização de um exército de 1,1 milhões de homens, de uma força aérea obsoleta e de uma marinha aquém das necessidades de projecção de força no Índico face sobretudo à China, firme na aliança estabelecida com a Birmânia, é tida como um desiderato estratégico em Nova Delhi.

    Os diferendos com o Paquistão, o contencioso fronteiriço com a China sobre a soberania no estado de Arunachal Pradesh, vital para o controlo dos Himalaias e dos cursos de água do subcontinente, levam, no entanto, a que o renovado esforço de defesa da Índia tenha implicações que estão muito para além do interesse dos Estados Unidos em garantir um contrapeso a Pequim.

    Nova Delhi joga por sua própria conta frente à China (guarda as lições da derrota na guerra de 1962) e ao Paquistão e, por extensão, ao Afeganistão e ao Irão, onde os seus interesses de segurança não coincidem com os Estados Unidos.

                                     Uma contradição nuclear
  
    Na sequência do estatuto especial concedido pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) à Índia em Setembro de 2008 por pressão de Washington, os Estados Unidos levantaram o boicote que durava há 34 anos à venda de tecnologia e combustíveis para o programa nuclear civil de Nova Delhi.

   Depois da França e da Rússia terem assegurado a construção de reactores nucleares civis na Índia, Nova Delhi reservou agora dois locais nos estados de Gujarat e Andhra Pradesh para firmas norte-americanas apresentarem projectos que orçarão em cerca de 10 mil milhões de dólares.

    Os investimentos norte-americanos no nuclear civil (dependentes da ratificação por Nova Delhi de acordos internacionais para limitação da responsabilidade civil dos fornecedores em caso de acidentes) são uma componente essencial para o aumento das trocas comerciais bilaterais que actualmente rondam os 60 mil milhões de dólares, claudicando em particular nas áreas de serviços, como ficou patente no fracasso das negociações de Doha da Organização Mundial do Comércio.

    O investimento no nuclear civil indiano está, contudo, em contradição com o compromisso assumido pelos Estados Unidos na última cimeira do G8 de que estados que rejeitem o Tratado de Não-Proliferação Nuclear devem ser excluídos de tecnologias de enriquecimento e reprocessamento.

    Nova Delhi mantém a recusa em assinar os Tratados de Não-Proliferação, de 1968, e de Interdição Total de Testes Nucleares, de 1996, que Obama, por sua vez, prometeu levar ao Senado de Washington para ratificação.

    Os últimos testes nucleares da Índia ocorreram a 11 e 13 de Maio de 1998, 24 anos depois da primeira explosão, tendo o Paquistão ripostado com o seu teste de estreia no final desse mês.

    O argumento de que a Índia nunca transferiu tecnologias, combustíveis ou equipamentos para países terceiros serviu à administração Bush para fazer aprovar um estatuto especial para Nova Delhi, que ficou sujeita a uma supervisão limitada por parte da AIEA, permitindo, de facto, a libertação de recursos para o seu programa militar nuclear.

    As declarações de intenções da administração Obama sobre o reforço do regime de não proliferação e limitação da produção de matérias físseis chocam com o estatuto especial da Índia.

                                        Um diferendo climático
    Em Junho, a Câmara de Representantes de Washington aprovou legislação, que aguarda votação no Senado, para reduções de 17% em relação a 2005 das emissões de gases com efeito de estufa até 2020 e de 80% até 2050.

    A lei consagra a penalização de importações de países que não se comprometam com reduções substanciais das suas emissões de gases com efeito de estufa até 2020 e o governo indiano já se manifestou publicamente contra tal eventualidade.

   A posição de Nova Delhi em relação a quotas obrigatórias para redução das emissões de gases com efeito de estufa, a discutir na conferência de Copenhaga em Dezembro, mantém-se inalterável.

    A Índia é responsável por apenas 4,6% das emissões globais (20,9% é a quota norte-americana recentemente ultrapassada pela China) e em termos per capita a sua contribuição para o aquecimento global é irrelevante.

    500 milhões de indianos não têm sequer acesso ao mercado comercial de energia, segundo declarou a Hillary Clinton o ministro do Ambiente Jairam Ramesh, vincando publicamente as divergências.

    O governo do Partido do Congresso e as oposições em Nova Delhi concordam que o desenvolvimento da Índia não se compadece com as restrições que os mais antigos estados industrializados pretendem da parte de economias emergentes.

    Os objectivos estratégicos dos Estados Unidos em matéria de combate às alterações climáticas chocam, também, com a posição de princípio da Índia.

    Depois do fim da Guerra Fria, os Estados Unidos encontraram na Índia - que as reformas económicas encetadas por Manmohan Singh começavam a libertar dos espartilhos estatistas herdados da era Nehru - um parceiro potencial.

    Agora, numa altura em que o declínio relativo e absoluto do poderio norte-americano é cada vez mais evidente, a Índia surge como um parceiro incontornável dos Estados Unidos, mas afirma-se, também, como uma potência que assume plenamente claras divergências de interesses.


Jornal de Negócios
22 Julho 2009

sábado, 1 de setembro de 2012

Um romance português sobre o Holocausto

  


  "Bar-Mitzvah" é um curto romance, de acentuado cunho didáctico, sobre a odisseia de uma família judia, os Sonneschein, nas vésperas do Holocausto.     
  O autor é Manuel de Seabra, romancista, tradutor e ensaísta português radicado há mais de 30 anos em Barcelona, onde preside à Associação de Escritores da Catalunha.
  Seabra começa por evocar, com grande economia de meios, a perseguição aos judeus na Ucrânia no princípio do século XX, para ficcionar os complexos problemas da identidade judia e do relacionamento entre judeus e não-judeus.
  A fuga dos Sonnenschein do Império Russo e o retorno à Alemanha, de onde a família emigrara no século XVIII, dão, então, lugar ao drama da integração impossível na sociedade alemã traumatizada pela derrota na Grande Guerra e a ascensão do nazismo.
   Nem o casamento, nem a adesão plena da nova geração à cultura alemã, salvarão a família do "círculo fatal" de exílios e perseguições.
  Acossados, marcados pela "intuição das fatalidades iminentes", os sobreviventes terão de fugir, graças ao sacrifício de um goi, um gentil, um dos "justos que bem mereciam ser hebreus", no dizer do patriarca da família.
  Lisboa será o destino final: a cidade do Bar-Mitzvah, da profissão de fé, do membro mais jovem da família que, destinado a cumprir um destino de alemão, acabará por se reconhecer no êxodo do povo judeu.
  O romance de Manuel de Seabra (escritor radicalmente avesso ao paroquialismo, como já demonstrara em "Os Exércitos de Paluzie", 1982) é o contributo português para a literatura de balanço dos exílios e perseguições do século XX, que parece estar a ganhar um novo alento " como testemunha, também, o recém-editado "Seferad", do espanhol Antonio Muñoz Molina (Alfaguara, Madrid, 2001).

"Bar-Mitzvah - Antes do Holocausto", Manuel de Seabra, Ed. Textual, Lisboa, 2001

Netparque
25 Março 2001


Akhmátova e Berlin: ninguém morre no mundo

    


   "Se eles matam os poetas é porque respeitam a poesia", asseverara, nos anos trinta, o perseguido Óssip Mandelstam a Anna Akhmátova.

   Muitos anos depois do assassínio do poeta, já perto do fim, a velha senhora haveria de lembrar, "falando de viés" como profetizara o seu protegido e admirado Iósif Bródski: "Toda uma geração passou por mim como através de uma sombra".

   Anna Andréievna, "a maior poeta (nunca gostou que lhe chamassem poetisa) da Rússia só comparável à infeliz e trágica Marina Tsvietáieva " rendeu-se ainda menina à poesia e, com o seu marido, Nikolai Gumiliov, foi um dos expoentes máximos do acmeísmo, um movimento que a partir de 1909 se propôs superar o simbolismo, por via do credo da simplicidade, concisão e perfeição das formas poéticas.

   Nascida perto de Odessa, em 1889, a vida de Akhmátova é a Rússia marcada pela desgraça.

   Em 1921, Gumiliov (de quem se separara em 1918, após oito anos de casamento) é fuzilado por alegada conspiração anti-soviética.

   O filho do casal, Lev Gumiliov (1912-1992), reconhecido durante a perestroika de Gorbatchov como um dos mais brilhantes e controversos etnólogos e historiadores do país, esteve preso e exilado de 1939 a 1945 e de 1949 a 1956, acabando de relações praticamente cortadas com a mãe.
  
   O historiador da arte Nikolai Punin, com quem foi casada de 1924 a 1937, seria preso em 1949 e morreria quatro anos depois num campo de concentração.

   O desgosto e morte amargurada de Aleksandr Blok, em 1921, cúmplice virtuoso de poesias ("Tudo morre no mundo: as mães e a juventude", no dizer de Jorge de Sena, que o traduziu e admirou "um dos versos mais extraordinários que já um poeta escreveu"), a deportação de Mandelstam morto na prisão, em 1938 ("Vivemos num país ora irreal e estranho", assim começa a sátira a Stalin que lhe selaria o destino), o exílio e suicídio de Tsietáieva, em 1941 ("Só resta a alma, nascida em qualquer parte"), o ostracismo de Pasternak ("O escuro da noite jorra sobre mim" ) que, em 1960, a precedeu seis anos na morte, sangraram-lhe o sentimento, mas nunca a impediram de correr pelo mundo em poesia, "fazendo milagres".

   1923 estava já condenada ao silêncio e ao martírio.

  Serão anos de cantos de amor e desgraça que culminaram num ciclo clássico: o "Requiem", iniciado em 1935, concluído em 1940, publicado na Rússia em 1989: "marido enterrado, filho na cadeia, orai por mim".

     Da poesia de Akhmátova, isolada e ignorada, apenas em 1940 viriam a surgir algumas publicações esporádicas.

     Em 1941, durante a ofensiva nazi contra Leningrado, foi evacuada para Tashkent, no Uzbequistão, e só no final da guerra regressou à cidade do seu coração; lugar onde, como tantas vezes recordava, assomava a cada pedra a maldição que Evdokia Lopukhiná, a mulher renegada por Pedro, O Grande, lançara sobre a capital imperial: "Seja vazio este lugar!".

  Mas, maldizendo a maldição da tzarina, as artes e as revoluções apossaram-se de Piter (desde sempre a designação popular para Sankt Peterburg, Petrogrado, Leningrado, a Petersburgo na versão portuguesa).

  Numa noite de Novembro do ano de 1945, um jovem académico de Oxford, destacado temporariamente para a embaixada britânica em Moscovo, acercou-se do antigo palácio dos Sheremetiev, A Casa da Fonte, e assomou ao quarto que Akhmátova partilhava numa habitação comunal.

  É esse encontro, "uma história de amor" e a sua deriva poética e política, que o romancista húngaro György Dalos reconstitui em "O Convidado do Futuro".



                                     Uma noite em Novembro

  Dois testemunhos estritamente pessoais evocam essa noite.
 
  O ensaio e memória de Isaiah Berlin, "Meetings with Russian Writers in 1945 and 1956", publicado em 1980 na "The New York Review of Books", e reimpresso na colectânea "Personal Impressions", Oxford University Press, estava já o historiador de ideias nascido em Riga, em 1909, consagrado como um dos mais influentes pensadores políticos do século.

    Outro, o "Poema Sem Herói", obra maior da literatura europeia.

    Testemunha Berlin que o poema que ouviu recitar naquela noite e que só foi terminado em 1962, após 22 anos de escrita e apuro, já então representava para Akhmátova "um memorial derradeiro à sua vida como poeta, ao passado da cidade "St Petersburg que era parte do seu ser, e, na forma de uma procissão carnavalesca de véspera de Epifania de personagens mascaradas en travesti, aos seus amigos, suas vidas, destinos e a ela própria."

   O próprio Berlin haveria, após aquela noite, de se metamorfosear numa "musa poética", na expressão de Dalos.

    Foi "a experiência mais memorável" da sua vida. O professor, de apenas 35 anos, viu-se tomado, sem erro por certo, como a personificação do que o Ocidente e a sua cultura tinham de melhor.
 
   Akhmátova evoca-o como "Homem, / nem melhor, nem pior do que os outros, / que não espalha o gelo letal / e há calor na sua mão./ Acaso " visita do futuro! --/ chegarás mesmo a minha casa/ virando à esquerda da ponte?"

  Três décadas passadas, o autor de "Quatro Ensaios sobre a Liberdade" admitiria que a poeta vira nele "um mensageiro do fim do mundo". Aquela noite seria o encontro de "duas personagens da história do mundo escolhidas pelo destino para dar início a um conflito cósmico".

  Akhmátova acreditava que o encontro com o "convidado do futuro" ("visita do futuro", na versão de Nina e Filipe Guerra) dera início à Guerra Fria e, em certo sentido, o seu sentimento trágico da vida (algo que sempre escapou a Berlin, racionalista céptico por definição) captou melhor a essência da barbárie stalinista do que o endoutrinamento liberal do professor de Oxford.

  A poeta temia o pior e, confirmando-se a sua "auto-imagem trágica de Cassandra", na expressão de Berlin, o pós-guerra na União Soviética saldou-se por uma nova vaga de repressão ideológica, de contornos nitidamente racistas e chauvinistas. Akhmátova e o seu infeliz parceiro de letras e desgraça, o escritor satírico Mikhail Zoshchenko, seriam, em 1946, alvo de uma violenta campanha de difamação que culminou num célebre processo de purga conduzido pelo ideólogo-mor do regime, Andrei Jdánov.

   A poeta, insultada como "freira e prostituta", resistiu e Zoshchenko ficou destroçado numa perseguição que, conforme escreve Dalos, revelava uma vez mais o stalinismo como "um despotismo arcaico" em que o ditador caprichava na perseguição pessoal.

   Akhmátova, tal como Pasternak, o cineasta Eisenstein, o compositor Shostakóvski, ou o romancista e dramaturgo Mihhail Bulgákov anos antes, foi apenas uma das vítimas do arbítrio do déspota, do totalitarismo e irredentismo ideológico do regime, que nesse pós-guerra tantos admiradores contou entre a intelectualidade europeia e norte-americana.

   Em Portugal, António José Saraiva, à época devoto incondicional do stalinismo ideológico, haveria, por exemplo, de elevar Jdánov a paradigma do gosto e da revolução das artes nas páginas da "Vértice".

  Abalado pela tragédia, Berlin só muitos anos depois viria a descobrir que a sua curta estada na Rússia, entre Setembro de 1945 e Janeiro de 1946, fora pretexto para acusações não só contra Pasternak e Akhmátova, mas também para processos, em 1950 e 1951, contra três irmãos do seu pai, residentes em Moscovo.

   Desses encontros no Inverno de 1945 com Akhmátova e, também, com Pasternak " que lhe falou de um romance que tinha em mente, algo "luminoso, elegante, harmonioso", o fatídico "Doutor Jivago" ", Berlin iria sublinhar que lhe "devolveram a pátria russa", de onde saíra em 1919 com apenas dez anos.





  No quarto miserável, onde Akhmátova guardava manuscritos e um célebre retrato que Modigliani lhe pintara em Paris antes da Primeira Guerra, Berlin deparou-se com "uma princesa no exílio, orgulhosa, infeliz".

    Nunca esqueceu a mulher que escreveu "A noite e a Rússia eterna permanecem em mim".

   Ela prestou-lhe a maior das homenagens: converteu-o, nas palavras da sua amiga Nadjeda Mandelstam, a viúva do poeta assassinado, "o protótipo do leitor do futuro, pois naquele maldito ano ninguém no nosso país tinha aprendido a ler como devia ser".
 
    Fez de Isaiah Berlin um testemunho que desse a ler a verdade dos tempos em que "a Rússia baixava o olhar seco, / torcia os braços e ia a direito, / diante de mim, para oriente", para o exílio e a morte que não existe nunca.



"O Convidado do Futuro", György Dalos, Ed. Temas e Debates, Lisboa, 2001

"Prosas Escolhidas e Poema sem Herói", Anna Akhmátova, 292 págs., Ed. Relógio D`Água, Lisboa, 2001

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21 Julho 2001

Harold Bloom: o doutoramento do grande gnóstico em Portugal




   Harold Bloom nasceu em 1930, em Nova Iorque, numa família de emigrantes judeus ortodoxos russos radicada no Bronx.

   Depois de completar os estudos académicos nas universidades de Cornell e Yale, Bloom passou a ensinar, em 1955, no Departamento de Inglês em Yale, onde, depois de 22 anos de querelas estéticas e doutrinárias, acabou por criar um Departamento à sua própria medida: o Departamento de Humanidades.   
   Desde 1988 acumula, ainda, uma cátedra " Berg Professor of English " na Universidade de Nova Iorque.

   Na primeira fase da sua carreira, Bloom dedicou-se ao estudo dos poetas do romantismo inglês e irlandês. "Shelley`s Mythmaking", publicado em 1959, foi o primeiro de uma longa série de estudos que, passando pela crítica ao formalismo de T. S. Eliot e da Nova Crítica, culminaria na tese de que a poesia romântica representa uma recusa heróica dos constrangimentos da matéria e do tempo, cabendo à imaginação poética ocidental pós-iluminista preencher o vazio instalado entre o mundo da percepção sensorial e as intuições ou categorias abstractas do intelecto.

   Na sua primeira fase, a teorização de Bloom, influenciada pelo magistério do crítico canadiano Northrop Frye, integra-se " tal como os trabalhos de Harry Levin, Frederic Jameson ou o desconstrucionismo de Paul De Man " no movimento de contestação da Nova Crítica, mas o professor de Yale cedo seguiu o seu próprio caminho.

    A publicação, em 1973, de "The Anxiety of Influence" ("A Angústia da Influência", Cotovia, Lisboa, 1991) marca o início da segunda fase da obra de Bloom e do seu período de maior influência académica.

    O paradigma romântico definido por Bloom é a base para uma teoria da poesia (destinada a abarcar, posteriormente, toda a actividade criadora) que vê na relação de interpretação deliberadamente errada ("misreading") das obras dos antecessores a chave para a compreensão da grande arte.

    Todo o poeta ocidental tem de se haver com os antecessores e negá-los para sustentar uma interpretação mais forte e criativa que afirme a sua própria originalidade. A poesia é, para Bloom, o campo de eleição da ânsia de transfiguração e imortalidade.

   "A Map of Misreading" (1975), "Kaballah and Criticism" (1975), "Figures of Capable Imagination" (1976), "Poetry and Repression" (1976) alargam de tal forma a definição das técnicas, dos tropos, do jogo da intertextualidade em que "o significado de um poema só pode ser outro poema", que do outro lado do Atlântico acabou por chegar a Yale o lamento do crítico Christopher Ricks, quando este concluiu tudo indicar que "Bloom tinha uma ideia, agora a ideia apoderou-se dele".

   A estética bloomiana transfigura-se sobretudo a partir da publicação do seu único romance, "The Flight from Lucifer: A Gnostic Fantasy"(1979) e do estudo "Agon: Toward a Theory of Revisionism" (1982) numa conversão ao gnosticismo que visa superar o naturalismo e transcender a história.

   A veia gnóstica levará Bloom a considerar em "The American Religion" (1992) que o essencial da tradição religiosa dos Estados Unidos é de cunho gnóstico e não protestante; uma fé sincrética muito diferente do cristianismo europeu assente num processo intelectual, individualista e elitista de reconhecimento mútuo do eu e de um Deus escondido e distante.

   Ignorando rituais e códigos morais, Bloom não hesitou em afirmar que em terras da América Adventistas do Sétimo Dia, Testemunhas de Jeová e cultos afro-americanos, são prova da omnipresença do gnosticimo: "um conhecimento de um eu incriado, através de si próprio, ou um eu-dentro-do-eu, em que este conhecimento conduz à liberdade."

   A interpretação de Bloom deixou transidos sociólogos, historiadores e teólogos, mas o gnóstico de Yale manteve-se imperturbável na defesa da sua tese.

   Em "Omens of Millenium - The Gnosis of Angels, Dreams, and Resurrection" (1996), Bloom chega a considerar que os messianismos da passagem do milénio, os cultos dos anjos, as visões além-da-morte física, são fragmentos à deriva na cultura de massas de tradições gnósticas e xamânicas.

   É ainda o gnosticismo e a sombra de Shakespeare que definem uma das interpretações mais controversas de Bloom: "The Book of J", os comentários publicados, em 1990, às traduções do poeta David Rosenberg dos cinco primeiros livros da Torah e do Antigo Testamento. Aí, Bloom deixa de lado "dois mil e quinhentos anos de interpretação deliberadamente errada" para defender que os textos são obra de uma mulher imensamente sofisticada da corte salomónica, uma criadora da estatura de um Homero ou Cervantes.

   Bloom admite, fiel à sua teoria da criação literária, ter elaborado "uma ficção ou uma metáfora" daquela que defende ser a autora dos textos fundadores da tradição ocidental.

   "The Western Canon: The Books and School of the Ages" (1994) ("O Cânone Ocidental", Temas e Debates, Lisboa, 1998) é a tentativa de Bloom resgatar o que considera ser a autonomia irredutível do estético da afronta culturalista redutora da arte aos seus condicionamentos de classe, etnia, género, ideologia.

   Para Bloom, "a consciência introspectiva, livre na sua autocontemplação", é a condição necessária ao Cânone e Shakespeare e Dante são o fiel da criação literária: "ultrapassam todos os escritores ocidentais em acuidade cognitiva, energia linguística e poder de invenção".

   Contra o que qualifica de Escola do Ressentimento " pseudo-marxistas, pseudo-feministas, afrocentristas, feministas, seguidoresde Derrida, Foucalt, Lacan multiculturalistas et tutti quanti ", Bloom lista obras e autores por critérios que definem a verdadeira grandeza espiritual e estética.

   Confinar uma obra literária ao estatuto de "documento social" é, para Bloom, o último avatar da polémica entre "moralismo platónico e ciência social aristotélica".

Shakespeare, "o mais original dos escritores", é o verdadeiro patrono do "Cânone" em que estudos sobre 26 escritores " de Chaucer a Dante, de Tolstoi a Kafka, de Cervantes a Emerson " tidos por significativos definem o essencial do património literário do Ocidente.

   O best-seller de Bloom inclui em apêndices uma lista de autores e obras canónicas nascida para alimentar a polémica: do "Gilgamesh" sumeriano à "Relíquia" de Eça de Queirós, as escolhas consensuais alternam com as ausências mais abusivas.

   A idiossincrasia de Bloom exasperou os críticos, que nunca cessaram de lhe apontar as incoerências. Mesmo no universo literário norte-americano, foi difícil compreender porque é que nove romances de Philip Roth são canonizados e uma autora como Mary MacCarthy é deixada de lado, enquanto departamentos de literatura mundo fora acumulavam agravos e abusos contra Bloom.

   "Shakespeare: The Invention of the Human" (1998) é a súmula natural das teses românticas de Bloom, na sequência do "Cânone". Bloom defende que Shakespeare "inventou a personalidade humana tal como a conhecemos e avaliamos". Personagens como Hamlet, Falstaff, Cleópatra ou Otelo contêm a modernidade, tudo e todos.

   "A Arte por si só é Natureza", dizia Shakespeare " e Bloom subscreve, acrescentando que, no seu entender, em matéria de crítica, um outro ramo da floresta literária, "o eu é o único método".

   No "Cânone Ocidental", Bloom afirma que a estética é "uma questão individual e não social", e que a esperança alimentada pela leitura resume-se ao "alargar uma existência solitária". A sua última obra, "How to Read and Why", lançada no ano passado, é o elogio da paixão da leitura que redescobre o eu profundo e a irredutibilidade do estético às ideologias.

   Um dos santos patronos da cruzada de Bloom e um dos seus escritores mais admirados é Italo Calvino. Bloom aprecia, em particular, "Le Città Invisible" (1990) (As Cidades Invisíveis, Teorema, Lisboa, 1996), considerando-a um manifesto de como e porquê ler.

   Bloom vê no Marco Polo de Calvino um escritor em diálogo com Kublai Kan, o leitor; e nos seus diálogos uma alegoria da relação entre a escrita e a leitura. O professor gnóstico recomenda que se cultive Calvino, talvez porque escapar ao inferno dos vivos, como conclui o Marco Polo d`"As Cidades Invisíveis", exige risco, "atenção e aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar".

Agenda:

    Harold Bloom estará na terça-feira, 22 de Maio 2001, na apresentação do número 6 da revista "Portuguese Literary & Cultural Studies", dedicado a José Saramago.

   O autor da "História do Cerco de Lisboa", considerado por Bloom "um dos maiores e mais inovadores" romancistas vivos, participa na sessão a realizar na sede da Fundação Luso-Americana, em Lisboa, pelas 18h00.

   A 23 de Maio, às 16h00, Harold Bloom pronuncia uma conferência na Faculdade de Letras de Lisboa e, no dia seguinte, fará uma alocução na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto.

   No domingo, 27 de Maio, às 10h30, José Saramago pronunciará o elogio de Harold Bloom na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra. É aí que se concretizará a cerimónia de Doutoramento Honoris Causa, proposta pelo Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

   No Auditório da Reitoria, às 18h00, o crítico norteamericano fará a conferência inaugural do IV Encontro Internacional de Poetas.

   Harold Bloom assistirá, ainda, no dia 28 de Maio, às 18h30, no Hotel Roma, em Lisboa, ao lançamento da tradução portuguesa da sua última obra "How to Read and Why" ("Como ler e porquê?"), publicada pela Editorial Caminho.

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22 Maio 2001

Poetinha da Grande Arte





Poetinha da grande arte
   Tal e qual seu querido amigo Jayme Ovalle, também a ele, Vinicius, "Custou-lhe esforço sobre-humano/Chegar à última morada" - e muito se cansou a morte para, finalmente, o derrubar na banheira em que poetava nas horas boas e nas horas más.

  Na última viagem, Vinicius teve ainda o desencontro da bem querença acarinhada abespinhada até por gente amada que, naquela hora íntima, se chocou ao ver a actriz Camila Amado depositar um whisky sobre a laje do poeta. Foi coisa que aconteceu no cemitério São João Baptista, no Rio de Janeiro, era um inverno austral de 1980.

   Desregrado, hipocondríaco e cheio de graça, foi lírico, carioca da Gávea, vagabundo e apaixonado (casamentos: nove; mulheres: todas, pois que "Entre a mulher e eu alguma coisa existe/Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa/ De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida.") e ainda era diplomata quando adivinhou, 30 anos antes, em "A hora íntima", a sorte dos versos "Quem vai pagar o enterro e as flores/ Se eu me morrer de amores?/ Quem, dentre amigos, tão amigo / Para estar no caixão comigo?"
   Agora, acabaram de editar no Brasil uma colectânea de 27 CDs ("Como Dizia o Poeta", Editora Universal), com toda a Bossa Nova do poeta. Em 1956, Vinicius - tinha, então, 43 anos - arrancou o novo ritmo com António Carlos Jobim e, depois, impôs a sua presença musical com mais parceiros como Carlos Lyra, Baden Powell e Toquinho.

   O crítico Jomar de Brito identificou na Bossa Nova o repisar da modernidade lírica brasileira, datada da Semana de Arte Moderna de São Paulo em 1922. Nessas músicas ecoam, segundo ele, um lirismo da sensibilidade, intimista, algo irónico, em busca da poeticidade do quotidiano "por meio de uma linguagem de queixa e desabafo".

   Das noites de violão e voz rouca agarrou-se-lhe tanto à pele o jeito de "poetinha", com que o crismara um amigo de peito, que Chico Buarque e Toquinho teriam de começar o "Samba para Vinicius" com os versos "Poeta, poetinha, camarada..."

   Mas o poetinha nunca se esgotou na imagem algo gasta dos últimos anos de pandeiro e violão. Pela excelência da arte do soneto, Vinicius tinha de acabar em melodia - até porque a sua métrica, a rima e a imagística sempre tenderam à música. Por formação, o idealismo da juventude nunca foi verdadeiramente abandonado; tão pouco o cuidado posto na composição dos seus melhores poemas.

  Era traço que realçava, já em 1956, David Mourão-Ferreira, ao saudar a primeira edição da "Antologia Poética", publicada dois anos antes no Rio. Com a finura, erudição e bom-gosto que o caracterizavam, David Mourão-Ferreira identificava desde os poemas da primeira fase, que Vinicius dizia ser "transcendental, frequentemente mística", um poeta do amor em que "a infelicidade vem de dentro dele", herdeiro da tradição de exaltação da mulher do amor cortês, da espiritualização do desejo pelo desejo.

   Outro crítico e amigo, Otto Lara Resende, na linha dos que destacam as influências assumidas de Verlaine ou Lorca na poesia de Vinicius, realçava, também, como nos anos 40, na "época das baladas", Vinicius expressou uma consciência social, dando-se ao "sentimento da fecundidade da vida". Fica o exemplo da compaixão pelas prostitutas da "Balada do Mangue", 1942: "Pobres flores gnocócicas/Que à noite despetalais/ As vossas pétalas tóxicas". Soma-se-lhe a exaltação de "um homem pobre e esquecido" que tem o seu ponto alto n`"O Operário em Construção", publicado em 1956, e que, segundo o biógrafo José Castello, é então "a imagem disfarçada que o poeta tem de si mesmo".

   Foi pela mulher, "a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável", que Vinicius fugiu ao omnipresente temor da morte e da solidão através do "olhar mendigo da poesia". Carlos Drummond de Andrade sabia que da geração de Vinicius só o apaixonado de "Pátria Minha" ousaria viver a "vida de poeta" e pagar por isso.

   Quem juntar a música e a "Antologia Poética" tem o roteiro de quem viveu "numa paixão de tudo e de si mesmo".

"Antologia Poética", Vinicius de Moraes, 383 págs.
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2001

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21 Agosto 2001